A longa viagem dos comunistas do PCB

Luiz Sérgio Henriques

Longa jornada até a democracia é um destes relatos que empolgam da primeira à última linha e, para tanto, além das óbvias habilidades do autor, conta o fato de o objeto tratado – o velho PCB – ser como um destes astros de natureza incandescente, cuja luz continua a nos chegar muito tempo depois da irradiação original. Mesmo centenário, e com erros e acertos, altos e baixos, em grande parte já registrados de papel passado nos livros de História, o PCB ainda suscita emoções fortes, não importa se positivas ou negativas. Indiferente, quase ninguém fica.

Bem verdade que o relato de Carlos Marchi, começando em 1922 e até antes, detém-se na crucial década de 1960, a qual, no entanto, define a fisionomia mais própria e delineada com que o Partidão entrou na memória coletiva. Naquela década que já se distancia, o partido revelou-se dono de uma visão estratégica que intuía, ainda que muitas vezes no quadro conceitual do “marxismo-leninismo”, a natureza “ocidental” da formação social brasileira e, por isso, rejeitava com muita consistência o caminho das revoluções do século XIX. Este tipo de revolução, replicado em 1917 e mesmo depois em países periféricos, também não deixou de arregimentar muita gente idealista, mas, é forçoso admitir, tratou em geral de ideais redentores de pouca ou nenhuma viabilidade prática.

Há uma sequência interessantíssima de paradoxos na trajetória do PCB, alguns deles já no ponto de origem. Nascido umbilicalmente ligado à Revolução Russa – pois era, como tantos outros partidos mundo afora, uma “seção nacional da Internacional Comunista” –, o PCB respondia ao mesmo tempo às necessidades da nossa própria modernização capitalista, como expressão da entrada de uma nova subjetividade de classe na arena política, que se reformulava com a corrosão irreversível da República Velha e a ampla rearrumação promovida com a Revolução de 1930. Um ator moderno, pois, com forte motivação endógena.


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Descrição
  • ISBN 978-65-87991-19-1
  • Editora: Fundação Astrojildo Pereira (2022)
  • Livro interativo: 476 páginas
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