humanidade

Segredo da mão impressa na gruta de Lascaux instiga historiador Ivan Alves Filho

Em artigo na revista Política Democrática Online, autor se debruça sobre o assunto e aponta hipóteses

Cleomar Almeida, assessor de comunicação da FAP

“O que significa, exatamente, aquela mão impressa numa gruta de Lascaux, no interior da França? Será que alguém sabe dizer ao certo? Estamos diante de mais um daqueles mistérios insondáveis da humanidade?”. As perguntas são do jornalista e historiador Ivan Alvez Filho, em artigo que ele produziu para a revista Política Democrática Online. A publicação é produzida a editada pela FAP (Fundação Astrojildo Pereira), e todos os seus conteúdos são disponibilizados, gratuitamente, no site da entidade.

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Em todo caso, diz o autor no artigo, a questão sempre o fascinou. “Penso em várias hipóteses. Primeiro, o homem teria percebido que a mão o diferenciava dos animais. Daí o destaque dado a ela. Afinal, ele era o único ser a ficar de pé, com as mãos liberadas, portanto. E o raio de visão consideravelmente ampliado”, afirma, para continuar: “As datas calculadas pelos arqueólogos para a idade das pinturas rupestres de Lascaux se aproximam dos 30 mil anos, época em que o homem já era perfeitamente homo sapiens erectus. Faz certo sentido”.

Outra hipótese, de acordo com o artigo publicado na revista Política Democrática Online, implicaria aceitar que o homem quis legar para a posteridade um testemunho de sua passagem pelo mundo. “Como se, subitamente tomado de uma consciência de indivíduo, ele se dispusesse a comunicar, transmitir, registrar sua humanidade àqueles que fatalmente lhe sucederiam”, diz ele.

A consciência humana em gestação revelava, segundo o historiador, que o homem não era imortal. “E a pintura o teria auxiliado a expressar isso, a deixar sua marca para o futuro. Ou seja, nós. É razoável pensar assim. Nascia o mundo do simbólico, que também nos diferencia dos animais. Karl Marx chegou a dizer que o pior dos arquitetos é superior a melhor das abelhas por fazer uso de sua imaginação”, acentua.

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RPD || Ivan Alves Filho: A mão e o mistério

Considerada Patrimônio Mundial da Unesco, a Gruta de Lascaux possui pinturas rupestres com cerca de 20 mil anos, acreditam alguns cientistas. Ela foi descoberta em 12 de setembro de 1940 por quatro adolescentes 

O que significa, exatamente, aquela mão impressa numa gruta de Lascaux, no interior da França? Será que alguém sabe dizer ao certo? Estamos diante de mais um daqueles mistérios insondáveis da Humanidade?

Em todo caso, a questão sempre me fascinou. Penso em várias hipóteses. Primeiro, o homem teria percebido que a mão o diferenciava dos animais. Daí o destaque dado a ela. Afinal, ele era o único ser a ficar de pé, com as mãos liberadas, portanto. E o raio de visão consideravelmente ampliado. As datas calculadas pelos arqueólogos para a idade das pinturas rupestres de Lascaux se aproximam dos 30 mil anos, época em que o homem já era perfeitamente homo sapiens erectus. Faz certo sentido.

Vamos prosseguindo. Outra hipótese implicaria aceitar que o homem quis legar para a posteridade um testemunho de sua passagem por esse vasto mundo de Deus. Como se, subitamente tomado de uma consciência de indivíduo, ele se dispusesse a comunicar, transmitir, registrar sua humanidade àqueles que fatalmente lhe sucederiam. Por que não? A consciência humana em gestação revelava, assim, que o homem não era imortal. E a pintura o teria auxiliado a expressar isso, a deixar sua marca para o futuro. Ou seja, nós. É razoável pensar assim. Nascia o mundo do simbólico, que também nos diferencia dos animais. Karl Marx chegou a dizer que o pior dos arquitetos é superior à melhor das abelhas por fazer uso de sua imaginação.

Mais uma hipótese seria buscar no gesto do homem que estampava sua mão nas paredes de uma rocha a necessidade de compreender, ainda que de forma confusa ou embrionária, sua exterioridade em relação ao meio. O homem e sua imagem ganhavam então o mundo. Razoável também, não é?    É possível imaginar ainda que, com seu gesto, o homem pretendesse fazer arte, isto é, embelezar o ambiente que o cercava. A coisa também faz algum sentido.

Ou, então, descartaríamos todas essas possibilidades. Nesse caso, poderíamos imaginar que a mão de Lascaux era simplesmente a mão de Lascaux. E nada mais.

Confesso que essa última hipótese é a que mais me atrai – mesmo que não seja, forçosamente, a mais consistente. Ainda que não faça lá muito sentido.

Mas será que o mistério faz?

 

 


El País: A autêntica revolução foi no período Neolítico

Em uma época de mudança ambiental, os olhares dos especialistas se voltam para o Neolítico, o período em que a humanidade experimentou sua transformação mais radical

Por Guillermo Altares, do El País

O Neolítico é o período mais importante da história e um dos mais desconhecidos do grande público. Com a adoção da pecuária e da agricultura foram criadas as primeiras cidades, nasceu a aristocracia, a divisão de poderes, a guerra, a propriedade, a escrita, o crescimento populacional... Surgiram, em poucas palavras, os pilares do mundo em que vivemos. As sociedades atuais são suas herdeiras diretas: nunca fez tanto sentido falar de revolução porque deu origem a um mundo totalmente novo. E talvez tenha sido também o momento em que começaram os problemas da humanidade, não as soluções.

Ponderar se foi uma desgraça ou uma sorte algo que aconteceu há 10.000 anos e que não podemos reverter pode ser absurdo, mas é importante tentar saber como aquela passagem aconteceu e saber se a vida das populações melhorou. O motivo é que foi naquele período que a humanidade começou a transformar o meio ambiente para adaptá-lo às suas necessidades, e quando a população da Terra começou a crescer exponencialmente, um processo que só se acelerou desde então. Os estudos sobre o Neolítico se multiplicaram nos últimos tempos e não é por acaso: hoje vivemos a passagem para uma nova era geológica, do Holoceno ao Antropoceno, uma mudança planetária imensa. De fato, alguns estudiosos acreditam que esse salto começou no Neolítico.

“O crescimento demográfico constante, que ainda está fora de controle, provocou concentrações humanas, tensões sociais, guerras, desigualdades crescentes”, escreve o arqueólogo francês Jean-Paul Demoule, professor emérito da Universidade de Paris I-Sorbonne em seu recente ensaio Les Dix Millénaires Oubliés Qui Ont Fait l’Histoire. Quand On Inventa l’Agriculture, la Guerre et les Chefs (Fayard, 2017) [Os Dez Milênios Esquecidos Que Fizeram a História. Quando Inventamos a Agricultura, a Guerra e os Chefes]. “Acredito que é a única verdadeira revolução na história da humanidade”, explica Demoule por telefone. “A revolução digital que estamos vivendo atualmente não é mais do que uma consequência de longo prazo daquela. Mas, curiosamente, é a menos ensinada na escola. Começamos com as grandes civilizações, como se fossem óbvias, mas é muito importante perguntar por que chegamos até aqui, por que temos governantes, exércitos, burocracia. Acho que no nosso inconsciente não queremos fazer essas perguntas.”

O capítulo que o ensaísta israelense Yuval Noah Harari dedica ao Neolítico em seu célebre livro Sapiens – Uma Breve História da Humanidade (Harper, 2011), um dos ensaios mais lidos dos últimos anos, intitula-se ‘A maior fraude da história’. “Em vez de anunciar uma nova era de vida fácil, a revolução agrícola deixou os agricultores com uma vida geralmente mais difícil e menos satisfatória do que a dos caçadores-coletores”, escreve Harari. O antropólogo da Universidade de Yale, James C. Scott, professor de estudos agrícolas, se pronuncia num sentido semelhante: “Podemos dizer sem problemas que vivíamos melhor como caçadores-coletores. Estudamos corpos de áreas onde o Neolítico estava sendo introduzido e encontramos sinais de estresse nutricional em agricultores que não encontramos em caçadores-coletores. É ainda pior nas mulheres, onde identificamos uma clara carência de ferro. A dieta anterior era sem dúvida mais nutritiva. Encontramos também muitas doenças que não existiam até os humanos passarem a viver mais concentrados e com os animais. Além disso, sempre que ocorreram assentamentos de populações, começaram guerras”.

Scott percebeu que todas as ideias que tinha sobre o Neolítico estavam erradas enquanto preparava um curso sobre a domesticação de plantas e animais. “Passei três anos estudando tudo o que havia sido publicado tentando entender o que realmente havia acontecido”, explica por telefone desde seu escritório. Assim, escreveu Against the Grain: A Deep History of the Earliest States (Yale University Press, 2017) [Contra As Sementes: uma História em Profundidade dos Primeiros Estados], livro que teve grande impacto no mundo anglo-saxão. “A versão que contamos do Neolítico nas escolas, que aprendemos a domesticar as plantas, então criamos as cidades e a fome acabou é falsa”, diz Scott.

Os habitantes das sociedades agrícolas sofriam mais estresse nutricional do que os caçadores

Sua leitura desse período é a mais revolucionária e nem todos os estudiosos concordam com sua interpretação, mas podemos falar de uma reavaliação geral daqueles milênios, provocada, entre outras razões, porque o estudo do DNA antigo permitiu conhecer populações do passado como nunca até agora. Em seu ensaio, Scott argumenta que já se utilizava a agricultura e a irrigação antes do nascimento dos Estados, e que diferentes catástrofes como epidemias ou desmatamento, e a salinização do solo, fizeram que o Neolítico fosse um processo de ida e volta e que sociedades agrícolas voltassem a ser caçadoras-coletoras. “Durante 5.000 anos passaram de um estado a outro dependendo das condições climáticas. Houve muita fluidez entre essas duas formas de vida”, afirma.

Perguntado se isso esconde lições para o presente, o professor diz que é uma questão que levantam o tempo todo, mas ele não quer “ser profeta”. Como leitor, é muito difícil abstrair essa tentação: a ideia de que o avanço da humanidade pode ser reversível se brincarmos de aprendiz de feiticeiro, ao colocar em marcha processos que não somos capazes de controlar, é muito inquietante. Especialmente porque vivemos um momento em que estamos rodeados por fenômenos (dos plásticos no mar aos avanços em inteligência artificial ou o aquecimento global) cujas consequências a longo prazo estamos apenas começando a vislumbrar. Aquelas primeiras populações que deixaram o nomadismo para se assentar e viver da agricultura e da pecuária tampouco podiam ter uma ideia do que estava acontecendo.

Outros livros publicados recentemente que questionam algumas verdades adquiridas sobre o Neolítico são La Forja Genética de Europa. Una Nueva Visión del Pasado de las Poblaciones Humanas (Edicions Universitat de Barcelona, 2018), do geneticista espanhol Carles Lalueza-Fox, professor do Instituto de Biologia Evolutiva (CSIC-UPF) e Les Chemins de la Proto-Histoire. Quand l’Occident s’Éveillait (Odile Jacob, 2017) [Os Caminhos da Proto-História. Quando o Ocidente Despertava] de Jean Guilaine, que aos 81 anos é uma referência nos estudos de pré-história na Europa e atualmente é professor emérito do Collège de France. “O Neolítico nos deixou uma mensagem clara: um ambiente natural transformado e bem regulado pode alimentar um grande número de bocas”, explica Guilaine. “Mas essa mensagem sublime também foi pervertida pelo homem, ávido por dominar seus semelhantes: exploração irracional do meio, acumulação de sementes, desigualdades sociais, espírito de supremacia sobre os mais fracos. A esperança de uma sociedade em harmonia com a nova economia fracassou por causa da recusa a compartilhar.”

Os historiadores continuam procurando respostas para muitas perguntas. A primeira delas é saber por que a agricultura foi inventada se nos alimentávamos melhor quando éramos caçadores-coletores. O que está claro é que coincidiu com um período de aquecimento global do planeta depois da última glaciação, há cerca de 10.000 anos, e foi um processo gradual que ocorreu em diferentes pontos ao mesmo tempo e que desembocaria em alguns lugares, como a Europa, no florescimento de civilizações como a etrusca e a romana. A introdução da agricultura e da pecuária foi seguida pelo trabalho com os metais, a fundação de cidades, o surgimento de aristocracias... “O Neolítico é a grande revolução que inaugura o nosso mundo histórico”, diz Guilaine. “É um período sobre o qual temos muitos dados, mas que é muito pior explicado do que outros momentos. Gostamos mais de ensinar as origens do homem, porque isso levanta problemas filosóficos, ou as civilizações da antiguidade, consideradas brilhantes por causa de suas realizações arquitetônicas. Podemos achar impressionantes as pirâmides e o Parthenon, mas o que representam quando comparados à passagem de toda a humanidade à agricultura?”.

Quase ninguém mais acredita que houve uma única revolução neolítica que eclodiu no Oriente Médio com a domesticação do trigo e que daí se espalhou a todo o planeta. A ideia mais difundida é que houve vários pontos de partida mais ou menos simultâneos, na China com o arroz ou na América com o milho. Por outro lado, existe a certeza, graças à genética, de que o trigo chegou à Europa por meio das migrações dos primeiros camponeses, em um momento de grandes movimentos populacionais.

“Se o Neolítico é algo, é um movimento de pessoas do Oriente Médio, porque é um tipo de economia que provocou um crescimento demográfico que até então não existia”, diz Carles Lalueza-Fox, cujo livro reúne décadas de avanços nas pesquisas genéticas. Essas técnicas “supuseram uma mudança revolucionária”, explica, “porque agora estamos em condições de estudar o genoma dos protagonistas dos acontecimentos do passado. Quando questionamos se um horizonte cultural ou outro envolveu migrações de pessoas ou movimentos de ideias, agora podemos perguntar isso diretamente às pessoas que viveram esses processos”.

Eva Fernández-Domínguez, professora associada do Departamento de Arqueologia da Universidade de Durham (Reino Unido), onde dirige o laboratório de DNA arqueológico, e especialista no processo de transição para o Neolítico na Península Ibérica e no Oriente Médio, explica assim os novos caminhos abertos pelo estudo do DNA antigo: “Por meio da arqueologia podemos saber se as populações eram caçadoras-coletoras ou agrícolas-pecuárias mediante o estudo dos restos arqueozoológicos e arqueobotânicos do sítio, da tipologia lítica (técnica e estilo de fabricação de ferramentas), do tipo de assentamento. No entanto, essas técnicas não possuem resolução suficiente para nos dizer como o processo de transição ocorreu; isto é, se grupos locais de caçadores-coletores aprenderam a cultivar ou se a agricultura foi levada por imigrantes de outras regiões, e se esses imigrantes substituíram completamente a população autóctone ou se misturaram com ela e em que proporção. Esse tipo de informação só é acessível através da genética. Graças às novas técnicas de sequenciamento massivo, hoje possuímos uma boa representação da informação genética dos indivíduos envolvidos no processo de transição para o Neolítico”.

Um caso fascinante que ilustra como o Neolítico se estabeleceu é o da cerâmica campaniforme, que se expandiu em grande parte da Europa durante a Idade do Bronze, há cerca de 4.900 anos. A partir da Península Ibérica, especificamente do estuário do Tejo, chegou ao norte e ao leste da Europa, às Ilhas Britânicas, mas também à Sicília e à Sardenha. Além de Portugal e Espanha, essa cerâmica, que não está associada ao uso cotidiano, mas ritual, apareceu na França, Itália, Reino Unido (incluindo a Escócia), Irlanda, Holanda, Alemanha, Áustria, República Tcheca, Eslováquia, Polônia, Dinamarca, Hungria e Romênia. “Sua escala geográfica não tem precedentes no continente até a chegada da União Europeia”, escreve Lalueza-Fox em seu ensaio. Guardando todas as proporções, seu alcance geográfico poderia ser comparado ao de um Tok &Stok do fim da pré-história.

Durante décadas existiram duas teorias opostas: a cerâmica teria chegado com populações que migraram ou teria existido algum tipo de transmissão oral. Ao longo de 2016, equipes do Instituto de Biologia Evolutiva do CSIC, do Wolfgang Haak, do Instituto Max Planck, e David Reich, que dirige em Harvard um laboratório de genética e que acaba de publicar o ensaio Who We Are and How We Got Here: Ancient DNA and the New Science of the Human Past (Pantheon, 2018) [Quem Somos e Como Chegamos até Aqui: o DNA Antigo e a Nova Ciência do Passado Humano], analisaram amostras de indivíduos que pertenciam a essa cultura, coletadas em todo o continente. “Descobrimos que não estava associado a movimentos de genes e, portanto, de pessoas, mas que se tratava do primeiro exemplo de difusão maciça de ideias”, explica Lalueza-Fox. Posteriormente houve um movimento maciço de população para as Ilhas Britânicas, que levou a essa cultura e, de fato, substituiu as populações então existentes.

O Neolítico começou há cerca de 10.000 anos, em um período de aquecimento global

Esse período é particularmente importante porque é a partir desse momento que começam a surgir sinais arqueológicos claros da existência de uma aristocracia e, portanto, de desigualdades sociais. “É um momento crítico de mudança social, caracterizado pela emergência de uma classe aristocrática guerreira que perdura além da própria cultura”, escreve o pesquisador catalão em seu ensaio.

Nem a genética nem a arqueologia ainda conseguiram desvendar todos os mistérios cruciais que esse período esconde. Também chegou nesse período à Europa o indo-europeu, do qual derivam as línguas faladas por metade da população mundial, um processo sobre o qual ainda existe um intenso debate. A única certeza é que aquela revolução remota mudou tudo e que ainda não acabou.

As lições que esconde podem ser muito úteis para um presente em que a humanidade está levando a natureza e seus recursos ao limite de suas possibilidades.


Alberto Aggio: A grande transformação

O que está em curso afeta por inteiro a humanidade. É um processo imparável

São raros os momentos na História em que as sensações parecem coincidir com a realidade. Talvez estejamos vivenciando precisamente um desses momentos. A sensação de que a realidade é movediça não é autoengano. Além da velocidade, o que nos impacta é a instantaneidade. A impressão é de que vivemos uma sequência de flashes que sintetiza um mundo que muda a cada respiro. A realidade técnica faculta-nos a possibilidade, antes restrita, de capturar e compor, de alguma maneira, o fruir desta “vida instantânea”.

As percepções em flashes não são convidativas a sensações de certeza ou de estabilidade com as quais nos sentimos com algum controle sobre o presente e, por vezes, imaginamos constituírem garantias para nossas esperanças quanto a um futuro benfazejo que seguimos desejando. Racionalmente, não rejeitamos a realidade cambiante e até nos dispomos a aprender a viver nela, mas procuramos precaver-nos dos riscos de alçar voo sem radares precisos de última geração.

Pode-se suspeitar que haja positividade e negatividade na atual vaga de transformações, mas não há quem duvide que a humanidade passa por mudanças profundas no seu modo de vida. O estabelecimento e a afirmação da chamada sociedade digital alteraram a dinâmica do tempo, afetando o mundo da produção, da circulação, da comunicação, enfim, o mundo da vida por inteiro. Não estamos mais no início desse processo: estamos em pleno curso há algum tempo e parece não haver lugar no planeta que não esteja sendo impactado. Assim, nossa realidade hoje é de transformação global e epocal, registrada nos circuitos produtivos mundiais, na comunicação online e no comportamento hodierno das pessoas que circulam pelas cidades com seus smartphones.

Quando os olhos da camponesa da periferia de Londres acompanharam, no início do século 19, o pequeno trem se afastando do seu campo de visão carregado com cestas de verdura, leite e ovos para, em poucos minutos, chegar ao centro da cidade e abastecer residências e hotéis, ela estava registrando em sua memória tão só um flash da grande transformação que impactava a sociedade europeia. A “locomotiva da história” serviu de metáfora a inúmeros pensadores ao elaborarem as imagens de uma época que alterava o tempo da vida numa sequência vertiginosa. Quase um século depois, o brilhante livro de Karl Polanyi A Grande Transformação produziu, analiticamente, a interpretação sobre aquilo que os contemporâneos haviam assimilado em sensações que se conectavam com seus órgãos vitais, mas pareciam estar fora de controle ou mesmo fora da sua compreensão.

Aquela mudança profunda não tinha uma explicação monocausal. Suas raízes e energia estavam disseminadas no conjunto da sociedade. Seu impacto, em maior ou menor grau, atingia todos. Era uma clara vitória do mercado, que implicava a imposição de uma sociedade à sua imagem e semelhança. Mas há que recordar que um dos méritos de Polanyi foi o de demonstrar que a vitória do mercado não esteve desprovida da ação dos Estados, ou seja, da política. E esta não foi a única contradição a marcar aquela época nova.

O Manifesto Comunista, de 1848, de Marx e Engels é representação antagônica ao contexto em que se generalizavam a circulação e a lógica produtiva da indústria por toda a Europa e pelo mundo. Entretanto, as mudanças no plano político, com a reorganização da sociedade em função dessa grande transformação, só vieram a ocorrer no final do século 19. Lembremos que os partidos políticos são construções do movimento operário quando a moderna sociedade industrial já estava quase que inteiramente assentada na Europa.

Hoje a indústria 4.0, nascida da digitalização, os big data, os robôs autômatos, as interações horizontais e verticais, bem como a produção remota, etc., aumentam de forma inaudita a produtividade e a eficiência, otimizando a produção. É uma grande transformação, um salto à frente para emancipação da humanidade, mas não é uma revolução com as marcas de ruptura que definiram sua representação conceitual. Há possibilidades abertas, expectativas, mas também desconcerto; e, sobretudo, riscos. Observar os impactos negativos e chamar a atenção para a necessidade de se pensar em transições, conforme as dimensões sociais impactadas, ou insistir no fato de que o novo também precisa ser regulado não constituem atitudes reacionárias per si. É preciso superar a inércia de pensar que a História se move pelos “fatos”, sem a intervenção dos “atores” (lideranças políticas, sociais e culturais), e que ela obedece a uma sequência obrigatória, predeterminada pelo avanço da técnica.

O antropólogo Mauro Magatti, em seminário recente realizado em São Paulo (Desafios políticos de um mundo em intensa transformação, FAP/ITV), chamou a atenção para um desses riscos ao comentar que, “com a digitalização, a lógica taylorista poderá ser aplicada não mais só às fábricas, mas também às cidades, aos hospitais, às estações, às escolas, às universidades. Isso significa que um novo panóptico, infinitamente mais poderoso do que o imaginado por J. Bentham, está hoje ao alcance da mão. Não uma jobless society, mas uma total job society”, ou seja, “uma sociedade organizada em torno de um novo tipo de trabalho (e de vida) sem lugar e sem tempo, na qual a relação entre trabalho e remuneração deverá ser completamente renegociada”.

O que está em curso afeta por inteiro a humanidade. A grande oportunidade almejada pelos utopistas modernos de superar o trabalho mecânico e estafante torna-se uma realidade a cada dia. Trata-se de um processo imparável. Mas essa oportunidade histórica não pode continuar alimentando um drama social sem saída e sem fim. É de supor que a política, desconectada de passadismos, poderá ter serventia se recolocar o homem no centro desses dilemas, em diálogo produtivo com o mundo da técnica.