fascismo

O ex-primeiro-ministro da Itália Benito Mussolini fundou o Partido Nacional Fascista em 1921 | Foto: Reprodução/Descomplica

25 de Abril: Um dia com história em Portugal... e em Itália. Do 'Bella Ciao' à 'Grândola, Vila Morena'

Correio da Manhã*

Foi a 25 de Abril de 1974 que a 'Revolução dos Cravos' acabou com a ditadura do Estado Novo em Portugal. Mas nem só por terras lusas este dia é comemorado como o da libertação de regimes ditatoriais. Corria o ano de 1945 quando, em Itália, o povo italiano colocou um ponto final na ocupação nazi no seu território.

https://youtu.be/gaLWqy4e7ls

O 25 de Abril é uma das datas mais importantes e mais comemoradas no calendário italiano desde então. Nos movimentos de libertação participaram cerca de 300 mil pessoas. Há investigadores que dizem que este número está nivelado por baixo.

Em Portugal, a 'Grândola, Vila Morena' de Zeca Afonso foi o hino da libertação do Estado Novo. Em Itália, Bella Ciao - popularizado nos últimos anos com a série 'La Casa de Papel' - foi o hino da Resistência Italiana - os partigianos - contra o fascismo de Benito Mussolini e das tropas nazis durante a Segunda Guerra Mundial.

https://youtu.be/zWas7fEBL2g

Bella Ciao é uma música cuja origem é desconhecida, historiadores defendem que terá tido origem no final do século XIX. sabe-se apenas que foi baseada em algumas composições antigas, tanto a nível de letra como musical.

Foi no dia 25 de Abril de 1945, há 75 anos atrás, que os partigianos - resistência italiana - anunciaram pela rádio, acompanhada do hino da liberdade, o Bella Ciao, a tomada de poder e a pena de morte para todos os fascistas. Foi a partir dessa data que foram recuperados os últimos territórios que ainda eram ocupados por tropas fascistas ou nazis em Itália. Em menos de uma semana, todas as cidades italianas foram libertadas. Benito Mussolini, líder do Partido Nacional Fascista em Itália, acabou por ser detido e executado, a 28 de maio de 1945.

*Texto publicado originalmente no Correio da Manhã


Mario Giro: A mentalidade fascista nunca morre, não se pode baixar a guarda

É necessário sempre lembrar o que causou, para combatê-la dentro da sociedade, avalia Mario Giro

IHU Online

"Destas poucas observações emergem duas coisas: a primeira é que a mentalidade fascista nunca morre e por isso é necessário sempre lembrar o que causou, para combatê-la dentro da sociedade. A segunda é que essa mentalidade pode facilmente se fundir com outras formas de rebelião e ressentimento social, como os No-vax,", escreve Mario Giro, vice-ministro do Exterior italiano, em artigo publicado por Domani, 16-10-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Perguntemo-nos seriamente: existe o risco de voltar o fascismo? Muitos comentaristas respondem que não, assim como parte dos líderes políticos. A resposta deles se baseia em uma análise plana da atualidade, sem perspectiva histórica e sem conhecer o poder das ideologias na história.

O fascismo do passado

É óbvio que não existe o risco de um retorno ao fascismo que foi: flâmulas, hinos, marchas e camisas pretas. Na Itália, o regime fascista caiu em 25 de julho de 1943. A turma republicana (apesar da percepção de quem participou dela) foi muito diferente: não era mais o fascismo italiano, mas uma facção sujeita ao nazismo alemão (como para outros movimentos em Europa), ou seja, a corrente itálica do regime germânico.

O neofascismo

Depois da guerra na Itália, o neofascismo renasceu, diferente do regime fascista dos anos 20, com uma marca subversiva e contra o estado. Essa forma neofascista ainda hoje existe e, embora seja considerada ilegal e ilegítima pela Constituição, é tolerada há décadas.

Fascismo Eterno

Para entender o que realmente é a essência fascista, basta reler o Fascismo Eterno de Umberto Eco.

Uma "colagem" desordenada e grosseira de várias ideias políticas, uma "colmeia de contradições", o fascismo eterno é "um exemplo de distorção política e ideológica".

Não é por acaso que hoje o protesto do universo No-vax e No-green pass anda, em si distante da prática do fascismo, regime que preferia um estado centralizador em política sanitária, de recuperação e convictamente favorável à vacinação. Em seu progresso desordenado na sociedade, o neofascismo atual pisca os olhos para tudo o que é subversivo, como os movimentos anticapitalistas radicais por exemplo, que não fazem parte de seu background exceto na prática rebelde dos inícios.

Segundo Eco, o fascismo eterno tem características constantes como o irracionalismo em que a cultura é suspeita e também a ciência; ou a obsessão pela conspiração ou o desprezo pelos fracos.

Muitas reações ou posições desse neofascismo destorcido surgem da frustração individual ou social que se transforma em raiva, sempre de acordo com Eco.

Um pensamento eterno

Destas poucas observações emergem duas coisas: a primeira é que a mentalidade fascista nunca morre e por isso é necessário sempre lembrar o que causou, para combatê-la dentro da sociedade.

A segunda é que essa mentalidade pode facilmente se fundir com outras formas de rebelião e ressentimento social, como os No-vax.

Quem não vê esse risco não sabe ler a nossa sociedade e os perigos que a ameaçam. A recusa em ver nos fatos de Roma a matriz fascista já representa em si uma emergência constitucional.



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Luiz Sérgio Henriques: Fascismo e antifascismo

Cabe ter esperança na ação de uma esquerda que assuma a ideia democrática

Há pouco mais de um ano, não deixou de causar furor e indignação a atitude de Matteo Salvini, o expoente da ultradireita italiana e, na época, a figura mais forte do governo, ao se recusar a celebrar a data de libertação do seu país da ocupação nazista e do despotismo mussoliniano. O 25 de abril, na visão de Salvini, não marcava nenhum renascimento nacional por trazer um vício de origem: independentemente da catástrofe cujo fim aquela data assinala, trata-se de uma contraposição – entre fascistas e antifascistas – já arquivada nos desvãos do passado. O fascismo está derrotado e, por isso, o antifascismo não tem mais razão de ser. E, sobretudo, não tem mais razão de ser porque entre os antifascistas, na primeira fila, estão os odiados comunistas, a quem Salvini, como os demais companheiros de cruzada, não reconhece nenhum papel positivo, em contexto algum.

No entanto, o antifascismo, apesar de Salvini e companhia, é um termo que tem atravessado gerações, redefinindo-se em diferentes conjunturas críticas. Seus símbolos, suas palavras de ordem e até canções, como a Bella Ciao, que os jovens voltam a entoar nas manifestações em várias línguas, mostram que ali, naquele termo, há matéria de memória e de reflexão, especialmente por quem, considerando as frentes antifascistas um tema relevante ainda hoje, nem por isso se abstém de enfrentar contradições muitas vezes dilacerantes no próprio campo.

O comunismo, por exemplo. Onde quer que tenha havido fascismo, ou arremedo dele, como no Brasil do Estado Novo, os comunistas lutaram o bom combate. E a URSS staliniana foi um componente essencial da aliança com as democracias ocidentais que afastou o pesadelo de um Reich de mil anos. Mas é forçoso reconhecer que, lutando pela democracia, os comunistas no poder construíram Estados repressivos e, para falar com franqueza, totalitários; na oposição, ao contrário, tornaram-se pouco a pouco fatores importantes de várias democracias, moderando-se ao longo do tempo num sentido social-democrata e dando origem ao proverbial “reformismo” legalista dos velhos PCs. Eles, em tais contextos, sempre menos antissistêmicos e mais preocupados com a integração dos “de baixo”, eram meios para a expansão virtuosa das democracias, e não para a explosão revolucionária, o que ia ao encontro dos interesses de toda a sociedade.

O antifascismo original não anulava nem escondia a diversidade das suas partes constitutivas. Conservadores, liberais e socialistas democráticos, entre outros, deviam calar temporariamente suas fundadas restrições à versão jacobina que da tradição marxiana davam os partidários da Revolução de 1917. Estes últimos, comprometidos com a estatolatria implantada no país-modelo, se batiam na frente antifascista ao lado de aliados que defendiam com firmeza as liberdades “negativas”, as que protegem cada indivíduo contra a onipotência do Estado e sem as quais os melhores ideais da igualdade degeneram em igualitarismo grosseiro. A coragem demonstrada nas frentes de batalha, embora pudesse atingir tons heroicos, não ocultava a subalternidade “ideológica” dos comunistas e da matriz bolchevique, incapaz de assimilar ou sequer entender o papel das liberdades “burguesas”.

O antifascismo consistiu assim numa aliança entre atores diferentes, e até muito diferentes, em razão de um mal maior. Mas se só houvesse diferenças entre eles a aliança se definiria negativamente e teria muito mais dificuldade para se formar. Ainda que de modo parcial e imperfeito, todos os atores aliancistas compartilhavam uma fundamental orientação democrática inerente à modernidade, que lentamente corroía o mundo rigidamente hierárquico, opressivo e “orgânico” de outrora. Por isso se desprendia do campo conservador, e a este acabava por se contrapor ferozmente, uma versão reacionária da modernidade, capaz obviamente de elaborar programas de reerguimento econômico, como no caso do corporativismo italiano ou das políticas nacional-socialistas contra a depressão, mas associados à liquidação radical dos direitos civis e políticos, à uniformização compulsória da vida social e aos mitos mais regressivos do solo e do sangue. Em suma, a grande noite do irracionalismo, a temida temporada do assalto à razão, que deram, por contraste, o cimento essencial para o bloco antifascista.

Com todos os conflitos internos, esse bloco esteve na origem de desenvolvimentos positivos, como, de certo modo, o reformismo rooseveltiano e, seguramente, os “30 anos gloriosos” do capitalismo europeu socialmente regulado. Há décadas tudo isso está sob fogo cerrado não propriamente dos conservadores, que costumam ter uma consciência serena do que merece ser mantido, mas da sua ponta mais extremada e “revolucionária”, a exemplo de Salvini, que, como bem se vê, não é um lobo solitário. Cabe ter esperança na ação de uma esquerda que, desta vez, ao contrário dos avós bolcheviques, assuma a ideia democrática, sem adjetivos, como convicção íntima e incontornável. A alternativa é a barbárie.

*Tradutor e ensaísta, é um dos organizadores das ‘Obras’ de Gramsci no Brasil


Sérgio C. Buarque: Ameaça é o populismo

Na guerra verbal da política brasileira, tem sido frequente destratar os adversários com o epíteto de fascistas, qualificativo tão incompreendido quanto inapropriado. E, no entanto, um grupo de professores e estudantes da Universidade Federal de Pernambuco acaba de criar um “comitê contra o fascismo”, divulgando um manifesto no qual, entre outras impertinências, acusa as instituições jurídicas (Ministério Público, Polícia Federal e Judiciário) de perseguição ao ex-presidente Lula e utilização de métodos fascistas. Embora cite manifestações de intolerância e hostilidade realmente visíveis no ambiente político brasileiro, é um despropósito falar de fascismo no Brasil. Os universitários utilizam um conceito inadequado e chegam a um diagnóstico errado e simplista, confundindo mais que esclarecendo. O que é mais grave, escondendo a verdadeira ameaça à democracia brasileira: o populismo.

O manifesto dos professores afirma que “o fascismo se caracteriza essencialmente por ser um movimento de massas movido pelo ódio” e adverte contra a “banalização de atos de hostilidade e desqualificação contra adversários”. De quem o manifesto está falando? A tolerância política e o respeito aos adversários não é, em absolulto, uma qualidade dos políticos do chamado “campo popular”, como se situam os assinantes do manifesto, seja lá o que signifique isso. O noticiário está repleto de casos de violência e agressão, verbal e física, da parte de militantes do PT e seus aliados, como a depredação de instalações e equipamentos da própria Universidade Federal, a sistemática agressão a políticos que não integram esse “campo”, inclusive dentro de universidades, como ocorreu com o senador Cristovam Buarque em Minas Gerais, apenas para citar dois casos recentes.

Os “fascistas” são sempre os adversários. Assim, a invenção e exploração de um “inimigo interno” para capitalizar e mobilizar a insatisfação da população, outra característica do fascismo que os universitários identificam no Brasil atual, seria pratica dos adversários do tal “campo popular”. E, no entanto, o mesmo manifesto, repetindo o que fazem com frequência os petistas e seus aliados, aponta a rede Globo, a “imprensa golpista”, o sistema bancário e, agora também, o Judiciário, como inimigos internos do Brasil, todos conspirando contra Lula que, no fundo, seria o “salvador da pátria”.

O manifesto dos universitários esquece esta que é a principal característica do fascismo e do nazismo e que, efetivamente, os distingue de qualquer outra ditadura: a liderança de uma figura carismática, salvadora da pátria, com grande comunicação direta com as massas e capacidade de mobilização e manipulação, mito que tenta substituir as instituições da república pela ligação direta com o povo. No Brasil de hoje temos Lula, o salvador da pátria. O ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva não é fascista, embora ninguém duvide do seu poder de comunicação e de mobilização das massas com afirmações simplistas e, não raro, apregoando a intolerância com os adversários, especialmente a imprensa e o Judiciário. Mas aqui, a presença desta liderança popular tem outro nome não menos inquietante:  populismo.

Felizmente estamos muito longe de uma ameaça real de fascismo. Infelizmente, contudo, as condições de desagregação social e moral, de desmoralização da política, de elevada desconfiança do eleitorado e descrédito da população criam um ambiente favorável para o populismo. Liderança carismática, salvador da pátria que vende soluções fáceis, mágicas e enganadoras para a complexidade e dramaticidade da realidade brasileira, e que ameaçam levar o país ao desastre econômico e financeiro, para não falar na radical polarização política. A intolerância está presente nos dois lados da polarização política no Brasil. Mas não há como negar a enorme contribuição do PT e de Lula para a criação deste ambiente de radicalização e ódio, com seu discurso que segmenta os brasileiros entre “nós” (campo popular???) e “eles” (todo o resto não lulista).


Cláudio de Oliveira: A Revolução Russa e o fascismo

A Revolução de Novembro de 1917 na Rússia e a de Novembro de 1918 na Alemanha aprofundaram a divisão dos militantes socialistas em duas correntes principais: o movimento comunista e a social-democracia. Para Palmiro Togliatti, líder do Partido Comunista Italiano, tal divisão facilitou a vitória do fascismo em vários países e especialmente do nazismo na Alemanha [1]. A tomada de poder em novembro de 1917 foi uma ação excludente realizada pelos bolcheviques. Eles derrubaram o governo provisório de Alexander Kerensky, formado pelo Partido Trabalhista (trudovique) em aliança com o Partido Socialista Revolucionário (SR), o Partido Constitucional Democrático (cadetes) e os mencheviques do Partido Operário Social Democrata Russo.

Vladimir Lenin, líder bolchevique, criticava a repressão do governo provisório aos seus partidários após promoverem, em julho daquele ano, uma tentativa de insurreição. Ao mesmo tempo, acusava Kerensky de não agir com firmeza contra o general monarquista Lavr Kornilov, que tentara um golpe de Estado em setembro. Lenin argumentava que o general Kornilov estaria na iminência de tentar outro golpe e por isso os bolchevique agiram [2].

Lenin refutara não só um governo em aliança com liberais. Recusara também um governo de frente popular, de união de todas as correntes socialistas russas, proposto pelo menchevique Julius Martov, no dia seguinte ao levante. Martov avaliava que um governo conjunto de bolcheviques, trudoviques, mencheviques e SRs teria força suficiente para enfrentar a contrarrevolução kornilovista e evitar a guerra civil [3].

Lenin montou um governo quase que exclusivamente formado pelos bolcheviques, concedendo dois ministérios sem importância à ala esquerda dos SRs. Manteve as eleições para a Assembleia Constituinte, anteriormente convocadas por Kerensky. Porém, os bolcheviques ficaram em minoria ao obterem 24% dos votos, contra 40% dados aos SR, 5% aos cadetes e 3% aos mencheviques. Dissolveram a assembleia, baniram os demais partidos e instituíram um sistema unipartidário, dominado pelo que viria a ser o Partido Comunista da União Soviética.

Segundo o historiador Eric Hobsbawm, havia entre as correntes socialistas moderadas da Europa boa vontade com o novo governo soviético. Os socialistas avaliavam que os bolcheviques eram a única força política capaz de organizar o caos na Rússia e que poderiam realizar uma política democrática e progressista. Todavia, retiraram-lhe o apoio quando Lenin decidiu fundar, em 1919, a Internacional Comunista em oposição à Internacional Socialista e incentivar a dissidência das alas radicais dos partidos socialistas para fundar os partidos comunistas [4].

Ao organizarem a insurreição na Rússia, Lenin e seus partidários partiam do pressuposto de que havia uma situação revolucionária em toda a Europa, com a crise provocada pela I Guerra Mundial. Entendiam a revolução na Rússia como a fagulha que detonaria um rastilho de pólvora por todo o continente. Para Lenin, a sobrevivência do novo poder soviético dependia da realização da revolução mundial. Como os bolcheviques acreditavam que os partidos socialistas havia abandonado o caminho revolucionário, organizaram a Internacional Comunista. Tentaram exportar a experiência da revolução soviética para a Polônia, Hungria e Alemanha, mas foram derrotados. Diante do fracasso, em 1925, Nikolai Bukharin passou a formular a possibilidade de construção do socialismo em um só país, afinal implementada por Josef Stalin.

A Revolução Alemã de 1918

Os bolcheviques, que passaram a se denominar de comunistas, creditaram o fracasso da revolução mundial aos socialistas moderados, em especial ao Partido Social Democrata Alemão (SPD, na sigla em alemão). Ocorre que os social-democratas alemães avaliavam que a realidade de seu país era diferente da situação da Rússia, país predominantemente agrário, de uma burguesia industrial sem forças econômica e política e de instituições frágeis. Já a Alemanha tornara-se, já em 1900, o país de maior produção industrial do mundo, com uma burguesia organizada e poderosa. Mesmo que o numeroso proletariado alemão também estivesse bem organizado, apoiado nos sindicatos e no SPD, àquela altura o maior partido do país, qualquer tentativa de tomada de poder em moldes bolcheviques esbarraria na resistência do forte Exército alemão, com apoio do grande empresariado.

Diante desse fato, o SPD optou por uma estratégia reformista de acúmulo de forças dentro da democracia representativa. A ação da social-democracia alemã teria mais a ver com o que Antônio Gramsci, dirigente do PCI, chamaria mais tarde de “guerra de posições” do que de “guerra de movimento”, implementada pelos bolcheviques. Ademais, teóricos social-democratas, como Karl Kautsky, estavam convencidos de que o exercício do poder pelos socialistas deveria ser necessariamente democrático, em um ambiente de regime parlamentar e pluripartidário. E para democratizar o país, os dirigentes socialistas estavam convencidos da necessidade de aliança com os partidos democrático-liberais centristas.

O SPD liderou a Revolução Alemã de Novembro de 1918. Com a derrota para a França na I Guerra Mundial, o Kaiser Guilherme II foi forçado a abdicar e a República foi proclamada. O social-democrata Friedrich Ebert foi nomeado chanceler (primeiro-ministro) e foram convocadas eleições à Assembleia Constituinte para 19 de janeiro de 1919.

Pela primeira vez, as mulheres alemãs tiveram o direito ao sufrágio. O SPD foi vitorioso com 37,9% dos votos; o Partido de Centro Católico, aliado do SPD, conquistou o segundo lugar, com 19,7%; o Partido Democrático Alemão (DDP, sigla em alemão), de liberais de esquerda e também aliado dos social-democratas, ficou em terceiro, com 18,5%. O Partido Popular Nacional Alema?o, de oposição de extrema-direita, alcançou o quarto lugar, com 10,3%; e o Partido Independente Social Democrata Alemão (USPD, sigla em alemão), de dissidentes de esquerda do SPD e que viria a se unir ao social-democratas, ficou em quinto, com 7,6%. Em 11 de agosto de 1919 foi promulgada a chamada Constituição de Weimar, a primeira da Europa a instituir direitos sociais. Iniciava-se assim a República de Weimar.

Contrário ao caminho reformista, democrático e parlamentar do SPD, o Partido Comunista da Alemanha (KPD, sigla em alemão), fundado em dezembro de 1918, adotou posições de extrema-esquerda e decidiu boicotar a eleição à Constituinte, apesar de seus dois principais líderes, Karl Liebknecht e Rosa Luxemburg, defenderem a participação no pleito. Em 5 de janeiro de 1919, o KPD promoveu um levante armado em Munique, numa tentativa de instaurar uma república soviética na Baviera. Os comunistas foram reprimidos pelo governo de Friedrich Ebert. As forças oficiais contaram com ajuda de um grupo paramilitar de nacionalistas de extrema-direita, as Freikorps, que, em Berlim, foram responsabilizados pelos assassinatos de Karl Liebknecht e Rosa Luxemburg, marcando de forma definitiva os ressentimentos entre comunistas e social-democratas na Alemanha. Mas, o ultraesquerdismo do KPD foi criticado até mesmo por radicais como Lenin, em sua obra Esquerdismo, doença infantil do comunismo, de 1920.

A teoria do “social-fascismo”

Lenin morreu em 1924 e a Internacional Comunista, presidida por Grigori Zinoviev, adotou uma política ziguezagueante. No início, chegou a defender a unidade das correntes socialistas contra o fascismo. Porém, a partir de julho de 1928, a teoria do “social-fascismo” prevaleceu na IC e na maioria dos PCs. Em 1924, Zinoviev havia definido a social-democracia como a “ala esquerda do fascismo”. Stalin chegou a escrever que o fascismo e a social-democracia não eram inimigos, mas irmãos gêmeos. Na sua visão, a social-democracia era até mais perigosa, pois enquanto o primeiro queria a “ditadura aberta da burguesia”, a segunda iludia a classe operária e a desviava do caminho da revolução. Para a IC, a social-democracia era agora o principal inimigo a combater.

A República de Weimar vivia grande instabilidade política decorrente de suas dificuldades econômicas. O Tratado de Versalhes, de 1919, que selou a rendição da Alemanha na I Guerra, dificultou a reconstrução do país ao exigir pesadas reparações. O governo alemão, para fazer frente aos gastos, imprimia dinheiro sem contenção, o que levou à histórica hiperinflação de 1923. Depois de uma recuperação com ajuda de empréstimos dos Estados Unidos e do Reino Unido, a crise de 1929 jogou Alemanha na Grande Depressão e provocou o desemprego de milhões de trabalhadores.

Durante todo o período, de 1918 a 1933, os governos da coalizão de Weimar, formados pelo SPD, Centro Católico e DDP, sofreram dura oposição dos extremos do espectro político: na extrema-direita, o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores (NSDAP, sigla em alemão), mais conhecido como Partido Nazista; na extrema-esquerda, os comunistas do KPD. Com a crise, ambos os partidos experimentaram uma trajetória ascendente, enquanto os partidos situados entre os polos perdiam representação no parlamento. O social-democrata Friedrich Ebert, eleito presidente da República em 1919, morreu em 1925. Para o seu lugar, se elegeu o marechal Paul von Hindenburg.

O ponto crítico que determinou o fim da República de Weimar foram as eleições parlamentares de 1932. Na eleição de julho, o Partido Nazista ficou em primeiro lugar com 37,3% dos votos; o SPD em segundo, com 21,6%; o KPD em terceiro, com 14,3%; e o Centro Católico em quarto, com 12,4%. Sob a influência da teoria do “social-fascismo”, os comunistas alemães se recusaram a formar um governo com o SPD e o Centro Católico. Sem que os partidos democráticos conseguissem formar uma maioria e, assim, um novo governo, nova eleição foi convocada para novembro, com resultados semelhantes: Partido Nazista, 33,1% dos votos; SPD, 20,4%; KPD, 16,9%; Centro Católico, 11,9%. Mais uma vez o KPD se recusou a formar um gabinete com os social-democratas e os liberais. Diante do impasse, pressionado pelos partidos de direita, o presidente von Hindenburg nomeou chanceler da Alemanha o líder do partido mais votado, o nazista Adolf Hitler, em 30 de janeiro de 1933. Menos de um mês depois, o parlamento alemão foi incendiado. Hitler culpou os comunistas, decretou Estado de emergência, colocou o KPD na ilegalidade e aprovou uma lei que lhe conferiu plenos poderes. Em seguida, os demais partidos foram proscritos, à exceção do nazista. A tragédia estava consumada: era o fim da República de Weimar.

A política de frentes antifascistas

Na Itália, os comunistas tomaram direção oposta à dos alemães. Fundado em 1921, a partir da ala radical do PSI, o PCI logo cedo afastou as alas de extrema-esquerda do partido. Em 1926, no seu III Congresso, o ultra-esquerdista Amadeo Bordiga foi destituído da chefia e os moderados, representados, entre outros, por Gramsci e Togliatti, passaram a liderar o partido. O jornal fundado ainda em 1924 por proposição de Gramsci, intitulado L’ Unità (A Unidade), não deixava dúvidas quanto aos objetivos dos novos dirigentes: a união das forças democráticas contra Benito Mussolini, do Partido Nacional Fascista, nomeado primeiro-ministro pelo rei Vittorio Emanuel III, em outubro de 1922. O regime ditatorial e repressivo de Mussolini inspirou Hitler a organizar o nazismo na Alemanha, a partir de 1933.

Togliatti será um dos grandes defensores das frentes antifascistas. Enquanto as frentes populares eram compostas exclusivamente pela esquerda, a frente antifascista na Itália passou a ter um caráter de frente democrática: da resistência participaram não só comunistas e socialistas, como também liberais e católicos. Vários deles, membros da baixa hierarquia da Igreja, se afastaram das posições políticas da cúpula do Vaticano, simpática a Mussolini. Em 1929, o “Duce” assinou o Tratado de Latrão, dando à Santa Sé a soberania sobre o Estado do Vaticano e estabelecendo o catolicismo como religião oficial da Itália, condição que perdurou até 1978.

Em fins de 1932, o PC francês, liderado por Maurice Thorez, aceitou se reunir com os socialistas franceses para debater uma frente única. A IC criticou os comunistas franceses por se sentarem com um “social-traidor”. Apesar da oposição da IC, em julho de 1934, a Frente Popular da França se constituiu como uma forte aliança entre o PS, o PC e outros setores democráticos. Vitoriosa na eleição de maio de 1936, indicou o socialista Leon Blum como primeiro-ministro. Em 19 de fevereiro de 1933, a Internacional Socialista apelou à IC para a organização de frentes únicas contra o fascismo por todo o mundo [5]. Mas somente dois anos depois, em seu VII Congresso, de agosto de 1935, a IC apoiará a proposta, quando Togliatti, Thorez e o líder do PC búlgaro, Georgi Dimitrov, convenceram Stalin da necessidade de amplas alianças contra o fascismo.

Todavia, em agosto de 1939, a unidade entre comunistas, socialistas, social-democratas e liberal-democratas ficou a abalada com a divulgação do Pacto Molotov-Ribbentrop, um acordo de não-agressão entre a Alemanha nazista e a União Soviética. Em 1º de setembro, a Polônia foi invadida pelo lado ocidental pelos nazistas e a 17 de setembro pelo lado oriental pelos soviéticos. O Reino Unido e a França declararam guerra à Alemanha. Em junho de 1941, Hitler rompeu o acordo e invadiu a União Soviética. Nesse mesmo ano, após o bombardeio do Porto de Pearl Harbor pelo Japão, os Estados Unidos entraram na II Guerra Mundial. Formou-se então a ponderosa coligação dos aliados liderada pelos “três grandes”: os Estados Unidos, presididos pelo social-democrata Franklin Roosevelt; o Reino Unido, do primeiro-ministro e liberal-democrata Winston Churchill; e a comunista União Soviética, que terá papel decisivo na derrota do nazi-fascismo, porém com o custo altíssimo do sacrifício da vida de 24 milhões de cidadãos soviéticos, entre militares e civis.

O abandono da política antifascista

Após a vitória, pelo acordo para a formação das frentes únicas, seriam constituídos governos pluripartidários das forças antifascistas. Na economia, deveriam vigorar economias mistas, sendo nacionalizados apenas alguns setores estratégicos. Assim, na Europa oriental, os comunistas se comprometiam não com “ditaduras do proletariado”, mas com o estabelecimento de “democracias populares”, de governos pluripartidários das frentes antifascistas.

Mas, em 1947, com o início da confrontação da Guerra Fria, que opôs os EUA e a URSS na arena mundial, a política antifascista foi abandonada. Naquele ano, na Itália, a Democracia-Cristã, liderada pelo primeiro-ministro Alcide De Gasperi, excluiu o PCI e o PSI do governo. No Leste, Stalin obrigou a fusão dos PSs aos PCs, com as novas organizações sob o controle dos comunistas: na Alemanha oriental, o SPD foi obrigado a se fundir ao PC, surgindo o Partido Socialista Unificado da Alemanha. Na Polônia, o Partido Socialista se juntou-se ao Partido Operário, comunista, nascendo o Partido Operário Unificado da Polônia. Na Hungria, a fusão do Partido Social Democrata com o PC resultou no Partido dos Trabalhadores Húngaros. Os liberais passaram a ser perseguidos; os social-democratas, socialistas e comunistas que se opuseram à unificação forçada de seus partidos foram perseguidos, presos, fuzilados ou exilados. Em 1951, na Tchecoslováquia, onze membros do Comitê Central do PC tcheco que resistiram às ordens de Stalin foram executados, entre eles, o seu secretário-geral, Rudolf Slánský. Em alguns lugares, os stalinistas colocaram comunistas para dirigir partidos aliados e manter um multipartidarismo de fachada. Na Romênia, usaram de corrupção para subornar líderes partidários aliados a se submeterem ao comando do PC [6].

Toda tentativa de saída do isolamento político e de abertura a uma economia mista foi reprimida pelos soviéticos. Mesmo com a desestalinização, após a publicação do relatório de Nikita Kruchev, de fevereiro de 1956, no qual o novo líder do PCUS denunciava os assassinatos de Stalin, a repressão continuou. Em novembro de 1956, a Hungria foi invadida pela União Soviética e o primeiro-ministro, o comunista reformista Imre Nagy, deposto. Em 1958, depois de um julgamento secreto, Nagy foi condenado à forca e executado. Na Tchecoslováquia, a chamada Primavera de Praga de 1968, de democratização do socialismo e de abertura econômica, também foi reprimida pelas tanques soviéticos. Um dos atos do líder do PC tcheco, Alexander Dub?ek, que mais irritou a URSS foi o acordo de cooperação econômica assinado com o então ministro das relações exteriores da Alemanha ocidental, o social-democrata Willy Brandt [7].

Mais tarde, em 1987, o último líder soviético, Mikhail Gorbachev, reconhecerá que a URSS errou ao incentivar a confrontação da Guerra Fria, levando a inúmeros conflitos regionais e a um clima de anticomunismo no Ocidente, em vez de apostar na negociação e em alianças políticas capazes de isolar as forças reacionárias e belicistas e favorecer a um clima de livre debate de ideias em todo mundo. Segundo Gorbachev, a mentalidade de confrontação levou a União Soviética a pensar mais em soluções militares, obrigando o país a investir pesadamente no orçamento bélico e na corrida armamentista, tirando recursos para o desenvolvimento econômico e tecnológico do país e para o bem-estar do seu povo [8]. Suas tentativas de reformar o sistema soviético não prosperaram. Gorbatchev foi derrubado por um golpe de Estado organizado pelos comunistas presos à tradição bolchevique, precipitando o esgotamento da experiência iniciada com a Revolução de Novembro de 1917 e o colapso da URSS, em 1991.

Curiosamente, na Itália, o PCI foi dos poucos a perseverar na política de frente antifascista no pós-guerra. Mesmo fora do governo em 1947, Togliatti manteve o diálogo com a DC na Assembleia Constituinte, com o objetivo de finalizar a Constituição democrática da Itália, em 1948. Quando os comunistas foram excomungados pelo Papa Pio XII, Togliatti manteve a mão estendida à Igreja Católica, traduziu e publicou o livro Tratado sobre a tolerância, obra de François-Marie Arouet Voltaire, de 1763. A permanente abertura ao entendimento permitiu que, posteriormente, com o Concílio Vaticano II, iniciado em 1962 pelo Papa João XXIII, jovens católicos de esquerda se filiassem ao PCI. Quando então se discutiu a possiblidade de formação de uma coalizão entre a DC e o PSI, Togliatti afirmou que o PCI apoiaria tal governo, mesmo estando fora dele.

Na década de 1970, Enrico Berlinguer, um dos sucessores de Togliatti, morto em 1964, proporá ao primeiro-ministro democrata-cristão Aldo Moro um governo conjunto do PCI, da DC e do PSI. O chamado “compromisso histórico” contou com a simpatia de Moro, sequestrado e assassinado em 1978 pelas Brigadas Vermelhas, grupo terrorista de extrema-esquerda. No parlamento italiano, uma comissão criada para investigar o caso levantou suspeitas de infiltração nas Brigadas Vermelhas de membros da Gladio, organização de apoio aos serviços secretos, com o objetivo de evitar a participação dos comunistas no governo da Itália, país membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte, Otan, a aliança militar ocidental. Com o fim da experiência do socialismo soviético, o PCI se constituiu no hoje Partido Democrático, absorvendo remanescentes do PSI e da ala social-reformista da DC. Atualmente o PD governa a Itália em meio a uma onda de ressurgência da extrema-direita na Europa. Não por acaso, um dos textos mais conhecidos de Togliatti, escrito em 1935, tem exatamente o título de Lições sobre o fascismo.

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Cláudio de Oliveira é jornalista e cartunista.

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Notas

[1] Mondaini, Marco. Do stalinismo à democracia. Palmiro Togliatti e a construção da via italiana ao socialismo. 1. ed. Rio de Janeiro: Fundação Astrojildo Pereira e Contraponto Editora, 2011.

[2] FIGES, Orlando. A tragédia de um povo. A Revolução Russa 1891-1924. Rio de Janeiro: Record, 1999.

[3] GETZLER, Israel. Martov – A Political Biography of a Russian Social Democrat. Cambridge Univesity Press/ Melbourne University Press, 2003.

[4] Hobsbawm, Eric. A era dos extremos. O breve século XX. 1. ed. São Paulo: Companhia de Letras, 1995.

[5] CARONE, Edgar. Brasil, anos de crise, 1930-1945. São Paulo: Ática, 1991.

[6] PERALVA, Osvaldo. O Retrato. São Paulo: Publifolha, 2015.

[7] Tchecoslováquia - Revista Civilização Brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

[8] GORBATCHEV, Mikhail. Perestroika, novas ideias para o meu país e o mundo. São Paulo: Best Seller, 1987.