poesia

Slam-DéF: “Poetas são cientistas da nossa atualidade”, diz coordenador cultural

João Vitor, com edição do coordenador de Publicações da FAP, Cleomar Almeida

Cultura, inclusão, lirismo e a valorização do artista é o foco do Slam-DéF, grupo cultural que vai realizar mais uma batalha de poesia, de forma online, na quarta-feira (23/2), a partir das 19 horas. No total, há 16 vagas para a disputa, e a inscrição pode ser realizada, por meio de formulário virtual, até um dia antes do evento. Pessoas de outros estados e países podem se inscrever.



Clique aqui para fazer a inscrição

“Costumo dizer que os poetas são cientistas da nossa atualidade, porque eles estudam a maneira como as pessoas agem e transformam tudo isso em poesia”, afirma o coordenador cultural do Slam-DéF, professor de língua portuguesa Will Júnio.

O webinar será realizado em parceria com a Biblioteca Salomão Malina, mantida pela Fundação Astrojildo Pereira (FAP), sediada em Brasília. Neste ano, o vencedor receberá premiação de R$ 100 e um troféu personalizado com a data da edição.

O evento terá transmissão na página da biblioteca no Facebook, assim como nas redes sociais (Facebook e Youtube) da fundação. “O artista está sempre em constante trabalho, analisa e observa as coisas que acontecem ao seu redor e transforma tudo em palavra”, afirma o coordenador.

Segundo Will Júnio, os integrantes do grupo estão trabalhando firme para que o evento cresça cada vez mais. “Mesmo com os casos de covid-19 aumentando, nós podemos, de forma virtual, espalhar a palavra e a cultura do Slam”, disse.

“Somente o campeão de cada edição terá a premiação. Antes, primeiro, segundo e terceiro recebiam, além da pontuação no ranking que dava acesso à final do Slam-DéF”, afirmou Will. “

Will trabalha com a cultura desde 2012. Foi representante do DF no Slam-BR e da Festa Literária das Periferias, em 2015, assim como jurado do Duelo Nacional de MC’s, em 2017, em Belo Horizonte.

Batalha de Poesias Slam-DéF
Dia: 23/02/2022
Horário da transmissão: 19h
Onde: Perfil da Biblioteca Salomão Malina no Facebook e no portal da FAP e redes sociais (Facebook e Youtube) da entidade
Realização: Slam-DéF, em parceria com Biblioteca Salomão Malina e Fundação Astrojildo Pereira (FAP)


'Elite consome muito o que vem da periferia', diz coordenador cultural do Slam-DéF

Organizador do Slam-DéF realizará encontro online de jovens artistas da periferia, no dia 28 de abril, com transmissão ao vivo pela internet

Cleomar Almeida, Coordenador de Publicações da FAP

Músicas, sons, ritmos e toda forma de manifestação artística têm sido usados por jovens da periferia do Distrito Federal para se integrarem, por meio de encontros virtuais, durante a pandemia, e manterem o distanciamento social. Em eventos online, eles fazem até batalha de poesias para amenizar um pouco a solidão do isolamento.

Palco de batalhas de arte falada, poesia viva, encenação com muito carão e entonação de voz, o Slam-DéF realiza, no dia 28 de abril, para mais uma competição de poesias criadas pelos próprios participantes.

Assista ao vivo!

O evento será realizado em parceria com a Biblioteca Salomão Malina, mantida, em Brasília, pela Fundação Astrojildo Pereira (FAP), localizada na capital federal.

Feridas escancaradas

Os artistas anônimos usam suas vozes e seu corpo para escancarar feridas que seguem abertas no país, como a pandemia, o racismo, o machismo, a homofobia, entre outros. (Veja mais detalhes do evento ao final desta reportagem).

Na mesma linha de um movimento nacional que reúne jovens autores de poesias e que ainda estão no anonimato, o Slam-DéF é um dos grupos que possibilitam a integração do público por meio da internet, de forma dinâmica e interativa. Em cada encontro, segundo o coordenador Will Júnio, fica a certeza de que a cultura da periferia segue cada vez mais empoderada.

“Devido ao crescimento e estilos musicais originados na periferia, como funk e hip hop, a própria elite consome muito o que vem da periferia”, afirma o coordenador, que também é professor de língua portuguesa em escola pública.

"Periferia também é arte"

Segundo ele, o empoderamento da periferia é um passo muito importante na luta por direitos. “Antigamente não era assim, houve todo um processo de luta, engajamento e discernimento, por parte da periferia, para entender que o que produzimos na periferia também é arte, como qualquer outra, e muito rica. Se não nos dão oportunidade, nós a criamos”, ressalta.

De acordo com Will, a cultura é muito importante para a periferia porque, como ele observa, quem mora nelas vive à margem da sociedade. Dessa forma, segundo o professor, nos encontros online, essas pessoas encontram alternativa para expor seu sofrimento, sua luta, seu dia a dia.

“Muitos desses jovens encontraram na música, como funk e hip hop, e no grafite uma maneira de mostrar o que vêm passando no seu dia a dia. A cultura para esse pessoal é o seu grito para a sociedade ouvir”, destaca Will.

SERVIÇO

Batalha de Poesias Slam-DéF
Dia: 28/4/2021
Horário da transmissão: das 19h às 20h30
Onde: portal da FAP, redes sociais da entidade (Youtube e Facebook) e página da Biblioteca Salomão Malina no Facebook.
Realização: Slam-DéF, em parceria com Biblioteca Salomão Malina e Fundação Astrojildo Pereira (FAP)

Observação: Os arquivos dos eventos ficam disponíveis para o público no portal e nas redes sociais da entidade, por tempo indeterminado

 

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George Gurgel de Oliveira: José Carlos Capinan - Vida e poesia

A recente entrevista realizada online pela Fundação Astrojildo Pereira, em homenagem a José Carlos Capinan, deu uma boa dimensão do ser humano, médico, jornalista, escritor e poeta que completou 80 anos em 19 de fevereiro deste ano.

Capinan conversou com antigos e novos companheiros sobre a sua vida, o Brasil dos anos 60 até à atualidade. A emoção foi grande em rever antigos companheiros que abrilhantaram a entrevista como o cineasta Vladimir de Carvalho (contemporâneo de Universidade e do CPC na Bahia), o jornalista Francisco Almeida, o ator Stepan Nercessian, o historiador Ivan Alves Filho,  a ativista social e gestora pública Rachel Dias, o professor Martin Cezar Feijó, o escritor e ensaísta Luis Sérgio Henriques, o advogado Roberto Freire (presidente do Cidadania), o jornalista Renato Ferraz e  o diretor geral da FAP Caetano Araújo. Ainda destacamos a participação dos parceiros Tomzé, Roberto Mendes, Carlinhos Cor das Aguas, Lula Gazineu e dos amigos Angela Fraga, Armandinho, Targino, Marcelo Gentil e Antônio Rizério  homenageando os 80 do poeta Capinan .

Toda a entrevista está sendo editada e vai ser disponibilizada nas mídias sociais da Fundação Astrojildo Pereira.  Desde o seu nascimento no Arraial de Três Rios e o seu registro no município de Esplanada, na Bahia, e até hoje vivendo em Salvador, Capinan é e foi um viramundo. Construiu um repertório literário, poético e musical como poucos da sua geração; enfrentou e continua enfrentando as dificuldades de um criador da área de cultura, querendo e lutando por um Brasil brasileiro e universal que seja contemporâneo, democrático, comprometido com as transformações políticas, econômicas e sociais necessárias, ainda a serem realizadas pela sociedade brasileira.

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Capinan é um abolicionista do século XX, avançando pelo século XXI na melhor tradição libertária e humanista do século XIX. De Esplanada veio para Salvador estudar Direito na Universidade Federal da Bahia (UFBa), em 1960, aos 19 anos. Desde então começou a sua produção intelectual e um ativismo cultural que o levou a participar de importantes movimentos políticos, sociais, ambientalistas e culturais acontecidos no Brasil desde a década de 60.

O Brasil da época estudantil de Capinan em Salvador apontava para um futuro que prometia ser melhor: a industrialização avançava, tínhamos o samba e a bossa nova, éramos bicampeões mundiais com Pelé e Garrincha e o mundo nos olhava com curiosidade e admiração.  Brasília estava sendo construída de uma maneira vertiginosa tendo à frente a liderança do presidente Juscelino Kubitschek e as genialidades de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa.  A Universidade de Brasília tinha Anísio Teixeira e Darci Ribeiro, entre outros, destacando a importância da educação, apontando novos horizontes e possibilidades de integração e modernização do Brasil, a partir do planalto central.

Anísio Teixeira tem que ser sempre lembrado como um dos pioneiros da educação moderna brasileira: fez muito pela educação com a Escola Pública em tempo integral; a Escola Parque, sistema implantado quando foi secretario de educação e saúde da Bahia, no final dos anos 40. Essa experiência educacional pioneira de Anísio foi - nunca é demais lembrar -, um fundamento importante para as transformações que iriam ali ocorrer nos anos 50, na própria Universidade, na reitoria do professor Edgar Santos.  Assim, quando Capinan chegou para estudar Direito na UFBa, a Bahia vivia um caldeirão cultural.  A Universidade colaborou para a construção de uma cultura baiana cosmopolita, recebendo intelectuais, professores, escritores e artistas de todo o mundo. Ainda, a contribuição primordial de Dorival Caymmi, Jorge Amado e João Gilberto que colocavam a cultura baiana no cenário do país e do mundo.

Portanto, a UFBa, a partir dos anos 50, começou a ser protagonista de movimentos culturais no cinema, no teatro, na pintura, na dança e na música, formando novas gerações e lideranças de vanguarda da cultura baiana e nacional. O cinema de Glauber Rocha e o tropicalismo de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tomzé e o próprio Capinan, entre outros, se destacam pelo impacto causado à cultura brasileira e os seus desdobramentos posteriores, até à atualidade.

Vivia-se na Bahia, no início dos anos 60, quando Capinam chegou a Salvador, todas essas possibilidades de mudanças nos movimentos políticos, culturais e sociais. Ele é parte integrante e ator privilegiado desse processo. Além de estudar Direito, ele também foi aluno da Escola de Teatro da UFBA, participou do Centro Popular de Cultura (CPC), movimento cultural nacional liderado pela UNE e com forte influência política do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Na Universidade, conheceu Gilberto Gil e Caetano Veloso, e juntos compuseram a trilha sonora do filme de Geraldo Sarno, Viramundo, o qual mostrava o fluxo migratório nordestino para São Paulo.

À época, fez com Tomzé a encenação de um Bumba meu Boi, em Salvador, e em algumas capitais nordestinas, espetáculo que era, na verdade, uma denúncia contra a presença do imperialismo americano no Brasil, o que rendeu a Capinan um inquérito policial militar. Em 1964, depois do golpe de 1º de abril, ele teve que sair de Salvador, retornou à casa dos pais, por um breve período, e, em seguida, foi para o Rio de Janeiro e posteriormente para São Paulo, onde passou a viver. Na viagem de trem rumo ao Rio, no caminho, ainda em território baiano, teve o primeiro encontro com o futuro parceiro Moraes Moreira. Ao chegar à capital paulista, começou a trabalhar como publicitário e incorporou-se na vida cultural paulistana. Em seguida, foi para o Rio de Janeiro, onde participou de festivais de música popular brasileira, os quais acabaram se tornando um espaço de resistência à ditadura.

Além do Brasil, os militares chegaram ao poder, via ditadura militar, na maioria dos países da América Latina: em plena Guerra Fria, apoiados pelos Estados Unidos, em resposta à revolução que avançava em Cuba sob a liderança de Fidel e Che Guevara, idolatrados por uma boa parte da juventude mundial.

A morte do Che, em La Higuera, escondido em plena selva da Bolívia pelo exército boliviano, com apoio da CIA, sensibilizou mentes e corações em todo o mundo. No dia da morte de Che Guevara (9 de outubro de 1967), Capinan fez Soy Louco por ti América, em parceria com Gilberto Gil. A música tornou-se um hino brasileiro-latino americano a favor da integração americana, em homenagem ao líder guerrilheiro. Embora, como todos sabem e, dito pelo próprio poeta, ele era contra a luta armada. Eram tempos sombrios, de resistência, prisões, mortes e exílios no Brasil e em toda a América Latina.

Depois de um breve período em São Paulo, ele foi para o Rio de Janeiro onde ficou até o final dos anos 70. Então, Capinan se tornou um dos compositores mais vitoriosos da sua geração nos festivais de música popular brasileira em parcerias com Edu Lobo, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Paulinho da Viola e Jards Macalé. Inicialmente fez uma poesia crítica e social, com os valores da cultura nordestina, dos violeiros e cantadores, como fonte de inspiração. Foi, com o passar do tempo, transformando seus versos, incorporando um lirismo humanista brasileiro e universal. A partir das parcerias com Paulinho da Viola, ainda nos anos 60, incorporou as mudanças que são refletidas na sua produção poética e literária.

No Rio de Janeiro, já conhecido como poeta e compositor, fez a opção de estudar Medicina: iniciou o curso no Rio de Janeiro e terminou-o na Bahia, na Universidade Federal. A Medicina, podemos pensar, muito serviu ao poeta para um melhor conhecimento do ser humano nas possibilidades de cura corporal, psíquica e emocional. Porém, a poesia falou mais alto, para a felicidade da cultura brasileira.   

Os trabalhos conjuntos com Geraldo Azevedo, Moraes Moreira, Robertinho do Recife, Fagner, Batatinha, Edil Pacheco, Ederaldo Gentil, Carlinhos Cor das Aguas, Lula Gazineo, Roberto Mendes, entre outros artistas brasileiros e da Bahia, totalizam mais de 200 parcerias do poeta Capinan. Assim, o poeta tornou-se um dos maiores letristas da música popular brasileira com sucessos reconhecidos como o já destacado “Soy louco por ti América”, com Gilberto Gil; “Clarice”, com Caetano Veloso; “Ponteio”, com Edu Lobo; “Gotham City”, com Jards Macalé; “Coração Imprudente”, com Paulinho da Viola; “Moça Bonita”, com Geraldo Azevedo,  “Papel Marchê”, com João Bosco;  “Cidadão”, com Moraes Moreira; “Yáyá Massemba”, com Roberto Mendes, entre outras dezenas de composições conhecidas de Capinan.

 No entanto, como o próprio Capinan sempre lembra, ele não consegue viver de seus direitos autorais. É um problema de todos os compositores, particularmente os que não cantam as suas próprias canções. O Capinan e a sua geração foram pioneiros nessa luta por direitos autorais no Brasil. Ainda hoje há muito por fazer para o devido reconhecimento da produção cultural e dos compositores brasileiros em relação aos seus direitos autorais.

A poética de Capinan está registrada nos seus livros publicados e em antologias de poetas brasileiros, como Inquisitorial (1995); Poemas: Antologia e Inéditos (1996); Vinte Canções de Amor e Um Poema (2014); Balança mas Hai-Kai (2011) e o recente 26 Poetas Hoje, organizado por Heloisa Buarque de Holanda, são as principais publicações a serem destacadas.

Ainda nos anos 80, Capinan foi Secretário de Cultura do Estado da Bahia no Governo Waldir Pires, quando a Cultura tornou-se Secretaria de Governo. Na área ambiental, teve protagonismo na criação do ECODRAMAS, movimento que, já nos anos 80, destacava a importância da questão ambiental no dia a dia da sociedade: chamando a atenção da importância das manifestações culturais e religiosas nesse contexto. Eram encontros sócio-ambientais e culturais anuais que premiavam as melhores práticas e as lideranças culturais e ambientalistas da Bahia.

A cultura afro-brasileira continua marcando a produção e a vida do poeta Capinan. A travessia do sertão para Salvador e o recôncavo coloca-o como um dos importantes intérpretes da cultura afrobrasileira no Brasil. Ele tem ensaios, artigos, poesias e composições que falam de questões históricas e atuais, fez viagens à África, é um permanente interlocutor na cooperação cultural entre o continente africano e o Brasil.  Desde a fundação em 2004, ele está à frente do Museu AfroBrasil, que teve como diretor curador Emanuel Araújo e o apoio permanente da Associação de Amigos da Cultura Afrobrasileira (AMAFRO), que tem como objetivo o ensino, a pesquisa, a cooperação e o intercambio voltados à recuperação e à preservação do patrimônio, da memória e da cultura afro-brasileira, dos quais Capinan hoje é um dos seus mais destacados guardiões na Bahia.

Somos testemunhas, há anos, do empenho, do compromisso e das dificuldades passadas pela AMAFRO e do trabalho de Capinan e de toda uma equipe, na maioria de voluntários, para manter o museu funcionando, cujo desafio maior continua sendo a federalização ou a estadualização deste importante espaço cultural.

Em 2006, o teatrólogo, publicitário, poeta, médico, jornalista e escritor José Carlos Capinan entrou para a Academia Baiana de Letras, sendo o primeiro compositor de música popular brasileira a fazer parte dela.

 Assim o poeta chega aos 80 anos, com uma impressionante capacidade de escrever e de continuar a liderar a construção do Museu Afro Brasil na Bahia. As parcerias continuam.  Quem não quer ser parceiro musical de Capinan? A lista continua extensa.  Artesão da palavra faz com naturalidade a escrita poética. Para ele, escrever é como se alimentar, como dormir, acordar, ler, ouvir música, conversar e todas as outras rotinas diárias na sua casa do Rio Vermelho, refletindo a vida e o mundo em que vivemos. Continua trabalhando, traduzindo na sua poesia as alegrias, as belezas, as angústias, as incertezas e os desafios existenciais do ser humano, da realidade brasileira e mundial do que somos e que poderemos ser como humanidade durante e pós pandemia.

O poeta José Carlos Capinan merece todas as homenagens e o reconhecimento da sua produção social e cultural. Continua a jornada defendendo os valores de toda a vida, valores universais de igualdade, liberdade e fraternidade.

Nestes tempos sombrios que atormentam a todos nós, a cultura é fundamental para a nossa sanidade emocional. A poesia de Capinan nos acolhe e nos vitaliza ajudando a enfrentar estas tormentas, na busca de novos caminhos e horizontes que possam nos levar às novas relações com a nossa humanidade e a própria natureza.

Que assim seja!

Juntos com a poesia de Capinan, somos e seremos melhores.

Viva a Cultura!

Viva Capinan!  

*George Gurgel de Oliveira, professor da UFBa, dirigente da Fundação Astrojildo Pereira e da AMAFRO


Poesias reforçam regras contra Covid em mobilização na internet

Encontro virtual do Slam-DéF está marcado para quarta-feira (24/3). FAP e Biblioteca Salomão Malina transmitem evento on-line

Cleomar Almeida, Coordenador de Publicações da FAP

Em meio à disseminação acelerada da pandemia da Covid-19 no Brasil, recomendações de autoridades sanitárias ganharam na arte uma forte aliada. Artistas da periferia do Distrito Federal (DF) se mobilizam, pela internet, para conscientizar a população por meio da poesia. Usam a palavra como instrumento de transformação.

Confira o vídeo!


Jovens de Brasília e diversas cidades próximas vão se reunir, na próxima quarta-feira (24/3), a partir das 19h, em encontro virtual do Slam-DéF, grupo que reúne poetas e poetisas (veja mais detalhes ao final). A mobilização dos artistas passou a ser apenas on-line desde o início da pandemia. Antes era presencial.

Arte: Divulgação

Coordenador do Slam-DéF, o professor Will Júnio diz que os artistas já produziram muitas poesias para incentivar as pessoas a ficarem em casa, sempre que possível. “Os poetas e as poetisas têm usado muito a mensagem para as pessoas se cuidarem, cuidarem do próximo, umas das outras”, afirma.

As mensagens de poesias, de acordo com o coordenador, são muito bem recebidas, principalmente, por moradores de regiões de periferia, onde vive a maioria dos artistas participantes da mobilização.

“Voz na quebrada”

“O mais importante é que os artistas, maioria de periferia, são pessoas que têm voz na sua quebrada”, destaca o professor. “Eles têm muito poder de voz, principalmente, no momento em que a gente está com este desgoverno, fazendo tudo ao contrário do que recomendam autoridades sanitárias”, diz.

De acordo com o professor, a mobilização tem muita importância neste momento. “Há grande responsabilidade deles ao passarem a mensagem para as pessoas ficarem em casa, se cuidar, cuidar de si mesmas e de outras que amam”, assevera.

Júnio afirma que a mobilização também pretende mostrar que é possível superar a pandemia. “O Slam joga luz sobre este momento obscuro e traz um pouco de esperança para o público e os próprios poetas que estão passando por grandes problemas, como dificuldade financeira e falta de visibilidade”, diz.

“Críticas sociais”

O coordenador diz que pretende manter as edições mensais da mobilização. “Um dos maiores propósitos é a gente continuar firme, reunindo os artistas, para ter um pouco de esperança, ouvir as críticas sociais, absorvê-las e tentar melhorar o nosso comportamento de alguma forma”, pondera.

A mobilização dos artistas será realizada em formato de batalha de poesias e terá transmissão, em tempo real, na página da biblioteca no Facebook. O público também poderá conferir o encontro em vídeo no portal de notícias e redes sociais da FAP (Facebook e Youtube), ao mesmo tempo.

Até terça-feira (23/3), independentemente de onde moram, todas as pessoas interessadas em expressar suas poesias, durante a mobilização, poderão fazer inscrição diretamente em formulário on-line do Slam-DéF (Clique aqui!). O link também está disponível no perfil do grupo no Instagram e no perfil da Biblioteca Salomão Malina.

Interação na internet

Além dos 16 artistas selecionados para expressarem suas poesias, o público em geral poderá participar da terceira mobilização do Slam-DéF neste ano, interagindo por meio de comentários em redes sociais da biblioteca e da FAP, no momento do evento.

Conheça o perfil no Instagram da Biblioteca Salomão Malina!

“Com a mobilização, nosso intuito é também fazer com que pessoas de periferia se sintam acolhidas pela sua própria arte”, afirma o coordenador. “A competição de poesias incentiva vários artistas. Muitos deles estavam escrevendo poesia a cada dois ou três meses, mas, agora, estão escrevendo poesia direto”, diz.

Serviço
Batalha de Poesias Slam-DéF
Data: 24/3/2021
Horário: a partir das 19h
Onde: site e redes sociais da FAP (Facebook e Youtube) e página da Biblioteca Salomão Malina no Facebook


O Estado de S. Paulo: Poeta e letrista Capinan faz 80 anos e será tema de série documental

'O Silêncio que Canta por Liberdade' tem Úrsula Corona e vai estrear no canal Music Box Brazil no segundo semestre

Eliana Silva de Souza, O Estado de S.Paulo

O poeta e letrista José Carlos Capinan, ou simplesmente Capian, que completa 80 anos nesta sexta-feira, 19, serátema central da série documental O Silêncio que Canta por Liberdade. Com estreia programada para o segundo semestre, no canal Music Box Brazil, produção resgatará sua trajetória artística do letrista durante a ditadura militar. 

Dirigida pela atriz Úrsula Corona e idealizado por Omar Marzagão, série terá oito episódios e contará com documentos originais, imagens de arquivos e depoimentos sobre censura e repressão imposta na música nordestina no período da ditadura no Brasil. 

Silêncio que Canta por Liberdade traz depoimentos de produtores, instrumentistas e intérpretes, como Gal Costa Gilberto Gil. Mas é o próprio Capinan que aparece para falar, por exemplo, sobre o surgimento do samba e suas raízes nos porões dos navios negreiros. 

Um dos nomes de destaque do Tropicalismo, Capinan assinou a letra de canções que se tornaram populares pelo Brasil afora, mas que, muitas vezes, não tem seu nome citado. Ponteio marca sua parceria com Edu Lobo, que ganhou o Festival da Canção de 1967.  Entre outras composições, só para citar algumas, que ele colocou sua poesia, tem Água de Meninos, parceria com Gilberto Gil; O Acaso não Tem Pressa, com Paulinho da Viola; Cidadão, com Moraes Moreira; Moça Bonita, com Geraldo Azevedo; Movimento dos Barcos, com Jards Macalé; Papel Marchê, com João Bosco; Pitanga, com Marlui Miranda. 

O Tempo e o Rio

(Edu Lobo e Capian)

O tempo é como o rio

Onde banhei o cabelo

Da minha amada

Água limpa

Que não volta

Como não volta aquela antiga madrugada

Meu amor, passaram as flores

E o brilho das estrelas passou

No fundo de teus olhos

Cheios de sombra, meu amor

Mas o tempo é como um rio

Que caminha para o mar

Passa, como passa o passarinho

Passa o vento e o desespero

Passa como passa a agonia

Passa a noite, passa o dia

Mesmo o dia derradeiro

Ah, todo o tempo há de passar

Como passa a mão e o rio

Que lavaram teu cabelo

Meu amor não tenhas medo

Me dê a mão e o coração, me dê

Quem vive, luta partindo

Para um tempo de alegria

Que a dor de nosso tempo

É o caminho

Para a manhã que em seus olhos se anuncia

Apesar de tanta sombra, apesar de tanto medo

Apesar de tanta sombra, apesar de tanto medo


Muncab: Live-show celebra os 80 anos do poeta e compositor baiano José Carlos Capinan

Encontro reúne de conversa, arte poesia e música com Jards Macalé, Roberto Mendes e Gereba, na próxima sexta-feira, 19/2, às 19h, no perfil do youtube da Muncab. Na ocasião, será lançado a nova edição do Caderno de Música. A FAP (Fundação Astrojildo Pereira) apoia a divulgação do evento

O baiano José Carlos Capinan, poeta, músico e intelectual com trajetória extensa nas diversas linguagens artísticas e culturas, completa 80 anos na próxima sexta-feira, 19 de fevereiro, e será homenageado pelo Espaço Boca de Brasa Muncab (Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira) com uma programação recheada com o que ele mais gosta: arte, conversa e música. Para este momento que celebra a vida e obra dessa figura icônica da música popular brasileira, estão confirmadas as presenças dos artistas Jards Macalé, Roberto Mendes e Gereba.

O evento online “Palco Aberto Boca de Brasa” será transmitido a partir das 19h, no perfil do Muncab no Youtube e contará com a apresentação do jornalista Leonardo Lichote, especialista na área músical. Também será realizado o lançamento da edição do Caderno de Músicas com participação do artista - revista mensal focada em MPB e uma minissérie onde Capinam narra o surgimento de suas principais canções. “É uma honra poder mediar esse evento que homenageia um dos nomes eternamente expoentes da arte baiana e brasileira, que tanto influenciou e influencia a sociedade através da música, da arte e da linguagem, desde os tempos da ditadura até agora, com outros grandes nomes brasileiros”, enfatiza Leonardo.

Confira o evento ao vivo, dia 19/2, às 19h!


Para Capinan, seus oitenta anos são só o começo de tantas ideias que lhe permeiam para pôr em pratica. “Nunca me imaginei capaz dessa trajetória, fui fazendo, atravessando o tempo com parceiros, e acabou acontecendo. Criar é uma espécie de potência, um tesão pelo belo, divertida forma de se entender a vida, de compreender o humano. E a natureza do mundo, às vezes tão difícil que só pela arte se pode chegar perto do seu sentido”, destaca o poeta.

“A vida entendida na sua verdadeira dimensão nos obriga a um gesto humilde de celebrá-la. nada consegue reduzi-la, devemos nos render à sua grandeza e mistério, celebrando, agradecendo e abraçando-a”, finaliza.

O evento é realizado pelo Muncab (Museu Nacional da Cultura Afro-brasileira), a Amafro, o Espaço Cultural Boca de Brasa, da Prefeitura de Salvador, e conta com co-realização da Nubas e da Estandarte Produções e apoio do Caderno de Música.

Minissérie – Com cinco capítulos, a produção mostra Capinan narrando como foram produzidas suas canções mais icônicas, entre elas ‘Viramundo’, ‘Miserere nóbis’, ‘Soy loco por ti América’, ‘Papel Machê’, ‘Tempos quase modernos’ e ‘Yaya Massembá’. A direção é deJamile Coelho e produção da Estandarte Produções.

Cadernos de Música - A cada mês, uma das edições é dedicada a um nome consagrado da música brasileira e a outra/o artista reconhecida/o pela crítica e por seus pares. O conteúdo é formado por uma longa entrevista inédita (ou raríssima) com o músico e um ensaio sobre sua obra. O assinante recebe duas edições mensais, impressas em papel pólen, tamanho 17cm x 17cm, capa dura e formato quadrado (como a capa de um vinil).

Já foram publicados números de artistas como Elza Soares, Tom Jobim, Adriana Calcanhotto, Tom Zé, Jorge Mautner, Nara Leão, Hermeto Pascoal, Ana Frango Elétrico e Thiago Amud. A Cadernos de Música é vendida exclusivamente por assinatura e custa R$49 mensais. A obra pode ser adquirida através do site da plataforma Revistas de Cultura.

Sobre Capinan - Com passagem na comunicação, na gestão pública, na música, no cinema e nas artes, José Carlos Capinan é um daqueles nomes referência em diversos temas. Atualmente, dirige o Muncab e tem se concentrado em abrir as portas e a interatividade do Museu diante da pandemia e das dificuldades no setor cultural a nível federal.

Formado em Teatro, Medicina, Pedagogia e Direito tem na trajetória roteiros, letras e textos para a Sinfonia da Cidade de Salvador, produções de shows de Gal Costa, Macalé, Luiz Gonzaga, além de parcerias e composições com Tom Zé, João Bosco, Caetano Veloso, Edu Lobo, Fagner, Francis Hime, Geraldo Azevedo, Gereba, Gilberto Gil, João Bosco, Macalé, Moraes Moreira, Paulinho da Viola, Robertinho do Recife, dentre outros. Entre os seus muitos hits, destaque para alguns como Soy Loco Por Ti América, Papel Machê, Ladainha e Viramundo.

Serviço
O quê? Palco Aberto Boca de Brasa – 80 anos do poeta e compositor José Carlos Capinan (roda de conversa, música, arte, poesia e história) e lançamento do Caderno de Música.
Participação: Jards Macalé, Roberto Mendes e Gereba
Mediação: Leonardo Lichote (jornalista musical)
Quando: Dia 19 de fevereiro às 19h
Onde: Perfil do Muncab no Youtube
Informações: Estandarte Produções


Biblioteca Salomão Malina transmite final da batalha de poesias do Slam-DéF

Evento online tem participação de poetas e poetisas da periferia do Distrito Federal

Cleomar Almeida, assessor de comunicação da FAP

A Biblioteca Salomão Malina, mantida pela FAP (Fundação Astrojildo Pereira) em Brasília, transmite nesta quinta-feira (10) a final da batalha de poesias do Slam-DéF. O evento online terá transmissão em tempo real na página da biblioteca no Facebook.

Em novembro, o Slam-DéF realizou  batalha classificatória para preencher a última vaga da final com poetas e poetisas que se inscreveram, até o dia 19 de outubro, por meio de formulário na internet. Outra semifinal de candidatos foi realizada no dia 22 de outubro, também de forma virtual, em razão das regras de distanciamento social recomendadas por autoridades sanitárias durante a pandemia do coronavírus.

Assista ao vídeo!



Assim como nas edições presenciais, que eram realizadas até o início da pandemia da covid-19, a competição contará com a participação de jurados voluntários, convidados pelo coordenador e produtor do Slam DéF, Will Júnio.  Eles também participarão virtualmente para votar nas melhoras performances poéticas dos inscritos.

Interessados podem solicitar mais informações por meio do whatsapp oficial da Biblioteca Salomão Malina (61 984015561).

O slam nasceu em Chicago, Estados Unidos, nos anos 1980. Chegou ao Brasil duas décadas depois. No Distrito Federal, começou em 2015, com o Slam-DéF, que também atua no Entorno. O grupo integra diversas pessoas de qualquer idade, cor, raça, etnia e orientação sexual.


Batalha de poesias do Slam DéF definirá novo finalista para disputa de dezembro

Com transmissão da Biblioteca Salomão Malina, evento online será realizado nesta quinta-feira

Cleomar Almeida, assessor de comunicação da FAP

Com apoio Biblioteca Salomão Malina, mantida pela FAP (Fundação Astrojildo Pereira) em Brasília, o grupo Slam-DéF realiza, nesta quinta-feira (12), das 19h às 20h30, a segunda e última classificatória online de poetas e poetisas que se inscreveram para concorrer a uma vaga da final da batalha de poesias, que será realizada em dezembro. A transmissão será realizada pela página da biblioteca no Facebook e pelo site da fundação, simultaneamente.

Assista ao vídeo!




Na batalha classificatória desta quinta-feira, a última vaga da final será disputada por poetas e poetisas que se inscreveram, até o dia 19 de outubro, por meio de formulário na internet. Outra semifinal de candidatos foi realizada no dia 22 de outubro, também de forma virtual, em razão das regras de distanciamento social recomendadas por autoridades sanitárias durante a pandemia do coronavírus.

A retomada das competições teve como objetivo criar novo ranking de pontuações para a disputa do prêmio da etapa final, que será realizada em dezembro. O vencedor dessas próximas edições vai competir com o poeta Mano Dablio, ganhador da última batalha de poesias, realizada no mês de setembro.

Assim como nas edições presenciais, que eram realizadas até o início da pandemia da covid-19, a competição contará com a participação de jurados voluntários, convidados pelo coordenador e produtor do Slam DéF, Will Júnio.  Eles também participarão virtualmente para votar nas melhoras performances poéticas dos inscritos.

Interessados podem solicitar mais informações por meio do whatsapp oficial da Biblioteca Salomão Malina (61 984015561).

O slam nasceu em Chicago, Estados Unidos, nos anos 1980. Chegou ao Brasil duas décadas depois. No Distrito Federal, começou em 2015, com o Slam-DéF, que também atua no Entorno. O grupo integra diversas pessoas de qualquer idade, cor, raça, etnia e orientação sexual.

Veja vídeos de batalha de poesias do Slam-DéF:

Biblioteca Salomão Malina transmite batalhas de poesias do Slam-Déf

Biblioteca Salomão Malina transmite final da batalha de poesias Slam-DéF

Apoiado pela Biblioteca Salomão Malina, Slam-DéF realiza eliminatórias em agosto

Mulheres da periferia discutem sociedade sexista em live da Biblioteca Salomão Malin


RPD || Henrique Brandão: Uma noite de autógrafo sem autor e livro

Jornalista, crítico de arte, ensaísta, artista plástico, cronista, dramaturgo, autor de Poema Sujo, sua obra-prima. Assim era Ferreira Gullar que, se vivo fosse, teria completado 90 anos no último mês de setembro

Quem é quem na foto - Rio de Janeiro, livraria Rubayat, 1976.  De pé, da esquerda para a direita: Cacá Diegues, retrato de Ferreira Gullar, Zuenir Ventura, Tereza Aragão (mulher de Gullar), Oswaldo Loureiro, Leon Hirszman, Bete Mendes, Mary Ventura, Arnaldo Jabor, Neném Werneck de Castro, Moacir Werneck de Castro, Mario Cunha, Helena Furtado, João Saldanha, Teresa Cesário Alvim, Neusa Amaral. Sentados: Mario da Silva Brito, Mario Lago, Sergio Augusto, Antonio Pitanga, Ziraldo, Darwin Brandão e Guguta Brandão

No mês de setembro deste ano, o poeta Ferreira Gullar completaria 90 anos. Não conseguiu receber as devidas homenagens. Faleceu em dezembro de 2016, dois meses depois de completar 86 anos.

José Ribamar Ferreira, seu nome de batismo, era um homem de hábitos simples. Sua figura, no entanto, chamava atenção. Magro, com a cabeleira escorrida ao longo do rosto, o nariz adunco e as mãos expressivas – que gesticulavam sem parar enquanto falava – não passava despercebido onde quer que estivesse.

Gullar era muitos. Além de poeta, foi jornalista, crítico de arte, ensaísta, artista plástico, cronista, dramaturgo.

Participou ativamente do Concretismo e do Neoconcretismo, movimentos importantes no cenário da cultura brasileira, nos anos 1950.

Gullar entrou tarde na política. Já rompido com o Neoconcretismo, participava do Centro Popular de Cultura (CPC), ligado à União Nacional dos Estudantes (UNE), quando ocorreu o golpe de 1964. “Eu me filiei ao PCB no dia do golpe de 64. Eu queria participar da resistência a um regime que se impunha ao país pela força”. Após o fechamento da UNE, Gullar e seus companheiros do CPC fundaram o grupo Opinião, que teve grande repercussão com suas peças e shows musicais.

Após o AI-5, em 1968, o regime militar apertou o cerco. Sobrou para todo mundo que se opunha à ditadura, até mesmo para os comunistas ligados ao PCB, que não defendiam a luta armada. A essa altura, Gullar fazia parte do Comitê Cultural do PCB.

Quem avisou que a barra tinha pesado foi Leandro Konder, também membro do Comitê Cultural, com a notícia de que um companheiro havia caído e, sob tortura, entregara todo mundo. Gullar deveria se esconder, pois estava na mira da repressão.

Depois de um tempo escondido, não restou alternativa a não ser o exilio. Clandestino, Gullar seguiu para a União Soviética e, de lá, para o Chile; depois para o Peru e, por fim, para a Argentina. Triste sina: a cada país que chegava, as condições políticas, passado algum tempo, pioravam. A direita ganhava corpo na América Latina.

A Argentina era então presidida por Isabelita Perón, que, pressionada pelos Montoneros à esquerda, preferiu se aliar ao peronismo de direita. O clima se radicalizava. Com o passaporte cancelado pelo consulado brasileiro e com todo o Cone Sul sob ditaduras – além do grave quadro de esquizofrenia de seu filho no Brasil –, a angústia e o desespero tomaram conta do poeta. Gullar achou que era hora de, segundo suas palavras, “expressar num poema tudo o que ainda necessitava expressar, antes que fosse tarde demais – o poema final”.

Assim nasceu o Poema Sujo, sua obra-prima. Gullar trabalhou nele de forma visceral, de março a setembro de 1975. “Nada me fez interromper o poema. Estava entregue a ele todas as horas do dia e da noite”, registrou em Rabo de Foguete, seu livro de memórias do exílio.

Na época, Vinícius de Moraes fazia muito sucesso em Buenos Aires. Em uma das ocasiões em que esteve por lá, na casa de Augusto Boal, também exilado, Gullar leu o poema para Vinícius. “Esse poema é uma coisa muito séria. Quero levar para o Brasil e mostrar para o pessoal. Não há tempo a perder”, disse o poetinha. E assim nasceu a famosa fita, que veio na bagagem de Vinícius e, no Brasil, foi reproduzida entre os amigos.

As reuniões para ouvir o Poema Sujo se multiplicaram. O poema circulava em audiências domésticas, enquanto seu autor permanecia na Argentina, onde a situação política se deteriorava.

Foi então que um grupo de amigos resolveu fazer uma noite de lançamento do poema, sem a presença do autor e sem livro. Seria um ato político, a fim de ajudar na operação de trazer Gullar de volta ao Brasil. Em um mundo distante das redes sociais, a mobilização era feita por telefone ou no boca a boca, nas mesas de bar. Diante das circunstâncias, acabou virando um feito relevante. Várias pessoas compareceram para demonstrar solidariedade e manifestar repúdio ao regime militar.

Dessa noite de autógrafos, sem livro e sem autor, restou a fotografia feita ao fim do evento, que dá a dimensão daquele momento histórico. A trajetória política dos que aparecem na imagem ganhou rumos diferentes, após a derrocada da ditadura. Muitos, inclusive, já morreram. Mas, naquele momento, importava marcar posição contra o regime militar. De um lado, armas e repressão; de outro, um livro de poesia que ainda não existia e cujo poeta estava exilado.

A mensagem não podia ser mais clara.
*Jornalista e escritor


Ferreira Gullar: A luta poética

Documentário - Ferreira Gullar, nasceu em 1930, em São Luís, Maranhão. Criado na periferia operária da cidade, Gullar trabalhou como radialista, até vir para o Rio de Janeiro, em 1951. Mas já trazia na bagagem o esboço do livro A luta corporal. Jornalista, dramaturgo, crítico de arte, Ferreira Gullar foi um militante das causas sociais e políticas. Faleceu em 04 de dezembro de 2016, aos 86 anos, no Rio de Janeiro.


Marcus Vinícius: O Homem ainda está na cidade

Ferreira Gullar, no grandioso Poema Sujo, pensando sobre as várias velocidades e tempos pelos quais as existências se desenrolam afirmou que “variados são os modos como uma coisa está em outra.”. Hoje, Gullar não está mais na cidade, não caminha mais pelas quitandas, nem observa as bananas que apodrecem como a própria vida. Todavia, Gullar permanece em nós, uma voz firme como um relâmpago capaz de gerar os espantos necessários à criação.

No escuro desses tempos difíceis, a voz de Gullar continua ressoando como um alerta contra as simplificações e os dogmatismos. Sua última crônica, publicada hoje na Folha de São Paulo o demonstra, revelando o homem que aprendeu, a partir dos traumas e das derrotas, a falência da revolução e do socialismo, mas que manteve, inabalável, a perspectiva da construção de uma sociedade mais igualitária e justa.

Sua trajetória, a qual acompanhei durante alguns anos como objeto de pesquisa, acompanha as grandes transformações e angústias do século XX e início do XXI. Em todos os momentos, Gullar esteve disposto a se lançar ao debate público, seja com sua poesia ou suas intervenções políticas.

Nos anos 1950, recém chegado ao Rio, se engaja nas vanguardas artísticas, fazendo parte dos movimentos concretista e neoconcretista. Na breve e profunda mudança para Brasília no início dos anos 1960 percebe que as vanguardas o levaram ao silêncio e no contato com os trabalhadores candangos preenche o silêncio com a política. Assume a presidência do CPC e, no dia do golpe de 1964, filia-se ao Partidão.

Sempre contrário a via armada para a derrubada do regime militar, Gullar se contrapôs aos militares no terreno em que eram mais fracos, a política. Apesar disso, terminou clandestino e exilado no início dos anos 1970.

No exílio, experimenta o autoritarismo dos comunistas da URSS e dos militares chilenos e argentinos. Na busca pela sobrevivência, imerso em sua própria trajetória, compõe em Buenos Aires sua maior obra, o Poema Sujo. O poema emociona a todos e chega ao Brasil como uma ausência, em uma fita cassete com a voz do poeta, que retorna somente alguns anos mais tarde.

No contato com o autoritarismo e a derrota de Allende, Gullar percebe os problemas da esquerda revolucionária e afirma não estar mais disposto a conciliar com os radicalismos tolos. Nos anos 1980, em um poema em homenagem aos 60 anos do PCB, acerta as contas com a cultura política pecebista, mantendo em si aquilo de mais essencial, a vontade de justiça e a necessidade da política.

Mesmo fora da política partidária, Gullar nunca abandona a política. Prossegue intervindo no debate político nacional, apontando desde o início os problemas do petismo e mantendo-se firma na defesa da democracia e do espírito republicano, pensando a necessidade da transformações da sociedade brasileira a partir de uma chave reformista.

Assim, o que fica em nós de Gullar, além, é claro, da sensibilidade incrível de sua poesia, que certamente será ressaltada por muitos, a figura de um homem que sempre combateu pela igualdade, por aquela vida banal que descreveu milimetricamente em seus versos.

Em muitos poemas, Gullar abordou a morte e suas relações com o tempo dos vivos. Escrevendo sobre a morte de Clarice Lispector, Gullar observou as pedras e pensou que existiam independentes e exteriores à morte da amiga. Todavia, feitos de carne, continuamos a existir, numa tarde de dezembro, carregando os maxilares de nossos mortos, como naquela poema de Drummond que Gullar sempre citava. O corpo de José Ribamar Ferreira morreu, Ferreira Gullar certamente está presente.

* Marcus Vinícius Furtado da Silva Oliveira é Historiador, mestre em História na Unesp/Franca e doutorando do Programa de Pós-Graduação em História e Cultura


Poeta Ferreira Gullar morre de pneumonia aos 86 anos no Rio

O escritor, poeta e teatrólogo Ferreira Gullar morreu na manhã deste domingo, 4, no Rio de Janeiro, aos 86 anos. Gullar estava internado no Hospital Copa D'Or, na Zona Sul do Rio com um quadro de insuficiência respiratória e pneumonia, apontada como a causa da morte. Ainda não há informações sobre o velório.

Um dos mais importantes literatos da história da literatura brasileira, Ferreira Gullar passeou por vários campos da expressão poética, literária e crítica, quase sempre com um forte tom político. Avesso a rotulações binárias, usualmente se colocava no sentido contrário ao do poder em questão.

Seu primeiro livro, depois renegeado pelo autor, foi Um Pouco Acima do Chão, em uma edição de autor em 1949. Cinco anos depois, veio A Luta Corporal, este já com os primeiros esboços da poesia esteticamente ambiciosa em que ele trabalharia incansavelmente até Em Alguma Parte Alguma e Bananas Podres, dois de seus livros mais recentes.

Ele estava com os irmãos Augusto e Haroldo de Campos na Exposição Nacional de Arte Concreta, em 1956, considerada o marco inicial do movimento concretista, expressão poética fundamental do século 20. Porém a contribuição foi breve: em fevereiro do ano seguinte, Gullar publicou um artigo no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil questionando as teses do movimento, e o rompimento viria em seguida.

A disputa entre "concretos" e "neoconcretos" sempre ocupou um campo mais ou menos nebuloso entre a intelectualidade, mas os ecos, que influenciaram muitas das expressões artísticas nacionais desde os anos 1960, chegaram até 2015, quando Augusto de Campos e Ferreira Gullar trocaram cartas agressivas pelo jornal Folha de S. Paulo.

Em 1976, ele lançou seu trabalho mais célebre, o Poema Sujo -- cem páginas de poesia na sua mais alta expressividade política. Símbolo de resistência à ditadura, o poema chegou aos brasileiros primeiro por uma fita que pertencia a Vinicius de Moraes, trazida de Buenos Aires, onde Gullar estava exilado.

Colecionador de prêmios, Gullar venceu o Machado de Assis da Biblioteca Nacional em 2005, e o Camões, o mais importante da língua portuguesa do mundo, em 2010. Era membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2014 -- depois de anos dizendo que esta honraria ele não aceitaria.

Ele nasceu em São Luís (MA), em 10 de setembro de 1930, como José Ribamar Ferreira. Gullar deixa a esposa, dois filhos e oito netos.


Fonte: cultura.estadao.com.br/noticias/geral,morre-ferreira-gullar-aos-86-anos,10000092453