Alckmin

InfoMoney: Alckmin cresce no Sudeste e chega a 10% pela primeira vez, mostra XP/Ipespe

Segundo pesquisa, tucano oscila positivamente em todos os cenários de primeiro turno testados. Interesse nas eleições cresce e "não voto" começa a ceder timidamente

SÃO PAULO - Na semana em que formalizou uma aliança com os partidos do chamado "blocão" (DEM, PP, PR, PRB e Solidariedade) para sua candidatura à presidência da República, o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) atingiu seu maior patamar já registrado em intenções de voto em mais de dois meses. É o que mostra pesquisa feita pelo Ipespe (Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas) entre 23 e 25 de julho, a décima por encomenda da XP Investimentos. O estudo está registrado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) pelo código BR-07756/2018 e tem margem máxima de erro de 3,2 pontos percentuais, para cima ou para baixo.

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Segundo o levantamento, o tucano chega a marcar 10% em dois dos quatro cenários de primeiro turno testados e não aparece mais numericamente atrás do ex-governador do Ceará Ciro Gomes, nome recém-confirmado pelo PDT para a disputa. É a primeira vez que isso ocorre nas pesquisas XP/Ipespe, realizadas semanalmente desde 15 de maio. Excluindo a simulação que considera a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (tida como improvável), Alckmin ocupa a segunda posição no primeiro turno em todos os demais cenários, tecnicamente empatado com outros candidatos, mas numericamente atrás da ex-senadora Marina Silva (Rede).

Contribuiu para a melhora do desempenho do tucano, dentro da margem de erro, em todos os cenários avaliados, um apoio maior entre eleitores do Sudeste, com maior nível de escolaridade e no grupo com idade entre 35 e 54 anos. Para exemplificar, na simulação que considera o ex-prefeito Fernando Haddad (PT) candidato, as intenções de voto de Alckmin no Sudeste foram de 12% uma semana atrás para 15%. Entre eleitores com Ensino Superior, o tucano foi de 8% para 13%, ao passo que no grupo com Ensino Médio completo, seu desempenho foi de 6% para 8%. Veja os detalhes dos votos de cada candidato clicando aqui.

O deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) continua na liderança da disputa nos cenários que desconsideram a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado em segunda instância a 12 anos e 1 mês de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Segundo o levantamento, o parlamentar tem entre 20% e 23% das intenções de voto, mantendo o patamar registrado uma semana atrás em três dos quatro cenários testados. Bolsonaro conta com vantagem de pelo menos 10 pontos percentuais em relação ao adversário que aparece logo atrás nas simulações.

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A ex-senadora Marina Silva (Rede) pontua entre 13% e 8%, ao passo que o desempenho do ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT) varia de 8% a 10%. Alckmin, por sua vez, agora apresenta pontuação de 9% ou 10% das intenções de voto. Ontem, o tucano formalizou aliança com lideranças do chamado "blocão", grupo composto por DEM, PP, PR, PRB e Solidariedade, o que amplia seu espaço na televisão e rádio, além de dar maior capilaridade à candidatura nos estados.

Outro destaque do levantamento foi uma oscilação para baixo no percentual do grupo dos "não voto" nos quatro cenários de primeiro turno testados. Agora, brancos, nulos e indecisos somam entre 17% (com Lula) e 34% (sem candidato do PT) nos cenários estimulados e 59% no espontâneo, quando nomes de candidatos não são apresentados aos eleitores. Uma semana atrás, os respectivos percentuais eram de até 36% e 61%. A quase dois meses da corrida às urnas, o patamar atual ainda é considerado elevado, o que reforça o clima de indefinição da disputa.

A pesquisa também mostrou que cresceu o nível de atenção dos entrevistados sobre as eleições. Segundo o levantamento, 29% responderam estar muito interessados no que vai ocorrer no pleito de outubro. O resultado corresponde a um crescimento de 5 pontos percentuais em comparação com uma semana atrás. Outros 22% disseram estar mais ou menos interessados, uma oscilação negativa de dois pontos no mesmo comparativo. Já o percentual de desinteressados foi de 34% para 31%.

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Com os resultados dos cenários estimulados, se a eleição fosse hoje, não seria possível cravar quem seria o adversário de Bolsonaro em eventual disputa de segundo turno (apesar do bom desempenho, o militar da reserva está longe de ser presença garantida da disputa final). No cenário mais indefinido e que possivelmente melhor projeta a largada da corrida presidencial, quatro candidatos aparecem tecnicamente empatados: Marina Silva, Ciro Gomes, Geraldo Alckmin e Fernando Haddad, mediante apoio de Lula. O ex-prefeito de São Paulo salta do patamar de 2% das intenções de voto para 12% com a simples inclusão da informação de que seria o nome apoiado por Lula, em um exercício que testa o poder de transferência de votos do ex-presidente.

Confira os cenários de primeiro turno testados pela pesquisa:

Pesquisa espontânea: sem apresentação de nome dos candidatos

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Cenário 1: sem candidato do PT

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Cenário 2: com Fernando Haddad candidato pelo PT

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Cenário 3: com Lula candidato

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Cenário 4: com Fernando Haddad, "apoiado por Lula"

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Para ter acesso à estratificação dos votos dos candidatos mais votados em cada um dos cenários de primeiro turno testados, clique aqui.

Confira a série histórica das pesquisas XP/Ipespe.

Segundo turno

Assim como na última semana, foram testadas sete situações de segundo turno. Em eventual disputa entre Alckmin e Haddad, o tucano venceria por 36% a 22%, com 43% de brancos, nulos e indecisos. A diferença chegou a ser de 16 pontos percentuais a favor do candidato do PSDB na terceira semana de maio.

Em uma simulação de disputa entre Lula e Bolsonaro, o petista aparece à frente, com 40% das intenções de voto contra 34% do parlamentar, acima do limite máximo de margem de erro de ambos, e com 26% de brancos, nulos e indecisos. Três semanas atrás, a vantagem era de 6 pontos, o que configurava empate técnico. No início da série histórica, o deputado aparecia 2 pontos à frente, também em situação de empate técnico, já que, pela margem de erro (3,2 p.p.), o petista poderia até superá-lo.

Caso Bolsonaro e Alckmin se enfrentassem, a situação seria de empate técnico, com o deputado numericamente à frente por placar de 35% a 34%. É o maior patamar registrado pelo tucano nesta simulação e a menor diferença entre ambos. Brancos, nulos e indecisos somam 32%. A diferença entre os candidatos chegou a ser de 7 pontos percentuais na quarta semana de maio. Em nenhum momento até aqui o tucano liderou a disputa.

Em eventual disputa entre Marina Silva e Bolsonaro, o cenário também é de empate técnico, com a ex-senadora numericamente à frente por 36% a 34%. Brancos, nulos e indecisos somam 30%. O deputado esteve numericamente à frente nos dois primeiros levantamentos da série, realizados na terceira e quarta semanas de maio, quando a diferença chegou a ser de 6 pontos percentuais a seu favor, também dentro do limite da soma das margens de erro de ambos os candidatos.

Empate técnico também é observado na simulação de disputa entre Alckmin e Ciro, com o tucano numericamente à frente por 34% a 29%. A diferença nunca foi tão grande a favor do tucano neste cenário. Brancos, nulos e indecisos somam 37%. Na última semana de junho, os dois apareciam com 32% das intenções de voto cada. Já na primeira semana daquele mês, o pedetista esteve numericamente à frente por diferença de 3 pontos percentuais.

Se Bolsonaro e Ciro se enfrentassem em uma disputa de segundo turno, o cenário também seria de empate técnico (como nas últimas sete semanas), com o parlamentar numericamente à frente, com 34% das intenções de voto contra 32% do pedetista. Brancos, nulos e indecisos somam 34%. Nos dois primeiros levantamentos, o deputado vencia a disputa com diferença superior à soma das margens de erro dos candidatos.

Assim como no levantamento anterior, a pesquisa desta semana incluiu a simulação de segundo turno entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad. Neste cenário, o parlamentar venceria por 38% a 27% das intenções de voto. O grupo dos "não voto" soma 36%.

Rejeição aos candidatos

A pesquisa também perguntou aos entrevistados sobre os candidatos em que não votariam sob nenhuma hipótese. O líder em rejeição continua sendo Lula, com taxa de 60%, tecnicamente empatado com cinco outros possíveis candidatos: Ciro Gomes (58%), Geraldo Alckmin (58%), Marina Silva (59%) e Fernando Haddad (59%). A trajetória dos principais nomes nas últimas sete pesquisas está na tabela abaixo:

CANDIDATODE 11 A 13/06DE 18 A 20/06DE 25 A 27/06DE 02 A 04/07DE 9 A 11/07DE 16 A 18/07DE 23 A 25/07
Lula60%60%61%62%61%60%60%
Jair Bolsonaro52%53%52%52%54%53%55%
Marina Silva57%60%57%58%58%57%59%
Ciro Gomes56%60%59%59%60%59%58%
Geraldo Alckmin60%60%59%59%59%58%58%
Álvaro Dias41%45%48%48%47%47%48%
Fernando Haddad57%58%58%57%57%56%59%

Fonte: XP/Ipespe

Para acessar a íntegra desta e de todas as outras pesquisas, clique aqui.

Metodologia

A pesquisa XP/Ipespe foi feita por telefone, entre os dias 23 e 25 de julho, e ouviu 1.000 entrevistados em todas as regiões do país. Os questionários foram aplicados "ao vivo" por entrevistadores (com aleatoriedade na leitura dos nomes dos candidatos nas perguntas estimuladas) e submetidos a fiscalização posterior em 20% dos casos para verificação das respostas. A amostra representa a totalidade dos eleitores brasileiros com acesso à rede telefônica fixa (na residência ou trabalho) e a telefone celular, sob critérios de estratificação por sexo, idade, nível de escolaridade, renda familiar etc.

O intervalo de confiança é de 95,45%, o que significa que, se o questionário fosse aplicado mais de uma vez no mesmo período e sob mesmas condições, esta seria a chance de o resultado se repetir dentro da margem de erro máxima, estabelecida em 3,2 pontos percentuais. O levantamento está registrado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) pelo código BR-07756/2018 e teve custo de R$ 30.000,00.

O Ipespe realiza pesquisas telefônicas desde 1993 e foi o primeiro instituto no Brasil a realizar tracking telefônico em campanhas eleitorais, a partir de 1998. O instituto tem como presidente do conselho científico o sociólogo Antonio Lavareda e na diretoria executiva, Marcela Montenegro.


Merval Pereira: Mudanças em risco

A formalização do apoio dos partidos do centrão à pré-candidatura do tucano Geraldo Alckmin deu uma clareada na disputa presidencial, sem entrar no mérito se esse fato é bom ou mau para o futuro do país. Não se trata aqui de analisar conceitualmente essa união, que para muitos é um abraço de afogados. Outros acham que a candidatura tucana ganha substância e passa a ser competitiva.

O fato é que a adesão do centrão (ou será adesão ao centrão?) passará agora pelo crivo dos eleitores, e as pesquisas eleitorais mostrarão mais adiante as consequências dessa decisão.

Muitos eleitores tucanos rejeitarão esse conchavo partidário com legendas que abrigam investigados e indiciados na Lava-Jato, dando destaque ao inquérito a que o próprio Alckmin está submetido. Se bem que os tucanos há muito tempo lidam com as incongruências do partido, que se recusou a punir o ex-candidato à Presidência Aécio Neves, o que contaminou todo o resto.

Dependendo da intensidade dessa rejeição, quem pode se beneficiar é a pré-candidata da Rede, Marina Silva, que, no entanto, mais uma vez dá a sensação de não controlar seu próprio partido.

Delegar às direções regionais a decisão sobre acordos eleitorais, e ser surpreendida, como foi no Rio, com a aliança com o partido de Romário, que a própria Marina rejeitou, repete o voto do representante da Rede no impeachment de Dilma.

A Rede, depois de uma infindável discussão, resolveu apoiar a destituição da então presidente, mas seu representante na comissão votou contra.

Se, no entanto, a máquina eleitoral dos partidos que formam o centrão superar as eventuais rejeições do eleitorado, que pode reagir com pragmatismo diante da possibilidade de vitória de Bolsonaro ou do candidato da esquerda, o tucano Alckmin poderá se beneficiar do chamado voto útil antecipado, recuperando os votos que foram para Bolsonaro, especialmente no campo, e para Alvaro Dias nas regiões Sul e Sudeste.

A incógnita é a candidatura do PT que, de tanto ser retardada pelo projeto pessoal de Lula, não se sabe se será exitosa, pois os candidatos apresentados até agora não mobilizam o eleitorado.

Parece mais fácil aumentar o índice de votos nulos e em branco, além da abstenção, do que a transferência maciça de votos. Para que seu candidato chegue ao segundo turno será preciso que Lula transfira a ele pelo menos metade de sua votação potencial, que está em torno de 30% nas pesquisas confiáveis.

Colocar um poste com cerca de 15% no segundo turno parece tarefa difícil de concretizar, por mais carismático que seja o ex-presidente. O problema do PT é que os possíveis substitutos nada têm de carismáticos, e a lembrança do desastroso governo Dilma, poste que se recusou a deixar o poder para abrir caminho para a tentativa de volta de Lula em 2014, deve ter marcado não apenas o eleitorado, mas o próprio ex-presidente. Talvez por isso relute tanto a indicar um substituto.

A possibilidade de termos novamente a sexta disputa presidencial entre PT e PSDB, apesar de todos os pesares, demonstraria que as máquinas partidárias ainda são relevantes, e que a chance de uma renovação política é escassa.

Na verdade, a renovação não é um imperativo em si num sistema político-partidário maduro. Essa renovação só é desejável entre nós diante do descalabro de corrupção que está sendo revelado pela Lava-Jato, demonstrando que o sistema está falido e precisa de um aggiornamento para incluí-lo nos arranjos de modernidade necessários ao país. Essa atualização partidária depende, sobretudo, de ser reivindicada pelos cidadãos. Que só o farão quando ligarem causa e efeito, para o que é preciso uma política educacional com visão de futuro, mais eficaz e ampla.

Nem PT nem PSDB fizeram seu aggiornamento, ao contrário de alguns partidos europeus. O melhor exemplo sendo o Partido Comunista Italiano, que virou de esquerda democrática. Porém, se as máquinas partidárias, como acreditam petistas e tucanos, forem capazes de colocar seus representantes no segundo turno, vai ser difícil ao futuro presidente conseguir fazer uma verdadeira reforma político-partidária, que seria contrária aos interesses dessas máquinas e, no limite, aos do próprio presidente, eleito por elas.


Marco Aurélio Nogueira: Falando a sério sobre Alckmin

É sabido que o presidenciável Geraldo Alckmin, do PSDB, tem trunfos importantes para vencer a eleição: um partido, experiência política como gestor, estilo moderado, torcida do mercado e acesso à máquina pública paulista, que há 20 anos vem sendo por ele modelada.

Apesar disso, não decola nas pesquisas e é alvo de todo tipo de críticas e restrições. Sua defesa tem argumentado que a disputa só começará mesmo quando a propaganda for para o rádio e a TV, quando então a candidatura arrancará, já num contexto em haverá uma inevitável depuração dos candidatos menos competitivos. O candidato mostra confiança e determinação, procura comer pelas bordas, quase em silêncio, como bom político interiorano que é. Pode ser que tenha razão. Mas sua campanha flerta ininterruptamente com a crise.

Alckmin é visto como insípido, conservador nos costumes, excessivamente fiscalista e neoliberal em economia, desatento para a questão social. Suas seguidas gestões em São Paulo dividem opiniões: há quem aprecie e quem critique, mas a rigor não há ninguém que se derrame em elogios e amores. O ex-governador é um democrata, mas não é um político que desperte paixões. Há muita injustiça no modo como é visto.

Como candidato, vem tentando dissolver a imagem negativa que fazem dele. Gosta de ser comparado a um maratonista, que avança lentamente, poupando fôlego e energia, para dar um arranque final vitorioso. Confia que parte da massa de eleitores indecisos, que é enorme, migrará para ele às vésperas do pleito. Procura exibir indicadores de sucesso na administração paulista, números quase sempre questionados pela oposição e nem sempre devidamente compreendidos pela população. Vale-se, também, de uma conduta discreta e educada, que o faz ser tratado como um governante prudente, conciliador, flexível, que não carrega rancores nem ressentimentos, trabalha de forma colegiada e com equipes multipartidárias, integradas por diferentes correntes políticas.

Alckmin se apoia nesses dois blocos imagéticos, cada um dos quais contém boa dose de verdade. Seu entorno e mesmo diversos políticos e analistas acreditam que ele é o homem certo para o momento atual, graças à capacidade que teria de agregar pessoas e manter sob controle o timão do barco e a chave do cofre.

Mas Alckmin permanece estacionado nas pesquisas e parece destituído de poder de convencimento. Não conseguiu até o momento gerar entusiasmo entre os eleitores, nem obteve o apoio explícito dos partidos que poderiam tê-lo como opção. Algo que surpreende e merece reflexão.

Tem demonstrado enorme dificuldade para fixar uma posição nacional que o projete para a Presidência em nome de uma articulação democrática que dê sustentação a uma agenda reformadora que combine equilíbrio fiscal, crescimento econômico e igualdade social. Particularmente na dimensão da “questão social” e das “lutas identitárias”, ele não consegue ganhar impulso, como se estivesse travado pelo fiscalismo liberal. O empenho que teve em sanear as finanças públicas em São Paulo é interpretado como expressão de um garrote que sufocou as universidades públicas e as instituições técnicas da administração pública. Com isso, perde pontos preciosos entre a intelectualidade e os núcleos de ativistas.

Pode-se considerar, ainda, que a estratégia política por ele seguida em São Paulo não lhe favoreceu em nenhum momento. Primeiro porque foi o principal responsável pela ascensão de João Doria, que ajudou a eleger prefeito de São Paulo e agora, não só concorre ao governo do estado como faz uma espécie de sombra à candidatura de Alckmin. Obrigado a se equilibrar entre Dória, candidato do PSDB, e Márcio França, vice-governador (PSB) e seu aliado, Alckmin perdeu a exclusividade em São Paulo. Fomentou simultaneamente a reação dos que não gostam de Doria e a resistência do PSB. Foi um erro, a ser compartilhado com o partido e as correntes tucanas. De certo modo, Alckmin ficou emparedado em seu próprio estado, travando a indispensável projeção nacional.

Essa é uma das pedras que o mantém parado no mesmo lugar. Mas não é a única. Outras duas pedras também o atrapalham.

Uma é o desencanto da população com a política, fato que celebra o sacrifício de candidatos “excessivamente políticos”, que são vistos como corruptos e distantes dos problemas reais da vida cotidiana. Processo objetivo derivado da atual fase da globalização capitalista e da crise da democracia representativa, tal desencanto colou-se na pele de Geraldo e de praticamente todos os demais candidatos, dele escapando, a rigor, somente Marina Silva, e mesmo assim não por inteiro. Hoje parece cristalizada a tendência do eleitorado de torcer o nariz para candidatos identificados com o establishment político, em nome de uma vaga ideia de renovação. Fato que ajuda a explicar os indicadores das pesquisas que dão conta de um enorme contingente de eleitores sem candidatos, desinteressados e dispostos a anular o voto.

A segunda pedra é a crise do PSDB. Já faz tempo que o partido deixou de ser uma organização coesa. Suas alas se reproduzem com impressionante facilidade, ressentindo-se da falta de uma direção ativa e legitimada, de um corpo doutrinário atualizado e de um programa unificador. A ideia social-democrática, que serviu de inspiração para o surgimento do PSDB há trinta anos, já não é mais uma inspiração. O partido ainda tem bancadas expressivas, governa estados e cidades importantes, mas carece de vibração cívica e de ligações com a sociedade civil. Mesmo a intelectualidade que sempre emprestou apoio ao PSDB recuou, deixando o partido sem sustentação no plano do debate público. Sua longa temporada na oposição aos governos petistas não o fez mais forte, ao contrário, deixando no eleitorado a sensação de que o partido existe só para disputar o poder e não para oferecer uma perspectiva de Estado e sociedade para a população – problema idêntico ao que os tucanos identificavam no PT.

Em 2014, o PSDB perdeu a Presidência mas teve, paradoxalmente, sua maior oportunidade de reencontrar o eixo. A campanha de Aécio Neves ativou o sentimento antipetista e, no segundo turno, conseguiu articular uma ampla frente democrática de apoio. O candidato, porém, esteve sempre aquém dela, fez uma campanha pífia, sem vigor e identidade . Perdida a eleição, o partido nada fez para se reagrupar e ganhar energia. Pouco depois, as denúncias de corrupção contra Aécio não conseguiram ser processadas, retirando do partido a imagem ética e moral que sempre exibiu. Com o início do governo Temer, mais indefinições, num cenário em que se esperava que o PSDB funcionasse como o fator de estruturação do ministério e da atuação governamental.

Tudo isso empurrou o PSDB para a periferia do sistema. A postulação ética, cara ao partido, se dissolveu e ficou em suspenso. As seguidas denúncias de corrupção em obras no estado de São Paulo completaram o quadro, descarregando um caminhão de problemas na candidatura de Alckmin.

Com todas essas pedras bloqueando a estrada, não é de surpreender que Geraldo Alckmin permaneça estagnado. Faltando três meses para as urnas, muita coisa poderá mudar, mas a sensação é que aquilo que se cristalizou dificilmente será superado.

O candidato tucano tem a seu favor uma conhecida folha de serviços e boa estrutura de campanha (que poderá se traduzir em importante recurso governamental no caso de uma vitória), mas paga um alto preço pelos descaminhos e tropeços do PSDB. Enfrenta problemas de indefinição programática, não deixou claro que caráter terá seu eventual governo e, para complicar, não se reveste de uma fantasia cívica e democrática que mobilize a população.

Nessa marcha, corre o risco de chegar à fase decisiva das eleições sem conseguir sair do lugar.


Folha de S. Paulo: Aposta de Alckmin é ir para 2º turno com o PT

Tucano acredita que o candidato apoiado por Lula desidratará Ciro, e que parte dos votos de Bolsonaro irá para ele

Marina Dias, da Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - Três dias antes de o centrão chancelar o apoio a seu nome na disputa pelo Palácio do Planalto, Geraldo Alckmin (PSDB) fez o cálculo político mais importante de sua pré-campanha: como de costume, resolveu esperar.

Desistiu de um encontro que estava marcado para a segunda-feira (16) com Álvaro Dias (Podemos), que também concorre à sucessão de Michel Temer. Na conversa reservada, ofereceria ao ex-colega de partido a vaga de vice na sua chapa à Presidência.

Avaliou, porém, que o movimento –inicialmente programado para evitar um possível isolamento partidário– poderia romper de vez suas pontes com o chamado centrão.

Naquele momento, o grupo formado por DEM, PP, PRB, PR e Solidariedade ainda estava dividido entre avalizar Alckmin ou apoiar Ciro Gomes (PDT), em uma jogada que levaria o bloco a um campo pouco vivenciado por ele: a esquerda.

A habitual paciência do ex-governador de São Paulo, atrelada a conversas individuais que teve com dirigentes do grupo no início da semana, surtiram efeito. Na tarde de quinta-feira (19), o centrão decidiu fechar acordo com o tucano.

O acerto deu sobrevida à candidatura de Alckmin e força à sua principal tese: o candidato apoiado pelo ex-presidente Lula desidratará Ciro Gomes e a disputa deste ano será, mais uma vez, polarizada entre PT e PSDB.

Em sua segunda tentativa de chegar ao Planalto, Alckmin considera que precisa recuperar o espaço que perdeu para Jair Bolsonaro (PSL), principalmente no eleitorado jovem e rico, se quiser voltar à tradicional formatação das eleições presidenciais desde 1994 –e a aliança com o maior bloco de partidos entre os concorrentes pode ajudá-lo.

Com estrutura nos estados, prefeitos e parlamentares engajados na campanha, além dos cerca de 4 minutos e meio que terá na propaganda eleitoral na TV, Alckmin acredita que vai conseguir sair dos 7% que tem há meses nas pesquisas.

Na ponta dos levantamentos, pretende encontrar, no meio de setembro, o adversário petista lançado e apoiado por Lula, que, preso há três meses em Curitiba, lidera as pesquisas com 30%.

Os cotados como plano B do PT, Fernando Haddad e Jaques Wagner, têm apenas 1% quando Lula não aparece na disputa, mas o potencial de transferência de votos do ex-presidente é significativo.

Segundo o Datafolha, 30% das pessoas dizem votar em um candidato apoiado por ele, enquanto 17% afirmam que talvez votariam.

A aliados Alckmin admite que a estratégia do PT de levar a candidatura de Lula até o limite, a despeito do veto imposto pela Lei da Ficha Limpa, é "a melhor possível", porque preserva de ataques dos adversários o nome que será escalado para substituir o ex-presidente nas urnas.

Além disso, o tucano acredita que, quanto mais perto do primeiro turno, mais eficaz será o potencial de transferência de votos do petista.

A aposta de Alckmin é pragmática: em um eventual segundo turno contra o PT, ele receberia parte dos votos de Bolsonaro –que hoje lidera a corrida ao Planalto na ausência de Lula–, principalmente pelo discurso antipetista.

O tucano acredita que, em uma eleição tão fragmentada como esta, será muito difícil um nome alinhado à esquerda ficar fora do segundo turno.

Para duelar com esse personagem, no entanto, precisa de impulso para chegar ao primeiro pelotão das pesquisas.

A receita, dizem seus auxiliares, além do amplo tempo de TV, será atacar frontalmente Bolsonaro, apontando contradições e mostrando o que dizem ser "nítido despreparo" do capitão reformado.

Alckmin pediu que sua equipe fizesse uma espécie de inventário de fracassos da ditadura militar, exaltada por Bolsonaro como um período em que o país crescia com ordem social. O tucano quer um levantamento sobre o número de estatais daquela época, além dos índices de inflação, que dispararam na década de 1980, no fim da ditadura.

Com o material em mãos, pretende atacar sistematicamente o presidenciável do PSL e mostrar inconsistências em seu discurso, reforçando que ele não está preparado para governar o país.

Até agora, aliados e parte do mercado –antes simpática ao PSDB– estavam céticos quanto à viabilidade do ex-governador de São Paulo.

Além do centrão, o tucano deve ter o apoio de PSD, PTB, PPS e PV e, assim, somar os valiosos 4 minutos e meio na TV. O PT, por ora sozinho, tem perto de 1 minuto e 35 segundos.


Luiz Weber: O candidato bombado

Geraldo Alckmin (PSDB) recorreu ao mercado de anabolizantes da política

Geraldo Alckmin tomou uma injeção de PMMA. De um dia para outro inflou. Ficou na aparência competitivo na disputa pelo Planalto (apesar dos 7% de preferência do eleitorado, segundo o Datafolha).

Projeta-se maior após receber doses cavalares de tempo de TV fornecidas pela aliança com DEM, PP, PR, PRB e SD. Uma sopa de letras tão letal quanto a sigla que identifica o silicone usado em cirurgias estéticas.

Magro nas pesquisas, Alckmin recorreu ao mercado de anabolizantes da política (só a base de muita metáfora para entender isso). Para tanto, procurou o líder do PR, o mensaleiro condenado Valdemar Costa Neto.

Valdemar é um Dr. Bumbum da política. Opera na semiclandestinidade, carrega seu estoque tóxico de fisiologismo para inocular nos aliados de ocasião. E está pronto para sair de cena tão logo algo dê errado na coligação siliconada.

Se o tucano —mesmo com um bom naco de TV— não crescer, o PR e alguns associados vão escapar do flagrante e atuar noutra frente.

Assim, flácido, Alckmin vai sofrer as dores de um crescimento artificial e malformado. Pode vir a claudicar em plena campanha. Pior, terá negligenciado a prática de exercícios obrigatórios que sempre fizeram parte do núcleo duro do PSDB e que garantiam a coesão e musculatura do partido mesmo na oposição. Responsabilidade fiscal, reforma do Estado, desaparelhamento, não são o forte desse grupo.

Não se faz política sem alianças ou cavalgando um moralismo extremado. Mas a falta de empuxo da candidatura de Alckmin nesta fase tornou-o presa dos interesses oportunistas dos novos aliados. Já se fala nos bastidores em divisão do butim se o tucano for eleito.

Eleição sem doping, isto é, sem réus da Lava Jato, sem caixa 2, sem fisiologismo, parece ser essa a demanda reprimida do eleitorado. Ao concorrer dopado pelo centrão, Alckmin pode até largar bem, mas, se vai chegar inteiro numa corrida de obstáculos como uma eleição presidencial, é outra história.

* Luiz Weber é secretário de Redação da Sucursal de Brasília, especialista em direito constitucional e mestre em ciência política.


Alberto Aggio: Os movimentos da política e a candidatura Alckmin

A política tem dimensões longas e curtas. De um ponto de vista longo, a política que defende transformações para o país pensa na chave analítica e propositiva de um Polo Democrático e Reformista que recentemente foi apresentado e estabelece suas balizas de maneira clara no rumo da defesa da democracia e da realização de uma ampla reforma do Estado. De um ponto de vista mais curto, estamos adentrando aos momentos decisivos da campanha eleitoral que em outubro decidirá quem vai ser o novo presidente e qual será a configuração do novo Congresso e das Assembleias estaduais.

Esse pequeno texto visa incidir, de forma breve, ao acontecimento que, encerrando a semana, orienta os movimentos da disputa presidencial dos principais candidatos que até agora se apresentam à disputa. Trata-se de considerar alguns pontos sobre o apoio do chamado Centrão ao candidato Geraldo Alckmin (PSDB).

1. Em primeiro lugar, me parece importante anotar que se trata de uma decisão defensiva desse grupo. Ele esperava ter candidato próprio, o que não vingou. Não aceitou ou não cedeu, nem mesmo ao candidato do governo por vê-lo sem nenhuma chance. Aos trancos e barrancos, como não poderia deixar de ser, tentou negociar com Ciro. Abriu-se uma série de dúvidas e predominou a confusão e a divisão. Por fim, decidiu por apoiar Alckmin porque vê nele a possibilidade de vencer as eleições e poder influenciar num futuro governo, mesmo sabendo de que isso não será fácil. No frigir dos ovos, o chamado Centrão fez uma opção defensiva, quase entrando na prorrogação do tempo normal da partida.

2. Esse Centrão não é igual àquele da Constituinte. Esse Centrão poderia aderir à extrema-direita e apoiar Bolsonaro, mas conhece as tradições da politica brasileira e vislumbrou o desastre que poderia ser uma posição como essa. Mas é preciso anotar também: esse Centrão é outra coisa: sabe fazer o jogo do poder, sabe se manter vivo e não perder espaço. É uma direita que emergiu com a democracia e na democracia. Sim, na democracia existem direitas políticas nos países mais avançados; faz parte da sua legitimidade. Portanto, esse Centrão não é a direita bolsonarista e vir para junto de Alckmin significa aprofundar o isolamento da extrema direita, o que é altamente positivo para a democracia. Uma operação como essa mostra que essa é uma direita que veio para ficar, mesmo que hoje se apresente de forma difusa, inclinada à corrupção (que o PT albergou de forma integral) e em busca de um discurso próprio que hoje se coloca mais entre os outsiders liberais.

3. Para as forças democráticas, que se encontram divididas e buscavam uma alternativa competitiva em termos quantitativos e estruturais, neutralizar parte da direita e trazê-la para o campo da democracia e das reformas, isolando-a especialmente da extrema direita, é um ganho eleitoral e político notável. Esse movimento não está completo e espero que isso se efetive nos próximos dias. Atuar estabelecendo seus princípios e horizontes, se fixar neles, sem ver o cenário, os outros atores e não influenciar nos seus movimentos é um erro crasso em política.

4. Geraldo Alckmin é pré-candidato do PSDB e já contava com o apoio de alguns partidos. Poderá ampliar esse apoio ainda mais com o Centrão. Alckmin sempre foi acusado de “jogar parado”, mas isso não é inteiramente certo. Seus movimentos nem sempre são detectados pelos radares mais atentos. O fato é que, ao que tudo indica, o Centrão é que foi a Alckmin e não o inverso, como dissemos acima. Por outro lado, Alckmin é um político tradicional no contexto da democratização brasileira. É um político de centro, um democrata-cristão ao velho estilo, como foi Franco Montoro (não estou dizendo que ambos têm políticas públicas idênticas, pois os tempos são outros).  Alckmin tem experiência política e administrativa suficiente para montar um governo de grande coalizão, refazendo a frente que se formou e se conectou com as ruas no processo do impeachment de Dilma Rousseff. Tem tudo para retomar a ligação entre governo, democracia, esperança e mudança. Não tem nada a ceder ao Centrão que o próprio Centrão já não saiba e não tem nada a mudar no programa já alinhavado pela sua campanha. Em termos políticos, o Centrão optou por Alckmin, não o contrário.

5. A esquerda democrática ganhou algum protagonismo recentemente com o lançamento do Manifesto Por um Bloco Democrático e Reformista. Seus apoiadores, que vão além da esquerda democrática, devem, a meu juízo, dar sustentação a essa ampliação do apoio eleitoral à candidatura Alckmin e trabalhar como uma verdadeira vertente de centro-esquerda nessa grande coalizão. Devem estar atentos para o fato de que sem essa grande coalizão as possibilidades de vitória são remotas. Alckmin pode ser efetivamente um candidato desse Bloco, mas não será certamente o candidato apenas desse Bloco. Como todos sabemos, o campo democrático no Brasil, é bom que se diga, vai além da candidatura Alckmin, mas será um equívoco enorme imaginar que, inclusive com essa ampliação vinda do Centrão, a candidatura Alckmin perde a legitimidade de fazer parte do campo democrático. Penso justamente o contrário.

6. Por fim, caso essa grande coalizão vença, ela deverá fazer um governo democrático, dentro do que foi e do que será possível construir na atual conjuntura brasileira e mundial. Governos democráticos existem com diversos perfis de alianças políticas ao redor do mundo e nas grandes democracias.  Alckmin tem de deixar claro isso no seu programa mínimo e ele sabe precisamente quem o está apoiando. Não há nenhuma razão para Alckmin entrar na velha política do toma-lá-dá-cá. A boa noticia é que o Centrão sabe quem é Alckmin e tanto ele quanto nós também sabemos porque o Centrão vacilou até agora em definir seu apoio. Mas essa história apenas começou.


O Estado de S. Paulo: Centrão se afasta de Ciro e fecha apoio a Alckmin

Apoio ao pré-candidato do PSDB foi definido após o PR acertar que indicará o vice

Por Felipe Frazão e  Vera Rosa, de O Estado de S. Paulo.

BRASÍLIA - Na véspera da convenção que vai oficializar a candidatura de Ciro Gomes (PDT) à Presidência, o Centrão mudou de lado e decidiu fechar aliança com o ex-governador Geraldo Alckmin, pré-candidato do PSDB. A reviravolta de última hora, isolando Ciro, ocorreu depois que o PR, chefiado pelo ex-deputado Valdemar Costa Neto, se juntou ao bloco formado por DEM, PP, Solidariedade e PRB.

Em reunião realizada ontem, em São Paulo, dirigentes do Centrão disseram a Alckmin que, se não houver nenhum obstáculo no meio do caminho, o acordo será anunciado oficialmente no dia 26. O candidato a vice na chapa do tucano será o empresário Josué Gomes da Silva (PR), filho do ex-vice-presidente José Alencar, morto em 2011.

No mercado eleitoral, o apoio do Centrão é visto como muito importante na disputa pelo Palácio do Planalto. Juntos, os partidos têm no mínimo 4 minutos e 12 segundos por dia no horário eleitoral de rádio e TV, que começa em 31 de agosto. O PR dispõe de mais preciosos 45 segundos. Na Câmara, esses partidos abrigam uma bancada de 164 deputados, dos atuais 513.

A mudança do bloco, que até os últimos dias estava inclinado a avalizar a candidatura de Ciro, foi resultado da soma de fatores políticos. O peso maior, porém, é atribuído a Valdemar, que atuou como uma espécie de fiel da balança no bloco e exigiu uma composição com Josué de vice.

Alckmin cancelou compromissos em Montes Claros (MG), ao lado do senador Antonio Anastasia – pré-candidato do PSDB ao governo de Minas – para conversar ontem com representantes do Centrão. Diante da resistência do Solidariedade à aliança com Alckmin, o ex-governador se comprometeu a avaliar uma forma de compensar o fim do imposto sindical. “Vamos governar juntos. Ninguém faz política sozinho”, disse ele.

Antes do acordo, o PR negociava apoio ao deputado Jair Bolsonaro, presidenciável do PSL, que está em primeiro lugar nas pesquisas em cenário sem a participação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado e preso da Lava Jato, na disputa eleitoral. Como a dobradinha com Bolsonaro não vingou, Valdemar se juntou ao Centrão.

Um jantar com integrantes do bloco, na casa do senador Ciro Nogueira (PP-PI), na quartafeira, praticamente selou o destino do grupo. Ali, Valdemar manifestou preferência por Alckmin, mas disse que seguiria a posição dos colegas, qualquer que fosse.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), estava no Chile e não participou do jantar, mas foi consultado por telefone. De volta, foi anfitrião de um café da manhã com o bloco ontem, em sua casa. Ouviu as ponderações de Valdemar e percebeu que não tinha maioria nem no DEM para o aval a Ciro.

Além disso, declarações do pré-candidato do PDT – consideradas desastradas –, como o xingamento a uma promotora de Justiça, na ação movida por injúria racial em declaração crítica ao vereador paulistano Fernando Holiday (DEM), contribuíram para o Centrão ficar com receio de marchar com ele.

Discurso. Pesou ainda contra Ciro o fato de ele não ter conseguido manter uma retórica alinhada com o que os liberais do Centrão acreditam. A pedido de Maia, o economista Claudio Adilson Gonçalez se reuniu com Mauro Benevides, responsável pelo programa econômico da campanha do PDT, e saiu da conversa dizendo que a linha de pensamento “não é conciliável”. Afirmou também que o discurso de Ciro é “perigoso e desestabilizante”. Outro fato que irritou o Centrão foi a crítica do presidenciável do PDT ao acordo da Embraer com a Boeing, chamado por ele de “clandestino”.

Além de oferecer Josué como vice, o bloco exigiu como condição para o apoio a recondução de Maia à presidência da Câmara, se o deputado e Alckmin forem eleitos. O tucano aceitou.

Na quarta-feira, o ex-governador elogiou o filho de José Alencar. “Josué é uma pessoa pela qual tenho grande estima”, disse Alckmin.


Foto: Beto Barata\PR

Augusto de Franco: Os democratas na beira do precipício

Uma análise das alternativas eleitorais do campo democrático

Umas das deficiências “genéticas” dos democratas é não perceberem com antecedência os perigos para a democracia. Foi assim que FHC – que é um democrata – não viu o perigo que Lula poderia representar. É assim agora com muita gente que não está vendo claramente o perigo Bolsonaro. Ou o perigo da volta do PT (com candidato próprio e/ou apoiando tácita ou explicitamente o nacionalista retrógrado Ciro Gomes). Ou o processo de captura da disputa política pelo campo autocrático que está em curso e que pode se consumar caso se estabeleça uma polarização entre duas candidaturas iliberais (no sentido político do termo, quer dizer, estatistas) no primeiro turno das eleições de 2018: Ciro ou alguém do PT x Bolsonaro.

Essa deficiência é antiga: os democratas atenienses, no século 5 a. C. não conseguiram prever os dois golpes que a democracia nascente sofreu por parte dos oligarcas (em aliança com os espartanos). E foram golpes sangrentos, que instalaram a Ditadura dos 400 e a Ditadura dos 30 (esta última conseguiu matar, em 8 meses, mais gente do que toda a primeira fase da Guerra do Peloponeso). Só foram acordar quando esses autocratas (chamados na época de patriotas – foi aí, aliás, que o termo foi cunhado, para designar que queriam a volta “do regime dos nossos país”), contando inclusive com gente da entourage de Sócrates, tentaram dar um terceiro golpe.

Ao longo da história, depois que os modernos reinventaram a democracia, a mesma deficiência se manteve: pode-se citar os casos da ascensão de Mussolini na Itália e do partido nazista, na Alemanha (mas também em vários países de Europa das décadas de 20 e 30 do século 20) cujos perigos, no início, não foram percebidos.

E a deficiência continuou. Assim como a democracia não tem proteção eficaz contra o discurso inverídico e nem contra o uso da democracia (notadamente das eleições) contra a própria democracia, os democratas têm uma miopia congênita para perceber os sinais fracos de que um processo de autocratização está em curso. Agora mesmo, no Brasil de julho de 2018, não estão conseguindo avaliar corretamente os perigos do bolsonarismo (vença ou não Bolsonaro as eleições de 2018) ou da volta da esquerda autocrática ao poder.

Examinemos as alternativas no campo democrático, ou seja, no campo das forças políticas que não são iliberais (no sentido político do termo). Neste campo temos como pré-candidatos: Geraldo Alckmin, Álvaro Dias, João Amoedo, Henrique Meirelles, Paulo Rabello, Flávio Rocha e (embora isso ainda seja controverso) Marina Silva.

Geraldo Alckmin
O problema com Alckmin não é, nunca foi, falta de competência administrativa. Isso todo mundo sabe que ele tem. Também não é a corrupção: até agora não há nada consistente contra o ex-governador de São Paulo. Por último, não é, igualmente, seu desapreço pela democracia: ele sempre atuou dentro dos marcos do Estado de direito.

O problema com Alckmin é de outra ordem: em parte, falta de inteligência política e, em parte, uma dificuldade de conquistar a simpatia do eleitorado e de infundir entusiasmo nos que poderiam apoiá-lo. Claro que se Alckmin se revelar o candidato que tem mais condições de quebrar a polarização, no primeiro turmo, entre dois candidatos do campo autocrático (Ciro ou alguém do PT x Bolsonaro), devemos ir de Alckmin. O mesmo vale para João Amoedo, Meirelles, Álvaro Dias, Paulo Rabello, Flávio Rocha e Marina (de preferência se conseguir se desvencilhar da mentalidade petista, se comprometer com as reformas e prometer que não indicará nenhum petista para compor seu governo).

A questão é: até quando podemos – os democratas – esperar por isso? A resposta padrão, de que Alckmin só vai crescer quando começar o horário eleitoral gratuito na TV e no rádio, não está mais colando. As pessoas estão percebendo que isso é uma maneira de produzir um fato consumado. Quando a curta campanha estiver na metade e se Alckmin não crescer, a resposta será a mesma: dirão que só na segunda metade da campanha ele vai crescer.

Muitos também se perguntam de que adiantou queimar João Dória (que tem, inegavelmente, mais facilidade para atrair o eleitor). Alguns perceberam a incoerência do argumento para desqualificar Dória, dos que diziam que ele não cumpriu até o fim o seu mandato de prefeito (curiosamente os mesmos que não criticaram Serra por ter feito igual).

Para resumir, o grande problema que temos agora é o seguinte: se Alckmin – o candidato do campo democrático com mais estrutura – não crescer, se Dória não puder mais substituí-lo, se Amoedo, Meirelles, Dias, Rabello, Rocha e Marina também não crescerem (ou não cumprirem os requisitos mínimos para ser apoiados pelos democratas, como o compromisso com as reformas), caminharemos em marcha batida para o cenário do horror, com a disputa política capturada pelo campo autocrático e os democratas sendo alijados da cena pública? Este o drama que estamos vivendo. É como estar na beira do precipício.

Álvaro Dias
Álvaro Dias também pode ser colocado no campo democrático, ainda que – provavelmente por oportunismo eleitoreiro – namore com o jacobinismo restauracionista dos instrumentalizadores políticos da operação Lava Jato (e queira representá-la). Mas a Lava Jato, como operação jurídico-policial do Estado de direito, não pode ter candidato. E ainda que alguns integrantes da força-tarefa de Curitiba sejam simpáticos à candidatura de Álvaro Dias, o resultado objetivo da campanha indireta que fazem, quando se comportam como atores políticos, leva necessariamente ao bolsonarismo.

Cabe aqui abrir um parêntesis sobre a instrumentalização política da Lava Jato. A insistência dos seus operadores em propagar que todo sistema político é corrupto e não tem mais conserto é uma mensagem perigosa para a democracia na medida em que será entendida pelos eleitores da seguinte maneira: temos de eleger uma pessoa honesta, capaz de fazer uma limpeza geral e recolocar ordem na casa. Os instrumentalizadores políticos da Lava Jato escondem, porém, que judiciário e ministério público fazem parte do establishment e apontam suas baterias para o parlamento (o poder, por excelência, da democracia) e para o executivo. Como se juízes e procuradores possuíssem um gene diferente, que os protegesse da corrupção que assola todos os demais poderes.

Álvaro Dias tem poucas chances eleitorais: forte na região Sul (especialmente no seu estado, o Paraná), é praticamente desconhecido nas outras regiões do país. E até agora não deu mostras de ter compreendido a gravidade do problema. Tanto é assim que continua refratário (ou pouco entusiasmado) com as tentativas de se buscar uma unidade do campo democrático no primeiro turno. Está de costas para o abismo, mas também na beira do abismo.

João Amoêdo
É imperativo agora unir os democratas para impedir a volta do PT ou a ascensão de projetos autoritários como o de Ciro ou de Bolsonaro. Isso inclui Amoedo e seu partido chamado Novo.

Mas a insistência do Amoêdo em dizer que só o Novo é coerente porque não aceita financiamento público de campanha denuncia uma vontade de se auto-afirmar, acumulando forças para o crescimento do seu futuro partido, de corte mais liberal (ainda que num sentido rebaixado, quase que exclusivamente econômico do termo, quando o que importa para a democracia é o liberalismo-político).

É claro que financiamento público de campanhas é incorreto (mas não ilegal). O financiamento deveria ser privado (incluindo contribuições de empresas, dentro de certos limites, o que era permitido e só recentemente foi tornado ilegal).

A postura de Amoêdo de afirmar intransigentemente seus princípios seria legítima se não decorresse de uma leitura equivocada da conjuntura, que não vê os perigos reais que ameaçam a democracia neste momento, não no futuro. Vê a árvore, mas não vê a floresta. Quando Amoêdo ataca todos os demais candidatos que estão no campo democrático (porque aceitam financiamento público de campanha), elimina a possibilidade de alianças (o que é próprio do jogo democrático). E revela um egoísmo de candidato, de projeto e de partido, que não entende que não precisamos de uma saída em 2022 ou 2026 e sim agora, em 2018.

O partido chamado Novo é importante, mas – sozinho – ainda não é uma alternativa concreta agora (aliás, sozinho, mesmo que vença as eleições, ninguém poderá governar). Pelo menos ainda não há nenhuma indicação concreta disso. Se houver, se Amoêdo tiver mais condições de impedir uma polarização, no primeiro turno, entre Ciro (ou algum outro apoiado pelo PT) x Bolsonaro, então vamos todos, os democratas, de Amoêdo. Do contrário, não podemos votar em Amoedo só porque ele quer fazer seu nome para disputar o mercado futuro da política, caindo no cenário do horror de ter de escolher, no segundo turno de 2018, Ciro (ou outro apoiado pelo PT) ou Bolsonaro. A democracia brasileira não aguenta esperar 4 ou 8 anos por Amoêdo (até que ele tenha condições de vencer sozinho).

Henrique Meirelles, Paulo Rabello e Flávio Rocha
Embora se situem no campo democrático esses candidatos ainda não conseguiram dizer claramente aos eleitores a que vieram. Meirelles é um nome indiscutível, para cuidar da área econômica de qualquer governo democrático. Paulo Rabello, nem tanto. E Flávio Rocha, ao abraçar uma pauta liberal em economia e conservadora nos costumes (para disputar com o bolsonarismo ou com a chamada “nova direita”), não dá mostras de que conseguirá empolgar as pessoas comuns que não são simpáticas à candidatura de Jair Bolsonaro. Os três devem ser aproveitados em qualquer coalizão eleitoral democrática, mas sozinhos têm poucas chances.

Marina Silva
Marina – de todos os citados que não estão no campo autocrático (e nisso há muito controvérsia) – é a mais ligada à mentalidade petista. Seu partido no Congresso (durante o processo do impeachment, em 2016) defendeu Dilma e o PT com mais afinco do que os próprios petistas (via seus líderes na Câmara, Molon e, no Senado, Randolfe – e este último continua na tal Rede). E Marina, com perdão da blague, permaneceu durante todo esse tempo como uma Submarina (pois jamais veio a público desautorizar os líderes parlamentares de seu partido chamado Rede).

Além disso, para que ficasse claro que Marina está indiscutivelmente no campo democrático, seria necessário que ela se comprometesse com as reformas (o que não fez até agora de modo enfático) e pare de falar que governará com gente de todos os partidos (mesmo porque isso não é verdade: todos sabem que ela tenderá a indicar militantes do PT e que não indicará ninguém do partido do Bolsonaro, por exemplo – e neste caso está certa).

O problema de fundo é que Marina – e, mais do que ela, o seu partido chamado Rede – é de esquerda. Isso é um problema porque por mais que alguns anseiem por uma “esquerda democrática”, a esquerda realmente existente no Brasil de hoje não está mais no campo democrático.

Claro que se a alternativa mais viável for Marina para barrar o cenário do horror (Ciro ou alguém do PT x Bolsonaro), impõe-se para os democratas o voto nela. Mesmo sabendo que sua mentalidade continua fronteiriça (entre o campo democrático e o campo autocrático de esquerda).

É fácil verifica isso. Em entrevista às Páginas Amarelas da Veja (edição de 27/06/2018), Marina afirmou o seguinte:

“Focar no Lula é reducionismo. Temos, além do ex-presidente, o Michel Temer, o Aécio Neves, o Romero Jucá, o Renan Calheiros… A única diferença é que um está preso e os outros não”.

A “única diferença”, camarada?

O que ela está nos dizendo é que Mussolini é a mesma coisa que Berlusconi, Hugo Chávez é a mesma coisa que Rafael Caldera, Salazar é a mesma coisa que José Sócrates ou que o Hezbollah é a mesma coisa que o PCC. Ou seja, segundo Marina, a corrupção com motivos estratégicos de poder de um Lula, de um Dirceu, de um Vaccari é igual à corrupção endêmica na política, de um Cunha, de um Alves, de um Geddel. Mas para mostrar uma certa injustiça (da justiça) ela cita os que não estão presos: Temer, Aécio, Jucá e Calheiros.

Acontece que a corrupção com motivos estratégicos de poder é um ataque direto ao coração da democracia, enquanto que a corrupção tradicional, endêmica nos meios políticos, provoca uma degeneração do sistema político, por certo, mas não altera necessariamente o DNA do regime. Depois de Berlusconi, a Itália continuou sendo uma democracia, depois de Mussolini, não. Depois de José Sócrates, Portugal continuou sendo uma democracia, depois de Salazar, não. Depois de Caldera, a Venezuela continuou sendo uma democracia, depois de Chávez (e seu sucessor Maduro), não.

Essa é a tese para livrar a cara do PT, inventada por Thomaz Bastos e Malheiros e usada por Lula: o PT só fez o que todo mundo faz. É falso. Tentar fazer a “revolução pela corrupção” (para usar uma expressão do saudoso poeta Ferreira Gullar, que percebeu o ardil) é muito diferente de roubar para enriquecer e se dar bem na vida. Ainda que ambas sejam condenáveis, os riscos são muitos diferentes para a democracia. E ainda que o PT tenha praticado as duas formas de corrupção ao depositar seus ovos dentro da carcaça podre do velho sistema político.

Conclusão

Dada a gravidade da situação não cabe aos democratas fazer muitas restrições aos candidatos do campo democrático. A questão agora não é a de escolher o melhor: o candidato que tenha o programa mais consistente, o mais capacitado gestor, o líder mais brilhante.

A orientação agora parece ter ficado clara e pode ser resumida na frase:

PT nunca mais. Ciro ou Bolsonaro, jamais.

Qualquer um do campo democrático que tiver chances reais de quebrar a polarização, no primeiro turno (pois no segundo, já era), entre dois candidatos do campo autocrático (Ciro ou alguém do PT x Bolsonaro) servirá. Ainda é cedo para fazer essa escolha, pois nenhum dos candidatos citados reúne tais condições. Mas já passou da hora de articular um polo democrático e reformista que seja capaz de unir os democratas para evitar o desastre anunciado.

O bolsonarismo continua crescendo, em parte subterraneamente (e ele, como corrente de opinião, é muito mais perigoso do que o oportunista eleitoreiro chamado Jair Messias Bolsonaro). Se o caos se instalar – na esteira das tentativas de destruição do atual governo e das candidaturas do campo democrático mais viáveis – é possível até que Bolsonaro vença no primeiro turno. Ciro ou alguém do PT ungido por Lula (provavelmente Haddad) também crescerá (ainda que com menos chances de levar no primeiro turno). O mais provável é que, não havendo uma alternativa democrática forte, consistente e com alta visibilidade, ainda no primeiro turno, a situação se polarize entre dois projetos populistas (ambos estatistas): o neopopulismo lulopetista de esquerda (ou o nacionalismo-retrógrado cirista, também de esquerda) versus o populismo-autoritário bolsonarista de direita. Este é o cenário do horror, que alijará os democratas da cena pública.

O grande problema é que os democratas ainda não perceberam que estamos na beira do precipício. E que, se não fizerem nada – agora, não depois que começar a propaganda eleitoral gratuita no rádio e TV – a democracia brasileira vai cair num abismo profundo, do qual não sairemos em menos de uma década (ou, talvez, de uma geração). (Dagobah-Inteligência Democrática – 06/07/2018)


Ricardo Noblat: Temer e Alckmin, tudo a ver

Em gestação, o pacto Pindamonhangaba-Baixada Santista

Depois que se reuniu em São Paulo, na semana passada, com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a qualquer momento o presidente Michel Temer deverá fazer o mesmo com o ex-governador Geraldo Alckmin, candidato do PSDB à sua sucessão.

Por mais que negue ter desistido de se candidatar à reeleição, Temer parece convencido que o melhor que tem a fazer é tentar costurar uma aliança entre o PMDB e o PSDB para evitar a fragmentação da centro-direita nas eleições de outubro. Só assim não perderá relevância.

Pode estar nascendo o pacto Pindamonhangaba (Alckmin)-Baixada Santista (Temer), para desgosto de Rodrigo Maia (DEM) e Henrique Meirelles (PMDB). Se o pacto sair, a candidatura de Alckmin ganhará robustez e tempo suficiente de propaganda no rádio e na televisão.

Temer não cobrará de Alckmin que defenda seu governo impopular. Ficará satisfeito se ele não o criticar. Alckmin poderá em público manter distância de Temer, desde que pregue a continuação de reformas que ficaram pela metade e a realização de outras que nem saíram do papel.

Até 5 de agosto, fim do prazo para que os partidos lancem candidatos às eleições de outubro, Alckmin procurará se compor também com o senador Álvaro Dias (PODEMOS-PR), que sonha com a vaga de Temer. Dias represa cerca de 5 milhões de votos que poderiam ser de Alckmin.

O DEM de Maia acabará naturalmente se aliando ao candidato do PSDB por afinidade de pontos de vista e falta de candidato viável à presidência da República. E a ele se renderão finalmente outras legendas como o PP de Ciro Nogueira e o PR do ex-mensaleiro Valdemar Costa Neto.

Só então o jogo começará para valer.


Merval Pereira: O dilema de Alckmin

O candidato do PSDB à Presidência, ex-governador paulista Geraldo Alckmin, vive um dilema que pode ser fundamental para sua campanha: aproximar-se do PMDB para se beneficiar da máquina do governo federal, além da própria máquina partidária, com capilaridade pelo país, com a maior bancada de deputados federais da Câmara e o maior número de prefeitos e vereadores, ou fugir como o diabo da cruz do contágio da impopularidade do governo de Michel Temer.

O PMDB é um fator decisivo na vida do PSDB desde sua fundação em junho de 1988, fruto justamente de uma dissidência do PMDB, à época dominado por Orestes Quércia, governador de São Paulo, o principal expoente da ala fisiológica do partido. Os tucanos hoje se encontram presos a uma contradição de sua própria história, pois não conseguem se desvencilhar de uma aliança carcomida com o PMDB, envolvido, como quase sempre, em acusações de corrupção e fisiologismo político, depois de ter vivido uma história de resistência e luta contra a ditadura em que políticos como Ulysses Guimarães e Tancredo Neves davam o tom do partido.

Foram eles que salvaram o partido da extinção, quando o regime militar exigiu que todas as agremiações politicas tivessem o nome começando por P de partido, para dar fim a sigla que já se identificava com a oposição da ditadura e com as reivindicações dos mais pobres. Servia de barriga de aluguem a diversos movimentos políticos banidos pela ditadura, inclusive o Partido Comunista.

Passou a chamar-se então Partido do Movimento Democrático Brasileiro. Agora, através de uma manobra vulgar, seus atuais dirigentes retiraram o P da legenda, para que voltasse a ser o antigo MDB, como se uma letra, que anteriormente foi útil para burlar uma proibição da ditadura, agora fosse capaz de limpar o seu nome, dando-lhe de volta a respeitabilidade que outrora teve.

O PSDB, às voltas com seus próprios problemas de corrupção, e o PMDB voltaram a se encontrar no impeachment da então presidente Dilma, mas os tucanos, que acertaram ao aderir ao governo legitimamente constituído pelo respeito à Constituição e que só chegou ao Palácio do Planalto por ter sido escolhido pelo PT para compor a chapa oficial, perdeu o “timing” de sair do governo quando revelou-se a gravação da conversa entre o presidente Michel Temer e Joesley Batista.

E pode morrer afogado, não com Temer, como se temia, mas por Temer e sua aliança de bastidores com o grupo do senador Aécio Neves, os dois pensando apenas em salvarem as próprias peles. Também o senador Aloysio Nunes Ferreira, um líder de peso no partido, manteve-se no cargo de ministro das Relações Exteriores.

O PMDB, depois de experiências frustradas com candidaturas à Presidência da República — a primeira em 1989 com Ulysses Guimarães que, cristianizado pelos companheiros, chegou em quinto lugar, atrás até mesmo de Enéas, e em 1994 com Orestes Quércia, que chegou em quarto lugar —, decidiu não mais ser protagonista, passando a ser o coadjuvante que todos desejam. Ficou famoso nessa época o axioma que dizia que o PMDB não conseguia governar, mas nenhum partido poderia governar sem seu apoio.

Em 2010, para fazer sua sucessora Dilma, o ex-presidente Lula achou mais prudente oficializar uma aliança que já vinha desde seu governo, mas de modo velado. A chegada ao poder de fato não fez bem ao PMDB, a ponto de hoje se falar que o partido é cobiçado por todos para namorar, mas ninguém quer casar.

Sua proximidade tornou-se tóxica, a tal ponto que o presidente Temer, que vive agora na televisão para se defender de acusações ou para gestos populistas como o aumento da Bolsa Família em ano eleitoral, pensou até mesmo em candidatar-se ele mesmo à Presidência da República, a falta de quem o defenda. Seguindo o conselho do ex-presidente José Sarney, que lhe disse que seu pior erro político foi não ter tido um candidato para defendê-lo na campanha presidencial de 1989, em tantos aspectos tão parecida com a de hoje.

Aparentemente já desistiu, mas para apoiar o PSDB exige que Alckmin defenda seu legado, o que pode ser a pá de cal nas suas pretensões.


Elio Gaspari: O PSDB está desunido e desorientado

Nas mãos de Geraldo Alckmin, o partido fundado por Mário Covas virou um PT chique, e FHC fez que não notou

O PT teve dois presidentes denunciados por corrupção (José Dirceu e José Genoino), o PSDB também (Aécio Neves e Eduardo Azeredo). Quando estourou o escândalo do mensalão, o PT decidiu peitar a investigação e o processo, o PSDB também. Veio a Lava Jato, e o PT resolveu continuar na tática da negativa da autoria e no enfrentamento político. O PSDB também.

Em 2007, quando estourou o escândalo do mensalão mineiro, Ruth Cardoso, mulher de FHC e sua consciência social, sustentou que o ex-governador Eduardo Azeredo deveria ser afastado da presidência do PSDB. Não foi ouvida.

Esse precedente deu a Aécio Neves razões para permanecer na presidência do partido. Só quando sua situação tornou-se insustentável, deu uma carteirada em Tasso Jereissati e apoiou a escolha de Geraldo Alckmin para o lugar.

Se essa onipotência fosse pouca, o partido de Mário Covas e Franco Montoro foi dominado pela mentalidade provinciana de Alckmin. Primeiro ele fritou a liderança do PSDB de São Paulo inventando o "gestor" João Doria.

Se tudo desse certo, ele fritaria os tucanos pela segunda vez elegendo para seu lugar o vice Márcio França, do PSB. Deu errado porque o "gestor" escapuliu da prefeitura paulistana e arrebatou a candidatura ao governo.

Ganha uma viagem a Pindamonhangaba quem for capaz de citar cinco realizações de França em sua carreira política e outras cinco de Doria na prefeitura.

As denúncias contra Azeredo e Aécio ameaçam explodir o PSDB, mas as articulações de Alckmin estão implodindo-o. Sua candidatura à Presidência poderá significar o coroamento do extermínio.

Em 2004, quando o juiz Sergio Moro escreveu um artigo comparando a Lava Jato à Operação Mãos Limpas italiana, lembrou que dela resultou a destruição do sistema partidário italiano. Petistas e tucanos não lhe deram atenção e hoje os dois principais partidos brasileiros estão feridos.

E o MDB? Numa repetição do que aconteceu na França do Setecentos, arrisca-se assistir a um triunfo do pântano.

O colapso das propostas dos tucanos e dos petistas não faz bem ao país. Se os dois partidos decidiram enfrentar o problema da corrupção protegendo corruptos, isso não invalida as ideias que defendem, até porque do pântano saem sapos, não ideias.

Montoro e Mário Covas já se foram. Do time de fundadores do PSDB resta Fernando Henrique Cardoso. Tem passado e, aos 86 anos, seu futuro está numa encruzilhada. Nela, se olhar para trás, poderá desempenhar um papel político relevante.

Infelizmente, seu último livro "Crise e Reinvenção da Política no Brasil"é um bufê de autoelogios, onde se alternam boas causas e platitudes.

Em alguns momentos, FHC parece-se com um Jean de Léry do século 21. Olha para o Brasil com o distanciamento do seminarista francês observando os tupinambás que o mantiveram cativo na baía da Guanabara no século 16. Lendo-o, percebe-se o que está faltando ao PSDB: um segundo volume do "Crise e Reinvenção" dizendo tudo o que FHC não quis dizer no primeiro.

O ex-presidente é um homem cordial e não gosta de confrontos, mas deve-se registrar que na sua "Reinvenção" faltou alguma coisa: em 238 páginas ele não precisou mencionar Geraldo Alckmin, candidato de seu partido à sucessão presidencial.


Luiz Carlos Azedo: Candidato a Messias

A pesquisa MDA/CNT desta semana continua alimentando cenários eleitorais. Os principais mostram que o deputado Jair Bolsonaro, que ontem se filiou ao PSL, tem quase assegurada uma vaga no segundo turno das eleições. Essa afirmação é controversa porque alguns analistas acreditam que seus votos estão consolidados e ele estará mesmo numa segunda rodada de votações. Bolsonaro é o candidato de extrema-direita, com um discurso contra a corrupção e a criminalidade, a favor dos “valores da família”, como anunciou o senador Magno Malta (PSL-ES).

Na pesquisa, Bolsonaro tem de 20% a 20,9%, dependendo do adversário. Qualquer um deles enfrentará dificuldades para derrotá-lo, seja Marina Silva (Rede), seja Ciro Gomes (PDT), seja Geraldo Alckmin (PSDB), que estão embolados na disputa para enfrentá-lo. Corre por fora Álvaro Dias (Podemos), que cresce no Sul do país. Marina Silva se mantém no páreo, apesar da crise na Rede. Cresce de 7% para 12% quando Lula sai da disputa, mas Bolsonaro sobe de 16% para 20%.

Os dois estão herdando os votos do petista. No caso de Marina, essa é uma deriva natural da parcela do eleitorado petista que se identifica com a ex-seringueira e ex-senadora que se elegeu pela legenda no Acre. No caso de Bolsonaro, desloca-se o eleitor de mais baixa renda que acredita em salvador da pátria. Ontem, na cerimônia de filiação ao PSL, Bolsonaro não se fez de rogado: “Eu sou o messias. Jair Messias Bolsonaro”, discursou.

A palavra “messias” deriva do termo hebraico almashita, significava “ungido”, ou seja, alguém marcado na testa com óleo sagrado para realizar cerimônias religiosas. Com o passar do tempo, passou a descrever uma figura semidivina que deveria vir à Terra para resgatar seu povo. Para os judeus, “o salvador” deveria ser um rei descendente de Davi (que reinou no antigo Israel entre 1000 a.C. e 962 a.C.), com a missão de livrá-los da opressão estrangeira e implantar um mundo de justiça e salvação.

Quando o Novo Testamento foi escrito, em grego, no primeiro século da era cristã, a expressão mashiah foi traduzida como christos e se tornou o título de Jesus — ou seja, “Jesus Cristo” é o mesmo que “Jesus, o Messias”. Entretanto, o “messianismo” não se limita ao judaísmo e ao cristianismo, todas as grandes religiões do mundo têm uma figura messiânica, que virá para combater o mal e a injustiça, restaurando o paraíso sobre a Terra. Esse foi o sentido dado por Bolsonaro. No Brasil, tem a ver também com o “sebastianismo”, a crença de um salvador da pátria inspirado em Dom Sebastião, “O Desejado”, o jovem rei português que foi morto na batalha de Alcácer-Quibir, em 1578.

Eleição aberta

De onde vem a consolidação dos votos de Bolsonaro? Da extrema-direita saudosista do regime militar e dos evangélicos, mas também desse nosso “sebastianismo” lulista. Entretanto, Bolsonaro enfrenta dificuldades para seduzir os setores conservadores e liberais, que buscam uma alternativa mais moderada. A chamada direita progressista deseja modernizar a economia e aceita as mudanças dos costumes. Esses setores ainda estão em busca de uma alternativa. Marina não tem capacidade de seduzi-los, muito menos Ciro Gomes ou Álvaro Dias. A eleição está aberta, dependendo do cenário, de 38,7% a 42,1% dos eleitores não têm candidatos.

Quem pode atrair esses eleitores é o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que sobe de 6,4% para 8,7% com Lula fora da disputa. O governador paulista, porém, enfrenta um cenário muito pior do que o das eleições de 2006, quando disputou com o petista e foi para o segundo turno, mas teve menos voto do que no primeiro. Naquela ocasião, o senador Aécio Neves foi acusado de cristianizá-lo para se eleger governador de Minas. Agora, a situação é pior ainda, pois o petista Fernando Pimentel lidera as pesquisas e Aécio respira de canudinho por causa da Lava-Jato. Alckmin está sem palanque em Minas porque o senador Antônio Anastasia (PSDB-MG) não quer ser candidato ao governo.

Do outro lado do espectro político, a situação do PT é de quem vai pro mato sem cachorro. A legenda insiste na candidatura de Lula mesmo sabendo que ele está inelegível por causa da Lei da Ficha Limpa, que é autoexplicativa. Essa estratégia tem muito mais o objetivo de evitar a prisão de Lula do que viabilizar um candidato substituto. Em todos os cenários pesquisados, o ex-prefeito Fernando Haddad, que seria a alternativa petista, não passa de 2,4% das intenções de votos. Numa campanha curta, deixar a escolha para a última hora pode ser um haraquiri político, ainda mais se Lula estiver preso. (Correio Braziliense – 08/03/2018)