Distrito Federal

Governo do DF tenta trazer de volta ao Brasil acervo de Lucio Costa sobre Brasília

Secretário de Cultura pede apoio ao Iphan para análise dos 11 mil documentos doados a Portugal

Coluna Painel / Folha de S. Paulo

Em ofício enviado ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) nesta sexta-feira (22), o secretário de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal, Bartolomeu Rodrigues, solicita colaboração para buscar uma estratégia para que a parte do acervo do urbanista e arquiteto Lúcio Costa referente ao projeto de Brasília retorne ao Brasil.

Costa é conhecido como pai de Brasília por ter sido o responsável pelo projeto que balizou sua construção.

O acervo de Costa, com 11 mil documentos, foi transferido à Casa da Arquitectura após decisão de sua família, que disse que no Brasil não há nenhum lugar com a mesma infraestrutura, reserva técnica, capacidade de treinamento e cuidado do acervo da instituição localizada em Portugal.

No ofício, Rodrigues provoca o Iphan para que avalie se há registro de tombamento entre os documentos doados para a Casa da Arquitectura.

Ainda que não haja registro de tombamento dos bens, argumenta o secretário, é necessário analisar se há no acervo obras pertencentes ao Distrito Federal, em especial aquelas que tratam do concurso público para construção de Brasília realizado entre 1956 e 1957 e vencido por Lucio Costa.

"Os documentos que tratam da construção da capital do país possuem relevante valor histórico e cultural para o Brasil, em especial para o Distrito Federal, sendo abarcados pela proteção constitucional conferida aos bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, e à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira", diz o ofício.

Ao finalizar seu texto, Rodrigues solicita apoio do Iphan na "construção conjunta de solução que vise o retorno do acervo ao Brasil."

Fonte: Folha de S. Paulo
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painel/2021/10/governo-do-df-tenta-trazer-de-volta-ao-brasil-acervo-de-lucio-costa-referente-ao-projeto-de-brasilia.shtml


‘Não há desculpa para não termos a melhor educação do país’, diz ex-secretário do DF

Cleomar Almeida, Coordenador de Publicações da FAP

Ex-secretário de Educação do Distrito Federal Rafael Parente e sócio efetivo do Movimento Todos pela Educação, Rafael Parente afirma que o DF tem tudo para ter o maior desempenho nessa área no país. “Não há desculpa para não termos a melhor educação do país”, afirma ele.

Em entrevista ao portal da Fundação Astrojildo Pereira (FAP), o ex-secretário afirma que o parâmetro deve ser o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que avalia o conhecimento dos alunos em português e em matemática, além de considerar as taxas de reprovação em cada localidade

Confira o vídeo!

https://www.facebook.com/fundacaoastrojildofap/videos/175275371042039/

Doutor em Educação e diretor da BEI Educação, empresa de inovação nesse setor e impacto social, o especialista vai participar do quinto encontro online do Seminário Brasília Cidadania, na segunda-feira (3/5). A realização é da FAP, em Brasília, com a Zonal do Cidadania no Plano Piloto (veja detalhes ao final da reportagem).

Ranking nacional

Em 2019, o Distrito Federal ficou em segundo lugar nos anos iniciais do ensino fundamental, segundo o ranking nacional do Ideb, atrás apenas de São Paulo. Nos anos finais dessa fase e no ensino médio, ocupou a quinta posição, em ambos.

Naquele ano, Parente coordenou a criação do Educa DF, o plano estratégico da rede distrital de educação do Governo do Distrito Federal (GDF). A proposta se baseia em cinco bandeiras.

– Sempre aprender: acolher, valorizar e fortalecer os profissionais da educação;

– Escolas que queremos: atenção especial para quem mais precisa;

– Educação para a paz: um mundo melhor a partir de cada sala de aula;

– Excelência para todos: novas creches e escolas e mais qualidade;

– Inov@: a educação do futuro está aqui.

 

“Problemas sérios”

Na avaliação do especialista, “problemas sérios de infraestrutura” devem ser solucionados para que o Distrito Federal consiga avançar mais e garantir educação de qualidade.

“A gente tem problemas sérios de infraestrutura que não deveria ter. Por exemplo, temos 4 mil escolas sem banheiro no Brasil. Aqui no DF, tem escolas fechadas por problemas de infraestrutura, isso não deveria acontecer”, critica.


Confira os eventos anteriores do Seminário Brasília Cidadania

https://www.facebook.com/watch/?ref=external&v=750816498957227

https://www.facebook.com/fundacaoastrojildofap/videos/363456928417741/

https://www.facebook.com/watch/?ref=external&v=2774322792831388

https://www.facebook.com/fundacaoastrojildofap/videos/362907601808726/


Potencialidades

Por outro lado, o ex-secretário ressalta uma série de potencialidades que o Distrito Federal tem em relação às demais unidades da Federação, como “a facilidade de ter um sistema que é, ao mesmo tempo, municipal e estadual”.

Esse formato, segundo Parente, permite que o DF acompanhe a pessoa desde ao entrar na creche, ainda criança, até ingressar na universidade, na vida adulta. “Tem como fazer esse acompanhamento todo”, ressalta.

Além disso, o Distrito Federal facilita o deslocamento dos responsáveis pela Secretaria de Educação do GDF a todas as escolas, já que, geograficamente, é menor que as demais unidades da Federação. “Tem número relativamente alto de escolas e muito investimento, com bom orçamento para a pasta”, assevera.

Também confirmaram presença no encontro o ex-senador e ex-reitor da Universidade de Brasília (UnB) Cristovam Buarque e a doutora em linguística aplicada Lucília Garcez.

SERVIÇO

Seminário Brasília Cidadania
5º evento online da série: O futuro das políticas de Educação e Saúde no DF
Dia: 3/5/2021
Transmissão: das 19h às 21h
Onde: Portal da FAP e redes sociais (Facebook e Youtube) da entidade
Realização: Fundação Astrojildo Pereira, em parceria com a Zonal do Plano Piloto do Cidadania

O arquivo do vídeo do evento fica disponível para o público nesses canais, por tempo indeterminado.

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Fonte:


'Elite consome muito o que vem da periferia', diz coordenador cultural do Slam-DéF

Organizador do Slam-DéF realizará encontro online de jovens artistas da periferia, no dia 28 de abril, com transmissão ao vivo pela internet

Cleomar Almeida, Coordenador de Publicações da FAP

Músicas, sons, ritmos e toda forma de manifestação artística têm sido usados por jovens da periferia do Distrito Federal para se integrarem, por meio de encontros virtuais, durante a pandemia, e manterem o distanciamento social. Em eventos online, eles fazem até batalha de poesias para amenizar um pouco a solidão do isolamento.

Palco de batalhas de arte falada, poesia viva, encenação com muito carão e entonação de voz, o Slam-DéF realiza, no dia 28 de abril, para mais uma competição de poesias criadas pelos próprios participantes.

Assista ao vivo!

O evento será realizado em parceria com a Biblioteca Salomão Malina, mantida, em Brasília, pela Fundação Astrojildo Pereira (FAP), localizada na capital federal.

Feridas escancaradas

Os artistas anônimos usam suas vozes e seu corpo para escancarar feridas que seguem abertas no país, como a pandemia, o racismo, o machismo, a homofobia, entre outros. (Veja mais detalhes do evento ao final desta reportagem).

Na mesma linha de um movimento nacional que reúne jovens autores de poesias e que ainda estão no anonimato, o Slam-DéF é um dos grupos que possibilitam a integração do público por meio da internet, de forma dinâmica e interativa. Em cada encontro, segundo o coordenador Will Júnio, fica a certeza de que a cultura da periferia segue cada vez mais empoderada.

“Devido ao crescimento e estilos musicais originados na periferia, como funk e hip hop, a própria elite consome muito o que vem da periferia”, afirma o coordenador, que também é professor de língua portuguesa em escola pública.

"Periferia também é arte"

Segundo ele, o empoderamento da periferia é um passo muito importante na luta por direitos. “Antigamente não era assim, houve todo um processo de luta, engajamento e discernimento, por parte da periferia, para entender que o que produzimos na periferia também é arte, como qualquer outra, e muito rica. Se não nos dão oportunidade, nós a criamos”, ressalta.

De acordo com Will, a cultura é muito importante para a periferia porque, como ele observa, quem mora nelas vive à margem da sociedade. Dessa forma, segundo o professor, nos encontros online, essas pessoas encontram alternativa para expor seu sofrimento, sua luta, seu dia a dia.

“Muitos desses jovens encontraram na música, como funk e hip hop, e no grafite uma maneira de mostrar o que vêm passando no seu dia a dia. A cultura para esse pessoal é o seu grito para a sociedade ouvir”, destaca Will.

SERVIÇO

Batalha de Poesias Slam-DéF
Dia: 28/4/2021
Horário da transmissão: das 19h às 20h30
Onde: portal da FAP, redes sociais da entidade (Youtube e Facebook) e página da Biblioteca Salomão Malina no Facebook.
Realização: Slam-DéF, em parceria com Biblioteca Salomão Malina e Fundação Astrojildo Pereira (FAP)

Observação: Os arquivos dos eventos ficam disponíveis para o público no portal e nas redes sociais da entidade, por tempo indeterminado

 

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Poesias reforçam regras contra Covid em mobilização na internet

Biblioteca Salomão Malina transmite final da batalha de poesias do Slam-DéF

 


Poesias reforçam regras contra Covid em mobilização na internet

Encontro virtual do Slam-DéF está marcado para quarta-feira (24/3). FAP e Biblioteca Salomão Malina transmitem evento on-line

Cleomar Almeida, Coordenador de Publicações da FAP

Em meio à disseminação acelerada da pandemia da Covid-19 no Brasil, recomendações de autoridades sanitárias ganharam na arte uma forte aliada. Artistas da periferia do Distrito Federal (DF) se mobilizam, pela internet, para conscientizar a população por meio da poesia. Usam a palavra como instrumento de transformação.

Confira o vídeo!


Jovens de Brasília e diversas cidades próximas vão se reunir, na próxima quarta-feira (24/3), a partir das 19h, em encontro virtual do Slam-DéF, grupo que reúne poetas e poetisas (veja mais detalhes ao final). A mobilização dos artistas passou a ser apenas on-line desde o início da pandemia. Antes era presencial.

Arte: Divulgação

Coordenador do Slam-DéF, o professor Will Júnio diz que os artistas já produziram muitas poesias para incentivar as pessoas a ficarem em casa, sempre que possível. “Os poetas e as poetisas têm usado muito a mensagem para as pessoas se cuidarem, cuidarem do próximo, umas das outras”, afirma.

As mensagens de poesias, de acordo com o coordenador, são muito bem recebidas, principalmente, por moradores de regiões de periferia, onde vive a maioria dos artistas participantes da mobilização.

“Voz na quebrada”

“O mais importante é que os artistas, maioria de periferia, são pessoas que têm voz na sua quebrada”, destaca o professor. “Eles têm muito poder de voz, principalmente, no momento em que a gente está com este desgoverno, fazendo tudo ao contrário do que recomendam autoridades sanitárias”, diz.

De acordo com o professor, a mobilização tem muita importância neste momento. “Há grande responsabilidade deles ao passarem a mensagem para as pessoas ficarem em casa, se cuidar, cuidar de si mesmas e de outras que amam”, assevera.

Júnio afirma que a mobilização também pretende mostrar que é possível superar a pandemia. “O Slam joga luz sobre este momento obscuro e traz um pouco de esperança para o público e os próprios poetas que estão passando por grandes problemas, como dificuldade financeira e falta de visibilidade”, diz.

“Críticas sociais”

O coordenador diz que pretende manter as edições mensais da mobilização. “Um dos maiores propósitos é a gente continuar firme, reunindo os artistas, para ter um pouco de esperança, ouvir as críticas sociais, absorvê-las e tentar melhorar o nosso comportamento de alguma forma”, pondera.

A mobilização dos artistas será realizada em formato de batalha de poesias e terá transmissão, em tempo real, na página da biblioteca no Facebook. O público também poderá conferir o encontro em vídeo no portal de notícias e redes sociais da FAP (Facebook e Youtube), ao mesmo tempo.

Até terça-feira (23/3), independentemente de onde moram, todas as pessoas interessadas em expressar suas poesias, durante a mobilização, poderão fazer inscrição diretamente em formulário on-line do Slam-DéF (Clique aqui!). O link também está disponível no perfil do grupo no Instagram e no perfil da Biblioteca Salomão Malina.

Interação na internet

Além dos 16 artistas selecionados para expressarem suas poesias, o público em geral poderá participar da terceira mobilização do Slam-DéF neste ano, interagindo por meio de comentários em redes sociais da biblioteca e da FAP, no momento do evento.

Conheça o perfil no Instagram da Biblioteca Salomão Malina!

“Com a mobilização, nosso intuito é também fazer com que pessoas de periferia se sintam acolhidas pela sua própria arte”, afirma o coordenador. “A competição de poesias incentiva vários artistas. Muitos deles estavam escrevendo poesia a cada dois ou três meses, mas, agora, estão escrevendo poesia direto”, diz.

Serviço
Batalha de Poesias Slam-DéF
Data: 24/3/2021
Horário: a partir das 19h
Onde: site e redes sociais da FAP (Facebook e Youtube) e página da Biblioteca Salomão Malina no Facebook


Cristovam Buarque: Minha Brasília

Não escolhi sair de Recife, em 1970. As circunstâncias me obrigaram a ficar nove anos fora do Brasil. Em 1979, escolhi Brasília. Ela tinha 18 anos quando aqui cheguei. Já estava inaugurada, mas a Asa Norte, em cuja ponta fui morar, era bem vazia. Quase 40 anos depois, olho ao redor do mesmo apartamento em que moro até hoje e vejo uma cidade senhora, aos 58 anos, ainda incompleta.

Cheguei com a disposição de dedicar minha vida à atividade acadêmica, entre aulas, pesquisas, escritas. Quando escolhi vir morar em Brasília, ela era uma cidade sem direitos políticos. Não elegia deputado distrital ou federal, senador ou governador. Brasília não tinha políticos próprios, apenas hospedava os que viessem de outras partes do país. Ao escolher Brasília, ao voltar dos Estados Unidos para o Brasil, entre outras opções que me foram oferecidas, a última coisa que eu imaginava era disputar eleição, qualquer que ela fosse.

Participei de lutas pela autonomia política do Distrito Federal, pela anistia, pelas eleições diretas para presidente, pela constituinte, mas o destino me surpreendeu quando, menos de dez anos depois de chegar, fui eleito reitor da Universidade de Brasília. Mesmo assim, era um cargo acadêmico. Não esperava que, 10 anos depois, disputaria uma eleição política e, ainda mais surpreendente, que seria eleito governador do DF.

O governo me vinculou de maneira íntima com a cidade que antes eu escolhera apenas para viver: as árvores que antes eu via crescer passaram a ser árvores que eu ajudei a plantar; as escolas que eu via ao passar viraram escolas que eu ajudei a construir; as notícias sobre ideias nascidas em Brasília, como Bolsa Escola, Poupança Escola, Saúde em Casa e muitas outras, tinham algo de mim; as paisagens e os costumes ao redor , como o respeito à faixa de pedestre, surgiram de projetos que eu ajudei a implantar.

O Senado me fez carregar a honra de representar o Distrito Federal no Brasil. Uma tarefa que tento exercer com muita responsabilidade, em cada gesto, em cada dia cuidando de honrar Brasília como seu representante no cenário nacional. Uma tarefa difícil, mas o povo daqui tem me ajudado, e com esforço tenho conseguido atrair respeito para nossa cidade com as 19 leis que levam meu nome, uma delas que cria o piso salarial dos professores do Brasil. Também consegui aprovar leis e recursos que beneficiam diretamente o Distrito Federal. Só nos últimos quatro anos, destinei mais de R$ 16 milhões do Orçamento Geral da União para serem aplicados em educação no DF.

A Brasília que eu aprendi a admirar e gostar passou a ser parte de mim como eu passei a ser parte dela também. Às vezes me pergunto se dei um passo certo quando passei a dividir meu tempo de professor com a agenda de governador e a desenador da República. Mas não tenho dúvida que esta opção me aproximou ainda mais da cidade, como se um namoro apaixonado se transformasse em casamento sólido. Os cargos que ocupei me vincularam de maneira muito mais intensa do que se essa responsabilidade não tivesse ocorrido. As três eleições em que o povo do DF me escolheu aumentaram a minha responsabilidade e o meu amor por Brasília. Como também o cargo de reitor amarrou ainda mais fortemente minha relação com a UnB.

É nesta perspectiva de ex-governador e um dos seus três representantes no Senado, ao lado do Hélio Jose e do José Antônio Reguffe, que foi meu aluno na UnB, que assisto ao 58º aniversário de nossa Brasília: a capital de todos os brasileiros e a cidade onde vivemos, onde nossos filhos e netos nasceram e, desejamos, continuarão vivendo. Nessa perspectiva, com esse olhar, vislumbro os próximos cinco, 10, 50 anos adiante e me preocupo e me entusiasmo. Preocupo-me com as dificuldades que atravessamos, na saúde, na educação, na segurança, na mobilidade, nas finanças, nas relações políticas dominadas por egoísmos, politicagens, corporativismos. E entusiasmo-me pela possibilidade de retomar sonhos, voltarmos a ser exemplo para o país e até para o mundo, corrigirmos erros, construirmos a cidade maior do que apenas a capital de todos os brasileiros, onde viveremos com conforto, segurança, esperança, orgulhosos de como somos.

Cheguei para ser professor, optei por ficar, o destino me faz participar com toda energia que ainda tiver, para ajudar a construir Brasília e representá-la no cenário nacional. No sábado passado, todos disseram parabéns, Brasília. Eu tenho de dizer também obrigado Brasília, pelo passado, e às ordens, Brasília, para o futuro, com ou sem mandato. (Correio Braziliense – 24/04/2018)

 


Cristovam Buarque: Maioridade da faixa

Na semana passada, o Correio Braziliense dedicou uma página ao 21º aniversário da implantação da faixa de pedestre no Brasil, graças ao pioneirismo dessa iniciativa no Distrito Federal. Em entrevista, o professor Paulo Cesar Marques da Silva, da Universidade de Brasília (UnB), disse: “Foi uma conquista importante, é um marco de cidadania essa valorização das pessoas em relação aos veículos. Essa coisa de oferecer o espaço prioritariamente aos pedestres é boa. Mas é necessário dizer que não tivemos nenhuma mudança na lei. Essa sinalização já era prevista nos manuais. O que aconteceu foi uma conscientização, um conhecimento das pessoas. Todo esse trabalho foi muito benfeito, houve uma mudança de valores, é fato. Mas é importante lembrar que isso não aconteceu em todo o país. Nem todo mundo que dirige passou por isso 21 anos atrás. A população deve ser informada constantemente sobre a importância da faixa”.

Sem explicitar, ele percebeu que o “milagre de Brasília”, como os visitantes citam para se referir ao respeito dos brasilienses à faixa de pedestre, decorre da inversão da lógica com que o Governo do DF, entre 1995-1998, administrou a implantação desse programa que mudou a mentalidade da população. No lugar de ver a faixa como um assunto da engenharia e da legalidade de trânsito, o problema foi tratado pelo então governo como uma questão de educação. A engenharia (pintura, sinalização, escolha dos locais) e a legislação (leis e decretos) foram complementos auxiliares.

Ao tratar o problema de trânsito sob a ótica da educação, o Governo do DF, com a colaboração da mídia, especialmente do Correio Braziliense e da Rede Globo, deu um exemplo que o resto do Brasil não conseguiu reproduzir ao longo desses 21 anos, por continuar tratando o respeito ao pedestre como assunto de engenharia de trânsito.

Essa não foi a única inversão lógica no governo local, entre os anos de 1995 e 1998. No lugar de enfrentar o assunto da saúde pela engenharia para aumentar o número de leitos nos hospitais, buscou e conseguiu diminuir o número de doentes, por meio do programa Saúde em Casa, da universalização do saneamento, da redução de acidentes de trânsito, da melhoria da merenda escolar, da implantação da Bolsa Escola (permitindo às famílias mais pobres comprarem comida) e pelo pioneirismo na instalação dos kits ginástica nas quadras e praças.

Com isso, foi possível reduzir doenças e filas, simplificar atendimento, reduzir gastos e sofrimento, oferecer dignidade e garantir a todos um serviço que, hoje, está degradado. Para o mandato seguinte, que não ocorreu, a inversão da lógica na saúde estaria em garantir checape anual para qualquer pessoa, independentemente da renda. O resultado é que, sem grandes obras, o governo deixou leitos sobrando, pessoas saudáveis, um sistema funcionando.

A implantação do PAS (Programa de Avaliação Seriada), cuja ideia foi do professor Lauro Moure (UnB), é prova dessa inversão. No lugar de fazer o vestibular para eliminar os alunos que não aprenderam o básico ao longo do ensino médio, o governo de 1995 a 1998, em cooperação com a UnB, preferiu usar a universidade para incentivar os alunos a aprenderem o máximo, estudando ao longo dos três anos, e não mais apenas no último ano e em um cursinho.

A própria Bolsa Escola, que, de tanto êxito, espalhou-se pelo Brasil e pelo mundo, fazendo Brasília ser reconhecida como o berço dos programas de transferência de renda condicionada à educação, é um exemplo de inversão da lógica: no lugar de deixar as crianças pobres trabalhando e fora da escola, nosso programa utilizou o potencial das mães para garantir que seus filhos frequentassem as aulas. Assegurou uma renda básica à família e, ao mesmo tempo, educação para as crianças.

Já a Poupança Escola — implementada no governo entre 1995-1998 —, no lugar dos elevados custos na educação devido à repetência, preferiu garantir um prêmio para o aluno que fosse aprovado, tomando o cuidado de não entregar esse dinheiro ao fim de cada ano, mas depositá-lo em caderneta de poupança, para só ser retirado se o aluno concluísse o ensino médio. A faixa de pedestre foi um bem-sucedido projeto da lógica invertida criado pelo governo da época, mas apenas um deles; muitos outros até hoje continuam, 21 anos depois. (Correio Braziliense – 10/04/2018)