Celso Furtado

Ruy Castro: Nosso destino é a estupidez

Em 1964, o Brasil ficou impossível para Celso Furtado - que os outros países, agradecidos, acolheram

Um mês e meio depois do golpe militar de 1º de abril de 1964, o economista Celso Furtado teve de deixar o Brasil. Seu nome estava na primeira leva de brasileiros com os direitos políticos e civis cassados. De uma lista aberta pelo presidente deposto João Goulart e pelo deputado Leonel Brizola, Celso era já o 26º. Entre os motivos para isto estavam sua passagem pela Cepal (Comissão Econômica para a América Latina), a criação e presidência da Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste) e ter sido o primeiro ministro do Planejamento do país. No Brasil dos generais, o ex-pracinha Celso Furtado não podia ser deixado à solta. Estava com 43 anos.

Seu primeiro destino foi Santiago do Chile. Mas não passou muito tempo por lá. Tinha convites de três universidades americanas para lecionar economia: Harvard, Columbia e Yale. Escolheu Yale, onde ficou de setembro daquele ano a junho de 1965, e só saiu porque o governo brasileiro pressionou a congregação para não renovar seu contrato. Foi para Paris, contratado pela pós-graduação da Sorbonne, em ato assinado pelo presidente De Gaulle, para ensinar economia do desenvolvimento.

Somente em 1968 teve 15 convites para ser paraninfo de turma.Em 20 anos de Sorbonne, Celso formou futuros presidentes da República e ministros de Estado, publicou livros e trabalhos, falou para governos e privou com potestades como Bertrand Russell, Jean-Paul Sartre, James Baldwin, Theodor Adorno, Herbert Marcuse, Octavio Paz, Jürgen Habermas —alguns, seus amigos.As cartas que mostram essa extraordinária trajetória estão no livro recém-lançado “Celso Furtado - Correspondência Intelectual 1949-2004”, organizado por Rosa Freire d’Aguiar.

Os militares o condenaram a levar seu conhecimento a plateias alheias ao seu coração. O que o Brasil dispensou, o mundo, agradecido, acolheu. Nosso destino é a estupidez —vide hoje.


Cristovam Buarque: Celso Furtado - Além do centenário

Dos grandes autores lembramos o que escreveram, dos maiores adotamos o pensamento, mesmo sem saber o nome. Nós pensamos com base nas ideias de Baruch de Spinoza, Erasmo de Rotterdam, Adam Smith, René Descartes, Jeremy Bentham, David Hume, Aristóteles, John Maynard Keynes, Hannah Arendt e outros que romperam posições do passado e inventaram novas formas de entender a realidade.

Ainda quem nunca ouviu falar neles, pensa e age em função das ideias que eles construíram. Alguns brasileiros nos explicaram “de onde vem”, “como é”, “para onde deve ir” o Brasil. Entre outros, é possível citar Joaquim Nabuco, Gilberto Freyre, Caio Prado, Sergio Buarque de Holanda, Josué de Castro, Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira e Paulo Freire. Cada um teve sua influência na formação da mente brasileira: como nós entendemos nosso país e o mundo ao redor.

Desses, Celso Furtado tem influência decisiva para explicar o “de onde viemos”, “por que somos subdesenvolvidos”, quais os “entraves ao nosso desenvolvimento”, “como nos desenvolvermos”; ele também nos alertou para os riscos do progresso.

Antes do livro Formação Econômica do Brasil, víamos a nossa história como uma sucessão de fatos, especialmente políticos. Graças a Celso Furtado passamos a entender como a história avançou: a lógica e as forças que nos empurraram. Graças também a ele, entendemos porque esbarramos, em vez de avançar. Seus livros Desenvolvimento e Subdesenvolvimento, Teoria e Política do Desenvolvimento Econômico e Dialética do Desenvolvimento são básicos para entender como certas economias se desenvolvem e porque outras ficam estagnadas.

Mas ele não foi apenas analista, foi também formulador de caminhos. Devemos a ele os documentos básicos de estratégias para o desenvolvimento do Brasil, como o “Plano Trienal”, e para superar a tragédia da pobreza e da desigualdade regional. Foi formulador da Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste) e homem de ação. A engenharia política para aprovar no Congresso as leis que serviram de base à criação da Sudene e dos instrumentos de incentivos fiscais foi uma obra de genialidade conceitual e de articulação política; tal como Nabuco nos dias de maio de 1888 para aprovar a Lei Áurea.

Passados alguns anos, foi Celso Furtado quem, no seu livro O Mito do Desenvolvimento, nos trouxe a percepção dos limites do desenvolvimento, tanto quanto Nabuco nos lembrou que a Abolição não se completaria sem reforma agrária e sem educação.

Por tudo isso, cem anos depois de seu nascimento, o pensamento e o exemplo de Celso Furtado estão vivos, nas lembranças e homenagens que os historiadores, economistas e políticos fazem à sua obra. Vivo também em milhões de brasileiros que, sem saber, usam conceitos e palavras que ele criou, sonham para o Nordeste e para o Brasil rumos que ele definiu, temem resultados negativos para os quais ele alertou.

Raros intelectuais e homenageados são lembrados tantos anos depois de sua obra, por quem o estudou e por quem pensa como ele ensinou, mesmo sem conhecer sua obra. A maior homenagem a ele não é, entretanto, lembrar a importância de sua obra, mas ter a consciência de como ele nos faz falta em um momento em que o Brasil vive em transe, não em transição, sem coesão, nem rumo.

Cometemos muitos equívocos nas duas décadas sem Celso. Uma das maiores foi burocratizarmos e amarrarmos o pensamento. Burocratizamos nas carreiras universitárias e amarramos em siglas partidárias. Deixamos de usar plenamente a liberdade criadora, paramos de ousar, nos apegamos às ideias do passado como se fossem camisas de força de uma lucidez superada pela realidade. Ficamos críticos ou bajuladores, não analistas e intérpretes inovadores.

A maior lição de Celso Furtado foi seu exemplo de pensar com rigor analítico e com liberdade imaginativa, sem amarras, sem líderes e sem siglas partidárias. Ninguém amarrou o pensamento de Celso Furtado, ninguém tolheu sua imaginação e todos reconhecem seu rigor. É nisso que precisamos seguir avançando no que ele formulou. Seu pensamento um dia evoluirá graças aos que seguirem seu exemplo, tanto quanto ele fez avançar o pensamento de seus mestres.

Olhando para sua própria obra e para os desafios de hoje, a maior homenagem ao Celso, nos seus cem anos, é agradecer pelos pilares intelectuais que ele nos deu nas ideias e no caráter, e pensar novas ideias e novos instrumentos para enfrentar os novos desafios. Agir como ele agiria: pensando além do que ele nos ensinou.

*Professor Emérito da Universidade de Brasília (UnB)


Fernando Henrique Cardoso: Dois centenários

O Brasil precisa de intelectuais da têmpera de Celso Furtado e Florestan Fernandes

O ser humano é dotado de memória. Mas também se esquece. Há, contudo, pessoas que se transformam em ícones: essas não há como esquecer. Este ano, 2020, se vivos estivessem, e não só em nossa memória, fariam 100 anos Celso Furtado e Florestan Fernandes. Um deixou marcas na economia, o outro na sociologia. Ambos, em nossa história intelectual.

Conheci bem os dois. Fui formado na Faculdade de Filosofia da USP por muitos “mestres”. No meu caso, nenhum foi mais importante do que Florestan, desde que me deu um curso introdutório, em 1949. Celso conheci quando eu fazia, em 1962, uma pesquisa sobre o papel dos empresários no desenvolvimento econômico e fui ao Recife, com Leôncio Martins Rodrigues, para entrevistar alguns deles. Celso, então, já era diretor-superintendente da Sudene. Posso tê-lo visto antes em alguma conferência em São Paulo – também minha memória, aos poucos, está repleta de esquecimentos…

Não me esqueço, porém, de dois episódios. Fomos procurá-lo em seu apartamento, modesto, na Praia de Boa Viagem. Emprestou-nos um jipe da Sudene, com um motorista. Aproveitamos a visita que um casal de jornalistas iugoslavos faria ao Engenho da Galileia, famoso pelas ocupações de Francisco Julião, líder das Ligas Camponesas, para conhecermos a Zona da Mata. Anos mais tarde, eu detido na Oban, fui minuciosamente inquirido sobre os dois “comunistas” que haviam ido comigo àquelas plagas. Não os conhecia, foram apenas companheiros de viagem. O motorista era também informante da polícia…

Quando Celso e eu já éramos amigos, estava em Barcelona, no inverno de 1986, visitando minha filha Beatriz, que estudava lá. Uma bela manhã tocou o telefone. Era Celso, queria saber se eu também seria nomeado ministro, pois ele fora convidado por José Sarney para ocupar a pasta da Cultura. Teria de deixar a Embaixada do Brasil junto à Comunidade Europeia, em Bruxelas, para onde fora nomeado. Celso, servidor público por excelência, além de grande intelectual, era falado para outros ministérios, como o da Fazenda ou do Planejamento. Coube-lhe o da Cultura, que organizou e ao qual emprestou o prestígio de seu nome.

Disse-lhe que eu não poderia sequer ser cogitado para uma função ministerial porque era senador exercendo a suplência e quem ocuparia minha função no Senado seria o segundo suplente, que era prefeito de Campinas. Teria de renunciar à prefeitura para assumir o Senado. Aconselhei-o a aceitar o ministério, sem que me houvesse perguntado.

Quiseram os fatos que fôssemos amigos. Em Paris, mais de uma vez fiquei no seu apartamento. Da mesma maneira, inúmeras vezes Celso ficou em meu apartamento em Brasília quando eu era senador.
Também frequentes foram nossos encontros quando morávamos na França. Ao longo de 1961, Celso, Luciano Martins, de quem ele era muito chegado, eu, e, eventualmente, Waldir Pires almoçávamos juntos.

A amizade, que se manteve, nunca me fez esquecer que foi com seus livros, especialmente A Formação Econômica do Brasil, que comecei a entender as mudanças que ocorreram no País.

Quando, em 1964, estivemos (Celso por alguns meses antes de ir para Yale) a viver em Santiago, moramos juntos. E conosco Francisco Weffort e Wilson Cantoni. Celso havia trabalhado antes na Cepal e, além de ser amigo dos economistas chilenos, era admirado por Prebisch, nosso inspirador e chefe do Ilpes e do BID.

Não sei de outro economista (mais do que isso: cientista social) que tenha influenciado tanto a minha geração como Celso. E muitas outras mais. Não só pelo que renovou na visão sobre a economia (somando Keynes a Prebisch e Kaldor), mas como homem público exemplar.

Inteligente, culto e modesto. Dele as gerações futuras não apenas se recordarão, como lhe serão agradecidas. Celso mostrou-nos o quanto a economia brasileira se integrava à economia mundial e como sem uma ação do Estado teria sido impossível (ou muito mais difícil) avançar tanto quanto avançou. Além do mais, sabia escrever: iniciara a vida na literatura.

O mesmo digo sobre Florestan Fernandes: homem de cultura enciclopédica, conhecia tanto sociologia como antropologia e os escritos dos economistas clássicos não eram misteriosos para ele. De Marx a François Simiand, conhecia-os bem. Mais do que isso: desvendou não só os males da escravidão e dos preconceitos de cor, como também mostrou as bases burguesas em que se assentava o poder no Brasil. Amava as pesquisas, tanto as sociológicas como as antropológicas, mas sabia que sem hipóteses os dados não falam. Sabia interpretar o que conhecia pelas pesquisas. A ele devo o ter-me dedicado à sociologia, que era sua paixão.

Do mesmo modo que no caso de Celso, os escritos de Florestan vieram para ficar. Tanto os sobre A Organização Social dos Tupinambá e A Função Social Da Guerra Na Sociedade Tupinambá, como os estudos sobre os negros no Brasil e sobre o caráter pouco democrático da nossa forma de viver e, sobretudo, de mandar. É de intelectuais dessa têmpera que o Brasil precisa. Que pesquisem e saibam antever o que pode acontecer. Sem medos nem arrogâncias. Com sabedoria.

*Sociólogo, foi presidente da República


Valor: Pensamento heterodoxo de Celso Furtado, que completaria 100 anos, permanece atual

Defesa do desenvolvimentismo neste tempo de crise mundial reaquece o pensamento do economista que completaria 100 anos

Cristian Klein e Gabriel Vasconcelos , Valor Econômico

“Aos meus 14 anos sofri a minha primeira crise espiritual - crise de angústia cósmica. Então, eu senti pela primeira vez que a vida de cada homem era uma obra a ser realizada em função de um fim. Olhei abismado para o futuro e chorei apavorado ante a ideia de que talvez não pudesse atingir aquele fim.” Aos 24 anos, era assim que o jovem aspirante a oficial Celso Monteiro Furtado descrevia de forma precoce suas memórias no diário, a bordo do navio General Meigs, que o levava para a guerra na Itália, em 18 de fevereiro de 1945.

O oficial de ligação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) com o 5º Exército dos Estados Unidos não tinha medo da morte. “Pelo contrário, a configuração desse sentimento desperta-me logo um estado de repulsa”, anotava Furtado. Causava-lhe mais temor a falta de propósito e a premência para a tal obra a ser realizada que lhe afligira dez anos antes.

O intelectual e homem público de ação, que defenderia a intervenção moderada do Estado para a superação do atraso do Brasil, fincava o planejamento como método para o seu próprio desenvolvimento como indivíduo. Nascido em Pombal, no sertão da Paraíba, na “periferia da periferia”, como lembra o amigo por décadas e historiador Luiz Felipe de Alencastro, o então pracinha acreditava ter ainda muitos anos pela frente e afirmava se ver como “um mistério”: “Se eu chegar a ser um homem excepcional, no futuro, isso não constituirá surpresa para mim mesmo”.

Não houve surpresa, e Celso Furtado foi, de fato, excepcional. Em reconhecimento à sua trajetória, seu centenário de nascimento, que se completa no domingo 26, tem sido marcado por uma série de homenagens em forma de seminários virtuais, artigos e publicação de livros, como a trilogia “Celso Furtado: A Esperança Militante”, editada pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), e um volume de correspondências, organizado pela viúva, Rosa Freire D’Aguiar, que será lançado pela Companhia das Letras.

Para muitos, o autor do clássico “Formação Econômica do Brasil” (1959), criador da Sudene e primeiro ministro do Planejamento do país é o mais importante intelectual brasileiro da segunda metade do século XX. Para admiradores, discípulos e mesmo acadêmicos não alinhados com o pensamento econômico heterodoxo, sua obra é um divisor de águas que influenciou gerações e se mantém atual até hoje, quando o capitalismo recorre frequentemente ao Estado para resolver profundas crises, como a de 2008 e a de agora, provocada pela pandemia de covid-19.

“Ele foi o mais importante economista brasileiro do século XX”, afirma o ex-ministro da Fazenda e professor emérito da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP) Luiz Carlos Bresser-Pereira, de 86 anos. “Furtado foi um gênio do pensamento universal. Teve uma capacidade de iluminar a compreensão do processo de desenvolvimento que é fora de série”, diz o ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) Luciano Coutinho, 73, um dos tantos que sentiram na juventude o impacto pela análise econômica “furtadiana”, ao ouvi-lo numa palestra no Recife.

Professor titular do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Luiz Gonzaga Belluzzo, 77, destaca a atualidade das ideias: “Celso teve uma visão abrangente do processo de constituição e reconstituição dos países e suas economias a partir dos nexos que mantêm entre si. Todo mundo fala em globalização, mas ele foi pioneiro; se antecipou muito ao que muita gente está começando a enxergar com mais clareza agora nessa relação do Brasil com a China, por exemplo”.

A autoconfiança nos anos de formação, longe de imodéstia, era reflexo da voracidade em ler tudo o que lhe vinha às mãos, a começar pelos clássicos presentes na biblioteca do pai, um juiz, depois desembargador. A mãe vinha de uma família de proprietários de terras. O pequeno Celso, que olhava pela fresta da janela a chegada dos cangaceiros, era o segundo dos oito filhos do casal. Segurança e autoestima, porém, conviviam com o julgamento severo, quase autodepreciativo.

“Eu acredito ter sido uma criança inferior. Possivelmente era o mais feio, com uma grande cabeça, um pescoço fino e um corpo ossudo, tinha o detestável vício de mijar na cama, não tinha espírito, era zangado - em síntese, ninguém se orgulharia de me apresentar como filho. (…) Na minha cabeça dura, dificilmente entrava qualquer coisa. Era indiscutivelmente burro. É claro que esse panorama progressivamente transformou-se”, escreveu em diário, pouco antes de atingir o estreito de Gibraltar. As memórias estão no livro “Diários Intermitentes”, também organizado por Rosa.

A autoimagem física e intelectual do menino nordestino não corresponderia à visão despertada no futuro. “Ele foi um jovem muito bonito. Fazia muito sucesso com as mulheres e com os homens também, pelo carisma. Apesar disso, ele não se achava, absolutamente”, aponta Alencastro, que chegou a Paris em 1966, um ano depois de Furtado, também exilado por causa da ditadura militar. Ali, os dois atuaram no ambiente acadêmico da Sorbonne por quase duas décadas. Professor da Escola de Economia de São Paulo da FGV, Alencastro, 74, lembra que o amigo sempre teve uma “discrição de sertanejo num meio universitário que é vaidoso”.

Na capital francesa, Furtado era expoente na enorme turma de exilados brasileiros e latino-americanos, entre os quais políticos, intelectuais e artistas - como Fernando Henrique Cardoso, Caetano Veloso, Gilberto Gil - que tinham como ponto de encontro e refúgio a casa de Violeta Arraes Gervaiseau (1926-2008), irmã do então governador de Pernambuco Miguel Arraes (1916-2005), preso e cassado pelo regime militar.

Depois do golpe de 1964, e antes de se fixar em Paris, Furtado já passara brevemente por Santiago, no Chile, e uma temporada em New Haven (Estados Unidos), onde assumira o cargo de pesquisador graduado na Universidade Yale. Foi ali que o então jovem economista Edmar Bacha, aos 22 anos, recém-chegado para cursar mestrado e doutorado, conheceu o ídolo e autor do livro em que, durante a faculdade, na UFMG, havia sublinhado “trechos e mais trechos” em lápis vermelho, “além de inúmeras anotações na margem”.

Um dos pais do Plano Real e integrante da Academia Brasileira de Letras (ABL) - assim como foi Furtado e também o liberal Roberto Campos (1917-2001), antagonista ideológico que lhe sucedeu no Ministério do Planejamento após o golpe -, Bacha lembra que o intelectual e homem de Estado, com apenas 44 anos, já era considerado um “mito” por estudantes brasileiros de economia.

“Convivemos intensamente e, apesar da diferença de idade, ficamos amigos”, recorda Bacha, hoje com 78 anos. Uma década mais tarde, em 1974, Furtado ajudaria o colega a divulgar na imprensa alternativa, por meio do semanário de oposição “Opinião”, sua fábula sobre um reino chamado Belíndia. Numa época em que o país crescia com grande concentração de renda, o ensaio ilustrava a desigualdade abissal que tornava o Brasil uma combinação de Bélgica com Índia.

Do período em que conviveu com Furtado em Yale, Bacha guarda o interessante conjunto de correspondências em que relatava à sua mãe - também fã do economista - o cotidiano em New Haven. “Quarta, Furtado falou no Seminário Interdisciplinar Latino-Americano sobre problemas agrários do Nordeste. O homem é realmente grande, Da. Maria!”, enaltecia o mestrando, na carta escrita em 19 de março de 1965.

Cinco meses antes, em outubro, três missivas chamam atenção. Na primeira, Bacha relatava que Celso Furtado havia viajado naquela semana para a Califórnia, a mais de 4,5 mil km de Connecticut, equivalente à distância entre São Paulo e Boa Vista. “Semana que vem, volta para lá de novo. Se quisesse, passava o tempo todo passeando de um lado para outro, atendendo a convites que chovem de todo lado.”

Na segunda carta, conta que Furtado estava “todo feliz com a edição americana de seu livro, ‘Desenvolvimento e Subdesenvolvimento’, que acaba de sair” e que o colega havia comprado um Corvair-65, “que é uma beleza de carro, com umas formas tão aerodinâmicas que parece que até vai levantar voo”.

Na terceira correspondência, Bacha diz que “Roberto Campos está em Washington, e com ele [Mário Henrique] Simonsen [1935-1997] e [João Paulo dos Reis] Velloso [1931-2019], meus professores do CAE [Centro de Aperfeiçoamento de Economistas, predecessor da atual Escola de Pós-Graduação em Economia da FGV-Rio], e que talvez venham aqui na quinta-feira quando terminarem o blá-blá-blá na capital [dos EUA]. “Ah, o que não daria para ver uma ‘briga’ do Simonsen com o Furtado! Sou até capaz de chamar os dois aqui em casa na quinta à noite, mas acho que ficava meio sem graça”, animava-se o estudante.

A agressividade, no entanto, não era afeita ao espírito cordato e à elegância de Celso Furtado. Alencastro destaca que não era do feitio dele falar mal de ninguém, e que Furtado, em sua autobiografia, não criticou nem Roberto Campos, que, embora fosse um “quase amigo”, tornara-se algoz com a inclusão de seu nome na primeira lista de cassados da ditadura militar. “Até o Lincoln Gordon [1913-2009], embaixador americano, e um dos articuladores do golpe, visitou o Castelo Branco e o questionou por que o Celso estava na lista. Achou um absurdo. Isso refletia em parte a alta admiração que o Furtado despertava nos círculos acadêmicos norte-americanos”, afirma o historiador.

O mesmo respeito se dava na Europa, onde, no fim dos anos 1940, Celso Furtado já estudara na London School of Economics e concluíra o doutorado na Sorbonne, com uma tese sobre a economia brasileira no período colonial. De modo que ao se exilar em Paris, em agosto de 1965, com recém-completados 45 anos, Furtado já havia realizado alguns dos principais marcos de sua biografia, que aliou a difícil capacidade de, ao mesmo tempo, ser um homem de ideias e de ação.

Era intelectual e tinha vida política. Reunia rigor acadêmico e engajamento político, o pensar e o agir. Foi da FEB, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), à sua própria FEB, sigla pela qual a obra-prima do estruturalismo latino-americano ganhou apelido no meio universitário, como aponta Samuel Pessôa, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

Liberal, o economista diz que “Formação Econômica do Brasil” permanece onipresente nas universidades brasileiras ao ponto de os departamentos de economia serem chamados de FEB, em alusão ao livro. Nele, Furtado não descreve a história econômica brasileira, mas a analisa, a partir da história dos ciclos da cana-de-açúcar, do ouro e café, que desembocariam na industrialização. Defende que o subdesenvolvimento não é uma fase ou etapa para se alcançar um estágio superior de desenvolvimento, mas uma condição inerente na relação estrutural centro-periferia, que determina um padrão específico de inserção dos países periféricos na economia mundial. “Foi tão revolucionário que temos dificuldade de desapegar dele e tentar outros marcos históricos e teóricos para olhar a história da economia”, diz Pessôa.

Em 1943, antes de partir para a guerra, Furtado foi aprovado em concurso para a função de assistente de organização do Departamento Administrativo do Serviço Público (Dasp), órgão criado cinco anos antes por Getúlio Vargas (1882-1954) para profissionalizar e formar uma elite técnica no funcionalismo público federal.

Na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), sediada na capital do Chile e ligada às Nações Unidas, tornou-se, entre 1949 e 1957, um dos ícones da escola de pensamento voltada para o estudo e a promoção de políticas públicas de desenvolvimento da região.

Ao lado de Raúl Prebisch (1901-1986), fundador e primeiro diretor-geral do Banco Central argentino, lançou as base do chamado modelo cepalino, na teoria e na prática. Como diretor da Divisão de Desenvolvimento, cumpriu missões em diversos países do continente, como Argentina, México, Venezuela, Equador, Peru e Costa Rica, nos quais avançou o conhecimento que aplicaria como homem de Estado.

Com 43 anos, já havia colaborado e participado de três governos. Primeiro, o de Juscelino Kubitschek (1902-1976), no qual contribuiu com as bases do Plano de Metas de JK e liderou uma cruzada que levou à criação da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). Depois, o de Jânio Quadros (1917-1992), em que permaneceu à frente do órgão, onde tinha status de ministro. E, em seguida, o de João Goulart (1919-1976), no qual foi o primeiro ministro do Planejamento e elaborou o Plano Trienal. Mais tarde, durante a redemocratização, seria ainda convidado pelo recém-eleito presidente Tancredo Neves (1910-1985) para integrar a comissão do plano de ação do governo; e foi ministro da Cultura de José Sarney.

Viúva de Furtado, com quem se casou em 1978, a jornalista e tradutora Rosa Freire D’Aguiar lembra das imensas dificuldades que o marido enfrentara no Congresso Nacional para aprovar o projeto de lei que criou a Sudene, em 1959. Curiosamente, a bancada nordestina era a mais refratária à proposta, pois os parlamentares estavam contrariados com uma estrutura centralizada que viesse a tirar o protagonismo do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), órgão até hoje valorizado pelos políticos da região pelos retornos eleitorais. “Eles fizeram, inclusive, uma coisa grave, que foi vender uma ficha inventada da polícia sobre Celso”, diz.

Furtado estava fichado na polícia do Rio de Janeiro porque, quando foi fazer o doutorado na França, visitou a então Tchecoslováquia e enviou uma carta para uma amiga brasileira dizendo que estava muito impressionado com a capital Praga e que aquele país tinha tudo para se recuperar muito bem da guerra. Bastou essa frase, conta Rosa, para ele ser tachado de comunista, o que Furtado nunca foi. A melhor definição para seu posicionamento político é o de um social-democrata, concorda de forma unânime a dúzia de entrevistados pelo Valor nesta reportagem.

“Então o grupo mais reacionário do Nordeste começou, literalmente, a vender a tal ficha. E incorporaram outras supostas acusações. Apareceram coisas fantásticas, por exemplo, que Celso teria vendido um terreno no Chile para a União Soviética fazer uma base militar”, relata a viúva.

A influência de Celso Furtado, além de desafetos entre os coronéis nordestinos, gerou discípulos em lugares tão diferentes quanto Angola, Argélia, Irã, Portugal, países latino-americanos e, especialmente, na França, onde lecionou por quase duas décadas na Sorbonne. Ex-aluno, assistente e depois colega de departamento de Furtado, o economista francês Pierre Salama, de 77 anos, professor emérito da Universidade de Paris 13, afirma que o brasileiro explicou a seus conterrâneos que era possível haver, ao mesmo tempo, subdesenvolvimento e industrialização, embora esta última fosse vista como motor para a superação do atraso. Era uma ideia completamente nova à época, quando o conhecimento da França estava restrito a uma África de países pobres e desindustrializados.

Salama conta que há 15 anos lhe pediram para escrever sobre o pensamento desenvolvimentista francês. Mas pediu desculpas e disse que tal corrente de pensamento não existiria. “Existe um pensamento que é profundamente influenciado pelos trabalhos dos latino-americanos. De fato, no melhor sentido do termo, nós fomos colonizados, sobretudo por Celso Furtado”, afirma.

A colonização, contudo, não foi sem permissão do próprio presidente da República. À época, havia uma regra que impedia a contratação de professores não franceses, mas Charles de Gaulle (1890-1970) abriu uma exceção para Furtado, que se tornou um dos primeiros estrangeiros a lecionar em universidades do país. “Ele só foi ser professor na França. Tentara uma vaga, em 1957, aberta na antiga Universidade do Brasil, mas ele mesmo relata que, quando souberam que ele participaria do concurso, suspenderam a seleção e só reabriram quando ele foi para o exílio. Não queriam ele lá”, diz o professor titular da Universidade de Brasília Mauro Boianovsky.

Com impacto internacional, a obra de Furtado é expressão de um intelectual de “fôlego inesgotável”, qualifica o professor da UFRJ Ricardo Bielschowsky, especialista no pensamento do ex-diretor da Cepal. Ele cita os mais de 30 livros e as 11 traduções de “Formação Econômica do Brasil”, o “livro mais lido sobre economia brasileira em todo o mundo“. “Em números de 20 anos atrás, tinha mais de 2 milhões de obras vendidas, o que dá mais de 10 milhões de leitores no mundo. Muita gente resolveu estudar economia depois de ter lido Furtado”, afirma.

Em algumas situações, porém, o trabalho do autor foi contrastado com equívocos ou supostas lacunas. O maior exemplo da primeira foi a previsão de que o país rumaria para a estagnação, às vésperas do “milagre econômico” da ditadura. O diagnóstico, estendido aos vizinhos da América Latina, foi contestado pelo artigo “Além da Estagnação” (1971), no qual Maria da Conceição Tavares e José Serra defendiam a possibilidade de haver crescimento com concentração de renda.

Há também quem aponte o que seria uma omissão. “Sempre me surpreendeu a existência de uma lacuna nos escritos dele: a relação entre educação fundamental e desenvolvimento econômico. Costumo dizer que é o maior ‘branco’ do Celso Furtado”, afirma Samuel Pessôa.

Para o economista do Ipea Renato Baumann, “Furtado teve lá seus erros de análise”, mas tem contribuições que superam as eventuais falhas. “A preocupação com o subdesenvolvimento continua a ser tema não resolvido.

Olhamos os indicadores sociais do Nordeste, e a situação é de chorar. É possível que algumas soluções propostas por ele não sejam mais aplicáveis hoje em dia, mas, em várias dimensões, o diagnóstico se sustenta”, afirma.

Na mesma linha, Luciano Coutinho argumenta que as ideias de Furtado ainda são atuais, pois há muitos desafios incompletos, como o desenvolvimento do Nordeste. Quanto ao Brasil, lamenta que o país tenha perdido o embalo experimentado entre 1930 e 1980, com a forte industrialização impulsionada pelo nacional-desenvolvimentismo e pela intervenção do Estado.

“A gente perdeu impulso. Nos anos 1980, nossa indústria era mais desenvolvida do que a da China e a da Índia, e depois paramos. Estamos vivendo uma Quarta Revolução Industrial, da digitalização, vem aí o 5G, que vai multiplicar a conectividade, e estamos atrasados nesse processo. A escala do desafio vai ficando maior. As décadas perdidas têm um custo. Se estivesse vivo, certamente Celso Furtado estaria angustiado”, diz Coutinho.

A falta de um projeto para o país nos últimos 40 anos é uma das maiores preocupações dos desenvolvimentistas, que, diferentemente dos liberais, não acreditam numa modernização espontânea gerada pelo mercado. É o caso do engenheiro e presidente do Instituto da Brasilidade, Darc Costa, para quem o Brasil vive um grande retrocesso e passa pelo mais grave processo de desindustrialização, comparável apenas ao da Rússia após o fim da União Soviética, nos anos 1990.

Em sua opinião, Celso Furtado tinha um projeto para o país - como o que propôs a Jango e Juscelino. “[Até] o Roberto Campos era muito mais desenvolvimentista do que Paulo Guedes hoje”, diz o ex-vice-presidente do BNDES, ao comparar o grau de ortodoxia do ministro da Economia de Jair Bolsonaro (sem partido) com um dos ícones do pensamento liberal brasileiro, contemporâneo de Celso Furtado.

Provocação à parte, isso mostra que o desenvolvimentismo, mais do que uma questão teórica, como ressalta Bielschowsky, é um projeto, uma “ideologia de transformação” que se tornou hegemônica entre 1930 e 1980, ao criar um grande consenso, embora com divisões. Havia a versão progressista, pública e nacionalista, encabeçada por Furtado, e, do outro lado, pontuava a corrente conservadora, na qual, a partir do golpe de 1964, sob a liderança dos militares, sua vertente pública e não nacionalista englobou o desenvolvimentismo do setor privado.

Com a crise da dívida externa e a guinada neoliberal, na década de 1980, houve uma perda de influência do pensamento desenvolvimentista, que, no entanto, tem sido retomado nos últimos anos, assim como as ideias gerais de Furtado, defende Luiz Carlos Bresser-Pereira.

O ex-ministro lembra que o economista ficou relativamente esquecido por cerca de 20 anos, a partir de meados de 1960, também por causa da predominância dos teóricos da dependência, como o sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Os dependentistas, ao observarem as seguidas quarteladas pela América Latina, apontaram a incapacidade da burguesia industrial da região de promover projetos de desenvolvimento nacional autônomos.

O renascimento de Furtado no debate público só começaria a ocorrer em 2000, conta o professor, quando um seminário na Universidade de São Paulo celebrou os 80 anos do pensador econômico, e foi reforçado pela iniciativa de Lula em financiar a criação do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, em 2005, ano seguinte à sua morte.

Nos dias de hoje, o quadro se completa com o retorno do desenvolvimentismo em meio ao abalo do neoliberalismo a partir da crise financeira mundial de 2008, quando os países recorreram à intervenção do Estado e a políticas keynesianas contracíclicas para recuperarem suas economias. Esse movimento, diz Bresser-Pereira, “está agora em pleno vapor”, não só por causa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mas em virtude da defesa recente de uma forte política industrial da União Europeia, proposta pelo ministro das Finanças da Alemanha.

“A Europa, que foi desenvolvimentista no pós-guerra, está voltando para o desenvolvimentismo. Um desenvolvimentismo de alto nível, de países ricos etc. Mas é o desenvolvimentismo, o que é fundamental”, afirma o ex-ministro, que também cita o caso chinês.

“A China é um país capitalista desenvolvimentista. Competiu e derrotou os Estados Unidos brutalmente, e todo mundo está vendo isso. Então, o capitalismo precisa se repensar. E o ‘repensamento’ é voltar, claro, com novas propostas, para a ideia de intervenção moderada do Estado na economia e da administração correta de seus cinco preços macroeconômicos”, diz Bresser-Pereira, numa referência às taxas básicas de juro, câmbio, lucro, inflação e salários, que são parte da teoria macroeconômica com que pretende avançar o legado de Celso Furtado. (Colaborou Bruno Villas Bôas)


O Estado de S. Paulo: A hora e a vez de Jorge Caldeira - a urgência de “História da Riqueza no Brasil”

É preciso superar o modelo consagrado por historiadores como Caio Prado Jr. que reduz a história nacional aos antagonismos entre Portugal e Brasil, metrópole e colônia, senhor e escravo, elite e povo, agricultura e indústria

Por Vinícius Müller

Há coisas óbvias que, às vezes, precisam ser ditas. Uma delas é que existem inúmeras maneiras de reconstruir a História. Ou ainda, que mesmo sob o maior esforço, método e quantidade de fontes, há sempre algo que nos escapa quando contamos uma história. Saber disso é condição para que continuemos buscando em nossa trajetória os elementos que nos identificam e explicam o modo como vivemos, e para que, mesmo com uma dificuldade imensa de mensuração, avancemos naquilo que respeita nossos anseios e objetivos. É como se o conceito de ciência aberta, proposto por Popper, fosse adaptado à História: cada vez que voltamos ao passado em busca de algo novo, temos a oportunidade de “falseabilizar” alguns itens de nossas hipóteses e modos de reconstrução de nosso passado.

Exemplos não nos faltam: será que o atraso do desenvolvimento brasileiro se deveu à excessiva dependência que tivemos em relação à economia primária-exportadora? Ou ainda, tamanho atraso resulta de nossa pouca capacidade de aproximar sistema educacional e ampliação da produtividade? Ambas são questões pertinentes que dialogam com nossos problemas atuais, mas que podem e devem ser entendidas ao longo de nossa trajetória histórica. E ambas podem nos dar respostas convincentes sobre o problema de nosso baixo desenvolvimento. Em alguns momentos já nos deram.

Nos anos 30 do século passado, criou-se com muito sucesso um modo de reconstruirmos nossa história e, principalmente, de entendermos nosso relativo atraso, a partir de uma fração da trajetória do país. Em resumo, localizava-se os problemas brasileiros a partir de uma categorização antagônica, representada por Portugal e Brasil, ou por Metrópole e Colônia, respectivamente. Como desdobramento lógico, a história brasileira foi entendida a partir da oposição entre senhor e escravo, elite e povo, agricultura e indústria. Do mesmo modo, em sua previsível vulgarização, entende-se ainda hoje como sendo a oposição entre homens e mulheres, ou entre esquerda e direita, ou entre qualquer coisa e outra ainda mais impertinente.

 

Essa abordagem, fartamente associada a Caio Prado Jr., mirou no que viu, mas acertou no que não viu. E, além de seus acertos, deixou um legado de equívocos que, por muito tempo e ainda hoje, nos dificulta no entendimento aprofundado de nossa sociedade. Por exemplo, houve na história construída por Prado Jr. um razoável desprezo pela formação e principalmente, manutenção de laços econômicos entre regiões do Brasil mesmo após a decadência da exploração aurífera em Minas Gerais o século XVIII. Para aqueles que entendem a História do Brasil a partir – e muitas vezes apenas a partir – da abordagem de Prado Jr., a manutenção de uma ampla rede produtiva e comercial interna durante o período colonial é contra o modelo que enfatiza a relação entre explorador (Portugal) e explorado (Brasil). Nessa relação, a riqueza é transferida do lado colonial ao lado metropolitano, não havendo, portanto, mecanismos de acúmulo e circulação na colônia.

Esse equívoco metodológico, histórico (e, por que não, ideológico) dificultou que dedicássemos a devida atenção à formação brasileira a partir dessa diferença; ou seja, regiões que se formaram ou parcialmente se desenvolveram a partir de relações internas de produção e troca apresentam características diversas, ao longo da história, se comparadas àquelas que majoritariamente se desenvolveram a partir da economia exportadora. E mesmo que em algum momento tais regiões tenham vivenciado mais significativamente a economia exportadora, os resultados de longo prazo foram diferentes. Ou seja, aquelas que se estruturaram, em princípio, no mercado interno, apresentam no longo prazo melhores índices educacionais, menores taxas de desigualdade e maiores de riqueza. Mesmo que tenham obtido maior riqueza em seus períodos de avanço da economia exportadora. É como se o ‘ciclo primário-exportador’, como gostava de identificar Caio Prado Jr., trouxesse resultados diferentes às regiões que, antes, tinham desenvolvido de modo mais consistente atividades voltadas ao mercado interno.

O mais surpreendente é que Caio Prado Jr., assim como Celso Furtado, e seus seguidores, compreendem a relevância do mercado interno para o desenvolvimento de uma colônia. Contudo, só a enxergam na trajetória dos EUA, a partir da clássica e parcial diferenciação que estabelecem entre as colônias do povoamento da Nova Inglaterra e as colônias de exploração do restante do continente. Não a veem no Brasil, pois se assim fizessem, o próprio modelo explicativo ruiria.

Interessante também é lembrar que, há décadas, muitos pesquisadores se debruçam sobre explicações e hipóteses alternativas ao modelo amparado nos antagonismos, como o de Prado Jr. E a formação e funcionamento do mercado interno estão entre os principais objetos daqueles que contribuem com essa superação. Todavia, nos manuais escolares ainda domina a hipótese do antagonismo, explicitando a dificuldade de romper alguns tabus no ensino da História do e no Brasil. E, consequentemente, reproduzindo um modo de entendimento de nossa História que, aparentemente por ser unânime, dá aos seus seguidores e reprodutores o direito de julgamento sobre a sociedade. Algo como ‘eu conheço a História, a única que existe e, portanto, posso julgar a sociedade a partir de uma posição que você, por não saber História, não pode. Assim, meu julgamento é melhor que o seu. Portanto, vá estudar História”. E essa versão da História é aquela que, ao se apegar no modelo do antagonismo de Prado Jr., explica apenas parcialmente a trajetória brasileira. Lamentavelmente para muitos, quando a História não se encaixa no modelo, errada está a história, não o modelo. Assim, continuamos a reproduzir tal modelo e nele ‘encaixar’ tudo o que queremos saber. Inclusive aquilo que ele, o modelo, não é capaz de explicar.

O antídoto a essa armadilha ficou mais forte nos últimos meses. A publicação de História da Riqueza no Brasil, de Jorge Caldeira, reforça a necessidade de olharmos para a História como tal, não como confirmação do modelo. Reforça também a superação da versão de Caio Prado Jr. Não porque a negue, mas porque a lê de maneira verdadeiramente crítica. Ou seja, achando os pontos nos quais ela magistralmente contribui, e os pontos nos quais ela deve ser superada. Caldeira assim desenvolve seu texto, assumindo uma postura independente em relação às escolas e métodos que, mesmo úteis, nos aprisionam. Não que isso, ou tudo aquilo que está na obra, sejam novidades. Mas, Caldeira sistematiza e torna mais inteligível, inclusive, ao público leigo. Um louvável esforço de public history.

Se, como disse no começo do artigo, algumas coisas mesmo óbvias devem ser ditas, essa é uma delas: todas as escolas e cursos de História deveriam adotar o livro de Jorge Caldeira e apresentá-los formalmente aos alunos. A História do Brasil precisa ser vista a partir de pontos de vistas diferentes e não podemos mais ter o pudor de apontar, em público amplo, os equívocos da versão legada por Caio Prado Jr. Hoje, quem melhor sistematiza esses outros pontos de vista é a obra de Caldeira, a História da Riqueza no Brasil.

* Vinícius Müller é doutor em História Econômica pela USP e professor do Insper.

 

 

http://cultura.estadao.com.br/blogs/estado-da-arte/a-hora-e-a-vez-de-jorge-caldeira-a-urgencia-de-historia-da-riqueza-no-brasil/