RPD || Entrevista Especial: ‘Governo não dava vacina, dava remédio que podia matar’

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Foto: Roque de Sá/Agência Senado
Foto: Roque de Sá/Agência Senado

A senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) faz duras críticas ao Presidente da República pela má condução das medidas de enfrentamento à pandemia da Covid-19 e os repetidos ataques à democracia brasileira e suas instituições

Por Caetano Araujo, Davi Emerich e André Amado

A Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid-19, no Senado Federal, tem destacado para todo o país alguns personagens da política brasileira. A senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA), de 44 anos, é um deles. Jornalista por formação, a parlamentar avalia que a CPI ganhou forte destaque no dia a dia do país por conta dos resultados das investigações realizadas até agora e pela participação feminina, ao contrário das comissões anteriormente criadas no Senado. Única mulher na bancada do Maranhão, eleita com mais de 1 milhão de votos, ela é a entrevistada especial desta 34ª edição da Revista Política Democrática On-line.

A senadora maranhense, que é autora do projeto de resolução que cria a liderança feminina no Senado e uma das articuladoras do acordo que garantiu a participação das mulheres na CPI da Covid-19, faz duras críticas ao governo do Presidente Jair Bolsonaro, por sua ineficiência no combate à pandemia e suas ações em busca da reeleição, como os ataques ao processo eleitoral brasileiro e a defesa do voto “impresso e auditável”. “Bolsonaro não vai conseguir a reeleição. Daí a estratégia de usar a discussão do voto eletrônico que o elegeu, aliás, dezenas de vezes como área de turbulência da campanha eleitoral de 2022. É surreal”, critica.

Na entrevista à Revista Política Democrática On-line, Eliziane Gama também avalia as implicações que podem ocorrer na CPI da Covid por conta da substituição de Ciro Nogueira pelo senador Flávio Bolsonaro. “Os sigilos: telemático, telefônico, fiscal, bancário, cruzamento de dados, trabalho de georreferenciamento que a gente está fazendo, geolocalização, tudo isso, estará agora à disposição do Presidente da República, por intermédio de seu filho”, critica. “Mas isso não inibirá nosso trabalho, vamos trabalhar com a mesma eficácia”, completa.

Temas como a necessidade de uma candidatura de terceira via para se sobrepor a Bolsonaro e Lula, nas eleições de 2022; a possibilidade de um impeachment do presidente, bem como os riscos em função da escalada de ataques feitos à democracia brasileira e suas instituições, também foram tratados pela parlamentar do Cidadania. Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista. 

Revista Política Democrática On-line (RPD):  Há consenso de que a CPI tenha afetado de maneira incisiva o cenário político nacional. O que esperar: elementos para o impeachment, denúncias ao Ministério Público, projetos legislativos ou uma grande pizza? 
Eliziane Gama (EG):
Sou uma pessoa sempre muito otimista. Então, espero muito, menos pizza. É conhecido o bordão de que se sabe como uma CPI começa, mas não se sabe como termina”. Trata-se de um processo de investigação e, como tal, a exemplo de um fio de novelo, o desenrolar é imprevisível. Aconteceu, por exemplo, com a operação Lava-Jato. Começou com a investigação de lavagem de dinheiro e se chegou inclusive a tráfico de drogas, desvio de recursos públicos, cerca de seis bilhões, só na CPI da Petrobras. Com a opção Mãos Limpas, na Itália, foi parecido: o início foi com algo aparentemente pequeno e, no final, descobre-se uma verdadeira organização criminosa atuando em vários ramos da sociedade.

Nesta CPI, o processo de investigação partiu da ação mais negacionista, da negligência, da distribuição de medicamentos sem eficácia comprovada, e, no meio dos trabalhos, deparou-se com denúncias graves de um possível grande esquema de corrupção, dentro do Ministério da Saúde, com atores operando neste e em governos anteriores, um esquema muito amplo de corrupção com pagamento de propina, em cima daquilo que deveria ser a esperança para o povo brasileiro, a vacina. Em alguns casos, as propinas podem ter alcançado dois bilhões de reais, e o governo negligenciando. Poderia ter comprado um volume imenso de vacinas. No caso da Pfizer, por exemplo, não comprou e, ao mesmo tempo, distribuía medicamento sem eficácia comprovada. Isto é, não dava vacina, dava remédio que podia matar as pessoas. 

Fiquei pensando como ser humano: “meu Deus, o que passa pela cabeça do comandante desta nação? Por quê? Por que não buscar a vacina? 

Aí, de repente, passa-se a buscar a vacina, mas com uma visão seletiva. No caso da Covaxin, o que se viu foi um grande esquema de corrupção, antecipação de volume realmente milionário, não só em real, mas em dólar, pagamento de empresa em paraíso fiscal.  Tudo indica que temos hoje, diante de nós, um grande esquema de corrupção, que envolve agentes políticos, servidores de carreira, empresários e, a meu ver, o próprio Presidente da República, por prevaricação, ao não ter tomado medidas mais enérgicas, logo após receber a informação da denúncia feita pelo deputado Luís Miranda. 

Voltando à pergunta: o que eu espero desta CPI? Que a gente aprofunde a investigação, envie a documentação para a Câmara dos Deputados, para a Procuradoria-Geral da República, que a gente não fique apenas no Brasil, mas encaminhe também, tudo isso, a tribunais internacionais, como o de Haia, solicitando providências.


Eliziete Gama: A aliança que o presidente celebrou com Lira, o Centrão, teria sido exatamente para impedir o impeachment. Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Um dos estudos que a CPI recebeu revelou que cerca de mais de 200 mil mortes poderiam ter sido evitadas. O número é altíssimo. Metade das pessoas mortas poderia ser evitada, mortes que poderiam ter sido evitadas com medidas não farmacológicas, se fossem aplicadas de forma efetiva, com base em um esquema efetivo de comunicação e, claro, ao mesmo tempo em que se buscassem vacinas de forma mais imediata. Teríamos hoje, no Brasil, volume muito maior de vacina do que temos atualmente. Só a Pfizer, que começou a vacinar no dia 14 de dezembro, enviou para o governo brasileiro quase 100 e-mails sem nenhuma resposta, omissão que retardou o recebimento de vacinas, vacinas que poderiam ter vindo, nunca vieram e poderão nem vir.

 Fala-se em impeachment, são vários elementos para isso. Tem um elemento de ordem formal, portanto, uma denúncia de crime de responsabilidade – e eu começo a ver isso de forma muito clara com a própria atitude do Presidente da República. Mas há ainda mais dois elementos. Um deles é o apoio popular. Hoje o presidente, bem ou mal, ainda tem de 25 a 30% de aceitação popular. Quando Dilma foi submetida ao impeachment, ela tinha algo em torno de 9 a 10%. O que o presidente tem hoje é mais do dobro do que a Dilma tinha naquele momento. O outro elemento que torna o impeachment real é a decisão da Câmara dos Deputados. Para muitos, a aliança que o presidente celebrou com Lira, o Centrão, teria sido exatamente para impedir o impeachment.

Mas eu acho que, como o Congresso Nacional, ele é muito sensível à opinião pública, quanto mais houver manifestações pró-impeachment, mais próxima essa possibilidade estará de ocorrer. Caso, no entanto, não houver impeachment agora, a eleição será em pouco mais de um ano, e confio que a população brasileira terá a oportunidade de fazer essa mudança por meio do voto.

RPD: A CPI tem duas dimensões: a da punição, o impeachment, enviar para o Ministério Público as denúncias e, também, a dimensão da construção, a questão de valor, a questão cultural. A esse respeito, tivemos um embate na CPI, que foi muito importante: negacionismo versus ciência. O que se poderia fazer para alavancar a ciência no Brasil? 
EG: Acho que nessa briga de negacionismo e ciência, a ciência começa a ganhar, mas, neste governo, o negacionismo acabou levando a melhor, como o expressa a quantidade de pessoas mortas no rastro de atitudes que negaram as medidas mais elementares de proteção contra a doença – evitar aglomerações e usar máscara e álcool em gel –, atitudes que se tornaram marca registrada do próprio Presidente da República. 

Ao lado dessa postura criminosa, Bolsonaro ainda pregou a imunidade de rebanho. Em plena pandemia, fazendo jet-ski no Lago Paranoá, falou: “olha gente, todo mundo no Brasil vai pegar mesmo isso, não tem por onde, todo mundo tem que pegar mesmo, não tem o que fazer”. Para ele, era o caso de apostar em uma imunidade de um rebanho sem vacina, porque, claro, existe a imunidade de rebanho com vacina, isto é, a vacina conduz à certa estabilidade. Não foi o caso dele. Vejam o que aconteceu no Amazonas. Lá se tentou implantar a imunidade de rebanho. Pediu-se oxigênio, mandou-se cloroquina. O resultado foi que, no meio de janeiro último, chegamos a ter picos de mais de 200 pessoas morrendo por dia. Uma coisa absurda!

Mas eu acho que a CPI começou a estimular um outro olhar. A própria população brasileira está se perguntando: “meu Deus do céu o que que é isso?” É difícil se ter uma visão independente da do líder da nação brasileira que é o Presidente da República, sem dúvida, o maior formador de opinião. As populações mais distantes da comunicação, as populações mais isoladas, os ribeirinhos, os povos tradicionais, as populações quilombolas, ouviram coisas do tipo: tome vacine que você vira jacaré. Meu Deus, será que a gente vira mesmo jacaré? Ou então: se um homem tomar vacina, sua voz vai ficar fina, vai ficar como voz feminina”. Imaginem o efeito dessas frases incríveis sobre as populações mais carentes de acesso à informação e à comunicação. O negacionismo tem sido devastador. 

A CPI também tem mostrado que a ação do governo ou não aconteceu, ou nasceu distorcida. No caso da Covaxin, as evidências indicam graves desvios de recursos e, no da Coronavac, a prevalência do temor de fortalecimento da candidatura de um sério competidor do presidente, em 2022, o que resultou em boicote, enquanto foi possível, à entrada no Brasil da chamada “vacina chinesa”, ou vacina do Dória. Quando o Ministério da Saúde entendeu não ser mais recomendável impedir o ingresso da Coronavac, o preço negociado com os chineses subiu dos 10 dólares acertados lá trás, com o Instituto Butantã/Governo de São Paulo, para dezoito dólares.

Para combater esse negacionismo e todas suas distorções, precisamos trabalhar num conjunto de medidas legislativas que mudem a forma da administração pública no Brasil, crie mecanismos mais transparentes e mais vigorosos de licitação, que proteja a presença de servidores públicos devidamente treinados, de confiança, mas não do ponto de vista político, mas técnico, profissional.

RPD: Parece claro, hoje, que os partidos políticos, quando foram indicar seus integrantes para compor a CPI, subestimaram gravemente a participação das mulheres. A bancada feminina fez reação forte, e as mulheres tiveram voz na CPI e uma participação para muitos até surpreendente. O desempenho das senadoras na CPI ajuda a avançar a consciência dos eleitores sobre a importância da participação das mulheres na política?
EG:
A gente conseguiu, graças a Deus, garantir o direito à voz à participação feminina. Foi muito importante participar ativamente das reuniões do plenário. Temos, inclusive, assumido alguns núcleos de trabalho: eu estou em um núcleo, e a Simone Tebet, em outro, trabalhamos intensamente.

É importante ressaltar que o que o Brasil vê hoje na CPI reflete o cotidiano do Congresso Nacional. Em vários outros momentos, as comissões não tiveram a presença de mulheres. Não repercutiu na opinião pública porque o nível de audiência não é o de uma CPI. Vocês sabiam que as mulheres são, em média, duas vezes mais interrompidas do que os homens? A gente, às vezes, tem de falar mais firme para poder ser ouvida. Eu que sou líder – se sou líder desde que cheguei no Senado Federal – percebo isso até no colégio de líderes. A gente tem de pedir várias vezes para falar e, como disse, não raro de maneira mais firme, porque sempre tem alguém, um homem, que diz: “olha, isso não é verdade, essa mulher está tentando se vitimizar”. É tão inconsciente da parte do homem, que eles já agem de forma automática, nem percebem isso. Mas a gente conseguiu evoluir. Muito embora eu não tenha direito a voto na CPI, tenho direito à voz e acesso às conversas e aos entendimentos. 

RPD: Que implicações poderão ter a substituição do senador Ciro Nogueira na CPI e, sobretudo, a indicação do senador Flávio Bolsonaro, como suplente?
EG:
O que significa a vinda do Flávio Bolsonaro? As pessoas podem dizer que ele já era presença constante nas sessões plenárias. Pode ser que tumultue mais as sessões. O mais relevante, porém, ainda não foi devidamente avaliado pela opinião pública e a imprensa. Todo parlamentar no Senado Federal pode chegar no plenário, inscrever-se, mesmo que não fale ali no primeiro momento, ele pode ser o último, mas tem direito à fala; ele pode participar, por exemplo, das diligências mesmo que seja sessão secreta, qualquer senador, mesmo sem ser membro, pode participar, e o Flávio Bolsonaro vem fazendo isso. Mas tem algo que só um membro da CPI pode fazer, ter acesso a documento sigiloso. Se o Flávio Bolsonaro agora passa a ser membro da CPI, ele passa a ter acesso a toda documentação sigilosa da CPI. E isso significa muito porque nós temos hoje um catatau de documentos, em geral, digeridos primeiro pelos assessores do senador. A partir de agora, não será só o assessor que se debruçará sobre esses documentos; será também o senador Flávio Bolsonaro, o que vale dizer o Presidente da República passa a ter. Os sigilos: telemático, telefônico, fiscal, bancário, cruzamento de dados, trabalho de georreferenciamento que a gente está fazendo, geolocalização, tudo isso, estará agora à disposição do Presidente da República, por intermédio de seu filho, Flávio Bolsonaro. 

A vinda dele é muito simbólica para a CPI, mas isso não inibirá nosso trabalho, vamos trabalhar com a mesma eficácia. Aproveito para lembrar que tive uma vez um embate com o Ciro, no dia da instalação da CPI. Ele sempre dizia que era a pessoa que mais valorizava as mulheres. Ele poderia agora valorizar a mulher colocando uma em sua vaga, aliás, sua suplente é sua mãe, uma mulher. Mas preferiu colocar o filho do Presidente da República. Esse é mais um incidente que ilustra as histórias de não valorização das mulheres no Senado. E a gente continua sem membro titular feminino na CPI. 

RPD: Qual é sua avaliação do governo Bolsonaro? Ele merece disputar a reeleição ou procede a preocupação de muitos de encontrar um nome que elida o confronto Lula-Bolsonaro, um candidato de terceira via para 2022?
EG:
É premente termos uma terceira via no Brasil. Acho que precisamos construir isso, precisamos unir na verdade esse campo. São vários nomes que estão se apresentando, e a gente não consegue unificar essas frentes em torno de um apenas um nome? Diremos que a gente quer Lula e Bolsonaro no segundo turno das eleições, e isso é muito ruim. 

Pessoalmente, tenho trabalhado muito para lograr essa unidade do campo, apenas um nome. Temos de encontrar, em relação a pelo menos uns cinco nomes que já se apresentaram, aquilo que possa nos unir, a proposta que, se não conseguir a unificação, pavimente o entendimento de quem chegará no segundo turno, a gente não pode ter Bolsonaro, entendeu? É o que realmente vejo neste momento e, dentro dessa perspectiva, acho que a gente precisa estar se juntando a cada dia mais, conversando a cada dia mais, dialogando a cada dia mais, chamando a sociedade civil. Lembra lá de 2002, quando o Presidente Lula, por exemplo, fez uma carta ao povo brasileiro? Ele tomou uma decisão naquele momento. Acho que agora, na atual conjuntura, a gente precisa apresentar para o povo brasileiro um programa de governo, um programa sem nome, sem cara, sem dizer quem é a pessoa, mas que, sobretudo, nos una, seja exatamente esse conjunto de ideias e opiniões que possam, na verdade, nos unificar e, nessa unificação, a gente possa apresentar, de fato, uma terceira via para o Brasil. Isso é fundamental para o processo democrático de direito, isso é fundamental para que a gente possa sair desse período que estamos vivendo, que é esse período com o Presidente Bolsonaro.

Pode-se apontar no Bolsonaro vários erros, menos incoerência. O que ele está fazendo hoje é o que ele disse a vida toda. Veja que as falas e os vídeos do Presidente Bolsonaro, quando candidato a deputado federal, eram até mais fortes do que ele está fazendo hoje. Falava claramente sobre a questão do armamento da população brasileira, sobre a necessidade de uma guerra civil no Brasil. Condenava, claramente, por exemplo, a população negra, as mulheres, os povos quilombolas, a comunidade indígena. A desconstrução da política ambiental que estamos vivenciando hoje foi o que ele pregou a vida toda. O que estamos vivendo hoje, o armamento da população com aumento exorbitante de arma na mão da população brasileira, foi a principal ação de campanha dele. O que estamos acompanhando hoje de exclusão, de ataques à imprensa, sobretudo às mulheres jornalistas, foi o que ele sempre falou das mulheres do Brasil. Basta fazer um levantamento do que aconteceu, por exemplo, dentro da Câmara dos Deputados, suas falas sobre o homossexualismo, a questão das mulheres, a questão das mulheres negras. Sempre foi muito intolerante, não me surpreendo com a posição e a postura do Presidente da República. Precisamos ter cuidado com a falinha de começo de campanha, quando promete não se submeter à corrupção nem a fazer o velho jogo político. São discursos para as redes sociais.

RPD: Parece evidente que a popularidade do presidente está em queda, mas preocupa que, quanto mais isolado ele fica, mais radicaliza seu discurso contra as instituições e, nos últimos tempos, a realização de eleições. A seu ver, a democracia está em risco e, em caso afirmativo, o que as forças do campo democrático devem fazer para prevenir essa possibilidade?
EG:
Uma das coisas que eu aprendi na minha vida foi não subestimar as pessoas, sua capacidade do bem e do mal. Lembra, lá atrás, quando alguém dizia: “é inviável, Bolsonaro não ganha uma eleição, um cara com esse perfil não consegue jamais ser Presidente da República”. Também diziam isso do Trump, nos Estados Unidos. E os dois foram eleitos. Quando agora alguém diz: “não se pode implantar um golpe no Brasil porque estamos com as instituições de fato muito fortes”, acho e torço para que não seja possível, mas a gente não pode subestimar a possibilidade. Quando o Presidente Bolsonaro diz isso, que se não tiver voto impresso não terá eleição no Brasil, é um recado claro, para a população brasileira, de implantar um golpe.

Mas o que dizem as Forças Armadas? Não sei. Mudaram os principais comandos das Forças Armadas, inclusive o ministro da Defesa, todos aparentemente mais alinhados com o presidente. Tudo indica que pode haver um grupo lá dentro que não se submeta cegamente ao Planalto. Mas a gente não pode achar isso suficiente para ficarmos tranquilos. Temos de estar muito atentos em relação a isso. A cada fala dele, a cada palavra que ele omite para a opinião pública, se a gente não tiver um contra-ataque, se não tivermos uma contra defesa, o que nós vamos ter, infelizmente, é uma possibilidade, sim, de interrupção da democracia brasileira. Já comentei uma vez que a sensação que tenho é que o presidente dá dois passos para frente, no sentido de avançar nas políticas radicais dele, aí ele sente o pulso da população brasileira. Se há um movimento, se o Congresso se manifesta, se todo mundo se manifesta, o Judiciário, aí ele dá um passo atrás, só que ele tinha avançado dois. Aí ele fica em uma nova posição. Aí ele vai fazendo isso e vai vendo, na verdade, sentindo até onde ele vai conseguir avançar com as políticas radicais dele.

O embate em torno do voto impresso bem ilustra esse cenário. Nesse sentido, tiveram impacto os pronunciamentos tanto no TSE quanto no Congresso Nacional. A fala do Presidente do Senado ressaltou que qualquer processo tem que acontecer no âmbito do Legislativo, e essa não deve ser a pauta agora. A pauta agora é o enfrentamento da pandemia – nem agora e nem depois, porque nós temos um modelo no mundo, que é o voto eletrônico. Logo, a tecnologia é muito importante. Se falar: “o voto não é auditável”, o voto é auditável sim, hoje. Porque não é em rede. Você tem sistemas, na verdade, que são isolados, que é a urna eletrônica, e depois você emite, quando você emite aquela documentação não diz quem votou, mas diz a quantidade de votos que teve ali e para quem foi um determinado voto, ele fica fixado lá no colégio eleitoral, lá na seção eleitoral. E se você votou, você vai lá saber sempre que lá teve algum voto. Não diz que foi você, mas lá teve dois, três votos para aquele determinado candidato. Então, ele é absolutamente auditado.

O presidente tenta criar uma cortina de fumaça para criar um clima de instabilidade e justificar o que ele já prevê, uma derrota nas urnas. É por isso que digo, a gente pode não ter o impeachment agora, mas, para mim, é muito claro que o Presidente Bolsonaro não vai conseguir a reeleição. Daí a estratégia de usar a discussão do voto eletrônico que o elegeu, aliás, dezenas de vezes, como área de turbulência da campanha eleitoral de 22. É surreal.

RPD: Volto à questão dos militares. Como vê a participação deles nos projetos eleitorais do presidente? Terão papel decisivo na eventual ameaça à democracia?
EG:
Eu acredito no bom senso dos integrantes das Forças Armadas. Já ouvimos altos escalões dizerem que não aderirão a condutas que contrariem a Constituição Federal. São oficiais que defendem a democracia, que estimam como foi importante lutar para chegar aonde já chegamos. É verdade que o presidente tenta insuflar outro grupo em favor de suas propostas mais radicais. Tanto que, em nenhum momento da história do Brasil, tivemos membros das Forças Armadas em cargos do governo, como temos hoje. Por quê? Porque o presidente na verdade implanta isso. São mais de seis mil na administração pública. Já se prevê briga acirrada entre o Centrão e os militares, muitos deles investigados em atos de corrupção, dentro do Ministério da Saúde. 

Bolsonaro está fazendo um desserviço ao Brasil, ao tentar macular as Forças Armadas, porque as Forças Armadas têm papel importante no Brasil como instituição. Quando ele tenta desconstruir isso, colocando militares em tudo quanto é cargo do governo, e alguns deles, inclusive, envolvidos em atos de corrupção, ele tenta comprometer a boa imagem que as Forças Armadas sempre tiveram. As pesquisas já começam a revelar esse fenômeno. 

Isso é muito ruim, mas é um jogo que ele faz de forma pensada. O Presidente da República pensa em tudo o que faz, planeja tudo, não faz nada de forma aleatória. Uma live é de forma muito pensada, no momento certo, para tentar desviar um foco, para poder mudar realmente a atenção de um determinado espaço. 

Mas tenho esperança no Brasil, no futuro, na vida. Temos um Congresso Nacional muito ativo, um Judiciário muito atento, e eu acho que, assim como diz a Constituição, que nós somos poderes autônomos, mas harmônicos, com peso e contrapeso, eu acho que isso está funcionando, realmente, muito bem no Brasil.

RPD: Há espaço na terceira via para mulheres?
EG:
Há sim, acho que há espaço, mas precisamos trabalhar isso. A terceira via tem que ter presença feminina na chapa, ou na cabeça de chapa ou como vice. Aliás, acho que esse deve ser um trabalho do Brasil inteiro, nós só temos uma governadora no Brasil hoje. Nós temos que ter governadoras, nós precisamos ter vice-governadoras. Tenho um projeto de lei que estabelece que, na chapa majoritária, tenha presença de homens e de mulheres. Se é um candidato homem, a vice tem que ser mulher, se a mulher é candidata, o vice, um homem. Aqui do lado, no Chile, devolvemos cadeiras das mulheres para os homens, porque chegou a um nível de paridade tamanho que já estava ultrapassando, e, no Brasil, a gente não tem isso. Eu acho que a presença das mulheres na chapa da terceira via, vai servir como elemento educativo para todas as eleições de cargos majoritários no Brasil inteiro.


Saiba mais sobre a entrevistada

Eliziane Gama
Entrevistada especial da 34ª edição da Revista Política Democrática On-line, a senadora Eliziane Gama é líder do Cidadania no Senado Federal. Exerce o primeiro mandato como senadora. É, também, a única mulher na bancada do Maranhão, eleita com mais de 1 milhão de votos. É ex-deputada estadual e ex-deputada federal. Integra, como titular, as comissões de Assuntos Sociais, de Serviços de Infraestrutura e a de Agricultura do Senado. Jornalista por formação, é autora do projeto de resolução que cria a liderança feminina no Senado e foi uma das articuladoras do acordo que garantiu a participação das mulheres na CPI da Covid-19. 

Saiba mais sobre os entrevistadores

Caetano Araújo
É graduado em Sociologia pela Universidade de Brasília (1976), mestre (1980) e doutor (1992) em Sociologia pela mesma instituição de ensino. Atualmente, é diretor-geral da FAP e Consultor Legislativo do Senado Federal. Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Teoria Sociológica e Sociologia Política.

Davi Emerich
É jornalista. Foi Secretário de Comunicação do Senado Federal e integra o Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional, um órgão consultivo composto por representantes da sociedade civil.

André Amado
É escritor, pesquisador, embaixador aposentado e diretor da revista Política Democrática On-line. É autor de diversos livros, entre eles, A História de Detetives e a Ficção de Luiz Alfredo Garcia-Roza.

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