Roberto DaMatta

Roberto DaMatta: Somos todos pacientes

Para José Paulo Cavalcanti, Merval Pereira, Carlos Alberto Sardenberg e Joaquim Falcão

O dicionário “Aurélio” revela o amplo significado da palavra “paciente”. Uma palavra fundamental por sua capacidade de desmontar bate-bocas, inibir impaciências em filas, adiar vinganças e apaziguar minha angústia diante deste claro endoidecimento do Brasil.

Somos todos pacientes porque haja paciência para suportar o hospício desta psicose jurídico-política. De um lado, um enorme ressentimento porque o “povo”, que já foi puro e sagrado, teve motivos para eleger um presidente querelante, sabotador e autoritário; do outro, um surto suicida incapaz de apaziguar um sistema obsessivamente legalista em que a forma pode valer mais que o “objeto” ou substância (falando francamente: que o crime).

A palavra paciente é parte do linguajar jurídico, mas creio que seria absurdo ou despropositado chamar assassinos, genocidas e ladrões — gente como Capone, Eichmann, Goebbels, Stálin, os torturadores do regime militar, os assassinos do menino Henry, os larápios confessos da Operação Lava-Jato e Derek Chauvin, o policial que matou com óbvio viés racista George Floyd — de “pacientes”.

Uma palavra que invoca neutralidade não deveria ser usada como sinônimo de quadrilheiros. Sobretudo de gente que traiu o seu voto. Mas cabe perguntar: quando um réu vira paciente? A resposta é clara: quando ele é importante!

Aliás, se ele é o dono da grande fazenda, nem poderia ser julgado. Chamá-lo, pois, de paciente fatalmente revela a parcialidade e a lealdade do tribunal às convenções estruturais do “sistema brasileiro”, ancoradas na cautela dos compadrios, dos favores e do “você sabe com quem está falando?”, ou julgando... Essa “medida cautelar da paciência” explicita como o que conta não é o crime, mas quem o cometeu.

Trata-se de mais uma jabuticaba expressiva do jeitinho brasileiro.

Uma amiga americana compara com brilho Trump e Bolsonaro. Mas é provável que Donald seja mais facilmente explicável que Jair.

A palavra-chave nessa comparação é o compromisso e a lealdade a uma tradição democrática e republicana. É a fidelidade com a liberdade e com a igualdade como valores. Biden e Harris fazem parte dessa lista, que tem desacordos, mas não tem dúvida relativamente às complexas e duras exigências deste regime inacabado por definição chamado democracia.

Aqui no Brasil, ainda não concordamos se não seria melhor continuar mais ou menos numa realeza ibérica (franquista ou salazarista), mais ou menos populista-socialista e mais ou menos liberal-aristocrática, mas sempre autoritária, ou se vamos continuar como frustrados republicanos, arcando com o difícil compromisso de fazer valer a lei para todos — sobretudo, para nós mesmos!

E, por último, mas não por fim: se vamos cobrar coerência da instituição guardiã da Constituição, o STF.

As diferenças culturais entre Brasil e Estados Unidos são grandes, mas nada no campo do humano é impossível. Os americanos têm uma Constituição pioneira, pequena e inteligível; aqui, um oceano de leis complementares e de privilégios impede a clareza. Eles começaram republicanos, e nós fomos um pouco de tudo. Lá, trata-se de manter continuidade; aqui, de liquidar antigos privilégios; lá, quanto mais privilegiado, mais se é responsável perante a lei; aqui, o justo oposto. Lá, um federalismo localista obriga a julgamentos com início, meio e fim; aqui, há o recurso que engaveta os processos, tirando a confiança na maior das igualdades: a equidade perante a lei.

A melhor prova é o caso Floyd. Lá, está resolvido! Aqui, o STF anula sentenças e suspeita de um movimento anticrime fundamental para corrigir as trapaças do populismo, as sobrevivências do fidalguismo e o retorno do filhotismo. Lá, o trabalho é um chamado; aqui, foi e ainda é estigma e cicatriz da escravaria.

Aqui, o ministro Gilmar Mendes afirma, com maestria sociológica, que o governo do PT engendrou um “plano perfeito” de poder. Num texto magistral, esse paladino da coerência continua: “Na verdade, o que se instalou no país nesses últimos anos, e está sendo revelado na Lava-Jato, é um modelo de governança corrupta. Algo que merece o nome, claro, de Cleptocracia”. Onde foi parar esse juiz? Será que ele foi canibalizado por sua imparcialidade?

Para concluir, lembro uma outra pérola do mesmo magistrado em sua resposta a um colega: “O moralismo é a pátria da imoralidade”.

Como um velho acadêmico metido a cronista em pleno processo de cancelamento, digo apenas que a incoerência como um valor é, sejamos modestos, a terra da injustiça.


Roberto DaMatta: Viramos jacaré?

Meu senso de antropólogo cultural antigo e de não especialista (hoje, o Brasil é a pátria desses maravilhosos profissionais) prevê que teremos múltiplas vacinas contra o competidor biológico maior, a Covid-19, com suas famílias e linhagens que o governo Bolsonaro incrementa por meio de um pueril negacionismo e por uma adulta e criminosa sabotagem.

O vírus, não custa repetir, além de ser um agente epidêmico mortal e sem intenções (exceto sobreviver), é — tal como as nossas elites, de que somos parte e parcela — um predador invisível e solerte.

Aliás, conforme escreveu um “especialista” chamado Charles Darwin, no mundo natural, além de uma perturbadora ausência de intenção (ou causa final) e de uma óbvia presença de oportunidade, quem melhor se adapta e mais se reproduz triunfa.

O significado dessa desgraçada vitória, devo logo dizer antes que me levem à guilhotina moral, é a grande questão do nosso mundo, já que, de modo claro, ela suprime um outro mundo, uma outra vida e — quem sabe? — engendra uma história alternativa...

Se levamos a sério as premissas darwinistas, cabe honrar ao menos “este mundo” de que estamos certos e onde atuamos. Pois o fato inexorável é o seguinte: se tudo ocorreu ao acaso num planeta igualmente singular, posto que ele próprio é “vivo”, o sentido final da existência não precisa ser justificado por uma outra vida. Ela tem que fazer sentido aqui e agora, como demandam o vírus, os sanitaristas e todos os inesperados. Acima de tudo, os inesperados paradoxalmente previstos (e planejados) dos abismos entre quem tem demais e os despossuídos.

Não é preciso ser um sábio para dirimir os abismos sociais do Brasil. Eles saltam aos olhos quando saímos de casa — se casa temos...

Nesta etapa antropocênica — em que a pandemia impede, entre outras dimensões, que se possam disfarçar as imensas desigualdades mundiais, os vergonhosos abismos sociointelectuais nacionais e os transtornos de um planeta agredido por “empreendedores” esquecidos de que são por ele englobados e foram por ele engendrados —, não há a menor dúvida de que a espécie triunfante, o Homo sapiens, é ao mesmo tempo Deus e algoz do mundo que habita e dele mesmo.

Diz um celebrado mestre-pensador (Claude Lévi-Strauss) que, graças à invenção da linguagem articulada e dos costumes, somos um superpredador com um trajeto semelhante ao do câncer, porque conseguimos uma multiplicação além da Bíblia. Hoje somos onipresentes. A onisciência e a onipotência que nos tornariam divinos está em nossa volta e se afirmam nos laboratórios e nas “armas de destruição em massa”, esse eufemismo para artefatos com o poder de simplesmente assassinar o planeta em nome de alguma desavença nacional!

Avaliando com minha óbvia insuficiência essas pressões, tenho, não obstante, um temor de idoso: imagino, conforme confesso ao meu filho Renato, um consumado biólogo, pesquisador e professor universitário, que o vírus pode ter vindo para ficar.

O que significa esse “ficar” quando o ideal de conforto, satisfação e dignidade depende de um rude individualismo (primeiro eu, depois os meus e em seguida quem pensa e faz como eu!) — uma consciência do mundo que convenientemente inibe reciprocidades, interdependências e só imagina o outro como adversário ou inimigo a ser eliminado (ou cancelado, como se diz atualmente)?

Não deixa de ser paradoxal que o lado mais perturbador do vírus seja sua potência de bloquear o que nos tornou humanos: a sociabilidade ancorada na presença do outro. A dialética da costumeiro e do exótico — do encontro interessado ou espontâneo. Enfim, o que originou as grandes descobertas, inclusive a desses bichos invisíveis que existem ao nosso lado e interagem conosco porque são tão antigos quanto nós.

A habitual negação e a sabotagem do vírus no Brasil — cujo maior responsável é uma atitude emocional e irracional do presidente Bolsonaro e de seus seguidores —não são só um ato de desgoverno desses que permeiam e estruturam a admiração nacional desde que nos entendemos como um coletivo; são um risco para a Humanidade.

Certo que Adão não foi criado no Brasil, mas é igualmente verdadeiro que a Humanidade pode ser radicalmente ameaçada a partir de nossa cuidadosa e precisa negligência negacionista. De nossa incapacidade de realizarmos uma leitura mais abrangente de nosso lugar na Terra.

Enfim, se não nos conscientizarmos do perigo que estamos causando a todo o planeta; se não nos dermos conta de que o vírus impede o comércio, a aliança, a troca em todos os seus níveis que nos fizeram humanos, então vamos virar jacarés.

Cumpriremos um dos mais devastadores vaticínios do mais insensível presidente da nossa história.


Roberto DaMatta: Lá e cá — e o rouba, mas faz

Irracionalidade e incompetência surgem em tempo real, revelando inteligências e burrices nacionais e internacionais

Morar “lá fora” ainda é percebido como superior ao residir “aqui dentro”, pois continuamos a nos pensar como uns vira-latas rodriguianos. Sobretudo quando o foco é a “política”, cujo campo, por ser competitivo, é lido como um lugar de malandragem, falsidade, oportunismo, roubalheira e, hoje, de extraordinário irracionalismo. Daí nasceu — valha-nos, Deus! — o jubiloso “rouba, mas faz!”.

Quando entubamos que um político tenha como mérito o “roubar, mas fazer”, admitimos que é normal trair os hiperprivilégios dos cargos eletivos para nada fazer. Há, porém, honrosas exceções: os que, além de atraiçoar os eleitores coçando o saco, fazem alguma coisa roubando! Esse costumeiro “fazer” o mínimo (ou o máximo) do mínimo confirma o imperativo de repensar todo o campo.

O “rouba, mas faz” é mais um paradoxo brasileiro. O “burro doutor” é um outro par igualmente ambíguo, tanto quanto supor que, depois de cinco séculos de abjeta escravidão africana sustentadora de traficantes e nobres, viramos, em 1889, uma república em que todos seriam iguais perante a lei!

A transição de um sistema escravocrata para uma liberalidade republicana requer permanentes ajustamentos. Todos destinados a evitar uma escandalosa igualdade. Populismos autoritários, golpistas e irresponsáveis são “ajustamentos” dessa formidável e esperançosa mudança. Ficou, porém, como uma incômoda delação do nosso esplêndido berço aristocrático e escravocrata, um inabalável “você sabe com quem está falando?”.

Esse abusivo desmascaramento de um profundo senso hierarquizado, segundo o qual todos deveriam saber pelo “jeito” ou aparência (o escravo era — ou deveria ser — preto!) com quem se fala. Tal pressuposto está no centro dos nossos preconceitos.

Quando uma “pessoa de cor”, insegura ou malvestida tem um comportamento igualitário, ela rompe com o código de humildade e submissão instruído a chibata, favor e miséria. A igualdade nua e crua é, no Brasil, uma ousadia ou insulto.

Não somos conscientemente contra a igualdade, mas a calibramos inconscientemente, revelando como — apesar de todas as demagógicas afirmações igualitárias — há superiores (ou donos) em toda parte.

A democracia deixa de ser a bússola da vida pública para virar mais um populismo: coisa fácil e boa de falar, mas difícil de viver. E, de quebra, legitimadora do roubar. Ressurge o fundo hierarquizado e familístico do sistema, fraturando sua superfície igualitária.

Globalização com pandemia explodiu as perfeições do “lá fora”, porque o lá que era perfeito e o cá, sempre atrasado, ficam parecidos. A globalização é antropológica: ela obriga a comparar, e o estranhamento revela modos diversos de conceber estilos sociais diante do inesperado, da doença, da morte e, agora, da cura! A irracionalidade e a incompetência surgem em tempo real, revelando inteligências e burrices nacionais e internacionais.

No meio do caos, percebemos que, quanto mais temos Estado e burocracia legistocrática, mais surgem familismo, compadrio e dinastia política. Se fizermos uma genealogia do poder à brasileira, ficaríamos assombrados com a magnitude dos elos de sangue que correm pelas veias das nossas elites. O impessoal — como, outra vez, mostra esta eleição — não disciplina o pessoal.

Sugeri que o personalismo de Donald Trump “brasilianizava”, canibalizando a América das leis e instituições. Canibalismo rotineiro no Brasil, que muda a lei para soltar o ladrão e, assim, destrói instituições.

Lá — apesar de Trump —, o entendimento de que as leis são para todos; aqui, o entendimento é que quem segue regras é inferior ou otário. Os superiores e os malandros não as seguem justamente porque têm o poder de driblá-las, inventá-las e modificá-las. Preciso lembrar o foro privilegiado e os recursos infinitos que fazem as fortunas dos causídicos e levam a duvidar da existência da democracia?

O “sabe com quem está falando?” não é somente um brasileirismo, é a prova de um duelo permanente entre interesses e éticas, sem as quais evapora-se a ordem democrática. E o centro da desordem nacional é, exceto no futebol, a sistemática mudança das regras em função de projetos populistas, vale dizer: pessoais.

Lá, o “você sabe com quem está falando?” mostra que uma pessoa tipo Trump não tem consciência do seu papel, pois não sabe quem é. Aqui, porém, saber com quem se fala e conhecer o próprio lugar é uma obrigação. Debaixo de uma igualdade popularesca, há sempre um superior (branco ou rico) e um inferior (preto e pobre).

P.S.: O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional sofre com um oficializado “você sabe com quem está falando?”, agredido com uma ofensiva perda de autonomia. Patrimônio nacional (que tem a ver com a nossa identidade) não pode ser também polarizado pelo bolsonarismo. Se for, esvazia-se institucionalmente.


Roberto DaMatta: Americanização do Brasil

Estados Unidos ‘brasilianizados’ seriam marcados por ruidosa desigualdade

Quando falei “americanização”, pensei imediatamente numa correspondente “brasilianização” dos Estados Unidos.

A expressão causou barulho quando, em 1995, Michael Lind publicou o livro “The Next American Nation” (“A próxima nação americana”). Nele, o professor aponta o brutal enriquecimento dos americanos ricos, ancorado em políticas do Partido Democrata.

Esses bilionários não formariam apenas uma “classe dominante”, mas uma “sobre-classe branca”: um segmento dotado de um poder jamais visto. Sua contrapartida seria uma “subclasse pobre-negra-asiática e marrom”. Nesse novo modo de dominação, o ideal não seria mais construir uma bíblica “cidade sobre uma montanha”, mas o egoísmo de possuir uma “mansão atrás de um muro”.

É nesse contexto que Lind alerta para uma “brazilianization” da sociedade americana: “uma anarquia feudal, altamente tecnológica, constituída por um privilegiado arquipélago de brancos em meio a um oceano de pobreza branca, negra e marrom”; uma riqueza sustentada por políticas erradas (porque seriam antiestatais), sobretudo no que diz respeito à imigração.

Eis, numa cápsula, o programa de um Trump que começou a construir o muro, focou nos brancos pobres e adotou o “primeiro a América”. Um programa político que o elegeu e hoje — graças à eleição como um rito de mudança, cujo resultado foi raramente posto em dúvida na América —vai tirá-lo (assim espero) da Casa Branca.

Mas, tanto lá quanto cá, persiste uma curiosa inversão. De fato, uns Estados Unidos “brasilianizados” seriam marcados por uma ruidosa desigualdade e por um desmesurado personalismo populista — uma americanização do nosso “Você sabe com quem está falando?”; ao passo que um Brasil americanizado seria o exato oposto: uma contenção dos impulsos personalistas, fonte e razão de populismos autoritários, ao lado de uma busca de programas públicos responsáveis e factíveis. No fundo, um inesperado e americano “Quem você pensa que é?” — num país em que toneladas de privilégio neutralizam todas as éticas — jamais foi seriamente dirimido.

Todo centralismo repete a realeza e se concretiza na figura de um chefe parecido com “O grande ditador” chapliniano. Um filme, aliás, cujo enredo se funda num engano de pessoa, infelizmente muito mais real do que pensa a nossa vã sociologia.

Não é, pois, difícil encontrar um presidente mandão ou, como diria um puxa-saco, um “presidente forte” — esse eufemismo para estilos absolutistas de exercer um poder que, em repúblicas que se prezam, é periodicamente contido pela eleição. O chocante no caso de Trump não é só o negacionismo ou o uso de argumentos conspiratórios fantasiosos. O que assombra é a tentativa de usar o “Você sabe com quem está falando?” num sistema fundado na igualdade de todos perante a lei.

Conforme revelei há décadas e reitero num novo livro — “Você sabe com quem está falando? Estudos sobre o autoritarismo brasileiro”, Editora Rocco —, esse brasilianismo é um relativizador agressivo de normas, costumes e leis que valem para todos; menos, é claro, para quem se acha…

Como é possível que tal personalismo —populista e hierarquizador, resíduo da escravidão que estigmatizou o trabalho como valor no Brasil —esteja ocorrendo num sistema obcecado em seguir normas, essa fonte de igualdade, conforme assinalou, em 1835-40, Alexis de Tocqueville?

E, ao inverso, como é possível que nestas eleições estejamos buscando o difícil equilíbrio entre regras e pessoas, programas realizáveis e utopias populistas, gastos públicos responsáveis e corrupção?

Lá, o personalismo é o hospede não convidado. Aqui, a intrusiva novidade é a luta pela eliminação das enormes desigualdades, responsáveis por mazelas como um entranhado racismo e uma tragicômica hipocrisia política. Minha esperança é que a “americanização” do Brasil seja tão bem-sucedida quanto a “brasilianização” dos Estados Unidos.

P.S.: Toda negação da realidade espanta porque é uma manifestação de poder e privilégio real ou imaginário de quem a realiza. Todas as sociedades humanas, como provam crenças e hinos nacionais, contêm sua dose de etnocentrismo. É deplorável que o vice-presidente não saiba que a diversidade de cor (que não pode ser mudada como as fardas, insígnias e roupas) provoque reações que vão — esse é o objeto da antropologia — da total desumanização e de um denso e inconsciente preconceito à segregação física e legal, como foi o caso americano e da África do Sul. Nosso “racismo estrutural” é o resíduo abjeto de um estilo senhorial e escravocrata de vida que, pela chibata, pelo contato pessoal e pelo pelourinho, transformava negros em mercadorias, máquinas e animais. Com a devida vênia, sou — por dever de ofício — obrigado a dizer que o general Mourão não está apenas errado. Está, histórica e culturalmente, míope.

*É historiador e antropólogo social, autor de ‘Fila e Democracia’


Roberto DaMatta: Tudo é político

Ouvi essa expressão quando entrei na faculdade de filosofia (feita para moças e veados, tal era o estigma, conforme algumas pessoas disseram, encorajando-me) para me bacharelar em História, e ser um merda de um professor, conforme vaticinou um médico que queria namorar a minha namorada. Estávamos nos acabados anos 50.

Foi de professores dedicados que ouvi o axioma: “Tudo é político”. E a vida também é política? Ou haveria, além da religião, da filosofia e da coragem de honrar o Humano, uma política para o sofrimento, o inesperado e a morte?

Fiquei aturdido com essa tonelagem que meus jovens ombros recebiam quando descobri a responsabilidade de ser um protagonista no futuro do Brasil. A descoberta da política como um modo de reler a minha existência na qual um copo d’água ou um beijo seriam um ato político, reitero, assustou-me.

Primeiro, porque passava de objeto a sujeito. Depois, porque eu percebia que a maior parte das pessoas não se dava conta de sua importância num mundo que ficava cada vez maior e menor. Quando descobri a fórmula, virei o que chamávamos de “conscientizado” por oposição aos “alienados”. Aqueles que simplesmente viviam sem ter o menor vislumbre de suas qualidades ou motivação para ir além de suas rotinas.

Um jovem a enxergar prisões em todo lugar e eu logo vi a religião como uma delas. Depois, no auge da minha jornada, classifiquei tudo e todos como “alienados”. Seria não político o amor familiar? Gostar de filmes americanos? Ler Joaquim Nabuco? Como ser igualitário com crianças a serem nutridas e disciplinadas? Seria possível escapar de um permanente debate e destino político?

Virei noite falando disso com meus amigos. O casamento, a paternidade e a vida profissional sem privilégios de família foram definitivos para uma parada meditativa. Sem dúvida, tudo era político. Sobretudo, era claro, para os políticos e os filhos, compadres, companheiros e amigos dos políticos. A antropologia social relativizou-me antes do livro que escrevi – Relativizando: Uma Introdução à Antropologia Social.

Não seria mais sensato dizer que a política é uma parte importante da vida? Não seria mais inteligente descobrir que alienados e conscientizados trocam de lugar? Se todos são alienados, como queria o Simão Bacamarte da história de Machado de Assis, não seríamos nós os conscientemente alienados, conforme repetia papai aceitando sereno a minha postura revolucionária sustentada por ele – o alienado maior?

Tempos depois, vi com nojo e decepção como o axioma de que tudo é política desembocava num outro pressuposto: o de que tudo era poder e exercer o poder em nome dos oprimidos permitia ir além de todos os limites. Também tenho vivido a oportunidade de reconstruir um outro lado – o lado de uma direita sempre envergonhada e estigmatizada, bem como alienada – jogado no lixo pela ignorância e pelo mesmo protagonismo dos condenáveis laços de família. Esses hóspedes não convidados segundo analistas políticos brasileiros.

Assim tem sido meu aprendizado do tudo é mesmo política.

E assim sendo, nada se pode fazer para inibir uma moralidade nacional na qual as obrigações devidas aos compadres, companheiros e parentes (sobretudo aos filhos) são uma forma silenciosa de fazer política. Ela, de fato e de direito, engloba o chamado “político”, tirando-o de sua impessoalidade – essa dimensão crítica numa democracia é concretizada pelo voto secreto. Pois o segredo e o impessoal contêm a semente da intimidade – esse avatar da liberdade igualitária.

*

Assisti feliz às comemorações dos 80 anos de Pelé – um dos maiores personagens positivos da vida brasileira. Nada roubou, a ninguém enganou com seu extraordinário talento e o peso do negrume glorioso de sua pele.

Vida e morte ancoram a existência. Morre o ator Sean Connery, que encarnava na ficção do cinema a idealização mítica de um agente secreto estilo Pelé em luta contra o mal. Um mal sempre atenuado nas aventuras de James Bond (o simbólico Ligador) por romances sensuais machistas, porém sedutores. Quem não queria ser o 007 ou a namorada dele?

Morto o ator, fica – eis o segredo dos mitos – o personagem na sua representação imortal a indicar que, pelo menos no cinema, o bem vence o mal.

Coisa cada vez mais complicada de acreditar neste mundo globalizado e, sobretudo, neste Brasil no qual as “fake news”, esses veículos de calúnia e mentira, são levadas a sério ao lado da burrice como política, conforme revela a questão das vacinas contra a pandemia.

– Papai, disse um amado filho para um pai idoso, afinal o 007 morreu bem. Noventa anos é um bocado de vida.

– É muito para quem tem 50, 60 ou 70 anos. Mas para mim, com 84, os 90 são um muro, tipo fronteira. Seriam mais seis curtos anos e depois…

*É historiador e antropólogo social, autor de ‘Fila e Democracia’


Roberto DaMatta: Acabar com a esquerda?

Não se pode liquidar o dualismo e a complementaridade, pois todos entendemos que, se o esquerdismo atrasa, a esquerda – ao contrário – é essencial para a democracia

A polarização exagerada no Brasil bolsonarista, após – não se deve esquecer – a hegemonia lulista, é um desastre. Se muitos da “direita” querem acabar com a “esquerda” e vice-versa, devo lembrar que não há democracia sem os dois lados.

Os totalitarismos suprimem oposições enquanto a polaridade garante o equilíbrio instável e humano. Sem contrastes, o mundo não teria sentido. Sou um homem porque não sou um gato; descubro o calor quando encontro o frio. Só vivo numa democracia quando o debate engloba o autoritarismo que sufoca liberdades.

Estudei uma sociedade tribal onde se dizia que “tudo tem o seu contrário”. Naquele sistema, a paralisação entre Sol e Lua criou a vida coletiva, o trabalho, gente feia e defeituosa em paralelo a pessoas belas e saudáveis e, para finalizar uma longa lista, os demiurgos inventaram a morte porque sem ela o mundo transbordaria de gente.

Os antropólogos da minha tribo chamam tais sistemas de dualistas e um mestre, o famoso Lévi-Strauss, desvendou essas organizações sociais duais, presentes – como pode facilmente imaginar – em toda parte.

O nosso próprio sistema contempla vários dualismos céu/inferno, Adão/Eva, santos/pecadores, Deus/diabo, esquerda/direita… A lista é longa e, quem sabe, infindável, mas foi somente o Ocidente que encarou a dualidade com o desejo de, um dia, finalizá-la. Seja no Juízo Final, seja quando os operários do mundo conseguissem se unir, conforme reza um outro texto sacrossanto!

O nosso próprio corpo serve como exemplo vivo das dualidades, quando focalizamos o simbolismo das mãos para ver o primado da mão direita sobre a esquerda em muitos contextos. A própria noção de “direito” como correto, justo e legal, indica tal posicionamento cosmológico.

*
A resposta ao meu título é um sonoro não. Não se trata de acabar com a esquerda que – como nossas mãos – vai estar sempre presente no corpo social e político. Ademais, toda democracia vai exigir uma esquerda que critique, vigie e transforme o sistema estabelecido ou a “direita” – os costumes vigentes.

Se um corpo sem um braço é um corpo mutilado, então a questão é estabelecer quando cada lado tem precedência. Em muitos sistemas sociais e também entre nós usamos a direita nas saudações e juramentos, mas se vamos pregar um prego, ou surpreender um adversário, precisamos do nosso lado canhoto.

Seria reacionário lembrar que os dois lados são interdependentes e não inimigos?

*
Penso que o Brasil experimenta a ultrapassagem de um momento hegemonicamente esquerdista e enfrenta uma etapa na qual se quer mais uma esquerda do que o esquerdismo. Do mesmo modo e pela mesma lógica, há quem queira a direita e abomine os fascismos. Os “ismos” indicativos de inflexão e condenação ideológica são recusados, mas todo democrata deseja os lados em equilíbrio.

Não se pode liquidar o dualismo e a complementaridade, pois todos entendemos que, se o esquerdismo atrasa, a esquerda – ao contrário – é essencial para a democracia. Ela é indispensável quando se projeta liquidar privilégios, em transporte público, em saúde, segurança e saneamento. Sem um projeto de esquerda, não há educação primária e secundária de qualidade. A transformação do professor primário num agente de mudança para o igualitarismo é, ao lado de uma distribuição equitativa de renda, ativo da esquerda.

Pela moeda da interdependência, demanda-se a direita (e o Direito) para harmonizar os pontos conflituosos do jogo, sem o que a liberdade e a igualdade sucumbem. Na esquerda, não podem haver conchavos que destroem a confiança tanto no Estado quando nas empresas privadas de sucesso. Elos pessoais e hierarquias que desmoralizam leis, negócios escusos entre empresas e Estado – tudo isso que englobamos no Brasil como “corrupção” – têm que fazer parte da agenda democrática.

A “revolução” não supera, a não ser com muito esforço, os arranjos culturalmente legitimados e o protagonismo do “dar para receber”, que acabam em malas de dinheiro e na destruição dos principais partidos políticos nacionais.

Não é mais possível manter um inferno jurídico para os pobres e os comuns e um purgatório de regalias para os que estavam (e continuam estando) acima da lei. A luta hoje é como controlar o purgatório jurídico fiador da desigualdade.

Para essa revolução, é preciso uma boa cabeça, pernas firmes e as duas mãos.


Roberto DaMatta: Apagar o passado

Vivemos momento em que se acende alerta de apagão político-moral

A consciência demanda organizar o passado. Há muitas formas de lidar com o tempo. Em sociedades sem escrita, nas quais a morte de um velho seria equivalente à perda parcial de muitos fatos e mitos — algo próximo da destruição de uma biblioteca nacional —, trata-se de um desastre inafiançável.

Será que um dia vamos conhecer nosso passado milenar? Ou existem passagens que simplesmente sumiram, como a poeira das galáxias e das nossas invisíveis almas?

O leitor pode se sentir incomodado pelo assunto. Eu, cronista enviesado, que, se não estou, devo ingressar na cavilosa lista dos antifascistas convictos, apenas reitero que muito do que fizemos é esquecido, senão propositadamente apagado, porque seria prova de incoerências, crimes, projetos hediondos e contradições incontornáveis, sobretudo em coletivos fundados na autoridade do pai, do rei, do supremo sacerdote ou do juiz.

Investigando nossas vidas, descobrimos coisas que apagamos e muitas outras que programamos esquecer. Quando esquecemos de boa-fé e eventualmente ferimos alguém, acertamos o mal-estar por meio de pedidos de desculpa ou perdão. No mundo jurídico-político anistiamos, formalmente suprimindo fatos passados. Reinterpretações desfazem e mudam o passado. Pedir desculpas, perdoar e anistiar “lavam a alma” e são passaportes para recomeços. Mas, para apagar ou esconder o passado debaixo do tapete, como é comum no Brasil, é necessário um penoso, discutível e complexo refazer histórico-social — tipo, como esquecer a ditadura militar. É preciso o autoritarismo forte presente para controlar, conforme sabia o Grande Irmão de George Orwell, o passado.

Eis dois episódios que agasalhei na memória. Ambos ocorreram com um professor, inglês até a alma, que havia programado um jantar de sexta-feira com a esposa e, ao chegar em casa, com ela desentendeu-se. Algo banal, como uma toalha suja, despertou ressentimentos e, com eles, um inesperado ódio expresso em memórias amargas e frases agressivas. Em meio à tempestade, porém, o marido abriu um parêntese similar a uma desculpa e denunciou o mal-entendido. “Querida”, disse, “isso não está acontecendo. Eu vou sair e entrar novamente em casa e nós vamos jantar conforme combinado”. E assim foi feito.

Um outro evento com o mesmo professor confirma, quem sabe, essa capacidade humana de desconstruir, cujo melhor e mais dramático exemplo é o elo entre paz e guerra. Depois de uma impecável conferência em impecável estilo britânico para uma plateia encantada numa universidade do sul dos Estados Unidos, fomos jantar com um colega que hospedou o conferencista. Na manhã seguinte, fui tomar café com o anfitrião, que perguntou ao professor num misto de curiosidade e provocação: “Eu acho”, disse, “que fui muito ofensivo ontem, não?” Ao que, com notável elegância, o professor retrucou: “O que ocorreu ontem foi tão desagradável, mas tão desagradável, que eu simplesmente apaguei da minha memória”.

Se fazemos, podemos desfazer. Democracias podem desandar em regimes policialescos que trazem do passado escravocrático um viés semelhante ao dos nazifascismos e estalinismos.

Vivemos um momento no qual se acende um alerta de apagão político-moral que suspende o bom senso. A direita bolsonarista tem como simbólico um inacreditável terraplanismo — um contrassenso indicativo de uma postura, digamos o mínimo, radicalmente irracional. Na política, não há dúvida de que se quer um presidencialismo absolutista. Uma outra contradição que, ao lado de um patológico familismo presidencial, completa a negação de solenes promessas de campanha.

Em suma: testemunhamos tentativas de apagar o dito que se transforma num não dito, incompatível com uma necessária estabilidade capaz de minar a autoestima e o respeito internacional, sobretudo em tempos de pandemia num mundo globalizado.

Se esquecemos as implicações morais da escravidão e as obrigações igualitárias da República, por que, como adverte o jornalista Carlos Alberto Sardenberg no GLOBO, não livramos, por meio de um apagão legal, o principal condenado da Lava-Jato, avocando que o magistrado foi parcial?

Mas, se isso for admitido, como o plano da lei e o caráter dos magistrados ficam perante todos os condenados na mesma operação anticorrupção que ainda está em curso?

Para quem duvida que o autoritarismo protofascista nacional é avesso ao igualitarismo, seria cabível livrar somente o ex-presidente, quando todos os seus asseclas foram investigados por um mesmo magistrado? Para os leigos em jurisprudência, tal livramento seria mais um “Você sabe com quem está falando?” na área criminal. Sabemos que a realidade pode ser manipulada, mas, por isso mesmo, temos consciência de limites. Um deles é a morte ou, no caso, o supremo suicídio da estrutura jurídica nacional. Esse instrumento que sustenta o regime republicano num simples ideal: o de que todos são iguais perante a lei, no caso, os julgados e condenados…

Resta candidamente avisar que apagar passados impede construir futuros.


Roberto DaMatta: Quem é de esquerda?

Numa velha investigação que realizei sobre identidade política, encontrei uma divisão nítida entre “esquerda” e “direita”. No início dos anos 1960, um mundo muito maior e menos transparente do que o atual, dava pleno sentido à divisão entre direita e esquerda. Além disso, quem era de esquerda ou de direita via o outro lado como contrário, mas também como imprescindível. Um dos maiores erros dos radicalismos e, no caso do Brasil, da direita representada pelo regime militar foi a tentativa de dar uma “solução final” para a outra margem, esquecendo-se do rio por onde a história não deixa de correr. O mesmo ocorreu com a esquerda desmoralizada pelo lulopetismo. A destruição do opositor subtrai a legitimidade de quem tem o “poder”. Quem sustenta a governabilidade é o derrotado.

Daí a importância da competição eleitoral, que acabamos de vivenciar. O processo eleitoral ajuda a descobrir novas lideranças tanto quanto a descartar projetos de “soluções finais” de quem, alojado no poder, planejou jamais perder uma disputa eleitoral. Enfrentar o nosso papel como eleitores não é fácil, quando não há salvadores da pátria ao lado de um punhado de partidos com bandeiras cansadas ou sem mastro. Naquele tempo havia medo, mas não havia vergonha nem culpa em ser “esquerdista”. Examinando meus dados, vejo que muitos se viam como peça de resistência ou vítima, mas todos tinham orgulho de sua escolha política. Ser de “esquerda” era ser uma pessoa fiel, honesta e de boa vontade. Era ser alguém que enxergava a “realidade brasileira” (ou o todo) desdenhando os “interesses de classe” que remetiam à parte e exprimiam egoísmo e descaso pelos pobres. Pelos explorados que constituíam o “povo” brasileiro ao qual nós, nos coretos acima da multidão, obviamente não pertencíamos.

Éramos pastores do povo e eu confirmei tal atitude numa entrevista na qual um operário dizia: “Os teóricos são o farol que guia a nossa prática”. Tal opinião confirmava a busca utópica de uma igualdade substantiva. A esquerda queria o paraíso neste mundo e perseguia o altruísmo. Ademais ela não havia estado no poder. Esse poder que muda até mesmo a igreja do diabo, como ensinou Machado de Assis. O poder corrompia, mas nós não entraríamos nisso. Como disse o próprio Lula, décadas depois: em seis meses, o PT acaba com a corrupção. E José Genoino, presidente do partido, já no poder, reiterava: o PT não rouba e não deixa roubar. O “poder” era um cetro ou palácio. Ele não era contraditório ou personalizado. Reprimíamos o fato de sermos meninos brancos de classe média que viviam em “casas” hierarquizadas e aristocráticas, com um pai-patrão e seus empregados e, talvez por isso mesmo, tínhamos o sonho de uma igualdade ilimitada no plano político.

Vencer uma discussão com o pai, cantar que o Brasil era um país subdesenvolvido, era fazer a revolução… Uma revolução que surgia como um conjunto de “reformas” a serem perpetradas pelo governo e por decreto, tal como ocorreu no comício da Central do Brasil em março de 1964. Ali, João Goulart decretou alguns dos seus pontos cruciais. Dezenove dias depois, veio – aí, sim – o golpe militar que, em menos de 48 horas, pôs a esquerda na marginalidade, explodindo uma margem do rio. Naquele tempo, havia “reacionários”. Hoje, há conservadores defendendo a “ordem” para situá-la ao lado do “progresso” e um enorme time de fascistas (úteis e inúteis) com suas listas de temas e pessoas a serem banidos e, eventualmente, eliminados.

Em 1960, imitando a experiência cubana, falava- se em paredão; hoje – imitando sem saber os velhos nazistas – temos soluções finais para o mercado e para um capitalismo diabolizado. Em nome dos direitos, evita-se corrigir a desigualdade que começa no desencontro entre uma aristocracia paga pelo Estado e os cidadãos comuns. Os idiotas que trabalham para sustentar um Estado a ser descontaminado de sua imagem de fiador do roubo, da incompetência e de uma burocracia marginal à norma da igualdade. É incabível, com a devida vênia aos meus amigos do Judiciário, que um juiz venal seja condenado à aposentadoria em sua residência com salário integral! Essa foi uma eleição histórica. Nela, a esquerda abalada e derrotada pelo lulopetismo que a marginalizou. A crise fez com que ser esquerdista virasse sinônimo de demagogia burra, irresponsável e arrogante. Ou, para resumir numa palavra: a tudo o que era de “direita”.

* PS: Se Marta Suplicy não é de esquerda, tudo é possível. (O Estado de S. Paulo – 05/10/2016)


Fonte: pps.org.br