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Alvaro Costa e Silva: Os bons brasileiros

Nos quase dois anos de Bolsonaro em Brasília, o Rio teve plenos poderes para cumprir seu ideal: transformar-se no paraíso da milícia

Bolsonaro é um produto carioca. Como o sacolé da favela ou o biscoito Globo, tem gente que adora e gente que detesta. Mas sua origem —origem política— é indiscutível. Como também sua projeção nacional a partir do Rio: vereador em 1989; 30 anos como deputado federal defendendo a caserna; presidente. Em todo esse tempo ele foi se acariocando, até virar um legítimo morador da Barra. Registre-se, contudo, que não perdeu de todo o sotaque interiorano de São Paulo, onde nasceu.

Nos quase dois anos de Bolsonaro em Brasília, o Rio teve plenos poderes para cumprir seu ideal: tornar-se terra de miliciano. Sede do poder no Brasil Colônia, Vice-Reino, Império e República, a cidade hoje tem dois milhões de moradores e mais da metade de seu território sob o domínio de grupos paramilitares.

Um assunto com o qual o presidente tem intimidade é milícia. Muito mais do que com vacina. Em entrevistas, ele já sugeriu sua legalização. Na Câmara, elogiou seus integrantes, entre os quais o PM Adriano da Nóbrega, que comandava o Escritório do Crime em Rio das Pedras e foi morto na Bahia --seus 13 celulares até agora continuam mudos. Flávio, o filho 01, condecorou policiais que tinham ligação com o terror armado.

Velho amigo do Queiroz e vizinho de um acusado de matar Marielle Franco, Bolsonaro, mais do que ninguém, tem conhecimento do que se passa no Rio. A pergunta a ser feita é se ele se importa. Deu alguma ordem ao ministro da Justiça? Ou André Mendonça só ocupa a pasta para invocar a Lei de Segurança Nacional contra jornalistas e cartunistas?

Com a desculpa de que eram "maus brasileiros", o general Heleno mandou a Abin monitorar participantes da conferência climática da ONU realizada na Espanha. O governo poderia agir com a mesma inteligência no combate a milicianos que atuam dentro do país. Mas estes devem ser bons brasileiros.


Demétrio Magnoli: O enigma de Adriano

A estratégia de Bolsonaro, cínica e inteligente, persegue o objetivo de lavar sua própria reputação

Por que Jair Bolsonaro acusou a PM da Bahia de assassinar deliberadamente o miliciano Adriano da Nóbrega? Por que 20 governadores assinaram o manifesto em defesa das PMs — e da PM da Bahia? Por que, afinal, a polícia baiana eliminou o foragido cercado? A análise política oferece respostas às duas primeiras perguntas. A terceira, porém, forma um enigma de elevado interesse público que exige investigação judicial.

A estratégia de Bolsonaro, cínica e inteligente, persegue o objetivo de lavar sua própria reputação. Os laços entre o clã presidencial e o miliciano conduzem à conclusão lógica de que o evento policial em Esplanada (BA) deve ser classificado como uma queima de arquivo cujos beneficiários são os Bolsonaro. A acusação à PM da Bahia, “do PT”, turva as águas, desviando a agulha magnética para um ator inesperado.

Na nota do Planalto, incluiu-se o registro de que a culpa de Adriano não transitou em julgado. Assim, em flagrante contradição com seu supremo desprezo pela presunção de inocência, o presidente sugere que Adriano foi um herói da lei e da ordem perseguido pelo “Estado profundo”. Nesse passo, aproveitando-se da conhecida circunstância de que mortos nunca mais falam, o presidente desenha uma auréola de santidade em torno da condecoração ofertada por seu filho 01 ao policial-miliciano.

O manifesto dos governadores é menos um ato de solidariedade com o governador da Bahia, Rui Costa, e mais um gesto preventivo de proteção de suas próprias PMs. O bloco carnavalesco da União dos Governadores invoca o princípio federativo para bloquear o funcionamento do sistema de justiça. A meta é converter suas polícias em batalhões de intocáveis.

Wilson “mira na cabecinha” Witzel, o inspirador do manifesto, enxerga a PM fluminense como esquadrão da morte. João “Paraisópolis” Doria celebra um inquérito policial que, num exercício fanático de corporativismo, isenta a PM paulista de responsabilidade pelo massacre de nove adolescentes num baile funk. Se não se puder mais exterminar um miliciano procurado, e armado, como matar impunemente os suspeitos de sempre, pretos e pobres, nas favelas ou periferias?

Resta o fato incontornável que deflagrou a controvérsia. Como explicar que, numa operação planejada, 40 agentes policiais da Bahia não prenderam, mas eliminaram a tiros, um foragido solitário? Há, no caso, duas hipótese excludentes. A mais benevolente pode ser sintetizada na palavra incompetência — grifada e grafada em maiúsculas. A outra mora na boca do povo: queima de arquivo. Diante das alternativas inconvenientes, Rui Costa cobre-se no manto providencial do manifesto da União dos Governadores, vestindo a fantasia desbotada da normalidade.

Bolsonaro triunfou. A esquerda, sempre loquaz, recolhe-se ao silêncio, como se dissesse que a indignação deve tirar férias quando se trata do cadáver de um miliciano. De fato, diante da hipótese mais provável — que “faz corar, me salta aos olhos, me aperta o peito a me atraiçoar” — a esquerda prefere subscrever a carta da impunidade ditada por Witzel. Afinal, qual é a ligação da polícia baiana, “do PT”, com a queima de arquivo?

A sugestão de que a PM da Bahia é comandada pelo PT só faz sentido para militantes bolsonaristas incuráveis. Ninguém, exceto os que acreditam em bruxas, compartilha a narrativa delirante de uma ordem de Rui Costa para o cancelamento do miliciano cercado. A pergunta legítima é mais grave: será que a polícia do B da Bahia executou, às costas de seus superiores, o serviço sujo encomendado pela polícia do B do Rio? E, por implicação, duas outras: já existiria uma clandestina polícia do B interestadual, talvez nacional? Qual é a extensão da influência das milícias sobre as polícias?

A Colômbia é aqui? A indagação, que emana diretamente da acusação presidencial contra a PM da Bahia, deveria ser dirigida ao ministro da Justiça, o santo guerreiro do combate ao crime organizado. O problema é que Sergio “Excludente de Ilicitude” Moro nunca se interessou por Adriano da Nóbrega, seu Escritório do Crime e suas condecorações parlamentares.


Chico Alencar: Milícia, malícia e maldição

O capitalismo de compadrio do Brasil não se livrou do mandonismo escravocrata. A propalada “tradição pacífica” dos brasileiros é um mito, discurso enganoso em uma das sociedades mais desiguais do planeta. Nosso processo social é conflituoso, com relações violentas entre as classes, ao longo da história.

Em pleno século XX, a permanência de traços da dominação sangrenta e despótica é uma negação da República. As milícias, particularmente fortes no Rio de Janeiro, são expressão dessa barbárie: reproduzem controle e exploração manu militare. São a contrafação do tráfico armado de drogas, igualmente autoritário e cruel. Ambos com o êmulo do lucro, do deus Dinheiro.

Todas essas formas de imposição têm por base o controle territorial a poder de fogo. O Brasil colônia era uma unidade política apenas nominal: a força local (e “legal”!) era hegemônica e aterrorizante, a cargo dos capitães-do-mato, capatazes dos “donos de gado e gente”. Os seus chefes, depois coronéis da República Velha, eram valorizados na ordem vigente: “o ser senhor de engenho traz consigo o ser servido, obedecido e respeitado por muitos”, relatou Antonil, em seu livro sobre as riquezas do Brasil, publicado em 1711.

As milícias diferem dos bandos de traficantes por seus elos com o poder institucional - e isso lhes dá muito mais poder. O crime do varejo de drogas ilícitas é desorganizado. O das milícias, não. Daí sua maior capacidade corrosiva.

O atual presidente Jair Bolsonaro defendeu esses grupos mafiosos: “em região onde tem milícia paga, não tem violência”, avalizou, ano passado, louvando os grupos paramilitares. Em dezembro de 2008, quando destaquei, na Câmara, o relatório final da CPI das Milícias (que Flávio Bolsonaro nunca apoiou), levado pelo deputado estadual Marcelo Freixo, seu grande artífice, Jair reagiu: “não é assim, elencar todos os milicianos como bandidos! (...) Como o PM ou o bombeiro ganha R$ 850 por mês, e tem a sua própria arma, ele organiza a segurança na sua comunidade. Nada a ver com exploração de ‘gatonet’, venda de gás ou transporte alternativo. Esse relatório está cheio de policiais e bombeiros que não têm nada a ver. É um relatório covarde, feito em cima do disque-denúncia”.

É notória a admiração que o clã Bolsonaro tem por aquilo que já foi chamado de “polícia mineira”, e vários classificam como “autodefesa comunitária”. São os saudosistas do Brasil oligárquico, do poder coronelista e dos capangas que protegem suas atividades econômicas.

Essas relações perigosas bordejam a conivência ou cumplicidade com ações criminosas. Há vínculos suspeitos de Flávio Bolsonaro com as milícias, prestando homenagens oficiais na Alerj a figuras hoje presas ou foragidas e empregando mãe e mulher do “patrãozão”, ex-capitão do Bope. A promotora Simone Sibilio caracteriza Adriano Nóbrega (cuja “dedicação, brilhantismo e galhardia” o Bolsonaro 01 destacou) como “muito violento e temido até pelos seus comparsas, que exerce seu poder impondo o terror, e que precisa ser retirado rapidamente de circulação”. Jair o defendeu, quando acusado de homicídio, na tribuna da Câmara, além de comparecer ao seu julgamento.

Está sendo investigada também a ligação dos milicianos presos na recente operação conjunta do MP e da Polícia Civil com o chamado “Escritório do Crime”, quadrilha de assassinos suspeita da bárbara execução de Marielle e Anderson, que completará um ano em março.

A propósito, jamais ouvi de qualquer dos Bolsonaro uma palavra de repúdio ao crime hediondo, ao contrário da unânime condenação à estúpida facada que atingiu o atual presidente, em setembro. Desprezando qualquer sentimento humanitário elementar, seguidores de Bolsonaro quebraram placa de homenagem a Marielle, com aplausos de quem veio a ser eleito governador do Rio de Janeiro. Parcerias tenebrosas, tempos atrozes!

*Chico Alencar é professor da UFRJ e escritor.