Historiador

Abolição não significa libertação do homem negro, diz historiador e documentarista

Cleomar Almeida, Coordenador de Publicações da FAP

historiador e documentarista Ivan Alves Filho, licenciado pela Universidade Paris-VIII (Sorbonne) e pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris em História, diz que “o 13 de Maio deixou marcas profundas na vida nacional”, em artigo publicado na revista Política Democrática Online de maio (edição 31), produzida e editada pela Fundação Astrojildo Pereira (FAP), sediada em Brasília.

“A passagem da ordem escravista para a capitalista se processara a duras penas, após três séculos e meio de trabalho compulsório”, afirma ele, na publicação. Todos os conteúdos da revista podem ser acessados, gratuitamente, no portal da FAP.

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De acordo com o documentarista, a passagem ocorreu em um período de transição relativamente longo até o capitalismo, quando, segundo ele, formas não capitalistas ainda se apresentavam em diferentes pontos do país, entre os séculos 19 e 20. “Estou-me referindo à meia, ao colonato, ao aviamento e ao barracão”, pondera.

“Mas se a abolição libertou o homem escravizado, isso não significa que tenha libertado o homem negro. Uma vez livre, o negro de todos os quadrantes do país encontrara inúmeras dificuldades para se integrar à nova realidade marcada pela dominação cada vez mais acentuada do capital”, analisa o autor, no artigo publicado na revista Política Democrática Online.

Segundo Ivan, em 1823, ao propugnar por uma ruptura gradual com o modo de produção escravista, José Bonifácio já havia advertido para a necessidade de, paralelamente, realizar uma reforma agrária que possibilitasse a inserção social do negro.

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“Ele não só não seria ouvido, mas também D. Pedro II regulamentaria, em 1850, uma Lei das Terras que praticamente impediria o aceso do trabalhador negro à propriedade no campo. Essa lei foi sancionada exatamente no mesmo ano da supressão do tráfico negreiro, anunciando o começo do fim da escravidão”, analisa

Na avaliação do historiador, se, por um lado, o negro não seria mais escravizado, por outro, permaneceria atrelado ao latifúndio. “Ou seja, a terra deixava de ser doada no Brasil, só podendo ser obtida mediante compra a partir daí. E era muito difícil ao descendente de escravos, naturalmente, reunir recursos suficientes para adquirir uma gleba para trabalhar”, acentua.

A íntegra da análise do historiador está disponível, no portal da FAP, para leitura na versão flip da revista Política Democrática Online, que também tem artigos sobre política, economia, tecnologia e cultura.

O diretor-geral da FAP, sociólogo Caetano Araújo, o escritor Francisco Almeida e o ensaísta Luiz Sérgio Henriques compõem o conselho editorial da revista. O diretor da publicação é o embaixador aposentado André Amado.Leia também:

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RPD || Ivan Alves Filho: 13 de Maio, um ponto de convergência

Como única revolução social brasileira até o momento, ao consagrar juridicamente uma mudança que já vinha se operando no modo de produção, o 13 de Maio deixou marcas profundas na vida nacional. A passagem da ordem escravista para a capitalista se processara a duras penas, após três séculos e meio de trabalho compulsório. E ocorreu um período de transição relativamente longo até o capitalismo, quando formas não capitalistas ainda se apresentavam em diferentes pontos do país, entre os séculos XIX e XX. Estou-me referindo à meia, ao colonato, ao aviamento e ao barracão. 

Mas se a Abolição libertou o homem escravizado, isso não significa que tenha libertado o homem negro. Uma vez livre, o negro de todos os quadrantes do país encontrara inúmeras dificuldades para se integrar à nova realidade marcada pela dominação cada vez mais acentuada do capital. 

Lá atrás, ou seja, em 1823, ao propugnar por uma ruptura gradual com o modo de produção escravista, José Bonifácio já nos advertira para a necessidade de, paralelamente, realizar uma reforma agrária que possibilitasse a inserção social do negro. Ele não só não seria ouvido, mas também D. Pedro II regulamentaria, em 1850, uma Lei das Terras que praticamente impediria o aceso do trabalhador negro à propriedade no campo. Essa lei foi sancionada exatamente no mesmo ano da supressão do tráfico negreiro, anunciando o começo do fim da escravidão. Se, por um lado, o negro não seria mais escravizado, por outro, permaneceria atrelado ao latifúndio. Ou seja, a terra deixava de ser doada no Brasil, só podendo ser obtida mediante compra a partir daí. E era muito difícil ao descendente de escravos, naturalmente, reunir recursos suficientes para adquirir uma gleba para trabalhar. 

Outro ponto que me parece fundamental tem que ver com uma certa incompreensão do caráter das transformações sociais entre nós. Ainda que tivesse combinado diferentes formas de luta, que iam dos embates armados dos quilombolas às manifestações na imprensa e no próprio Parlamento, prevaleceria a saída institucional. A Abolição, nunca é demais lembrar, foi uma luta nacional, de negros e brancos. Nem o Estado tinha força suficiente para barrar as mudanças nem a sociedade civil conseguia alterar tudo de chofre ou colocar o Estado abaixo. Daí a via negociada. Nem revolução nem conciliação: negociação.  

Eis o que nos desnorteia um pouco. A isso vem se somar outra particularidade do processo histórico brasileiro: a escravidão teve por aqui um conteúdo étnico, o que já não ocorria na escravidão antiga. Durma-se com um barulho desses.  

Por outro lado, talvez caiba recordar a lição dada pelo samba de enredo da Vila Isabel, em 1888: é preciso um certo “jogo de cintura…(para fazer) valer seus ideais”. Dir-se-ia que a Abolição entendeu essa nossa particularidade, logrando convergir todas as lutas para o campo institucional.  

*Ivan Alves Filho é historiador, licenciado pela Universidade Paris-VIII (Sorbonne) e pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris em História; jornalista e documentarista brasileiro. É autor de mais de uma dezena de livros.

** Artigo produzido para publicação na Revista Política Democrática Online de maio (31ª edição), produzida e editada pela Fundação Astrojildo Pereira (FAP), sediada em Brasília e vinculada ao Cidadania.

*** As ideias e opiniões expressas nos artigos publicados na Revista Política Democrática Online são de exclusiva responsabilidade dos autores, não refletindo, necessariamente, as opiniões da Revista.

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Ancelmo Gois: 'Os racismos brasileiros são perversos', diz o historiador Alberto da Costa e Silva

Dia 12 de maio, agora, o historiador Alberto da Costa e Silva completará 90 anos. Vai comemorar lançando, mais uma vez, um livro sobre sua paixão: a África. A “A África e os africanos na história e nos mitos”, pela Nova Fronteira, inclui Mansa Musa, rei do Mali, que em pleno século XIV acreditava que o Atlântico tinha outra margem, o Brasil.

Aqui, na semana em que foi condenado o policial branco que matou George Floyd, o grande historiador aborda o racismo nos EUA e no Brasil:

“Os racismos brasileiros não possuem as mesmas formas que os dos norte-americanos. Pode-se escrever um livro grosso, para mostrar as diferenças. Mas os racismos brasileiros são perversos, ainda quando dissimulados ou indesejados. Ouçamos o que dizem os negros, e até mesmo os poucos que consentimos serem bem sucedidos na vida. Uma das diferenças é definir quem é negro. No Brasil, é predominante uma questão de aparência; nos EUA, de ascendência.

Faz algum tempo, um importante político brasileiro, um daqueles de quem temos saudade, me dizia, a propósito, o seguinte: ‘Eu sempre fui considerado branco, e tratado como tal; meu irmão, que é escuro, sempre foi tido por negro. Somos ambos mulatos, com o mesmo pai e a mesma mãe’. Outro exemplo: um artista norte-americano que viveu alguns anos no Brasil, enviava os seus trabalhos semanalmente para os Estados Unidos e de lá recebia o pagamento em dólares.

Perguntei-lhe certo dia, numa roda de amigos, por que estava vivendo no Brasil. E ele respondeu prontamente: ‘Porque nos EUA sou negro, e no Brasil, sou branco, e é enorme a diferença. Aprendemos a ser racistas quando crianças. A escola fortalece (ou até bem pouco fortalecia), ao fazer um retrato negativo do africano, de sua arte e de sua história e do papel fundamental dos africanos na formação do Brasil’’’.


"Bolsonaro não é só um mau soldado. É um fascista incapaz", afirma Alberto Aggio

Em entrevista exclusiva à Política Democrática Online de março, professor da Unesp avalia o governo do presidente como “ameaçador à democracia”

Cleomar Almeida, Coordenador de Publicações da FAP

O historiador e professor da Unesp (Universidade Estadual Paulista) diz que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) “gostaria de ser um líder fascista, mas ele fez a vida dentro do Estado, como militar e como parlamentar”. A declaração ocorreu em entrevista exclusiva publicada na edição de março da revista Política Democrática Online.

Confira a Edição 29 da Revista Política Democrática Online

Com periodicidade mensal, a revista é produzida e editada pela FAP (Fundação Astrojildo Pereira), sediada em Brasília e vinculada ao Cidadania. A versão flip, com todos os conteúdos, pode ser acessada gratuitamente na seção de revista digital do portal da entidade.

“Fascismo caricatural”

Mestre e doutor em História pela USP (Universidade de São Paulo), Aggio afirma que “o fascismo de Bolsonaro é caricatural”. “Sua inclinação é muito mais tradicionalista, de uma sociedade fechada. Bolsonaro é o anti-Popper, é visceralmente contra a sociedade aberta”, critica o professor.

Aggio, que é diretor do blog “Horizontes Democráticos”, voltado para o debate da política contemporânea no Brasil no mundo, também afirma que o presidente é “um pragmático”. “Mas por ser mentalmente restrito é alguém que não tem capacidade de ampliação pelo que ele representa. Em suma, não é efetivamente um líder”, analisa.

Com pós-doutorado nas universidades de Valência (Espanha) e Roma3 (Itália), o historiador afirma que, pelos acordos políticos que estão conseguindo impedir o impeachment, Bolsonaro pode conseguir a reeleição. Mas com uma condição: “Se seus opositores errarem muito, e infelizmente sabemos que isso pode acontecer”, afirma.

Agruras

Na entrevista à revista da FAP, Aggio explica que o fascismo nasceu da sociedade, das agruras do pós-Primeira Guerra. No fundo, de acordo com ele, “Bolsonaro é não só um mau soldado, como disse o General Geisel, mas é também um fascista incapaz”.

Segundo o entrevistado, além da ligação com os militares, a vinculação do presidente com a religião é instrumental, a pauta de costumes reacionária, tradicionalista. “Bolsonaro espelha melhor um regime autoritário a la Salazar ou Franco, do que a la Mussolini ou Hitler, esses, sim, carregaram um projeto ativo e moderno de mundialização, mas foram derrotados”, diz.

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José Murilo de Carvalho: ‘Bolsonaro faz bravata perigosa e se dirige a escalões inferiores e às PMs’

Historiador diz que declaração do presidente sobre democracia e Forças Armadas ‘é veneno para as corporações militares’ e que ele ‘não se dará bem’ se desafiar hierarquia militar

 Wilson Tosta, O Estado de S. Paulo

RIO – Uma bravata perigosa. Assim o historiador José Murilo de Carvalho classifica a declaração do presidente Jair Bolsonaro apontando nas Forças Armadas o poder de determinar se o Brasil é uma democracia ou uma ditadura. Embora admita que o que mandatário afirmou é em parte verdadeiro – considera que a República brasileira é tutelada pelos quartéis –, o pesquisador avalia que ele não fala pelos altos comandos de Marinha, do Exército e da Aeronáutica. E aponta um risco nas atitudes do presidente. Ele, afirma, se dirige aos escalões inferiores da hierarquia castrense e às polícias militares. Para o professor, trata-se de uma “violação da hierarquia”.

“É veneno para as corporações militares”, preocupa-se. “Para o historiador, Bolsonaro “fracassou” na “guerra da vacina” e tenta retomar protagonismo”. Mas não conseguirá bom resultado se tentar envolver os fardados e desafiar a sua hierarquia, adverte José Murilo, que diz que na pandemia Bolsonaro “lutou do lado errado”.

A seguir, os principais trechos da entrevista de José Murilo ao Estadão.

Onde o presidente Bolsonaro quer chegar quando diz que depende das Forças Armadas se o Brasil vai ser uma democracia ou uma ditadura?

A declaração é contraditória. Dizer que a democracia depende das Forças Armadas é dizer que já não há democracia, o que em parte é verdade na medida em que temos uma república tutelada. Só teremos uma república democrática quando ela não depender de apoio militar. A república norte-americana passou por uma crise séria, sem que os militares se manifestassem. 

Essa declaração é apenas uma bravata ou há uma ameaça real de golpe, com possibilidade de se concretizar?

É uma bravata perigosa. Ele fala em “nós militares”,  colocando-se como porta-voz do grupo, o que ele certamente não é. Pela lei, quem fala pelos militares são seus comandantes. Se falasse como presidente, chefe das Forças Armadas seria ainda pior, porque estaria colocando a presidência como defensora de um grupo social. A bravata é perigosa para ele por estar usurpando a autoridade dos comandantes das três forças. 

Em sua avaliação, Bolsonaro tem apoio das Forças Armadas, no seu todo ou em parte, para esse tipo de declaração?

Como já indicou o comandante do Exército, general (Edson) Pujol, aliás colega dele na AMAN, quando condenou a politização das Forças Armadas, ele (Bolsonaro) não fala em nome delas. O presidente tem feito um jogo perigoso ao se dirigir a escalões inferiores da hierarquia militar e às polícias militares. Essa violação da hierarquia é veneno para as corporações militares.

Bolsonaro tenta usar as Forças Armadas como “espantalho” contra um eventual processo de impeachment?

Se for o caso, acho que será mais um erro político, um tiro que poderá sair pela culatra por estar comprometendo as Forças Armadas com seu projeto político pessoal. Esse envolvimento não interessa às Forças Armadas que vêm tentando fugir à acusação de que estamos diante de um  governo militar e não apenas de um governo com militares. 

O que explica que Bolsonaro sempre volte à temática e ao imaginário da ditadura, já que ela é passado distante e ele, que ainda não era militar profissional no período mais duro do autoritarismo, deve à democracia a eleição para a Presidência?

O cadete Bolsonaro, número 531, cujo apelido era Cavalão, frequentou a AMAN de 1974 a 1977, em plena ditadura. Teve como instrutores oficiais que lutaram contra a guerrilha do Araguaia montada por militantes do PCdoB, chamados por Bolsonaro em 2009 de “cambada comunista”. Está no livro de Luiz Maklouf Carvalho sobre ele, página 34. A paranoia anticomunista dele nasceu ali e no caso dele, como no de muitos outros militares, continua viva, agora talvez mais como jogada política. 

Declarações desse tipo seriam uma tática do presidente, lançando uma polêmica quando está em desvantagem na opinião pública para desviar a atenção e ocupar o noticiário, como agora, com os problemas que cercam a pandemia, a tragédia de Manaus e ameaça de impeachment? 

É certamente tática de despistamento. A obsessão dele, como era a de Trump, é a reeleição. Ele vai inventar tudo que possa compensar as perdas. 

Diante dessas novas declarações, podemos esperar uma nova fase de radicalização, por parte do presidente?

Ele fracassou redondamente na guerra da vacina e procura voltar à tona. Mas não se dará bem se quiser envolver as corporações militares desafiando sua hierarquia.

Poderemos voltar a 2020, com manifestações apoiadas por Bolsonaro pedindo fechamento do Congresso e do STF?

Se tentar, terá o destino de seu líder norte-americano, sobretudo se os outros dois poderes da República se comportarem com maior responsabilidade. As pessoas estão cansadas da luta contra a pandemia, em que ele lutou do lado errado. 


Alexandre Caetano: As eleições de 1970 e as prisões da Operação Gaiola no ES

No início do próximo mês de novembro, exatamente quando o Brasil se prepara para a realização de mais uma eleição, um episódio obscuro e quase esquecido da história política dos país estará completando 50 anos. Trata-se da Operação Gaiola, desencadeada pela ditadura que governava o país para garantir a vitória dos candidatos do partido de sustentação do regime, a Aliança Renovadora Nacional (Arena) nas eleições de 1970. O presidente na época, indicado pelos militares e eleito de forma indireta pelo Congresso Nacional, era o general Emilio Garrastazu Médici.

A ditadura havia sido escancarada desde a decretação do AI-5, em 13 de dezembro de 1968, quando o Congresso foi fechado, com posterior cassação de mandatos de parlamentares, aposentadoria compulsoria de ministros do STF, a permissão de prisões sem mandados judiciais e o fim dos habeas corpus para presos políticos. Não existem números oficiais, mas pesquisadores como o brasilianista norte-americano Thomas Skidimore e Maria D’alva Kinzo, estimam que entre 5 mil a 10 mil pessoas consideradas adversárias do regime, foram presas entre o final de outubro e a véspera das eleições de 1970. Não houve inquérito, processo, ordem judicial ou intimação. Era o exercício bruto do arbítrio e da truculência de um regime ditatorial.

O Movimento Democrático Brasileiro (MDB), partido da oposição consentida, criado pela própria ditadura em 1965, junto com a sigla governista, estava combalido pelas cassações feitas pelo AI-5 e tinha dificuldades até para montar chapas de candidatos em vários municicípios e Estados. Mas ainda era pouco para o governo militar, que queria uma esmagadora maioria para consolidar a imagem do regime aos olhos do mundo, varrendo para debaixo do tapete o sangue que espirrava das vítimas de torturas, execuções e “desaparecimentos” dentro e fora de instalações oficiais.

O jornalista Rubem Gomes Câmara Gomes, um dos formadores de opinião que foi presos no Espírito Santo naquela, estima em 120 o número de pessoas presas no Estado, entre jornalistas, profissionais liberais, intelectuais, estudantes e formadores de opinião. O médico José Cipriano da Fonseca e o economista Antônio Caldas Brito, acreditam que as prisões podem ter chegado a 200. Os presos chegavam de todo Estado, inclusive do interior, em geral trazidos por políciais federais, e eram levados para Superintendência da Polícia Federal, que na época ficava na Avenida Vitória, sendo depois levadas para o quartel do então 3º Batalhão de Caçadores (hoje 38º Batalhão de Infantaria), na Prainha, em Vila Velha.

Zezinho Cipriano, como é mais conhecido, ex-líder estudantil, foi preso em Barra de São Francisco, no quando atendia pacientes no Centro de Saúde local. “Nenhuma explicação foi dada, nem antes e nem depois. A gente apenas sabia que tinha gente sendo presa em tudo quanto lugar. Um dia, perguntei ao major Anésio o motivo da prisão, e ele me disse apenas que prenderam porque receberam ordem de prender”, relata.

Caldas Brito foi preso por militares do Exército no escritório de sua empresa, no Edifício A Gazeta. Câmara Gomes conta que, depois de três dias, ele e um grupo de presos foi levado para uma ala da Penitenciária Pedra D'Água, o IRS (Instituto de Readaptação Social), na Glória, que havia sido esvaziada com a transferência dos presos comuns até para delegacias do interior. Já Zezinho Cipriano e Caldas Brito permaneceram na enfermaria do quartel, junto com os outros presos de nivel superior.

Entre os presos, eles citam os médicos Aldemar de Oliveira Neves e Caetano Magalhães; o escritor e folclorista Hemorgenes da Fonseca, o advogado Sizenando Pechincha, que mais tarde seria presidente do Vitória Futebol Clube, os jornalistas Vitor Costa e Ewerton Montenegro Guimarães – que estava se formando em Direito -, o ex-prefeito de Colatina, Moacir Brotas, e Cantídio Sampaio, que anos depois seria prefeito de Iúna. Nem candidatos às eleições daquele ano foram poupados, como o médico Gilson Carone, que concorria à Prefeitura de Cachoerio, e Benedito Elias, que disputava em Linhares.

Os presos só começariam a ser libertados nos dois dias que antecederam as eleições. O objetivo da ditadura, em parte, foi atingido, pois a Arena ficou com 87% das cadeiras do Senado, 71% na Câmara dos Deputados e 70,6% nas Assembleias Legislativas. O problema é que também houve aumento dos votos nulos e brancos, que nas eleições proporcionais passaram de 21,1% em 1966 para 30,3% em 1970.

Quatro anos, nas eleições de 1974, o MDB ganhou 16 das 22 vagas em disputa no Senado e dobrou a bancada na Câmara. Mas ainda seriam necessários mais de 10 anos para que a ditadura saísse de cena, em 1985, deixando o legado da modernização conservadora da economia que teve como saldo a hiperinflação, um gigantesco endividamento externo, um crescimento urbano desordenado, aumento da pobreza e da concentração de renda e 434 brasileiros e brasileiras que morreram ou “desapareceram” nas mãos de agentes do Estado.

*Alexandre Caetano é jornalista e historiador.


Ivan Alves Filho: Breve comentário sobre o quadro político

A sagacidade de Jair Bolsonaro nem sempre é reconhecida pela oposição. Um equívoco grave, a meu juízo. O homem é um animal político, ainda que truculento.

Pois o Capitão sabe se reinventar, a partir de uma leitura aguçada da conjuntura. A notícia dada pelo site O Antagonista de que ele estaria trabalhando com a possibilidade de a atual Ministra da Agricultura, Tereza Cristina, compor uma chapa com ele em 2022 é mais um elemento que comprova isso.

Mulher, representante do agronegócio - o setor hoje mais dinâmico da economia brasileira -, originária do Mato Grosso do Sul e filiada ao DEM. As credenciais se encaixam como uma luva nos projetos do Capitão: Tereza Cristina vai disputar no terreno de Luiz Henrique Mandetta, ele próprio membro do DEM e ex-deputado federal com votação em Campo Grande.

De outra parte, há um evidente movimento de bastidores que pode desembocar na absolvição de Lula. O alvo aqui seria duplo: atingiria Sergio Moro e, de quebra, recolocaria Lula da Silva como adversário de Bolsonaro dentro de dois anos. Ou seja, escolheria seu oponente.

Jogada extremamente sagaz, sem dúvida. Como se contrapor a tudo isso? A única saída que antevejo seria unir o Campo Democrático, equidistante tanto do populismo de direita quanto do populismo dito de esquerda. Um primeiro passo poderia ser uma união semelhante àquela que se verificou em torno de Eduardo Campos, em 2014. Mesmo assim, será preciso avançar um pouco mais e negociar - desde o primeiro turno, de preferência - com os setores mais conservadores do Campo Democrático. Entre os partidos progressistas, teríamos o PSB, o Cidadania 23, a Rede, o PV. Eu não descartaria partes do PDT, do PSDB e do PCdoB tampouco. Personalidades? Vamos lá: Flávio Dino, Luciano Huck, Denise Frossard, Joaquim Barbosa, Marina Silva. Pelo lado mais conservador do Campo Democrático, teríamos figuras como Rodrigo Maia e Luiz Henrique Mandetta. Novos nomes seriam sempre bem-vindos.

A ideia é montar uma Frente Ampla que não se limite a atuar quando o fascismo ronda.

Uma Frente Ampla para governar de fato, com um programa econômico e social que possa abrigar as mais diferentes sensibilidades políticas do Campo Democrático, dos conservadores aos progressistas. Hoje o embate se dá entre a Civilização e a Barbárie. Quem encarnou isso em um passado recente entre nós foi o Presidente Itamar Franco.

*Ivan Alves Filho, historiador, autor de mais de uma dezena de obras, das quais a última é A saída pela Democracia


Ivan Alves Filho: A contribuição do PCB à vida brasileira

O ano de 1922 foi central para o entendimento do Brasil. Nele tivemos a Semana de Arte Moderna, o surgimento das reivindicações feministas, a formação do Centro Dom Vital, o início do que se convencionaria denominar por Tenentismo e, ainda, a criação da Seção Brasileira da Internacional Comunista. Um ano de cortar o fôlego. Provavelmente, o centenário da Independência obrigou o país a se repensar.

O Partido Comunista surgia como uma agremiação ao mesmo tempo nacional, isto é, buscando o enraizamento no país, e internacional, na esteira dos acontecimentos que sacudiam a Rússia em 1917.

Foi o único partido comunista no mundo saído diretamente do movimento anarquista.

O enraizamento interno tinha que ver com sua condição de partido da classe trabalhadora. Mas, rapidamente, já no final dos anos 20, o Partido percebia que não poderia praticar uma política de classe contra classe. O Brasil se diversificava, apresentando uma conformação social mais sofisticada e complexa. Ao lado da classe operária e do campesinato despontava uma nova camada, composta pelos setores médios. Eis o que abria a via para o diálogo com intelectuais e militares, por exemplo. Astrojildo Pereira foi o grande artífice dessa primeira grande mudança.

Outras viriam tão profundas quanto essa. Após atravessar a repressão do Estado Novo de Vargas e as vicissitudes da chamada Guerra Fria, os comunistas do PCB mudam novamente, acrescentando a seu ideário a questão democrática. Isso se deu com a Declaração de Março de 1958. Não por acaso, seu principal redator seria Armênio Guedes, o dirigente mais próximo de Astrojildo e de Giocondo Dias. Foi com esse espírito que o PCB evitou o esfacelamento por ocasião da ditadura militar. Apostando na aliança com os liberais e na luta de massas, o Partido apontou o caminho, jogando suas fichas na derrota e não na derrubada do regime. A História daria razão ao PCB.

Surgido no bojo das batalhas travadas pela Rússia Soviética, o PCB passaria por nova transformação após o esgotamento do chamado socialismo real, em 1991. Sabendo tirar as lições do fim da União Soviética e do processo iniciado em 1917, os comunistas brasileiros mudam o nome do partido e abandonam seu símbolo, a foice e o martelo. Mudaram o partido e não de Partido. Nascia o PPS em 1992. Ou seja, souberam preservar suas partes vivas, a saber a ética, a democracia e a noção de justiça social. Essa a maior herança do comunismo brasileiro. Mais do que qualquer outro partido, o PCB organizou o mundo do trabalho contra o grande capital, lutou pela cultura nacional e integrou o bom combate pela democracia. Este o seu grande legado.

Hoje, mais uma mudança. Surge, em cena, o Cidadania23. Se antes era soviets mais eletrificação, atualmente é Democracia mais automação. Em tempos de profundas alterações no aparato produtivo e no modo de vida das pessoas, o PPS estabeleceria vínculos com os movimentos surgidos nas ruas, em 2013, e nas redes sociais ativadas em computadores e celulares. Muitos eram de corte liberal. O Partido entendeu que o liberalismo político era uma conquista do processo civilizatório, afirmando o papel do indivíduo perante o Estado, o que não entrava em contradição com os direitos sociais que os comunistas sempre defenderam.

Terminei, recentemente, um novo livro: A saída pela Democracia. Em um dos seus últimos parágrafos, escrevo o que se segue: “Penso que um denominador comum possível seja a cidadania. Seu vínculo com o mundo do trabalho pode ser feito por intermédio da Constituição. Sua ligação com cada um de nós, individualmente falando, pode ser realizada por meio das lutas identitárias, incluindo aí a cultura como pertencimento. Seu elo com as liberdades pode se dar pela defesa dos direitos de ir e vir das pessoas. A cidadania pode ser o grande fator estruturante da participação popular pelas mudanças. Ela perpassa o sistema de classes; como conquista do processo civilizatório não é monopólio de classe alguma. É um patrimônio de todos”.

Sobre a singularidade do PCB na vida brasileira, desejo tecer ainda algumas considerações. Vamos lá.

Primeiramente, uma constatação: o PCB nunca esteve no poder central. Mas encarnou, como nenhum outro agrupamento político, a meu juízo, os interesses do povo brasileiro. Abaixo, alinho alguns pontos da atuação pecebista que marcaram a vida nacional:

1- O Partido contribuiu para a formação daquela que talvez tenha sido a primeira agremiação política de massas do país, a Aliança Nacional Libertadora, nos anos 30.

2- Empenhou-se, e isso desde os anos 20, no combate pela Reforma Agrária. Expressão disso são as lutas de autodefesa camponesa em Porecatu, no norte do Paraná, no final dos anos 40, e em Formoso e Trombas, em Goiás, no início dos anos 50. Destacaram-se aí as figuras de Agliberto Vieira de Azevedo, Gregório Bezerra, Hilário Pinha e João Saldanha, no caso de Porecatu, e Antônio Ribeiro Granja, Geraldo Tibúrcio e José Porfírio, no tocante às lutas em território goiano. Em fins de 1963, os comunistas foram responsáveis pela criação da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG) para representar os trabalhadores rurais, através das federações estaduais que, por sua vez, reúnem os sindicatos dos trabalhadores rurais de cada município. Seu primeiro presidente foi o comunista Lindolfo Silva. Esta importante entidade ainda existe até hoje.

3- O PCB deu apoio decisivo à memorável campanha do Petróleo é Nosso, um dos maiores e mais consequentes movimentos de massa do país. Aqui, temos de destacar a presença dos militares nacionalistas.

4- Atuou em defesa das terras indígenas, notadamente na criação do Parque Nacional do Xingu. Nesse sentido, foi fundamental a movimentação dos núcleos partidários ligados à problemática dos índios.

5- A Conferência Nacional do PCB publicou, no ano de 1934, um documento em defesa da questão negra e dos índios. A partir sobretudo desse momento, o Partido - que já havia lançado um operário negro, Minervino de Oliveira, como candidato à presidência da República, em 1930 - foi se sensibilizando cada vez mais com a questão negra. Nos anos 70, comunistas brasileiros atuaram na edificação dos novos Estados que se formavam na África de expressão portuguesa. O economista Gilson Leão trabalhou na Guiné Bissau e em Moçambique, e também neste contribuíram a geógrafa Arabela Pereira e o historiador Kunio Suzuki, assim como os aeronautas Mauricio Seidl e Íon Sá Weber. Kunio foi instrutor político da FRELIMO, antes mesmo da chegada desse partido ao poder, atuando nas zonas liberadas. O diretor de fotografia Antônio Luiz Mendes Soares ministrou cursos de cinema em Moçambique. O médico Davi Lerer militou profissional e politicamente em Angola. Na África subsaariana, mais precisamente na Argélia, nos primórdios da sua Independência, trabalharam, na área da educação e da construção de universidades, os comunistas e arquitetos Oscar Niemeyer, Edgar Graeff, Marcos Jaimovich e Oswaldo Cintra de Carvalho (Birunga), o médico e biólogo Luiz Hildebrando Pereira da Silva, o educador Heron de Alencar e o físico nuclear Ubirajara Brito. Essa participação dos comunistas no plano internacional se iniciou com a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e a Resistência Francesa (1940-1944), quando vários militantes combateram o antifascismo lá fora. Convém relembrar ainda, nesse período, o ingresso de vários comunistas na Força Expedicionária Brasileira, quando se engajaram contra os nazistas nos campos da Itália. Outro importante destaque: o bloco hoje Afoxé Filhos de Gandhy, criado por estivadores de Salvador, em 1949, teve a participação comunista. Formado unicamente por homens, inspirou-se nos princípios pacifistas do indiano Mahatma Gandhi e, dois anos mais tarde, introduziu músicas afros em seu repertório.

6- O PCB colaborou de forma efetiva para elaboração e aplicação do Plano de Metas do Governo JK, o qual abriria o caminho para a industrialização mais acelerada do país. O economista Ignácio Rangel, um veterano das lutas da década de 30 no Estado do Maranhão foi, ao lado de Celso Furtado, um dos artífices desse Plano.

7- Como abordar a cultura brasileira sem este Partido?

Como escrever a história da nossa literatura sem Aníbal Machado, Bandeira Tribuzi, Bernardo Élis, Ciro Martins, Dalcídio Jurandir, Dionélio Machado, Ferreira Gullar, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Manoel de Barros, Orígenes Lessa, Oswald de Andrade, Patricia Galvão (Pagu), Paulo Leminski, Rachel de Queiroz, Rafael de Carvalho, Raimundo Sousa Dantas, Sábato Magaldi, Samuel Rawet e Solano Trindade?

Ou das nossas artes plásticas e cênicas sem Abelardo da Hora, Alex Viany, Alinor Azevedo, Anna de Holanda, Antonio Luiz Mendes Soares, Aparecida Azedo, Armando Costa, Bete Mendes, Bráulio Pedroso, Bruno Giorgi, Cândido Portinari, Carlos Scliar, Denoy de Oliveira, Di Calvalcanti, Edgar Graeff, Gisele Santoro, Iberê Camargo, Ítala Nandi, Jalusa Barcellos, Joacir de Castro, João Batista de Andrade, João Câmara, Joel Barcellos, José Pancetti, Leon Hirszman, Lima Duarte, Lina Bo Bardi, Mário Gruber, Nelson Pereira dos Santos, Oscar Niemeyer, Renina Katz, Rui Santos, Silvio Tendler, Siron Franco, Tarsila do Amaral, Villanova Artigas, Vladimir Carvalho, e Waldomiro de Deus?

Da nossa música sem Arnaldo Estrela, Camargo Guarnieri, Carlos Lira, Cláudio Santoro, Dolores Duran, Guerra Peixe, Jararaca, Jards Macalé, João do Vale, Jorge Goulart, José Carlos Capinam, José Siqueira, Noca da Portela, Noel Rosa, Nora Nei, Luiz Gonzaga Júnior (Gonzaguinha), Paulinho da Viola, Rildo Hora e Tom Zé?

Do nosso teatro e da televisão sem Bemvindo Siqueira, Dias Gomes, Dina Sfat, Fernando Peixoto, Flávio Rangel, Gianfrancesco Guarnieri, Glauce Rocha, José Wilker, Juca de Oliveira, Mário Lago, Oduvaldo Viana Filho, Paulo Gracindo, Paulo José, Paulo Pontes, Plínio Marcos, Procópio Ferreira, Raul Cortez, Stênio Garcia e Stepan Nercessian?

Do nosso movimento editorial sem Ênio Silveira, Moacyr Felix, Raul Mateos Castell e Renato Guimarães?

Do nosso jornalismo sem a presença de Aimoré de Paula Souza, Álvaro Moreyra, Amarílio Vasconcelos, Ancelmo Góis, Antonieta Santos, Antonio Morais Né, Antonio Romane, Aparício Torelly (Barão de Itararé), Arcelina Mochel, Aristélio de Andrade, Arthur José Poerner, Beatriz Bonfim, Carlos Eduardo Ullup, Carlos Jurandir, Célia Maria Ladeira, o cartunista Claudio de Oliveira, Danúbio Rodrigues, Davi Emerich, Derly Barreto, Dias da Costa, Domar Campos, Durval Aires, Elias Fajardo da Fonseca, Elio Gaspari, Eneida de Moraes, Eugênia Moreira, Eugênio Viola, Nilton Santos Fragmon Carlos Borges, Francisco Inácio de Almeida, George Duque Estrada, Hélio Contreiras, Henrique Caban, Henrique Cordeiro, Henrique Miranda, Ivan Alves, Jaime Miranda, Jairo Regis, Jarbas Marques, João Antonio Mesplé, João Batista Aveline, Justino Martins, Leo Guanabara, Lu Fernandes, Luciano Barreira, Luiz Carlos Azedo, Luiz Fernando Cardoso, Luiz Mario Gazzaneo, Marcelo Bairão, Marcus Miranda, Maria da Graça Dutra, Mariza Campos da Paz, Maurício Azedo, Mauro Malin, Mauro Santayana, Miguel Borges, Milton Coelho da Graça, Moacir Werneck de Castro, Narceu de Almeida Filho, Nilton Santos, Noé Gertel, Odalves Lima, Orlando Bonfim Júnior, Orlando Farias, Oswaldo Peralva, Otávio Malta, Paulo Markun, Paulo Motta Lima, Pedro Motta Lima, Raul Azedo, Raul Mateos Castell, Roberto Müller, Roberto Pontual, Rodolfo Konder, Roniwalter Jatobá, Sérgio Cabral, Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta), Teixeira Heizer,Tibério Canuto, Vicente Dianezi Filho, Vladimir Herzog e Walter da Silveira?

Da nossa ensaística sem Aluísio Medeiros, Astrojildo Pereira, Carlos Nelson Coutinho, Elias Chaves Neto, Emílio Carrera Guerra, Fausto Cupertino, Ivan Pedro de Martins, José Paulo Paes, José Paulo Netto, Leandro Konder, Luiz Saia, Luiz Sérgio Henriques, Marco Aurélio Nogueira, Mário Pedrosa, Martin Cézar Feijó, Michel Zaidan, Paulo Mercadante, Paulo Ribeiro Cunha, Quirino Campofiorito e Rodrigo Patto Sá Motta?

E como escrever a história das nossas ciências sociais sem Alberto Passos Guimarães, Alcides Ribeiro Soares, Amaro Quincas, Caio Prado Júnior, Cícero Péricles de Carvalho, Clóvis Moura, Darcy Ribeiro, Décio Freitas, Dirceu Lindoso, Edison Carneiro, Jacob Gorender, Joel Rufino dos Santos, Leôncio Basbaum, Luiz Werneck Vianna, Marly Vianna, Nelson Werneck Sodré, Roland Corbisier, Rui Facó, Sérgio Faraco e Souza Barros?

Da Academia e dos organismos de pesquisa sem Abguar Bastos, Adão Pereira Nunes, Alexis Stepanenko, Aloísio Teixeira, Amílcar Baiardi, Antonio Carlos Máximo, Antônio Carlos Peixoto, Antonio Lousada, Antonio Paim, Aspásia Camargo, Caetano Araújo, Caiuby Alves da Costa, Celso Frederico, Cesar Maia, Edgar Carone, Eduardo Rocha, Elias Chaves Neto, Emílio Carrera Guerra, Eurico Figueiredo, Flávio Kothe, Gastão Weyne, Geraldo de Souza Tomé, George Gurgel de Oliveira, Gildo Marçal Brandão, Haiti Moussatché, Hamilton Garcia, Heron de Alencar, Horácio Macedo, Isaac Scheiwart, Ivan Pedro de Martins, Ivan Ribeiro Filho, Jacob Kligerman, Joel Teodósio, José Antonio Segatto, José Cláudio Barrighelli, José Nilo Tavares, Josué Almeida, Lúcia Hippólito, Luís Mir, Luiz Hildebrando Pereira da Silva, Manoel Martins Junior, Maria Amélia Hamburger, Maria José Feres, Mário Pedrosa, Mário Schemberg, Milton Lahuerta, Moisés Fuks, Osvaldo Evandro Carneiro Martins, Paulo César Nascimento, Paulo de Camargo e Almeida, Paulo Fábio Dantas Neto, Raimundo Jorge, Raimundo Nonato dos Santos, Raymundo de Oliveira, Rubem César Fernandes, Samuel Pessoa, Sérgio Bessermann Vianna, Sérgio Grando, Socorro Ferraz, Ubirajara Brito e Yara Brayner Mattos?

8- Da esfera jurídica sem Aluisio Gurgel, Américo Barreira, Arlindo Fernandes de Oliveira, Eros Grau, Félix Valois, Herman Baeta, Humberto Jansen, José Carlos Arouca, José Paiva Filho, Marcello Cerqueira, Modesto da Silveira, Paulo Saboia, Sinval Palmeira, Tarcísio Leitão, Vasco Damasceno Weyne e Wanda Sidou?

9- O que dizer dos embates travados na cena sindical sem a participação de comunistas como Agostinho Dias de Oliveira, Alberto Galeno, Alberto Santos, Aloisio Filgueiras, Aloísio Palhano, Aluisio Medeiros, Anário Batista de Carvalho, Antenor de Souza Caldas, Antogildo Paschoal Viana, Antonio Chamorro, Antonio Eurico de Queiroz, Antonio Pereira da Silva Filho, Apolonio de Carvalho, Arildo Dória, Armando Mazzo, Armando Ziller, Arnaldo Santos, Carlos Jatay, Chico Andrade, Claudino José da Silva, David Zaia, Demistóclides Batista (o Batistinha), Expedito Rocha, Francisco Gomes (Chiquinho), Francisco Pereira, Geraldo Rodrigues dos Santos, Gregório Bezerra, Hércules Corrêa dos Reis, Humberto Archibald Campbel, Itair José Veloso, Ivan Pinheiro, Jair Simões, João Farias de Souza (Caboclinho), João Massena Melo, José Augusto de Souza Rodrigues (Guto), José dos Santos Serra, José Ferreira da Silva (Frei Chico), José Francisco Oliveira, José Leandro, José Maria Bonfante, José Maria Platilha, José Pereira de Oliveira (Macarrão), José Raimundo da Silva, José Simões, José Viegas, José Waldir de Aquino, Laura Mangueira, Lauro Brígido Garcia, Lindolfo Silva, Luiz Antônio Martins (Gato), Luiz Tenório de Lima, Luiz Viégas da Mota Lima, Manoel Aeri Ferreira, Manoel Coelho Raposo, Manoel Fiel Filho, Marcos Andreotti, Maria Sallas, Mário Albuquerque, Mário Grazini, Moacir Longo, Moura Beleza, Nestor Veras, Odilon Niskier, Olympio Fernandes de Mello, Oswaldo Pacheco, Pedro Albuquerque, Rafael Martineli, Ramiro Lucchesi, Roberto Morena, Roberto Percinotto, Vicente Pompeu, Vulpiano Cavalcante e Waldir Cardoso?

Em abril de 1945, foi criado o Movimento dos Trabalhadores Unificados (MUT), que daria surgimento, no ano seguinte, à Confederação dos Trabalhadores do Brasil (CTB), à frente o PCB. Em 1963, formou-se o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). Todos esses movimentos sofreram dura repressão dos governos.

Como não recordar, por exemplo, que, na esteira da grande greve de 1957, o Partido proporia a adoção do 13º salário por intermédio de Roberto Morena? Como ignorar a ação dos comunistas na criação da União Nacional dos Estudantes (UNE), ainda nos anos 30, sob a ditadura Vargas? Ou do CPC (Centro Popular de Cultura) da própria UNE, nos anos 60?

10- Dos movimentos sociais e em defesa dos direitos das mulheres, dos negros e índios sem Abgail Páscoa, Adoração Vilar, Ailton Benedito de Souza, Alciléia Morena, Aldaísa Bonavides, Almira Rodrigues, Ana Montenegro, Antonieta Campos da Paz, Arabela Pereira, Barbara Feitosa, Beatriz Riff, Berta Ribeiro, Carlos Alberto Caó de Oliveira, Carlos Moreira, Chico e Apoena Meirelles, Eduardo Galvão, Elisa Branco, Guiomar Monteiro, Helena Bessermann Vianna, Heloneida Studart, Irina Storni, Jane Neves, Laudelina de Campos Mello, Leda Santos, Maria Aragão, Maria Brandão dos Reis, Maria Werneck de Castro, Marcos Terena, Naíde Teodósio, Nise da Silveira, Noel Nutels, Zuleika Alambert e Zulu Araújo?

11- Como desconhecer que, por sugestão do cientista paulista Luiz Hildebrando Pereira da Silva, deu-se a criação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), provavelmente o mais importante órgão de pesquisa do Brasil?

12- É preciso lembrar sempre que a criação do Sistema Único de Saúde (SUS) foi, em boa parte, obra dos comunistas inscrita na Constituição de 1988. Tiveram um papel decisivo aí os médicos sanitaristas Sérgio Arouca e David Capistrano Filho.

13- Apesar de não ter usufruído de muitos anos de legalidade, o PCB também teve uma atuação parlamentar importante. Apresento nomes como Adão Pereira Nunes, Alberto Goldmann, Alberto Rajão, Alísio Mamede, Álvaro Ventura, Antonio Resk, Arnaldo Jordy, Arthur Virgílio, Augusto Carvalho, Byron Sarinho, Carlos Alberto Lima Torres, Carlos Marighella, David Lerer, Fabiano Villanova, Fausto Matogrosso, Fernando Sant’Anna, Giocondo Dias, Gregório Bezerra, Hugo Martins, João Falcão, Jorge Amado, José Júlio Cavalcante, José Marinho de Vasconcelos, José Pontes Neto, Lauro Brígido Garcia, Luiz Carlos Prestes, Luiz Paulo Velloso Lucas, Manuel Campos da Paz, Marcelo Cerqueira, Marco Antonio Coelho, Modesto da Silveira, Myrthes Bevilacqua, Otávio da Silveira, Roberto Freire, Roberto Morena, Sérgio Arouca e Sinval Palmeira. Todos deram digna contribuição ao campo legislativo.

14- O PCB marcou presença também no esporte, onde, para além da figura de João Saldanha que organizou a Seleção Brasileira de 1970, que foi campeã da Copa do Mundo naquele ano, posso citar ainda os nomes dos jogadores Leônidas da Silva (o Diamante Negro) e Didi, o criador da “folha seca”.

15- E é impossível não rememorar lutadores como Abelardo Caminha, Abílio Fernandes, Adalberto Timóteo da Silva, Admar Faria Lima, Agildo Barata, Alberto Aleixo, Alberto Negri, Almir Matos, Aloysio Nunes Ferreira, Amaro Valentim, Ana Baptista, Ananias Macedo, Ângelo Arroyo, Aníbal Bonavides, Anita Prestes, Anivaldo Miranda, Antonio Carlos Mazzeo, Antonio dos Santos Teixeira, Antônio Fausto do Nascimento, Antônio Gonçalves Filho, Apolônio de Carvalho, Aristeu Nogueira, Armando Sampaio, Armênio Guedes, Arnaldo Jordy, Augusto Schmidt Pinto, Calil Chade, Cândido Feitosa, Carlos Alberto Frank (Cabo Frank), Carlos Danielli, Carlos Eduardo Fernandes (Hepatite), Carmelino Resende, Célio Guedes, Cristiano Cordeiro, David Capistrano, David Capistrano Filho, Dina Lida Kinoshita, Dinarco Reis, Dinarco Reis Filho, Dino Gomes, Diógenes de Arruda Câmara, Dulce Rosa de Bacellar Rocque, Ederval Araújo Xavier (Poly), Edmilsa de Souza Costa, Eduardo José Santiago (Dida), Elson Costa, Eraldo Bulhões, Estevão Martins, Euvaldo Leda (Cabo Velho), Everardo Dias, Fernando Lacerda, Francisco Inácio de Almeida, Francisco José Pereira, Geraldo Campelo, Geraldo Campos, Gerson Mascarenhas, Gilson Leão, Gilvan Cavalcante, Givaldo Siqueira, Graziela Melo, Heitor Casaes, Heitor Ferreira Lima, Henrique Cordeiro, Hiram de Lima Pereira, Irun Santana, Isnard Teixeira, Ivan Ribeiro, Jackson Barreto, Jarbas de Holanda, João Amazonas, Joaquim Câmara Ferreira, Jocelyn Brasil, Jorge Espechit, José Ferreira de Almeida, José Maria Crispim, José Maria Monteiro, José Maximino de Amarante Neto, José Montenegro de Lima (Magrão), José Roman, José Sales, Juarez (Juca) Amorim, Juca Ferreira, Kunio Suzuki, Laurinha Mangueira, Lauro Gurgel de Oliveira, Lauro Reginaldo da Rocha (Bangu), Leivas Otero, Lícia Canindé (Ruça), Lincoln Oeste, Lourival Costa Vilar, Luiz Carlos Prestes Filho, Luiz Fernando Contreiras, Luiz Inácio Maranhão Filho, Luzia Ferreira, Márcio Araujo, Marcos Jaimovich, Maria Prestes, Mário Alves, Maurício Grabois, Mauricio Seidl, Milton Cayres de Brito, Minervino de Oliveira, Moisés Vinhas, Nelson Goulart, Octávio Brandão, Onofre da Costa Filho, Orestes Timbaúba, Orlando Bonfim Junior, Paulo Elisiário Nunes, Pedro Jerônimo de Souza, Pedro Pomar, Pretextato José da Cruz, Rafael Martinelli, Raimundo Alves de Souza, Raimundo Damásio (Dedé), Raimundo Jinkings, Raul Jungmann, Regis Cavalcante, Regis Fratti, Renato Oliveira da Motta, Robespierre Teixeira, Rogério ‘Senador”, Rolando Fratti, Romero Figueiredo, Rui Barata, Salomão Malina, Sérgio Augusto de Moraes, Sérgio Holmos, Sinhá Vera, Takao Amano, Tarcísio Leitão, Ulrich Hoffman, Valério Konder, Walter Ribeiro, Wellington Mangueira, William Moreira Lima, Zélia Magalhães e Zuleide Faria de Mello. Alguns ainda em plena atividade.

A lista é extensa, embora incompleta, sei disso.

O PCB teve milhares de militantes assassinados e torturados. Representante do que o nosso Humanismo teve de melhor, esta trajetória é parte integrante da construção de um Brasil mais fraterno, justo, próspero e democrático, sem as mazelas que tanto nos tem atingido. Precisamos, mais do que nunca, resgatar esta sua rica experiência.

O Partido cometeu, naturalmente, muitos equívocos. Demorou a se afastar da política obreirista. Organizou o Levante de 1935. Fechou os olhos para as limitações democráticas de países que se reivindicavam socialistas. Apoiou um Manifesto de Agosto anacrônico já nos anos 1950. Mesmo assim teve mais acertos do que erros.

Os comunistas nunca se envolveram em corrupção ou desvio de dinheiro público. Estiveram presentes em praticamente todas as frentes de luta. E ninguém pode tirar isso do Partido. Pertence à nossa História. O PCB compõe uma espécie de memória sensitiva do povo brasileiro. Uma escola política sem paralelo, talvez, no século XX, no país. Seus militantes buscavam o que era comum – os pontos de união - sem abrir mão do que lhes era peculiar. O Partido nos ajudou a desvendar o Brasil para melhor transformá-lo. Lutou obstinadamente contra todas as ditaduras que enlutaram o Brasil ao longo do século XX. Os comunistas apoiaram políticas aliancistas durante décadas a fio. E isso desde a formação do Bloco Operário e Camponês, no final dos anos 20, até a aliança com os liberais-democratas para derrotar a ditadura de 1964. Estou convencido de que precisamos novamente da sensibilidade que o PCB sempre dedicou ao mundo do trabalho. Um mundo que não se restringe mais ao chão das fábricas, ganhando literalmente o chão das ruas das cidades. É fundamental reunir os trabalhadores incluídos e os excluídos, colocados à margem dos direitos sociais. Até para evitar que sirvam de massa de manobra para demagogos ou fascistas e populistas de todo tipo. É aí que a cidadania tem um grande papel histórico a cumprir. O velho comunista Salomão Malina chamava constantemente a atenção para isso.

As mudanças dependem do processo histórico, isto é, estão alicerçadas em relações sociais precisas. Isto vai além da vontade de personalidades ou mesmo de partidos. As condições objetivas existem. Mas, no limite desse processo ou dessas condições objetivas, os comunistas não mediram esforços para mudar o Brasil.

Apesar de nunca terem estado no poder central, os comunistas fizeram muito mais do que isso: arejaram a sociedade com suas ideias e ações. Tiveram o Brasil como missão. Sempre ficaram ao lado do povo nas lutas pela cidadania. Caminharam da sociedade para o Estado. Este o seu ponto de partida. E a sociedade é sempre maior que o Estado. Outros grupos empalmaram o Estado e pouco fizeram pela sociedade. A trajetória do PCB nos lembra que hegemonia é condução de processo. As bandeiras desfraldadas inicialmente pelo Partido tornaram-se bandeiras nacionais. Apesar das perseguições que sofreu e das inúmeras divisões internas que teve, o Partido deixou uma marca incontestável na vida nacional.

Como disse o poeta Ferreira Gullar, não se pode escrever a história do Brasil sem o PCB ou estaríamos mentindo.

*Ivan Alves Filho é historiador, autor de mais de uma dezena de livros em que se destacam O Memorial de Palmares e O caminho do alferes Tiradentes


Segredo da mão impressa na gruta de Lascaux instiga historiador Ivan Alves Filho

Em artigo na revista Política Democrática Online, autor se debruça sobre o assunto e aponta hipóteses

Cleomar Almeida, assessor de comunicação da FAP

“O que significa, exatamente, aquela mão impressa numa gruta de Lascaux, no interior da França? Será que alguém sabe dizer ao certo? Estamos diante de mais um daqueles mistérios insondáveis da humanidade?”. As perguntas são do jornalista e historiador Ivan Alvez Filho, em artigo que ele produziu para a revista Política Democrática Online. A publicação é produzida a editada pela FAP (Fundação Astrojildo Pereira), e todos os seus conteúdos são disponibilizados, gratuitamente, no site da entidade.

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Em todo caso, diz o autor no artigo, a questão sempre o fascinou. “Penso em várias hipóteses. Primeiro, o homem teria percebido que a mão o diferenciava dos animais. Daí o destaque dado a ela. Afinal, ele era o único ser a ficar de pé, com as mãos liberadas, portanto. E o raio de visão consideravelmente ampliado”, afirma, para continuar: “As datas calculadas pelos arqueólogos para a idade das pinturas rupestres de Lascaux se aproximam dos 30 mil anos, época em que o homem já era perfeitamente homo sapiens erectus. Faz certo sentido”.

Outra hipótese, de acordo com o artigo publicado na revista Política Democrática Online, implicaria aceitar que o homem quis legar para a posteridade um testemunho de sua passagem pelo mundo. “Como se, subitamente tomado de uma consciência de indivíduo, ele se dispusesse a comunicar, transmitir, registrar sua humanidade àqueles que fatalmente lhe sucederiam”, diz ele.

A consciência humana em gestação revelava, segundo o historiador, que o homem não era imortal. “E a pintura o teria auxiliado a expressar isso, a deixar sua marca para o futuro. Ou seja, nós. É razoável pensar assim. Nascia o mundo do simbólico, que também nos diferencia dos animais. Karl Marx chegou a dizer que o pior dos arquitetos é superior a melhor das abelhas por fazer uso de sua imaginação”, acentua.

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El País: “Bolsonaro acredita no ‘líder acima de tudo’, inclusive da saúde da população em tempos de pandemia”, diz Finchelstein

Federico Finchelstein, historiador argentino, diz que mentiras do presidente aplicam método fascista: “O que diz acaba se tornando um artigo de fé e não algo que tenha a ver com a realidade”

O historiador argentino Federico Finchelstein é um dos principais especialistas em fascismo e populismo, autor de livros como Do Fascismo ao Populismo na História e As Origens Ideológicas da Guerra Suja ―sobre a ditadura militar argentina, sem versão em português―, além de obras sobre o holocausto e a Alemanha nazista. Para 2020 prepara Uma Breve História das Mentiras Fascistas, no qual dedica uma parte ao presidente brasileiro Jair Bolsonaro, visto por Finchelstein como uma das lideranças populistas mais próximas ao fascismo. Ele chegou a escrever na revista Foreign Policy durante as eleições de 2018 que o bolsonarismo se inspirou no manual nazista de propaganda lançado por Joseph Goebbels, ministro de Adolf Hitler entre 1933 e 1945.

Em entrevista ao EL PAÍS por telefone, o professor da New School for Social Research afirma que “existe um claro golpismo” nas manifestações a favor do Governo do domingo passado (15), por causa das mensagens contra os demais poderes. Também afirma que as mentiras ditas por Bolsonaro e outros líderes ultranacionalistas e da extrema direita, como Donald Trump (Estados Unidos) ou Matteo Salvini (Itália), os aproximam mais do fascismo do que do populismo. “Esses líderes acreditam em suas próprias mentiras, em suas próprias fantasias, até que a realidade se impõe sobre elas”, explica.

Pergunta. No domingo passado, manifestantes gritavam palavras de ordem a favor do Governo Bolsonaro e contra o Congresso e o STF. Muitos inclusive pediam uma intervenção militar e um novo AI-5. O presidente chegou a romper sua recomendação de isolamento por causa do coronavírus para cumprimentar manifestantes. Como enxerga tudo isso?

Resposta. Existe um claro golpismo apoiado por um líder post fascista e que gostaria de ser um ditador fascista. Por um lado, os bolsonaristas têm o direito de se organizar e de participar de todas as reuniões que queiram. Mas uma manifestação contra o Congresso e a independência dos poderes está mais próxima dos atos fascistas ou das manifestações pró-Pinochet que de uma manifestação democrática. Está nas mãos da cidadania, da oposição, da imprensa e dos poderes independentes defender a democracia brasileira.

P. Há provas de que os atos foram impulsionados pelo próprio Governo Bolsonaro, inclusive através de canais oficiais. Com a pandemia do coronavírus, o presidente chegou a fazer pronunciamento em cadeia nacional desencorajando o que chamou de manifestações “espontâneas”. Em outros países governados pela extrema direita já aconteceu algo parecido?

R. Acontece o mesmo tipo de situação em diferentes governos, que se apoiam em diferentes atos massivos. Donald Trump costuma fazer atos não nas ruas, mas em estádios. A pergunta é: por que essa mentira de que são espontâneas, de que não são organizadas? Ou inclusive por que fazem durante a crise do coronavírus? Me parece um exemplo claro da demagogia Bolsonaro, de suas ideias políticas com raízes fascistas acima de tudo. É, principalmente, o líder acima de tudo, inclusive da saúde e do bem-estar da população em tempos de pandemia.

P. Como avalia o Governo Bolsonaro até aqui?

R. Do ponto de vista democracia a avaliação não poderia ser mais negativa. Bolsonaro, dentro do que é a história do populismo, é um dos populistas mais extremistas que existe. E o mais próximo ao fascismo. É uma pessoa que vem degradando a democracia de várias formas, demonizando a oposição, a imprensa... Mas a questão vai além de adjetivos. Existe uma ideologia por trás de sua vulgaridade que, em um ponto, vai se distanciando do populismo e se aproximando do fascismo.

P. Qual é a diferença entre os dois conceitos?

R. O populismo é uma forma autoritária de democracia e o fascismo praticamente destrói a democracia por dentro para criar uma ditadura. Não podemos dizer que, neste momento, existe um governo fascista no Brasil porque, sobretudo graças à sociedade civil e à imprensa, Bolsonaro não conseguiu destruir a democracia como ele gostaria e como já expressou em distintos momentos. Mas a história de Bolsonaro é a história de um governante que tenta destruir essa sociedade civil e democrática. Depende dos brasileiros que não consiga.

P. Mas quais são os parâmetros para dizer que Bolsonaro (e também líderes como Donald Trump e Matteo Salvini) estão mais próximos do fascismo que do populismo?

R. O fascismo tem três elementos. O primeiro, e principal, é a xenofobia e o racismo direcionados a distintas minorias. Não necessariamente é um elemento central da maior parte dos populistas. Pensemos nos casos do Brasil, que viu um populismo de viés corporativo de Getúlio Vargas o de viés neoliberal como o de Fernando Collor de Mello. A xenofobia não era elemento central desses governos.

O segundo elemento é a violência política, central para o fascismo. E neste caso existe uma dúvida: lembremos que pessoas próximas de Mussolini assassinaram alguns líderes da oposição; no Brasil, temos visto certa proximidade da família Bolsonaro com milicianos [que controlam territórios no Rio de Janeiro e influenciam na política local] e os supostos assassinos da vereadora Marielle Franco.

E, finalmente, o terceiro elemento principal é a ditadura. E o mero fato de que estejamos conversando mostra que este elemento ainda não chegou no Brasil, já que não existe liberdade de imprensa na ditadura. Nesse sentido, o que temos por ora é uma proximidade bastante preocupante do populismo de Bolsonaro ao fascismo. Ele fala como um fascista, mas governa como um fascista? Acredito que a resposta tem a ver não apenas com o que ele quer fazer, mas sim com os limites que os brasileiros colocam.

P. Mas os populistas não abraçam alguns desses elementos?

R. Entre os populistas não existe o uso da violência política nem a discriminação, a xenofobia e o racismo. E, diferentemente do fascismo, os populistas de esquerda e de direita tem uma concepção de povo muito diferente. Para o fascismo, o povo está baseado em qualidades étnicas e religiosas. Para o populismo, o povo são aqueles que votam no líder. É uma ideia autoritária, uns são o povo e outros são os antipovo. Mas, ainda que seja autoritária, é uma definição baseada nas ideias, e não necessariamente em conceitos étnicos e religiosos. E isso vai de Getúlio Vargas e Juan Domingo Perón a Collor de Mello, Berlusconi ou Chávez. O que vemos em líderes como Trump, Bolsonaro, Modi [primeiro-ministro da Índia] ou Salvini é que o povo passa a ser entendido de outra forma. Se Bolsonaro define os brasileiros como cristãos, o que acontece com aqueles que não acreditam em Deus?

P. Você chegou a escrever durante a campanha que de 2018 que Bolsonaro estava mais próximo de Goebbels que do ex-presidente italiano Silvio Berlusconi.

R. Existe um quarto elemento do fascismo que é a mentira. E acredito que Bolsonaro, Trump ou Salvini mentem como fascistas, e não como populistas. Historicamente, os populistas não se atrevem a deixar de lado as evidências mais óbvias. Nesses casos, a mentira é mais demagógica, cínica. É propaganda, eles não acreditam em suas mentiras.

Mas quando digo que mentem como fascistas, é porque esses líderes acreditam em suas próprias mentiras —até que a realidade se impõe sobre elas. Pensemos nessa convocação de protestos no contexto do coronavírus. Trump vinha negando a importância do tema, enquanto que Bolsonaro chegou a dizer que era uma fantasia. Chega ao ponto de que o círculo se completa, por assim dizer, quando um de seus próprios secretários [Fabio Wajngarten, titular da Secretaria de Comunicação] dá positivo no texto.

P. Os ataques à imprensa se explicam por causa dessas mentiras que acreditam?

R. Sim, porque a imprensa independente o que faz é apresentar dados empíricos para contrastar as versões oficiais de propaganda. Por isso ela é um eixo central da democracia e também por isso ela um problema para esse tipo de líder e suas mentiras.

P. No momento em que o dólar disparava, as Bolsas registravam enormes perdas e a crise do coronavírus se agravava, Bolsonaro disse, sem apresentar provas, que as eleições presidenciais foram fraudadas e que ele ganhou no primeiro turno. Trata-se apenas de uma cortina de fumaça para desviar o foco da imprensa, como se costuma dizer, ou existo algo além disso?

R. No sentido mais concreto e no sentido mais histórico trata-se de uma estratégia típica do fascismo para substituir a realidade com propaganda, isto é, com as mentiras mais evidentes. Isso tem a ver com a política da fé, então o que diz Bolsonaro acaba se tornando um artigo de fé e não tanto algo que tenha a ver com a realidade. Outra questão sobre Bolsonaro é que ele tende a se basear muito no que Trump faz. Ele diz coisas que Trump já disse em algum momento, como a referência sobre as supostas fraudes em sua própria vitória. Trump dizia que ganhou no voto popular, o que não aconteceu. E vemos a mesma estratégia com o coronavírus. Parece haver um delay: Trump dizia que era uma fantasia, e Bolsonaro segue repetindo isso —enquanto Trump parece se afastar um pouco dessa ideia. A mesma coisa acontece com a imprensa, tratada por Trump como inimiga do povo. O problema é que a imprensa independente precisa reportar com evidência, e esse mero ato implica um desafio a essas políticas de propaganda de governos extremistas. O mero ato de perguntar ou de pedir evidências significa um desafio a essas tendências autoritárias. Quando diz que uma pandemia é uma fantasia, não existe algo intermediário. Para os jornalistas não pode haver duas versões da realidade. Não existe dois lados, existe um personagem mentindo baseado na fantasia e no mito, e por outro lado está a realidade. E por isso a imprensa é tratada como inimiga... Num regime fascista não existe imprensa independente, apenas fantasia e propaganda.

P. Quais são as outras características do manual de propaganda de Goebbels que o bolsonarismo copia?

R. A principal é que mente e acredita em suas mentiras e fantasias, mas outro tema central tem a ver com a projeção. No geral, o que ele costuma dizer é a realidade de seu próprio ser, do próprio Bolsonaro. Todos sabemos que o coronavírus não é uma fantasia. E todos sabemos que, ao contrário do que disse Trump, o coronavírus não é um problema estrangeiro. É um problema também dos Estados Unidos, e tanto é assim que um Secretário da Comunicação foi contagiado dentro do país. Mas a culpa sempre é dos outros, mesmo quando tem a ver com suas próprias responsabilidades. São eles que mentem, não planejam e não pensam na saúde da população.

P. E as pessoas, incluindo seus próprios eleitores, pagam um preço, não? A fila do Bolsa Família aumenta, as pessoas não conseguem suas aposentadorias... Essas mentiras são viáveis a longo prazo?

R. Eventualmente a realidade se impõe e inclusive os seguidores mais fanáticos em algum ponto deixam de acreditar neles. Mas, quando isso acontece, já terá havido muito sofrimento e muitas vítimas, no sentido literal do termo. As políticas de ajuste, de repressão e de discriminação têm suas consequências.

P. Essas mentiras também servem para manter a base eleitoral mobilizada enquanto são feitas reformas ultraliberais impopulares?

R. Não sei se estou de acordo. São fanáticos porque acreditam nisso. Os nazistas não fizeram um uso cínico da propaganda, eles acreditavam nessa propaganda. Na cabeça deles não existe distinção entre repressão, discriminação e ajuste neoliberal. A ideologia não tem um lugar secundário, mas sim central. Acreditam em suas próprias mentiras e representam um perigo para a democracia.

P. Há quem diga que o candidato democrata Bernie Sanders é o Bolsonaro da esquerda norte-americana, ou que o PT e o ex-presidente Lula representem o extremo oposto. Está correto?

R. Não estou de acordo. E o que seria o extremo oposto ao fascismo? O antifascismo [risos]? O populista é aquele que atribui a si mesmo a voz do povo e personifica o povo. É o líder que se vê como um enviado de Deus para falar em nome do povo e decidir em nome do povo. Foi o caso de Hugo Chávez e de Cristina Kirchner, mas isso é menos claro no caso de Lula e, definitivamente, não me parece que seja o caso de Sanders. Lideranças fortes são típicas da história da democracia, mas não necessariamente tem a ver com populismo. Também não se pode igualar políticas populares com populismo. E, mais uma vez, com Sanders e Lula não existe o uso da violência política nem a discriminação, a xenofobia e o racismo, e isso não é menos importante.


A democracia está em risco? Assista a debate em encontro que reuniu 75 jovens do Brasil

Historiador e professor Marcus Vinicius Oliveira coordenou a discussão em evento realizado pela FAP

Cleomar Almeida, assessor de comunicação da FAP

Os riscos à democracia geram bastante preocupação e debate em meio ao acirramento e polarização de ideias na sociedade. Governos de extrema direita, como é o caso do presidente Jair Bolsonaro no Brasil, demonstram cada vez mais posturas contrárias aos ideais democráticos e republicanos e alimentam polêmicas para inflar os ânimos de seus seguidores, conforme analisam cientistas políticos.

Como de costume, a discussão é polarizada. Os pontos apresentados por cada um dos lados envolvidos nessa batalha ideológica são intermináveis e usados como argumento para defenderem o que pensam. Muitas vezes, até a dignidade humana é colocada em xeque. Mas até que ponto a democracia existe no Brasil? É possível e preciso democratizar a democracia? Em que medida a democracia resulta na consciência e prática de direitos e deveres por parte dos cidadãos?

Esses e outros assuntos foram abordados em discussão coordenada pelo historiador e professor Marcus Vinicius Oliveira, durante o IV Encontro de Jovens Lideranças, realizado pela FAP (Fundação Astrojildo Pereira), em Corumbá de Goiás, a 125 quilômetros de Brasília. No total, 75 jovens dos 26 Estados e do Distrito Federal participaram do evento.

» Confira abaixo o vídeo da palestra de abertura ou clique aqui!

https://youtu.be/k7-Wci6OhLc

 

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‘Bach fez nosso planeta soar de outra maneira’, escreve Ivan Alves Filho na Política Democrática de dezembro

Historiador diz, em artigo publicado na revista da FAP, que músico alemão era ‘homem de luta’

Cleomar Almeida, assessor de comunicação da FAP

“Johann Sebastian Bach é, para muitos, o maior nome da música em todos os tempos. Mestre do contraponto, o músico alemão fez nosso planeta soar de outra maneira”. A análise é do historiador Ivan Alves Filho, em artigo de sua autoria publicado na revista Política Democrática online de dezembro. Todos os conteúdos da revista podem ser acessados, gratuitamente, pelo site da FAP (Fundação Astrojildo Pereira).

» Acesse aqui a 14ª edição da revista Política Democrática online

De acordo com o historiador, Bach era um fervoroso protestante, originário de uma família de músicos. “Religião e arte faziam parte do seu corpo, como sangue e ossos”, afirma. “A darmos crédito a um depoimento, a tocar órgão, Bach corria sobre os pedais como se seus pés tivessem asas, fazendo o instrumento ressoar de tal maneira que quase se diria ouvir uma tempestade”, acrescenta.

Bach, segundo Ivan, era “um homem de luta”. “O Duque de Weimar chegou a mandar prendê-lo, porque o músico insistia em deixar a cidade em busca de melhores condições de trabalho. Obstinado, Bach não cedeu às pressões do Duque e ainda concebeu, na prisão, o Peque no Livro do Órgão”, lembra.

Ivan diz que, toda vez que ouve algo de Johann Sebastian Bach, firma a convicção de que sua música - de tão tensa, retorcida, obcecada até - não cabe completamente nos limites das notas musicais. “Na verdade, Bach nos remete a um som que extrapola ou atropela tudo”, afirma.

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