Míriam Leitão: Melhora pontual e o mar de incerteza

O Brasil ainda está na pior crise econômica da sua história, e a saída do dilema fiscal nem está esboçada.
Foto: Marcos Corrêa/PR
Foto: Marcos Corrêa/PR

O Brasil ainda está na pior crise econômica da sua história, e a saída do dilema fiscal nem está esboçada. O temor das contas públicas pode estimular a inflação mesmo num quadro recessivo. Os bancos e as consultorias estão diminuindo a projeção de recessão este ano. Há dados surpreendendo positivamente, outros que confirmam a expectativa. Mesmo no melhor cenário, é uma recessão forte e a volta está se dando de forma desigual e incerta. O que a atenuou foi o auxílio emergencial que não é sustentável.

Ontem foram divulgados os números de atividade do setor de serviços em agosto e repete-se o mesmo quadro de dupla temperatura. Cresce 2,9% em relação julho, cai 10% em relação a agosto do ano passado. O segmento que mais subiu, serviços prestados à família, com alta de 11,4%, foi também o que mais caiu em relação a agosto do ano passado, com queda de 43,8%. Não está fácil entender o que está acontecendo na economia. A incerteza volta a aumentar com notícias como a de ontem, de Portugal entrando em novo estado de calamidade e Paris em novo toque de recolher.

O economista Armando Castelar, coordenador da área de Economia Aplicada do Ibre/FGV, define o que estamos vivendo como um “novo não normal”:

— Acho que a pandemia vai ficar como está nos próximos 12 meses, até ter vacina testada, provada e aplicada em todo mundo. Vamos viver esse clima dos últimos meses no qual (a pandemia) não está explodindo, mas não vai embora. Esse novo “não normal” mostra vendas de comércio recuperando bastante pela internet, com menos gente nos shoppings. Em São Paulo, tem gente vendendo imóvel pela internet, incorporadoras fazem filme, e o comprador fecha negócio sem visitar.

O economista Vitor Vidal, da XP Investimentos, diz que nos últimos dois meses o comércio surpreendeu positivamente, a indústria, também, mas em menor intensidade. Os serviços vieram dentro do esperado, com uma recuperação mais lenta e gradual. A XP projeta recessão de 4,8% do PIB em 2020 e alta de 3% no ano que vem, mas deve divulgar hoje números um pouco melhores para os dois anos. Vidal lembra que tudo dependerá da evolução da pandemia no país e de como o governo vai resolver as disputas internas sobre o financiamento do novo programa social.

— Os serviços só vão recuperar mais fortemente quando a pandemia permitir uma reabertura maior da economia. É um setor com pequenos negócios e que emprega muito. Mas é difícil que o dono de um bar da esquina volte a contratar sem ter a certeza de que terá uma clientela firme. O que vai determinar isso vai ser a pandemia — explicou.

O cenário positivo, para Vitor Vidal, é de que em janeiro, quando o auxílio emergencial chegar ao fim, a pandemia já esteja mais controlada e permita uma recuperação mais forte desse setor. Com isso, a perda da renda das famílias seria compensada por uma recuperação mais forte dos pequenos negócios. Outra boa notícia, na visão do economista, é a construção civil, que está com saldo positivo este ano pelo Caged e pode continuar empurrando o PIB em 2021.

Analisada em partes, a economia brasileira tem algumas boas notícias, mas são ilhas num mar de incerteza. O cenário da recuperação no ano que vem só se confirma se não houver uma nova onda de aumento da contaminação e das mortes. Armando Castelar diz que a projeção do PIB deste ano oscila ainda entre uma recessão de 4,5% a 5,5%. E uma alta em torno de 2,5% em 2021.

— Sobre a inflação, eu estou mais preocupado do que estava antes. Os índices de atacado estão altos. A situação fiscal está dando medo e muita gente pode se antecipar e reajustar preços. Mesmo com recessão, a incerteza fiscal pode levar ao aumento de preços. O real está desvalorizado e perdeu muito mais este ano em relação a outras moedas emergentes. O fiscal é o grande problema. A dívida está altíssima, tirar a âncora do teto de gastos é suicídio — diz Castelar.

Mesmo no melhor cenário, o que se terá quando esta crise acabar é um país mais pobre, com grande queda do PIB per capita, e um governo muito mais endividado. O Ministério da Economia ainda não tem um plano para a saída da crise e para fortalecer as finanças públicas. Até agora, o que houve foi briga entre ministros sobre a estratégia de recuperação, algumas ideias lançadas como balão de ensaio e projetos enviados a conta-gotas ao Congresso.

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