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Paulo Baía: A intolerância, o racismo, a ciência política e a UFRJ

Considero ruim, péssimo, ter que escrever esse artigo, na medida em que esta questão deveria ser tratada exclusivamente no âmbito da UFRJ

Paulo Baía / Cidadania e Política

O Departamento de Ciência Política do IFCS/UFRJ é um dos herdeiros do setor de política da antiga Faculdade Nacional de Filosofia e tem como histórico, desde 1972, quando entrei no IFCS-UFRJ como estudante, ambiguidades, obscuridades, conflitos sem foco, genéricos e egocentrados, intolerâncias pessoais, irracionalidades comportamentais e administrativas, individualismos fóbicos; ou seja, não se constitui como uma unidade funcional, acadêmica, profissional, educacional, pedagógica. Defino o DCP-IFCS como um organismo disfuncional, anômico, no estreito sentido que Émile Durkheim dá ao conceito de anomia. Foi criado para não ter projeto coletivo, projeto educacional, projeto de universidade, projeto de cidadania republicana. Exemplos de episódios rotineiros como disfuncionalidade não faltam, pelo individualismo fóbico associado à baixa produtividade acadêmica, universitária e a um diletantismo narcísico predador dos ethos de sociabilidade e possibilidades de convívio.

O DCP-IFCS teve a oportunidade de desenvolver um programa de pós-graduação em ciência política, que foi mais uma experiência de disfuncionalidade e predação institucional e pessoal. A pós-graduação do Departamento de Ciência Política da UFRJ foi de curta existência e traumática, foi descredenciada pela CAPES por incompetência e improdutividade.

A reunião do dia 11 de agosto de 2021 seria mais um encontro de agravos e deselegâncias existenciais rotineiras, caso não tomasse a dimensão extramuros, do cercadinho narcísico, transbordando os conflitos pessoais permanentes e irreversíveis para fora do departamento, envolvendo todo o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, a estrutura superior da UFRJ, assim como todas as associações científicas, acadêmicas e profissionais das ciências sociais.

A discussão entre dois professores, que não se gostam, não se toleram, foi no mínimo deselegante e, no limite do limite, agressiva, por divergências administrativas, de pensamento acadêmico, social, de mundo, de vida e políticos, por interesses pessoais distintos.

Extrapolou para uma acusação de racismo de um professor contra outro, de racismo estrutural e permanente da UFRJ contra um professor preto por ser preto, fora da reunião, bem depois do encontro disfuncional, nos espaços públicos da atualidade.

O foco da reunião, mais uma entre tantas, extrapolou a rotina profissional, acadêmica, funcional, demonstrando mais uma vez o que classifico como disfuncionalidade estruturante e predatória do Departamento de Ciência Política.

Sempre lembro que esse departamento faz questão de esquecer que teve como professor catedrático o equilibrado e notável Vitor Nunes Leal, que chegou ao posto de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) da república, como professor de Ciência Política da Universidade do Brasil, sendo um dos pioneiros que gestaram a ideia de ciência política no Brasil, na Universidade do Brasil e na UFRJ.

Quero acrescentar, ressaltar, que considero ruim, péssimo, ter que escrever esse artigo, na medida em que esta questão deveria ser tratada exclusivamente no âmbito da UFRJ, na Congregação do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais e das Instâncias Superiores da UFRJ.

Entretanto, o que nós estamos vendo e vivenciando é uma campanha publicitária, muito bem articulada, que já conta com mais de mil assinaturas em diversos abaixo-assinados on-line, com várias cartas manifestando apoio incondicional à acusação de racismo da UFRJ e do professor Josué Medeiros no Brasil e no exterior.

Matérias jornalísticas às dezenas, nas mais diversas mídias nacionais e internacionais, ratificando o racismo estrutural, permanente e o que isso significa, da UFRJ e do professor Josué Medeiros.

O apoio irrestrito à acusação de que o professor Josué Medeiros é racista e tem que ser afastado imediatamente da UFRJ virou um mantra, um salmo.

Fui chamado para apoiar esse movimento contra a UFRJ e o professor Josué Medeiros como racistas, para assinar petições on-line ou manifestar repúdio ao professor Josué Medeiros e à UFRJ como racistas estruturais, dar declarações na imprensa, nas mídias e redes digitais apoiando incondicionalmente o professor Wallace Moraes como vítima de racismo.

Não fiz isso, me recusei a entrar em um movimento de efeito manada, de torcedor revoltado de time de futebol, de facção e/ou partido.
Fiz o que sempre faço, fui buscar informações, fui apurar, fui escutar atentamente, nos detalhes, todas as versões, sentimentos e opiniões de quem participou da reunião fatídica, mais uma reunião do disfuncional e predador Departamento de Ciência Política do IFCS-UFRJ.

As acusações do professor Wallace Moraes contra o professor Josué Medeiros, a chefia do DCP-IFCS e a própria UFRJ se tornaram um debate público protagonizado por personalidades e ativistas de múltiplos movimentos políticos, estranhos aos quadros profissionais da UFRJ e sua imensa comunidade acadêmica. O que não significa um equívoco, mas uma imprudência, ao se tornar um debate público, midiático.

Sendo eu um intelectual público, um ativista dos direitos humanos, um ativo humanista e homem público no Brasil e professor da UFRJ, me manifestei inicialmente com uma carta aberta pública em que chamava atenção para a ideia de que o professor Wallace estava tendo uma visão ficcional da realidade, afirmativa que refaço nesse artigo, pois ao ouvir com mais detalhes vários relatos da reunião do dia 11 de agosto e do próprio professor Wallace Moraes, percebo que ele teve sua postulação, legítima, para participar como avaliador de uma banca de concurso público do DCP-IFCS desqualificada de forma deselegante, no limite máximo, com intolerância acadêmica e profissional, por uma ação de maioria eventual, como é a prática do DCP-IFCS. O professor Wallace Moraes teve a percepção de que estava sendo acuado em sua postulação administrativa/acadêmica e sua posição como docente escanteada no momento da reunião.

Todas e todos os participantes dessa reunião do DCP-IFCS do dia 11 de agosto foram responsáveis pelas deselegâncias, arrogâncias e intolerância acadêmica que descartaram a presença do professor Wallace Moraes como membro titular da referida banca de avaliação para um concurso público de muitos concorrentes, houve silêncio generalizado no instante da tomada de decisão da maioria do colegiado do DCP-IFCS.

Semanas depois do dia 11 de agosto formou-se uma estrutura profissional de comunicação e divulgação de uma acusação de racismo na reunião, uma estrutura de marketing de combate, de marketing de aniquilação, exigindo punição imediata para o professor Josué Medeiros e a chefia do DCP-IFCS. O pedido de apuração administrativa não era o foco, era secundário, alegórico, uma cereja no bolo punitivista de uma sentença já lavrada. Uma instrumentalização, aparelhamento indevido da acusação de racismo contra a UFRJ e o professor Josué Medeiros, que não posso apoiar em nenhuma hipótese.

A esse cenário de punitivismo preventivo, de linchamento moral de reputação, aniquilação midiática e condenação antecipada do professor Josué Medeiros, se juntou um vídeo de combate tecnicamente perfeito para o ataque a um inimigo individual, o professor Josué Medeiros, e as ciências sociais e demais ciências como um todo racistas, a atual UFRJ como uma instituição racista no tempo presente.

O vídeo profissional de marketing político de combate, de aniquilação, traz muitos perigos em função dos seus impactos psicossociais e/ou emocionais, com possibilidade efetiva de formação de um 'ethos' guerreiro, justiceiro, como nos ensina Norbet Elias, em algum jovem militante mais sensível ao chamamento e incentivo do vídeo tão bem elaborado, produzido e divulgado.
Como disse, o vídeo é uma peça de marketing político de combate irretocável, de aniquilação, pelo estilo de narrativa e estética audiovisual.

Logo, não é razoável que esse vídeo esteja circulando, pois ele estimula o ódio, a vingança, mesmo que contra uma posição que se considere injusta.
O vídeo e as demais ações de marketing político de combate, de aniquilação dos inimigos, a UFRJ e o professor, tem um elevado poder de destruição emocional e física do professor Josué Medeiros e de quem não é a favor, de maneira irrestrita, ao professor Wallace Moraes.
O foco no professor Wallace Moraes, no referido vídeo, o apresenta como um personagem "vítima irreversível e permanente" de racismo por ser o único professor preto do DCP-IFCS.

Na minha avaliação como especialista em campanhas políticas, é um vídeo manipulador, que instrumentaliza, de forma egocentrada, narcísica, as teses do racismo estrutural como definidas pelo professor Silvio de Almeida, do lugar de fala dos movimentos identitários exclusivistas, da legítima e histórica luta antirracista no Brasil e da tese da epistemologia do sul, formulada pelo sociólogo português Boaventura Santos.

O que torna o vídeo uma peça perigosa, pois articulações sob impacto do vídeo são fechadas a apurações diferentes da já definida como a verdade absoluta em sua estética e fala. O vídeo afasta as negociações de conflitos e mediações, direito à defesa, por mais singela que seja; pois para uma guerra de posições, de narrativas, não importam os fatos apurados ,o tempo, o espaço e as verdades diferentes reveladas por investigações técnicas e legais. O cálculo político do marketing de combate é a aniquilação do inimigo de imediato, tornando essa peça publicitária um "tiro de canhão" com objetivo de "rendição incondicional" ou "morte simbólica" dos inimigos elencados no vídeo, a UFRJ e o professor Josué Medeiros.

As teses e o argumentos do vídeo são potentes, aniquiladores, definitivos.

A história começou pelo fato de o professor Wallace Morais ter se sentido discriminado por racismo pela fala do professor Josué Medeiros, o que é um sentimento legítimo e inalienável do professor Wallace Moraes, é um sentimento individual, uma emoção íntima do professor Wallace. Quem sente a dor é ele, por suas vivências psíquicas, emocionais e suas subjetividades íntimas, mais ninguém.
O professor Wallace Moraes tem o irrestrito direito de ter suas emoções e sentimentos da maneira que as classifica em sua individualidade, em sua intimidade.

Essa questão vem sendo discutida nas teses que abordam o racismo estrutural, via Silvio de Almeida, na longa história escravista e brutal de cinco séculos no Brasil, nos estudos de traumas emocionais, psiquiátricos, psicanalíticos e de psicologia política. Ao mesmo tempo, é colocada dentro de um movimento sociopolítico por jovens que se autoproclamam libertários e/ou decoloniais, se articulando com a proposta de construção de epistemologias a partir do Sul Global, negando o movimento iluminista e seus legados ao longo de alguns séculos.

Esse movimento coloca em questão a noção de que a epistemologia do Norte Global não contempla as demandas e as realidades do Sul Global, chamando atenção para o fato de que tudo que foi feito nas ciências sociais deve ser descartado por ser colonizado, imperialista, escravista e racista, pois não representa a realidade social na qual estamos inseridos de fato. As ciências humanas são uma invenção colonial, na avaliação da maioria dos decoloniais e/ou libertários, ao estilo Charles Mills, nada serve.

Charles Mills, o esclarecidíssimo filósofo e pensador jamaicano, para chegar à frase "nada serve" , só "a filosofia africana", conhecia profundamente toda a produção filosófica e de teoria social feita em cada recanto do mundo, de sul a norte, de oeste a leste.

No entanto, tenho críticas e reações a esse movimento de desmonte dos saberes, que chamo de " metodologia do desfazimento". Sou muito grato pelo histórico das ciências sociais, pelo saber científico construído ao longo dos séculos pela humanidade, remontando aos saberes do mundo grego romano, da eclética Europa, dos norte-americanos, canadenses, argentinos, mexicanos, dos saberes asiáticos, latinos, africanos e dos ameríndios, mesmo que os ressignificando, os recontextualizando ou os contestando com evidências de pesquisas empíricas ou teóricas, como Alberto Guerreiro Ramos, Anísio Teixeira e Mário de Andrade fizeram com eficiência e eficácia.

As influências de Alberto Guerreiro Ramos, suas teses sobre "reducionismo sociológico' e "uma sociologia em mangas de camisa" são tatuagens em minhas percepções e análises.

Continuo gostando muito do que escreveu Clóvis Moura sobre o Brasil e Wright Mills sobre o fazer sociológico e a imaginação criativa.
Os decoloniais, libertários e/ou monopolistas do lugar da fala, em sua grande maioria -não em sua totalidade - não reconhecem a legitimidade, a autenticidade, a validade, a existência de pesquisas e elaborações teóricas que não sejam exclusivamente autorreferenciadas na trajetória de vida de quem fala, pelo fato delas, pesquisas, não serem considerados representantes da realidade social, suas porta-vozes militantes.

Eu adoro a ideia de nossa magistral Conceição Evaristo de "escrevivências", incentivo todas as pessoas a escrever, a relatar, a fazer testemunhos de suas vidas e trajetórias existenciais. Isso lança luz, lança lume, pistas, traz indícios, como nos ensina Carlo Ginzburg em sua "micro história" e seu indiciarismo ou surgimento do conceito de geo-história, elaborado pelo historiador francês Fernand Braudel.
Se ficarmos apenas com essa prática de exclusividade do lugar de fala, será o fim das pesquisas em ciências humanas, linguísticas e literárias.

Em geral, de forma militante, o "lugar da fala" como método tem sido uma apologia do senso comum, um "neopentecostalismo" acadêmico, artístico e literário.

É evidente que não me filio a esse pensamento revisionista, negacionista, de uma "metodologia dos desfazimentos" , tenho grande gratidão pelo histórico das ciências sociais com suas perspectivas, ensaios e erros, suas transformações, aos saberes a que tive acesso, que ressignifiquei, em minha formação continuada e permanente como pesquisador, professor e ativista por direitos civis, comunitários, fundamentais e humanos aos 70 anos de idade.
Por que faço desse movimento, desse episódio do DCP-IFCS, uma reflexão?

Fui chamado, pressionado, intimidado, seduzido, ameaçado, por ser um intelectual e professor negro, a ser a favor do professor Wallace Moraes, negro como eu. E a ser contra o professor Josué Medeiros por ser branco, portanto um racista permanente. Para mim isso é um simplismo, um primarismo político, existencial, ético e moral.

A maioria absoluta dos signatários dos vários manifestos contra o professor Josué Medeiros como racista e a favor do professor Wallace Moraes como vítima de racismo pela UFRJ e pelo professor Josué Medeiros não conhecem o episódio, "foram na fé", aderiram a pedido de amigos e amigas de pronto, assim me relataram.

Decidi apoiar a defesa do professor Josué Medeiros como um antirracista e a defesa da UFRJ como instituição republicana.
Vejo, percebo, avalio ao explicitar a minha posição nesse furdunço, que seria mais cômodo, confortável, ficar em silêncio como muitos estão, mas este episódio do DCP-IFCS do dia 11 de agosto acabou por produzir três vítimas públicas. O professor Wallace Moraes, o professor Josué Medeiros e a UFRJ como universidade e instituição centenária.

Reconheço que Wallace Moraes foi vítima, ao ser tratado de maneira deselegante, inconveniente, agressiva mesmo, não ocorrendo a mediação, a contenção necessária de todas e todos os demais presentes na reunião, que ao invés de trabalharem para o equilíbrio da reunião, aproveitaram para acirrar os ânimos. Sendo pois todos os presentes na reunião responsáveis pelo clima e ambiência de agressividade, de intolerância interpessoal, individualismo fóbico e egocentrismo acadêmico; em que o outro, o indivíduo, os grupos diferentes, não são reconhecidos, não existe alteridade. É o Departamento de Ciência Política sendo o Departamento de Ciência Política.

A perspectiva de diferenças é fundamental para o pensamento contemporâneo, assim como para uma universidade como a UFRJ, no ano de 2021 do século XXI, nos seus cem anos de vida institucional no estado brasileiro.

Uma universidade estruturada no pensamento de ensino iluminista, advindo dos anos 1200, e que se reinventa a todo o tempo com sua performance inovadora, criativa, produção de conhecimento e intercâmbio mundial.

A Universidade deve ser um espaço de multiplicidades, onde haja permanente e continuada combinação e convívio dos diferentes, do particular, do peculiar, da especificidade, com o universal, com o global. E isso o Departamento de Ciência Política insiste em não fazer.

Ao escrever esse artigo quero refazer a minha afirmação inicial de que o Professor Wallace Morais não foi vítima na reunião do dia 11 de agosto.

Sim, ele foi vítima sim, de intolerância pessoal e acadêmica, por uma posição egocentrada, arrogante e particular, mesmo que sem dolo e premeditada.

Volto a insistir que defendo, com muita tranquilidade e convicção, que o professor Josué Medeiros não é racista, nem foi racista na reunião de 11 de agosto do DCP-IFCS e não agiu com dolo ou má fé.

Não vou me ater à história de vida pública e/ou particular do professor Josué Medeiros, vou para frases específicas que constam no abaixo-assinado de acusação.

Não endosso que dizer que uma pessoa está se vitimizando por ser negra é uma frase que possa ser classificada, entendida, tipificada como racismo ou intolerância racial. Não há materialidade para racismo ou injúria racial neste caso do uso da frase, sem dolo. Em nossa luta, como negros e negras, não podemos deixar que detalhes nos desmoralizem administrativamente ou judicialmente. Logo, se o professor Wallace Moraes denunciasse o professor Josué Medeiros à direção do Departamento de Ciência Política do IFCS por intolerância acadêmica, a denúncia teria, talvez, alguma concretude, algum significado, restando verificar se houve dolo ou não.

Pois quando se acusa de racismo, temos que ser precisos, cirúrgicos.

Cheguei como negro na UFRJ em 1972, como estudante, frequentava os bailes da pesada no Canecão, apenas com músicas negras americanas, com o Big Boy. Assim como era frequentador assíduo dos bailes da Black Rio, no MAM. Me autodefinia como preto, como negro, e usava cabelo black. Enfrentava a resistência das esquerdas e das direitas, que me chamavam de americanizado, me acusavam de ser contra o socialismo e de ser alienado. Por décadas me senti deslocado, no IFCS-UFRJ, por ser o único professor negro no antigo departamento de ciências sociais. Entrei através de um processo seletivo com uma vaga para professor de Metodologia das Ciências Sociais. Os sociólogos, antropólogos e cientistas políticos da época não sabiam matemática, muito menos estatística, o que ocupava uma grande parte do edital. Eu tinha cursado técnico em estatística e bacharelado em estatística na ENCE/IBGE e tinha trabalhado no IBGE.

Pense em um jovem negro que se apresenta como negro e contesta técnica e teoricamente as teses de democracia racial no Brasil, como professor efetivo da UFRJ.

Indicando como leituras Guerreiro Ramos, Clóvis Moura e Du Bois, leituras que fiz orientado pelo velho trabalhista, professor e pastor batista José de Souza Marques, que me ajudou muito nesse mundo dos brancos.

Montamos um "núcleo da cor", para acolhimento e convívio dos poucos estudantes e docentes que se autodefiniam como pretos e pretas nos anos 1970/80.

Tive a sorte e a oportunidade de ser subsecretário estadual de Direitos Humanos do notável e bravo coronel da PMERJ, antropólogo e professor da UERJ, Jorge da Silva.

A resistência, o repúdio, foi quase unânime ao implementarmos o primeiro sistema de cotas raciais na UERJ e na UENF contra a maioria absoluta dos docentes, funcionários técnico-administrativos e corpo discente, contra a reitora da época, professora Nilcéa Freire, que depois se tornou aliada do sistema de cotas raciais.

O modelo usado pelo governo federal, com Lula presidente, para as universidades federais, foi nossa lei carioca e fluminense, sobretudo uma lei dos favelados cariocas e da baixada fluminense, aprovada pela Alerj, considerada constitucional pelo STF.
As portas das faculdades de medicina, engenharias, química, arquitetura, comunicação social, economia, biologia, das universidades federais foram arrombadas pelas cotas raciais.

Fui criado ouvindo diariamente a frase do professor, pastor e parlamentar trabalhista José de Souza Marques, negro, do qual tive a felicidade de ser aluno no Colégio Souza Marques, em Cascadura. E que nos incentivava a sermos negros em tempo integral, em todos os locais, em 1966. Ele usava exatamente a expressão: "Não se vitimize por ser negro, por ser pobre. Não vamos nos vitimizar por sermos negros. Nós temos que nos orgulhar de sermos negros e temos que enfrentar todas as adversidades cotidianas, separando, com muita precisão, aquilo que é um ato de discriminação racial, de cor, étnica, daquilo que é crítica ou afronta pessoal não racista, ou indicação e críticas de erros nossos."

Outro dado é que a frase "não se vitimizar por ser negro" está presente em vários dos discursos do pastor Martin Luther King, aos quais tive acesso via professor José de Souza Marques: "Se você não pode correr, ande; se você não pode andar, sente, se não pode sentar, rasteje; se você não pode rastejar, resista. Mas, não se vitimize por ser negro. Se afirme por ser negro."
A frase também está presente no pensador, sociólogo, filósofo nascido no século XIX e que marca sua carreira acadêmica e seu ativismo por direitos civis nos EUA, o professor William Edward Burghardt Du Bois.

Eles insistiam que, nós negros, não devemos nos vitimizar, mas nos reafirmar e lutar para nos colocar dentro de contextos gerais.
Não só na universidade, mas nas sociedades das quais fazemos parte, buscando conquistar espaços, direitos e reconhecimento.
Por isso, faz tempo, muito tempo, acredito que a expressão "se vitimizando por ser negro" não pode ser caracterizada como racista ou injúria racial.

Temos que encarar a questão do egocentrismo acadêmico em todas as universidades, das vaidades do mundo intelectual fora da universidade e das vaidades no mundo acadêmico em especial.

Quero chamar atenção às intolerâncias pessoais por vaidades e vedetismo nos ambientes universitários, independentemente de distinções raciais, étnicas, por sexo e por gênero espalhadas por todos os cantos acadêmicos.

Desejo chamar a atenção para o papel da UFRJ, com cem anos de existência, na construção da cidadania republicana, na luta contra a desigualdade social e contra o racismo.

Os atos e mecanismos estão aí, na estrutura e prática da UFRJ. É evidente que têm que ser modificados a cada movimento de transformação da sociedade, mas eles aí estão como conquista de pretos e pretas, em uma longa trajetória de gerações e gerações de toda a comunidade acadêmica da UFRJ.

Temos hoje dois professores - Wallace Moraes e Josué Medeiros - que são dois lutadores contra as desigualdades sociais, o racismo estrutural, trazendo essa nova terminologia do professor Sílvio Almeida.

Os dois professores em questão são necessários nas lutas pela ampliação da democracia, na concepção de Claude Lefort, no Brasil do tempo presente. É uma tarefa geracional, para consolidar e ampliar direitos civis fundamentais.

Assim, quero crer que o Departamento de Ciência Política deve ser ajudado a pensar a sua existência, sua disfuncionalidade permanente. Proponho, como sugestão, uma transformação radical do DCP-IFCS, sua extinção.

Que no seu lugar sejam criados novos departamentos na área de ciência política.

E, mais uma vez, manifesto, pelo meu histórico de vida, por minhas convicções humanistas, o meu compromisso de apoio integral à luta antirracista, principalmente a luta por uma sociedade que enfrente as suas desigualdades históricas e estruturadas, herdeiras de uma máquina política excludente, perversa e escravista. Enfim, termino esse artigo afirmando que professores apaixonados pela docência como Wallace Moraes e Josué Medeiros não precisam fazer as pazes, serem amigos, mas conclamo que tentem um pacto de convivência pessoal, já que vão conviver na UFRJ pelos próximos 35 anos.

Também concluo dizendo que a carta pública que o professor Josué Medeiros faz pedindo desculpas ao professor Wallace de Moraes foi de bom tamanho, abrangente e sincera, e tem meu apoio, mas deve ter um desdobramento, um fato novo, como uma fala pessoal, direta ao professor Wallace Moraes.

Uma fala em que manifeste reconhecer que foi agressivo, impertinente e deselegante com o professor Wallace na reunião do dia onze de agosto de 2021.

*Paulo Baía é sociólogo, cientista político e professor da UFRJ em 2 de outubro de 2021.

Fonte: Perfil Quarentena News/Facebook
https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=402650541429548&id=109159557445316&sfnsn=mo


Paulo Baía: Percepção do Brasil em 24 de setembro

candidatura do senador Rodrigo Pacheco pelo PSD para presidente da república deve ser levada a sério e entrar no radar de observação

Paulo Baía / Política e Cidadania

Depois de ouvir com atenção bons e velhos analistas políticos.

Gente testada, com trajetórias intensas de vida política no Brasil dos últimos 50/60 anos.

Gente com letramento especializado e vivência.

Ou, como nossa magistral Conceição Evaristo define, com escrevivências.

Gente que não coloca seus desejos e querências ao avaliar as conjunturas e os cenários psicossociais para a eleição de presidente da república em outubro de 2022, mesmo não gostando do que percebem.

A candidatura do senador mineiro Rodrigo Pacheco pelo PSD para presidente da república deve ser levada a sério e entrar no radar de observação.

Bem a sério, não é um factóide ao estilo do prefeito César Maia.

Forma-se uma maioria política significativa no complexo e muitiplural estado de Minas Gerais, tendo Alexandre Kalil candidato ao governo do estado, uma sólida e diversificada base de apoio no Estado de São Paulo, com Geraldo Alkmin liderando como candidato ao governo paulista.

A senadora Simone Tebet, de Mato Grosso do Sul, com ativa vida institucional no estado de São Paulo, compondo a chapa presidencial como vice-presidente.

A chapa Rodrigo Pacheco/Simone Tebet não é, nem quer ser, essa fabulação quase histérica de "Terceira Via", de "Ném Néns" da polarização Lula/Jair Bolsonaro. É uma chapa para participar da disputa, com desassombro, com identidade própria em relação a todas as demais candidaturas hoje postas nas mesas de articulações.

Uma chapa para vocalizar uma proposta de Brasil em uma democracia liberal burguesa moderna, com viés participativo, social liberal, social democrata, ambientalista, com portas abertas para demandas políticas e de reconhecimento das "minorias majoritárias" como mulheres, populações negras, milhões de favelados, pessoas e famílias religiosas, pobres históricos/estruturais, herdeiros da brutal e secular desigualdade escravista, novos e irreversíveis desalentados e desocupados, no campo e nas cidades, pela rapidez das tecnologias da informação formatando os sistemas produtivos em todos os segmentos da vida humana, da inteligência artificial como base de diagnósticos, planejamentos e decisões, do 5G da telefonia universalizado, da internet das coisas automatizando o cotidiano e a intimidade, da produção em escala e ritmo industrial cibernético de proteínas animais, pescados e vegetais, via células tronco.

Sem cair ou submeter-se aos cercadinhos identitários e suas armadilhas segmentárias, mas respeitando-os em suas querências por reconhecimento cidadão e protagonismo como minorias legítimas por direitos civis e fundamentais, como os movimentos LGBTQIA+ , populações Indígenas, refugiados políticos, climáticos e religiosos.

Uma chapa para "botar a cara a tapa", a "bunda na janela", sem "chorumelas" , no mundo da vida urbano/rural brasileiro, face a face e nas convivências digitais.

Uma chapa para enfrentar o populismo contemporâneo, que na verdade não sabemos definir bem o que é, mas que está presente na mente e emoções de milhões de nossa imensa população residente no Brasil.

Uma chapa para disputar o voto da maioria da população vocalizando teses democráticas, de proteção social, de participação cidadã e alteridades individuais e societais.

Paulo Baía é sociólogo, cientista político, professor da UFRJ.

Fonte: Facebook
https://www.facebook.com/109159557445316/posts/398935068467762/


‘Temperatura política deve se elevar durante este mês’, diz sociólogo

Em artigo na Política Democrática online de agosto, Paulo Baía analisa tensão de Bolsonaro com Judiciário

Cleomar Almeida, da equipe FAP

O sociólogo, cientista político e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Paulo Baía diz que as revelações da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia, a investigação das ameaças à democracia e fake news vão elevar a temperatura política durante todo este mês. Segundo ele, ataques do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) contra o sistema eleitoral eletrônico e o Tribunal Superior Eleitoral também devem aumentar a tensão.

Veja, aqui, a versão flip da Política Democrática online de agosto (34ª edição)

A análise de Baía está publicada na revista Política Democrática online de agosto (34ª edição), produzida e editada pela Fundação Astrojildo Pereira (FAP), sediada em Brasília. Todo o conteúdo da publicado por ser acessado, pelos internautas, na versão flip, gratuitamente, no portal da entidade.



“Na minha visão, teremos três jogos ocorrendo paralelamente a partir deste mês de agosto e até final de setembro: (1) a CPI no Senado Federal, produzindo seus efeitos no jogo político; (2) o jogo mais pesado, do campeonato principal, que será jogado na Câmara dos Deputados, com a reforma política eleitoral e o pedido de autorização de investigação de Jair Bolsonaro, quando for à pauta de julgamento dos deputados”, escreve ele, na revista,

O terceiro jogo, como o autor chama, é a investigação das ameaças à democracia, fake news, turbinadas, segundo ele, pela campanha de Jair Bolsonaro e os seus contra o sistema eleitoral eletrônico, o TSE e o ministro Luís Roberto Barroso. O inquérito é comandado pelo ministro Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal (STF).

“As ameaças contra a democracia subiram de intensidade com a reação de Jair Bolsonaro ao discurso de Luiz Fux na reabertura do judiciário e à nota de todos os presidentes do TSE de 1988 para cá”, lembra o professor da UFRJ. Segundo ele, o presidente está jogando na retranca e, como todo retranqueiro, faz contra-ataques com faltas e ruídos.

Na avaliação do autor, a estratégia de jogar na retranca com contra-ataques já se estampou nas manifestações de 1° de agosto, quando Bolsonaro mais uma vez recorreu ao expediente de elidir a discussão de temas políticos importantes em favor de agendas estridentes como o voto impresso auditável.

O texto, publicado na revista Política Democrática online de agosto, também cita que ameaças contra a democracia subiram de intensidade com a reação de Bolsonaro ao discurso de Luiz Fux na reabertura do Judiciário e à nota de todos os presidentes do TSE de 1988

Confira, aqui, a relação de todos os autores da 34ª edição

A íntegra do artigo de Baía pode ser conferida na versão flip da revista, disponibilizada no portal da entidade. Os internautas também podem ler, na nova edição, entrevista exclusiva com a senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA)reportagem sobre escândalo das vacinas contra Covid-19 e artigos sobre política, economia, meio ambiente e cultura.

Compõem o conselho editorial da revista o diretor-geral da FAP, sociólogo e consultor do Senado, Caetano Araújo, o jornalista e escritor Francisco Almeida e o tradutor e ensaísta Luiz Sérgio Henriques. A Política Democrática online é dirigida pelo embaixador aposentado André Amado.

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Michel Misse e Paulo Baía: Jacarezinho – O ativismo nada jurídico dos delegados e a República

Ainda no Brasil atual, como no passado, a pergunta que deveria ecoar em todos os ouvidos dos brasileiros é a seguinte: Quanto vale a vida de um cidadão brasileiro para o Estado? E para um delegado de polícia que o representa em suas atribuições? A Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, por seus responsáveis, os delegados de polícia, está aí a afrontar a vida, as leis e a decisão do STF, como puderam constatar os moradores da favela do Jacarezinho, mais uma vez, no último dia 6 de maio. Se não, vejamos.

No Brasil Império, o chefe de polícia era, por lei, um juiz. Na falta de juízes para atender a esse imenso continente que é o Brasil, criou-se, como figura provisória, um representante do juiz, por delegação, para os municípios onde não havia juiz para chefiar a polícia. Foi com essa delegação que surgiu o original cargo de delegado de polícia.

Na República, ele continuou a ser o responsável pelo inquérito policial, cabendo aos comissários distritais a chefia de investigações e diligências cotidianas. Mais tarde, em função de sua responsabilidade jurídica no inquérito policial, determinou a lei que, em concurso público para o cargo, os candidatos a delegados de polícia deveriam ser bacharéis em direito, aprovados pela OAB.

Tudo isso, evidentemente, para garantir responsabilidade jurídica pelos procedimentos de investigação e esclarecimento dos crimes e de diligências ou operações para a incriminação dos suspeitos. Policiais bacharéis garantiriam as normas constitucionais e do processo penal.

Ao contrário de ser formado por instituições garantidoras do seu pleno funcionamento, responsáveis por torná-lo eficiente, público, e ordenador para que a Constituição que o rege seja cumprida, o que mais uma vez verificamos é uma contrafação do poder público pela violência unilateral de seus agentes, com a ideia fixa de que só pela violência ilegal é possível enfrentar bandos urbanos de pequenos traficantes armados, moradores de favelas.

É o que se tem visto no Rio de Janeiro há décadas, sem que haja qualquer avanço significativo nessa área que não seja também de tipo ilegal. Como a responsabilidade pode ser apurada, nesses casos?

Quanto vale a vida de um cidadão brasileiro para as nossas polícias e para os nossos delegados inquisidores da polícia judiciária, que até outubro de 1988 tinham o poder de decretar prisões preventivas sem limite de prazo? Talvez tenhamos que ir mais longe ao elaborar a questão.

De que material a nossa coisa pública foi e é constituída? As polícias – nós sabemos bem –, são antigas donas do açoite a escravizados, seus descendentes e pobres de maneira ampla. No Brasil contemporâneo, com sua permanente desigualdade e hierarquização social, temos facções lutando contra facções, sejam elas políticas, criminosas ou de negociantes pelos butins dos ilícitos.

Enredados nessas guerras intestinas, deixamos de olhar para a questão central – qual é a nação que desejamos construir como um projeto de República? Qual a República que se sustenta tendo como prática a violência sistemática e as sucessivas e inócuas matanças feitas pelos agentes públicos em nome do combate ao crime? A que conceito de ordem pública a mentalidade policial reinante está submetida?

Planejamento

delegado Rodrigo Oliveira, subsecretário de Planejamento e Integração Operacional da Polícia Civil, que atuou na Operação do Jacarezinho no último dia 6/5, onde 28 brasileiros morreram, disse em entrevista coletiva que houve um planejamento de inteligência da polícia judiciária, mas que o conhecimento do território das favelas não funciona mais nas operações policiais, não diminui a letalidade, e criticou o que ele denomina de ativismo judicial contra a ação policial.

Oliveira sustentou que a operação, a mais violenta do Rio de Janeiro, não visava executar o povo favelado. Defendeu a atuação policial pois moradores das favelas estão sob o domínio do tráfico, e que em cada operação a polícia tem o intuito de salvar os moradores trabalhadores, reféns dos criminosos traficantes.

Agem com um sebastianismo militarizado, desejando libertar o povo da opressão dos traficantes. Para tanto, se morrerem brasileiros pelo caminho não há importância, faz parte da limpeza urbana de libertação, depreende-se do discurso oficial da instituição policial.

Tanto a Polícia Civil quanto o Ministério Público dizem que a operação, nomeada como “Exceptis” para ciência do eminente ministro Edson Fachin, teve como objetivo cumprir os 21 mandados de prisão expedidos pela Justiça a partir de investigações da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA). Estavam lutando contra o aliciamento de menores, homicídios, sumiço de corpos, roubos e “atos terroristas” contra trens da Supervia.

A resposta veio como justificativa para atender a decisão do STF, que permite operações nas favelas cariocas somente em casos excepcionais, por conta da pandemia. E receberam apoio da Associação de Delegados de Polícia, formada por todos esses bacharéis que juraram respeitar os direitos civis da população. A justificativa é que quase todas as vítimas da operação tinham alguma ficha, alguma anotação ou alguma passagem pela polícia.

Ora, presumidos bacharéis, essa justificativa para matar é uma afronta ao Estado Democrático de Direito. Com argumentos desse tipo, podemos concluir que os brasileiros devem respeitar as instituições de Estado, que estão fazendo o seu trabalho de caçar bandidos. Afinal, matar os brasileiros já se tornou hábito, tradição, e faz parte da política e projeto de constituição de uma nação de brasileiros. Só resta saber quantos brasileiros ainda existirão para formar tal projeto.

  • Michel Misse e Paulo Baía são sociólogos, doutores em sociologia e professores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Fonte:

Metrópoles

https://www.metropoles.com/ponto-de-vista/jacarezinho-o-ativismo-nada-juridico-dos-delegados-e-a-republica


RPD || Paulo Baía: O Brasil não respeita o sagrado ventre de um sorriso

Imagem de Marielle Franco vai sendo apagada para que o esquecimento recaia sobre o crime, escreve Paulo Baia em seu artigo. “Um crime político com endereço para qualquer uma que se aventure a desafiar as oligarquias da cidade do Rio de Janeiro”

Eu, Marielle Franco, mulher, preta, favelada, eleita vereadora pela cidade do Rio de Janeiro, levei quatro tiros no dia 14 de março de 2018. 

Era a expressão de alegria. Nosso país não suporta uma mulher com um sorriso largo e sincero. Aberto e franco. O Brasil é o país da misoginia. Marielle subverteu não só pelas origens pobre e negra, mas também por seu currículo, seu brilhantismo profissional e acadêmico. Sua subversão maior era o sorriso escancarado. Brasil que estupra mulheres indígenas e pretas. Sou filho e neto de tais mulheres. Desejo suas vozes ouvidas. O Brasil não respeita o ventre de um sorriso. 

Eu, Marielle Franco, fui assassinada no dia 14 de março de 2018, levei três tiros na cabeça e um no pescoço por um carro que me encurralou no Estácio. Como a música de Luiz Melodia: Se alguém que matar-me de amor, que me mate no Estácio, Bem no compasso, bem junto ao passo, Do passista da escola de samba, Do Largo do Estácio, O Estácio acalma o sentido dos erros que faço, Trago, não traço, faço, não caço, O amor da morena maldita domingo no espaço, Fico manso, amanso a dor, Holiday é um dia de paz... Os assassinos dispararam com uma submetralhadora. Queriam me executar para calar as minhas vozes: mulher, preta e favelada. 

Eu já quero ser a segunda voz dela. Quero ser aquele que escuta. Como um velho, menos analista e mais antropólogo. 

Peço permissão à ancestralidade feminina escravizada e violada nesse nosso torrão, a terra como Gaya, para ouvir Marielle. Desejo falar do lugar do feminino. Embora não possa incorporar o lugar de fala exclusivo dela. Desejo reunir forças para poder realizar esta homenagem. Somos seres simbólicos. É deles que marcamos o nosso compasso neste chão árido, seco, desértico e que machuca feito pelas dores de muitas mulheres. A terra é a simbologia mais antiga do feminino. Ela gira em torno do sol. E Marielle foi apagada antes de terminar a sua própria gira carregada de brilho e cheia de potência em defesa das mulheres faveladas. Das pretas. Ela lutava contra a perpetuação de um movimento de opressão cometido há séculos contra os pretos desde a colonização - a eterna escravidão que nos assombra cotidianamente.

 Marielle era a terra fértil que ria e celebrava. Poderia uma mulher rir e celebrar? Sacralizar o riso, o corpo e a força do feminino é o meu desejo neste artigo. Tanto já foi dito a respeito de sua morte, sobre os assassinos, quem mandou matar que até hoje, no dia 02 de abril de 2021 (data que o autor escreveu o artigo), ainda não sabemos quem mandou executá-la. Os dias passam. O tempo corre. E a imagem vai sendo apagada para que o esquecimento recaia sobre este crime político. 

Eu, Marielle Franco, fui assassinada, os tiros vieram de repente com força e não restou tempo para reação, caí morta, perdi a minha vida em meio à barbárie. 

Permaneço preso ao ensaio antropológico e mágico. Feito um ritual de despedida e com o desejo de que sua morte não tenha sido em vão como tantas outras. O momento mais forte veio com a lavagem do chão cheio de sangue. No local onde a mataram no Estácio. Foi uma limpeza feita com ervas. E tambores. Marielle era a terra fértil que ria e celebrava o direito de vida dado a todos pela constituição de 1988, promulgada após a redemocratização. Nossa miscigenação é o fruto de estupros coletivos e continuados de mulheres indígenas e negras por séculos. É o machismo reprodutor assassinando mulheres vandalizadas e matáveis. Pai perverso e assassino de filhos mestiços pretos, quase pretos. Marielle é o retrato perfeito de séculos de violações aos corpos femininos. 

Eu, Marielle Franco, fui morta de forma brutal sem direito à defesa. Nasci com a marca da exclusão e com a certeza de que deveria permanecer calada, distante do jogo político feito entre homens misóginos e racistas. A política feita para poucos que lutam por seus negócios embolados aos prazeres espúrios. E certamente com muitas garotas de programa em suas festinhas regadas a comida, bebidas, entre outras coisas. 

 Permaneço no meu ritual vivenciando uma eterna despedida de um antropólogo que se despe e veste a roupa do cientista político para dizer que a morte de Marielle foi o fim de um sonho e um crime político com endereço para qualquer uma que se aventure a desafiar as oligarquias da cidade do Rio de Janeiro. 

Eu, Marielle Franco perdi a voz, mas renasço em todas as mulheres pretas, pobres e faveladas que trabalham e enfrentam o cotidiano de opressão. A vida é circular. E a Terra é redonda e gira em torno do sol. 

O ritual de despedida homenageou o sorriso largo de uma mulher potente, vibrante, capaz de no sorrir rodopiar as energias, realizando a gira no meio do chão de terra das favelas cariocas. E é deste sagrado sorriso que o país precisa girar para recuperar a sua força e potência. 

* Paulo Baía é sociólogo, cientista político e professor da UFRJ. 

  • ** Artigo produzido para publicação na Revista Política Democrática Online de abril (30ª edição), produzida e editada pela Fundação Astrojildo Pereira (FAP), sediada em Brasília e vinculada ao Cidadania.
  • *** As ideias e opiniões expressas nos artigos publicados na Revista Política Democrática Online são de exclusiva responsabilidade dos autores, não refletindo, necessariamente, as opiniões da Revista.

RPD || Paulo Baía: O Brasil não conhece o Brasil

Brasil vive à beira do precipício como quem tenta fazer uma travessia em cima de uma corda bamba, à espera de um milagre, independente de uma política governamental, critica Paulo Baía

Não, o Brasil não quebrou. Milhões de pessoas todos os dias acordam sem nada para comer. Sem um tostão no bolso, vão para as ruas de nossas cidades com o intuito de "se virar". A novidade dos últimos tempos é a ideia de que cada cidadão deve vir-a-ser um empreendedor com garantia de sucesso e estabilidade num padrão de sucesso dentro da lógica do mercado. O qual existe e funciona para o 1% da população brasileira que permanece no mesmo patamar em qualquer crise. Então, na atualidade, existem espalhados por todos os cantos do país os "empreendedores" de si mesmo. O que existe na realidade são biscateiros, camelôs, vendedores de doces em semáforos, procurando ganhar algo para o sustento e que lhes traga alguma condição de subsistência. Outros, mais aquinhoados na discrepância de nossa profunda desigualdade de renda e social, são trabalhadores aviltados pelas plataformas digitais com seus empregos ainda mais precarizados, dentro de uma lógica de deformidades trabalhistas aprovadas e que se tornaram recorrentes nos últimos quatro anos.

O Brasil está à beira do precipício como quem tenta fazer uma travessia em cima de uma corda bamba, em que cada um que se vire por si próprio, independente de uma política governamental. Vivemos ao Deus dará, sem imaginar acreditar em falsos profetas à espera de um milagre, a não ser os que acreditam no mito, que não saberemos até quando durará após o fim do auxílio emergencial. Afinal, para o Presidente da República, a pandemia sequer existiu, foi fabricada por mentes doentias que tinham a missão única de conspirar para derrubá-lo e impedir que seu governo fosse bem-sucedido.

As redes de proteção social do Estado brasileiro foram detonadas por um Parlamento que roda, roda, e a cada eleição permanece preso a seus próprios negócios e interesses. E, no caso atual, em conluio com um Poder Executivo subserviente ao 1% mais rico da população, que não pode perder em nenhuma situação, nem mesmo diante de uma peste mundial.

Não somos um país quebrado. Temos uma produtividade espantosa da maioria dos 220 milhões de habitantes. Levantem suas cabeças e prestem atenção às ruas, principalmente olhem para as nossas periferias. A produção de redes de proteção, de assistência, de criatividade, tem feito com que a roda gire e os faça existir numa afirmação permanente da vida. De forma independente dos 'nãos' em excesso, vindos tanto do poder legislativo como do executivo, com suas políticas que atuam para retirar e criar barreiras em que a população nunca sai do mesmo lugar em que deve permanecer – à margem. Contudo, debaixo da terra existe vida pulsando e criando novas possibilidades existenciais, que marcam novas formas de existir, para além de uma ideia de resistência. Pois a atuação dos líderes comunitários, das redes de artistas e de pensadores dentro das comunidades busca soluções concretas, com o desejo de reafirmar a vida e não lutar contra uma correnteza que deseja única e exclusivamente afogá-los.

Enquanto o 1% da população brasileira permanece sem dividir o eterno bolo, que só cresce em suas barrigas narcísicas, as favelas criaram grupos de apoio em que, através de uma rede de solidariedade, conseguem se reinventar e criar condições para atravessar as dificuldades. Existem diversas ações em andamento, mas gostaria de ressaltar a ação humanitária Mães da Favela. De acordo com pesquisa realizada pelo Data Favela e pelo Instituto Locomotiva, existem 5,2 no país milhões de mães faveladas. Deste número, em torno de 72% delas afirmam que, com a ausência de renda decorrente do isolamento, terão problemas na alimentação e, obviamente, não possuem poupança. E oito a cada 10 dizem que a renda já caiu, e as despesas aumentaram, com os filhos em casa sem ir às escolas. Com isso, criaram o vale-mãe - em que elas recebem 120 reais com pagamentos sendo feitos pelo celular através de uma empresa. Atualmente, a ação tem uma página na rede que se chama “mães da favela on”, denominada Fundo Solidário Covid-19 para as Mães da Favela, que já arrecadou R$ 169.120.680,00. Existem 65 mil pessoas mobilizadas para a entrega das cestas com 5 mil favelas atendidas, sendo cerca de 1.379.794 famílias atendidas e 5.519.056 pessoas impactadas, perfazendo uma média de 4 pessoas por família, num total de 18.227,552 toneladas de alimentos, média de 13,5 kg por cesta. De fato, a música está certa – O Brasil não conhece o Brasil.

*Sociólogo e cientista político.


RPD || Paulo Baía: O destino manifesto da negação

Eleição norte-americana escancara o negacionismo de Trump e, por tabela, do presidente Jair Bolsonaro, avalia Paulo Baía em seu artigo, onde analisa o bolsonarismo na visão de Jairo Nicolau, autor do livro O Brasil dobrou à Direita

Dentro de uma eleição analógica para a Presidência dos EUA, nada mais pertinente do que a fala do Presidente Jair Bolsonaro – “a esperança é a última que morre”, torcendo para que o atual presidente norte-americano Donald Trump se reeleja. Em tempos de negacionismo, a maior democracia mundial vive momentos em que o poder nas mãos de um populista de extrema-direita questiona o sistema eleitoral, negando as regras democráticas do país, que funciona da mesma forma há séculos. E o espelho ao Sul da América deixa de ser representante de uma nação para virar cabo eleitoral e torcedor fervoroso daquele que acredita ser seu amigo. E quem sabe assim uma boa relação de favor não resolva os graves problemas brasileiros. O interessante é que o atual Presidente da República do país representante da liberdade, garantidor dos valores liberais e iluministas, é aquele que deseja ser reeleito no tapetão, suspendendo a contagem de votos dos que não votaram nele.

É o retrato da negação. Nas terras de cá, negam-se os mais de 14 milhões de desempregados, o aumento da pobreza extrema, a crise fiscal por causa da pandemia, a inflação nos produtos da cesta básica por conta do aumento do dólar e o empresariado preferindo vender para o mercado externo do que o interno, diminuindo a oferta e aumentando a procura. Tampouco existe pandemia nem morreram mais de 160 mil brasileiros: portanto, a vacina não deve ser obrigatória. Ou seja, todos os graves problemas por que passa o Brasil são reflexos de uma disputa partidária, criados pelos adversários para roubar seu poder.

Jairo Nicolau, professor de Ciência Política, acaba de lançar o livro: O Brasil dobrou à Direita. Neste livro, ele compila uma série de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Cruzando dados como, por exemplo, idade, gênero, religião, educação etc., o pesquisador chega a conclusões muito interessantes sobre os eleitores de Bolsonaro. Ele foi o primeiro candidato que rompeu a ideia de que, para vencer, o presidente precisa de uma máquina eleitoral. Bolsonaro foi o preferido nas três faixas de ensino: fundamental, médio e ensino superior. Em 2018, foi a primeira vez em que o fator gênero se fez presente.

Bolsonaro foi o preterido de 2 a cada 3 homens, batendo o adversário em 10% a mais. E teve, respectivamente, 53% votos das mulheres e 64% dos homens; já Haddad obteve 47% dos votos dos homens e 36% das mulheres. Outro fator diz respeito ao cruzamento entre dados de homens e instrução: Bolsonaro ganhou em todos os níveis de ensino, todavia, quanto maior a instrução, menor a aceitação. Na variável religião, Bolsonaro ganhou nas duas maiores religiões do país em número de adeptos: católicos e evangélicos. Todavia, no setor evangélico, ele teve 70% a mais no número de votos. Para Jairo Nicolau, não houve influência na polarização petismo e antipetismo. Na pesquisa usada de opinião, 10% do eleitorado se identificavam com o PT, ao passo que 1/3 do eleitorado o rejeita.

O maior número, porém, representando metade do eleitorado, é de neutros, não rejeitam nem o apoiam. Dessa forma, o bolsonarismo é um fenômeno urbano. Nos 36 municípios brasileiros com mais de 500 mil habitantes, ele venceu em 30 cidades. Para Jairo Nicolau, o PT está agora restrito às pequenas cidades e, com um eleitorado com pouca instrução, entenda-se, até o nível fundamental.

Neste sentido, pode-se resgatar Weber e ampliar uma questão nova sobre o tema de sua obra A ética protestante e o Espírito do Capitalismo, apontando existir uma simetria entre o ideal de salvação das matrizes protestantes e a interpretação e conduta ascética, de que produzir e guardar dinheiro é sinônimo de salvação, principalmente no calvinismo e no puritanismo. Dessa forma, o livro lança uma questão: quais são as éticas protestantes, principalmente, dos grupos evangélicos que mais crescem no Brasil, a saber, pentecostais e neopentecostais, que vão ao encontro da urbanização, ou então, deste estilo de vida das grandes metrópoles?

Como Weber nos ensinou, isolar um fenômeno pode ser um bom caminho para o entendermos. Bolsonaro ganhou em todas as faixas de renda, inclusive, nos mais pobres. Em termos sociológicos, pode-se dizer que o discurso bolsonarista apresentou ampla hegemonia, termo tomado emprestado de Gramsci, que se refere à capacidade de ordenação. Ter o conhecimento de que o eleitorado simpatizou com o discurso do presidente é um caminho para entender melhor este fenômeno urbano eleitoral – o bolsonarismo.

*Paulo Baía é sociólogo e cientista político


‘Bolsonaro tem comportamento calculado nas eleições municipais’, diz Paulo Baía

Em artigo publicado na revista Política Democrática Online de outubro, cientista político aponta quem o presidente quer agradar com sua estratégia

Cleomar Almeida, assessor de comunicação da FAP

O sociólogo e cientista político Paulo Baía critica a inação “das muitas esquerdas e oposição” no país, ao analisar a popularidade em alta do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), em artigo que produziu para a revista Política Democrática Online de outubro, produzida e editada pela FAP (Fundação Astrojildo Pereira). Ele também observa que, no caso das eleições municipais, o presidente tem “comportamento calculado com o intuito de agradar os aliados dos últimos três meses, na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, após o Inquérito contra as Fake News”.

Clique aqui e acesse a revista Política Democrática Online de outubro!

Em seu artigo, Baía observa que, neste período de corrida eleitoral, os movimentos do presidente são discretos em apoio às candidaturas a prefeito na maioria dos 5.570 municípios. “A presença ativa de Bolsonaro só é vista na cidade do Rio de Janeiro com dois candidatos, Marcelo Crivella e Luiz Lima e, na cidade de São Paulo, com Celso Russomano”, ressalta.

O sociólogo salienta que, mesmo com o aumento do desemprego, atingindo 13,1 milhões de brasileiros, a maior marca desde 2012, como indica a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), nada abala a popularidade de Bolsonaro. “O presidente da República permanece seguindo a favor de vetos numa reação recíproca entre identidades que se espelham ao se reconhecerem”, acentua.

Na opinião de Baía, a escolha do desembargador Kassio Nunes Marques, presidente do TRF 1 (Tribuna Regional Federal 1ª Região), para a vaga de Celso de Mello, é uma sinalização de paz e integração com a magistratura de carreira, uma das pautas da campanha presidencial de Bolsonaro e desejo dos bolsonaristas de raiz. “O juiz Kassio Nunes Marques encaixa-se nos critérios políticos e morais que são eixos de seu governo e evita críticas do mundo jurídico em relação ao currículo do novo ministro do STF, além de ser nordestino”, pondera.

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RPD || Paulo Baía: Os ventos andam favoráveis para Bolsonaro

Apesar do descaso com o meio ambiente, o aumento das queimadas e devastação na Amazônia e no Pantanal, além dos efeitos nocivos da pandemia do novo coronavírus na economia brasileira, Bolsonaro continua com sua popularidade em alta, mostra Paulo Baía em seu artigo  

Para Jair Bolsonaro, os ventos andam favoráveis no mesmo ritmo em que o Pantanal arde em chamas. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), as queimadas aumentaram 210% em 2020, se comparadas ao mesmo período do ano de 2019. Dessa forma, de janeiro a setembro de 2019, foram registrados 4.660 focos de incêndio. Já em 2020, foram 14.489 focos. A fauna e a flora sofrem nas mãos de um governo que tem o meio ambiente como um obstáculo para a ideia de um progresso aos moldes extrativistas – pecuária e minérios.

No entanto, os ventos vindos pelo lado social e político, segundo a última pesquisa do IBOPE de 24 de setembro de 2020, indicam um aumento da popularidade de Bolsonaro para 40% de bom e ótimo e 29% de regular, o melhor índice desde a posse. A ventania a favor de seu governo cresceu ao redor dos 69% dos entrevistados, marcando seu apoio. O levantamento foi feito a pedido da Confederação Nacional da Indústria (CNI). E o aumento da popularidade ocorreu principalmente entre cidadãos que têm renda familiar de até um salário mínimo (R$ 1.045,00).  

No novo livro do cientista político Jairo Nicolau, O Brasil dobrou à direita, lançado no dia 5 de outubro pela editora Zahar, o pensador destaca que parte do eleitorado de Bolsonaro é composto por pessoas que o admiram e se identificam com seu jeito. E o compara a Lula, só que à direita. A admiração do eleitor é encontrada nos grandes centros urbanos, não precisando destacar-se no reduto petista do Nordeste. Talvez por isso, os ventos que queimam o Pantanal não sejam capazes de atingir seus eleitores de marca urbana, que se imaginam distantes dos problemas ambientais. Ele conquistou o eleitor das periferias urbanas, onde os partidos de esquerda não ganham e insistem, segundo o cientista político, numa disputa sobre o “fascismo”. Estas pessoas já vivem sob o domínio da violência cotidianamente, pelas mãos do narcotráfico ou das milícias, e agora pelos consórcios das narcomilícias em formação.

Para Nicolau, Jair Bolsonaro representa o primeiro líder de direita popular desde que o Brasil entrou na era da redemocratização. Talvez o fosso educacional esteja apresentando suas contas e desvelando o “Brasil profundo”. Nem mesmo o aumento do desemprego atingindo 13,1 milhões de brasileiros, a maior marca desde 2012, como indica a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE, de 30 de setembro de 2020, foi capaz de abalar sua popularidade.

O presidente da República permanece seguindo a favor de vetos numa reação recíproca entre identidades que se espelham ao se reconhecerem. A escolha do desembargador Kassio Nunes Marques – presidente do TRF-1 – para a vaga de Celso de Mello é uma sinalização de paz e integração com a magistratura de carreira, uma das pautas da campanha presidencial de Bolsonaro e desejo dos bolsonaristas de raiz. O juiz Kassio Nunes Marques encaixa-se nos critérios políticos e morais que são eixos de seu governo e evita críticas do mundo jurídico em relação ao currículo do novo ministro do STF, além de ser nordestino (do Piauí).  

Em relação às eleições municipais no próximo dia 15 de novembro, os movimentos do presidente da República são discretos em apoio às candidaturas a prefeito na maioria dos 5.570 municípios brasileiros. É um comportamento calculado com o intuito de agradar aos aliados dos últimos três meses, na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, após o inquérito das Fake News, que foi capaz de conter seus arroubos autoritários. A presença ativa de Bolsonaro só é vista na cidade do Rio de Janeiro com dois candidatos, Marcelo Crivella e Luiz Lima e, na cidade de São Paulo, com Celso Russomanno.  

Outro vento bastante favorável para o eleitor que o vê como mito é o Programa Renda Brasil, que deverá ser pago a partir de janeiro de 2021. Ou seja, Jair Bolsonaro vai constitucionalizar o programa de renda mínima como política de Estado, o que Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma não fizeram, apesar da insistência cidadã de Eduardo Suplicy.  

Pelo que tudo indica, os ventos aceleram o ritmo de campanha em que o presidente está mergulhado desde a posse. E, pelo que parece, apesar de as queimadas estarem acelerando no Pantanal, na Amazônia e em outras florestas, não estão sendo capazes de consumir o apoio pró-Bolsonaro nesta primavera/verão de 2020, para perplexidade e inação das muitas esquerdas e oposição.

 
    * Sociólogo e cientista político.  


‘Bolsonaro deve manter-se distante das eleições 2020’, analisa Paulo Baía

Cientista político observa estratégia do governo federal, em artigo publicado na revista Política Democrática Online

Cleomar Almeida, assessor de comunicação da FAP

“O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) pretende manter-se distante das disputas [das eleições 2020], em função das alianças feitas com o Blocão no Congresso desde o inquérito das Fake News, quando houve ‘contenção’ provisória de seus arroubos autoritários”. A avaliação é do sociólogo e cientista político Paulo Baía, em artigo que produziu para a 23ª edição da revista Política Democrática Online, produzida e editada pela FAP (Fundação Astrojildo Pereira), em Brasília, e que tem todos os conteúdos liberados para acesso gratuito no site da entidade.

Clique aqui e acesse a 23ª edição da revista Política Democrática Online!

Na avaliação de Baía, Bolsonaro precisa garantir suas alianças e a ideia é distanciar-se o máximo possível do pleito no primeiro turno, para evitar conflitos com partidos como o DEM e o MDB, por exemplo. “Os candidatos às prefeituras não desejam nacionalizar o debate; ao contrário, preferem manter-se presos às questões de interesse do eleitor em suas cidades, debatendo as mazelas locais’, afirma.

Em seu artigo na revista Política Democrática Online, o cientista político observa, ainda, que o equilíbrio de Bolsonaro no Congresso também depende de atender às demandas dos deputados em seus colégios eleitorais. “Para tanto, a máquina bolsonarista já atua para satisfazer os desejos dos aliados, além da importância dos fundos partidários nesta disputa eleitoral; dessa forma, não há como negar apoios”, afirma. “A oposição busca nacionalizar o debate, mas não é desejo da maioria dos candidatos a prefeito pelo não interesse do eleitor – veja Márcio França em São Paulo”.

As eleições municipais tiveram que ser adiadas para o dia 15 de novembro. De acordo com o sociólogo, os eleitores se aproximam do pleito sob o signo da tristeza, sem esperança de mudanças. “A sociedade, impactada pela crise sanitária da Covid-19, divide-se em responsabilizar a própria população e o presidente pela ampla tragédia social e econômica”, observa. “E sabemos que há uma subnotificação dos casos pela ausência de testes e com um ministro da Saúde improvisado”, destaca.

Além disso, conforme aborda em outro trecho do artigo, Baía diz que o governo federal vive gangorra interna, com Paulo Guedes apoiado por Rodrigo Maia, de um lado, e Henrique Marinho, por militares e prefeitos, de outro. “Isto é, são dois projetos político-econômicos, para tentar retomar as medidas reformistas e o crescimento econômico atraindo investimentos”, afirma. “As oposições partidárias a Jair Bolsonaro acabam por se aproximar, pragmaticamente, das propostas de Henrique Marinho através do aumento de investimentos”, diz.

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RPD || Paulo Baía: A instabilidade e a imprevisibilidade como norma política

Enquanto a oposição busca nacionalizar os debates durante as eleições municipais, Bolsonaro busca garantir suas alianças ao distanciar-se o máximo possível do pleito no primeiro turno, para evitar conflitos com os partidos do Centrão

A situação política e econômica do país é de desânimo neste mês de setembro. Estamos mergulhados num mar de dúvidas e incertezas sem imaginar como será o fim da grave crise provocada pela Covid-19. A economia paralisou. E com isso temos hoje situação mais difícil do que há um ano, com milhões de pessoas desempregadas. Segundo o IBGE, no segundo trimestre houve retração de 9,7% do PIB e a economia mantém-se em recessão, que nos acompanha desde o segundo governo Dilma Rousseff. O Brasil não consegue sair da crise e o debate não muda, entre uma política de ajuste fiscal austera e a ideia de investir em infraestrutura, gastando para sair da crise. O confinamento só aumenta o desgaste e o estresse social, com a ideia de ter que viver sob um conceito de "novo normal" que não demarca exatamente a realidade em questão. Como se os brasileiros estivessem presos às suas máscaras e ao álcool gel sem saber ao certo quando tudo irá passar definitivamente, acentuando a angústia e doenças mentais, como depressão e fobias.

As eleições municipais tiveram que ser adiadas para o dia 15 de novembro e, no entanto, nos aproximamos do pleito sob o signo da tristeza, sem esperança de mudanças. A sociedade, impactada pela crise sanitária da Covid-19, divide-se em responsabilizar a própria população e o presidente Jair Bolsonaro pela ampla tragédia social e econômica, na qual já morreram quase 130.000 brasileiros. E sabemos que há uma subnotificação dos casos pela ausência de testes e com um ministro da Saúde improvisado. O Ibope, em pesquisa via internet divulgada no dia 6/9, cartografa essas tendências, com uma margem de erro de 2%: 38% responsabilizando a população e 33%, o presidente da República. Para 71% dos entrevistados, os estragos da pandemia do coronavírus foram muito maiores do que o esperado.

Aliado a estas questões, temos o Governo Federal vivendo gangorra interna, com Paulo Guedes apoiado por Rodrigo Maia, de um lado, e Henrique Marinho, por militares e prefeitos, de outro. Isto é, são dois projetos político-econômicos, para tentar retomar as medidas reformistas e o crescimento econômico atraindo investimentos. As oposições partidárias a Jair Bolsonaro acabam por se aproximar, pragmaticamente, das propostas de Henrique Marinho através do aumento de investimentos. Temos a instabilidade como regra política no cenário federal, no momento, no mesmo diapasão da instabilidade sanitária, ainda não contida no país.

O Brasil vive de dois em dois anos em torno das eleições e este ano teremos as municipais, que possuem grande relevância por mostrarem a situação e o humor dos eleitores em suas respectivas cidades. Dessa forma, o PR pretende manter-se distante das disputas em função das alianças feitas com o Blocão no Congresso desde o inquérito das Fake News, quando houve "contenção" provisória dos arroubos autoritários de Jair Bolsonaro. Por isso, ele precisa garantir suas alianças e a ideia é distanciar-se o máximo possível do pleito no primeiro turno, para evitar conflitos com partidos como o DEM e o MDB, por exemplo. Os candidatos às prefeituras não desejam nacionalizar o debate; ao contrário, preferem manter-se presos às questões de interesse do eleitor em suas cidades, debatendo as mazelas locais. O equilíbrio de Jair Bolsonaro no Congresso também depende de atender às demandas dos deputados em seus colégios eleitorais. Para tanto, a máquina bolsonarista já atua para satisfazer os desejos dos aliados, além da importância dos fundos partidários nesta disputa eleitoral; dessa forma, não há como negar apoios. A oposição busca nacionalizar o debate, mas não é desejo da maioria dos candidatos a prefeito pelo não interesse do eleitor – veja Márcio França em São Paulo.

Tempos de eleição sempre foram momentos de alegria e celebração da democracia com desejo por mudanças trazendo esperanças. Uma ideia de renovação que anda ausente das perspectivas dos eleitores pelo não atendimento de suas demandas, causando frustrações, e pelos inúmeros casos de corrupção. A sensação é de que nadamos, revolvemos o fundo do mar, expondo a fratura do sistema político e até agora nada foi modificado além do atendimento emergencial e imediatista das necessidades do cidadão. Daí o desânimo e a tristeza, além das perdas de diversos brasileiros pela doença. Não há muito que celebrar! Mas a democracia espera que continuemos a festejá-la apesar das dificuldades.

*Paulo Baía é sociólogo e cientista político


‘Entramos para etapa do fingimento no governo Bolsonaro’, analisa Paulo Baía

Em artigo publicado na revista Política Democrática Online de agosto, cientista político também critica Paulo Guedes

Cleomar Almeida, assessor de comunicação da FAP

A pandemia do coronavírus permanece ativa e potente, e ultrapassou a triste marca de mais de 100 mil brasileiros mortos. “No entanto, prefeituras e estados vêm flexibilizando o retorno de todas as atividades econômicas como parte da estratégia do Governo Federal, pensando no reaquecimento da economia, grande preocupação do presidente Bolsonaro, visando às eleições presidenciais de 2022”, analisa o sociólogo e cientista político Paulo Baía, em artigo que publicou na revista Política Democrática Online de agosto. “Entramos para a etapa do fingimento na política nacional e no governo Jair Bolsonaro”, afirma, em outro trecho.

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A revista é produzida e editada pela FAP (Fundação Astrojildo Pereira), sediada em Brasília. Todos os conteúdos podem ser acessados, gratuitamente, no site da instituição. Baía observa, ainda, que, na parte educacional, as universidades públicas retomam o ensino de graduação de maneira remota, com apoio, apesar de discreto, aos estudantes carentes a partir da doação de chips e de uma bolsa para compra de computadores.

“O governo estenderá o auxílio emergencial até dezembro, pensando nos efeitos produzidos na aprovação do presidente nos segmentos mais pobres e sacrificados da população brasileira”, afirma o sociólogo, para completar. “O ministro da Economia, Paulo Guedes, também finge que governa e estabelece diálogo sobre a reforma tributária com empresários, parlamentares, governadores e prefeitos, os quais fingem escutar e até concordar com a dita reforma”.

O reflexo do fingimento do governo Bolsonaro é que, como contraponto de realidade política, existe ‘uma economia política da vida emergindo para milhões de brasileiros num experimentalismo comunitário vigoroso”. “Podemos falar do caso da auto-organização de comitês de favelas e periferias num processo de defesa potente da vida e dos meios de sobrevivência; estão se reinventando”, assinala.

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