William Waack

William Waack: Demanda eleitoral

Tendência no Brasil é de que candidatos ‘rompedores’ se sobressaiam aos ‘reformistas’

Qual candidato no Brasil atende melhor ao que especialistas estão chamando de “demanda” por parte dos eleitores? As consultorias internacionais e nacionais que se esforçam em explicar a política brasileira para investidores (portanto, com viés de avaliação de risco e oportunidades) estão solidificando um consenso: o de que as eleições aqui são parte de uma grande tendência internacional de “rompimento” com o que estava estabelecido. E que as “demandas” colocadas por eleitores no Brasil não são assim tão diferentes daquelas registradas na França, Espanha, Itália, Estados Unidos e, por último, México.

Ditadas por “raiva” e “indignação” de parcelas da população que se sentem menosprezadas por elites, abandonadas por partidos, negligenciadas pelos serviços públicos de baixa qualidade e assustadas com violência e desemprego, além de horrorizadas com a corrupção, essas “demandas” seriam similares em sua essência e razoavelmente comparáveis quanto ao objetivo: derrubar o que está aí na política, cada vez mais desprezada. Se assim é, falta explicar como se chega a resultados tão diferentes, em termos de “rompimento” ou “coesão” dos diversos sistemas políticos.

O México trouxe um interessante exemplo no último domingo de “rompimento” do que existia – a recém-reconquistada predominância de um partido que fora hegemônico, o PRI – por um movimento político que não existia há dois anos, que se diz de esquerda, e que alcançou em prazo recorde o controle inédito das casas do congresso, grande número de governos estaduais e a presidência. Em outras palavras, a refundação de uma espécie de PRI com outro nome (Morena). A capacidade do novo presidente mexicano de sobreviver às receitas que apregoa, e que levaram ao desastre econômico onde quer que foram aplicadas, é um outro capítulo e fica para depois.

Tal como está o quadro eleitoral brasileiro, e ao se tomar ao pé da letra as pesquisas qualitativas, o eleitorado “demanda” candidatos que apregoem o rompimento mas a “indignação”, “raiva” e “desprezo” pela política se manifestam aqui em tal magnitude a ponto de tornar difícil apostar hoje (isso ainda pode mudar, admito) numa saída a la mexicana, entendida como consolidação de uma só forte tendência política. Por enquanto admite-se que as eleições produzirão no Brasil um presidente que responde à “demanda” do rompimento mas que será obrigado a lidar com um congresso com o mesmo perfil do atual, senão pior.

Há uma interessante divisão entre analistas políticos frente a duas decisivas perguntas: as regras do jogo, que favorecem a “velha” política (entendida como acesso a tempo de TV, fundos partidários e eleitorais, capilaridade nas relações com prefeituras, concessão de emendas parlamentares), pesam mais ou pesam menos do que o encurtamento da campanha e a menor importância relativa da TV aberta frente a redes sociais? A narrativa predominante no eleitorado de que a corrupção é o principal problema atua de forma decisiva a limitar as formas consagradas (“velhas”) de se fazer política e campanha eleitoral?

Das respostas depende a previsão se o segundo turno terá “reformistas” (identificados como velhos) em disputa contra candidatos do “rompimento” ou se “rompedores” se enfrentarão entre si. Neste começo de julho, um grupo crescente de analistas (entre os quais me incluo) tende a afirmar que as chances de “reformistas” são consideradas exíguas, a elas não se atribui grande capacidade de recuperação no curto período de campanha, e menos ainda a habilidade de satisfazer a “demanda” por combate à corrupção e insegurança pública.

A perspectiva é sombria para um país que precisa lidar urgentemente com questões, especialmente a fiscal, que não estão esperando a sociedade definir-se ou aguardam lideranças costurarem qualquer tipo de acordo. Espero estar errado.


William Waack: O barro é esse

Judiciário e Ministério Público não são recicláveis, nem existem para substituir a política

A situação do STF é irremediável. Em parte, por culpa própria: não faz o que deve – como decidir, finalmente, sobre o pagamento de auxílio-moradia para juízes e procuradores, que são hoje “a” corporação mandando no Brasil. Ou julgar, finalmente, se é mandatório encarcerar depois de condenação em segunda instância. Em parte, a situação é irremediável por ser o STF um espelho fiel do emaranhado impasse da crise política, cuja maior expressão de gravidade é a impossibilidade de se vislumbrar uma saída.

O STF virou o grande templo da insegurança jurídica por ter se transformado há bastante tempo numa esfera de embate político, que permite até vislumbrar “facções” em torno de um eixo de contencioso. O eixo é a ordem jurídica dentro da qual se dá a Lava Jato, entendida aqui como um fenômeno de enorme abrangência e apenas em segundo plano como uma questão de respeito ou não a normas legais (drama traduzido no bordão que se tornou tão popular: “juiz bom prende, juiz mau solta”).

Como instituição, conseguiu manobrar-se na pior posição possível: a de que a Justiça tarda e falha, que poderosos ali encontram confortável acolhida, e que corruptos são beneficiados por liminares e o volta-atrás em entendimentos (como a prisão após a segunda instância) que pareciam já consagrados. Não estou dizendo que os fatos do ponto de vista técnico necessariamente suportam essa percepção, mas ela se consagrou.

Estou sendo condescendente e retirando na avaliação da atuação do STF as lealdades políticas dos ministros, as preferências pessoais, as vaidades, a falta de preparo técnico e a ausência de escrúpulos por parte de alguns. Se o prezado leitor acha que é isto que explica as decisões ou não decisões do STF, adianto que mesmo crápulas contumazes são parte voluntária ou involuntariamente de um jogo político, no qual vou me concentrar.

A narrativa que impera hoje na sociedade brasileira é a de que a corrupção é o problema central, e que tudo o mais se resolve a partir do combate aos corruptos. Cujo completo domínio da esfera do sistema político-partidário – ao mesmo tempo resultado e causa da atuação dos políticos – justifica a sua destruição. E encarregada dessa destruição, com feroz apoio popular, é “a” corporação.

Incapaz de definir o jogo, ou de deslocá-lo para um outro eixo de debate, a instância política foi substituída, para efeito de grandes decisões, pela política no STF (que cuida hoje até de tabela de frete). Composto por donos e donas de cargo vitalício que, mesmo se fossem 11 santos iluminados, por definição jamais conseguiriam dar as respostas que sociedades organizadas em sistemas democráticos precisam que venham do sistema que, no Brasil, imensa maioria combinou odiar: o sistema político.

Ocorre que “o barro é esse”, expressão atribuída a Teotônio Vilela, nome de Alagoas que virou referência no processo político de redemocratização na saída do regime militar – época na qual o Brasil, num espelho distante dos tempos atuais, também queria se rearrumar. O material para fazer/refazer/renascer o País é composto pelos políticos e seus eleitores que estão aí, ou que querem entrar na política, pelo Congresso que existe, e que pode ser renovado/reciclado, e pelos partidos e movimentos políticos que podem ser fundados ou refeitos.

Essa é a diferença fundamental entre o jogo da política e a política na qual está envolvida “a” corporação que manda hoje no Brasil. Apesar do descrédito com que se encara a política no Brasil, ela é por definição reciclável. O Judiciário e o Ministério Público não são, nem existem para substituir a política, que não se verifica em termos ideais em parte alguma do planeta.

Podemos não gostar, mas o barro é esse.


William Waack: oito candidatos e 1 segredo

De positivo, espectros políticos e ideológicos razoavelmente claros começam a ganhar contornos entre presidenciáveis

Participei como moderador no início desta semana de um evento com oito presidenciáveis que merecia o título cinematográfico de 8 candidatos e 1 segredo. Entre os que compareceram ao evento organizado pela Unica, a entidade que representa o setor sucroenergético (um dos mais importantes do agronegócio) estavam os de maior destaque nas pesquisas. Faltou alguém do PT, que insiste num encarcerado como seu candidato, e Alvaro Dias, que nas pesquisa tem pontuado no Sul, mas se atrapalhou com a agenda.

Como é que Jair Bolsonaro, Marina Silva, Ciro Gomes e Geraldo Alckmin (além dos “menores” Henrique Meirelles, João Amoêdo, Aldo Rebelo e Paulo Rabello de Castro) pensam que vão governar? De forma mais ou menos explícita todos admitem que o próximo Congresso será bastante fracionado. E que é insustentável a trajetória da dívida pública, agravada pelos constantes déficits primários dos últimos seis anos. Como enfrentar o peso da dívida sem clara maioria política?

Quero destacar aqui não as questões táticas, hiperexploradas em manchetes de internet que, em geral, sobrevivem a poucas horas. Os oito que encontrei acham que a política tem de mudar, que o presidencialismo de coalizão está esgotado, que o número de partidos tem de diminuir urgentemente, que a reforma política tem de ser profunda e blá, blá, blá. São discursos quase intercambiáveis, tirando uma ênfase distinta aqui ou ali (e a desenvoltura dos políticos profissionais, notavelmente superiores em relação aos “amadores” ou “novatos” num ambiente fechado e controlado como era o desse evento).

Confrontados com a mesma pergunta – como vão agir, prevendo-se que serão minoritários no Congresso – saem-se dizendo que o impulso dos primeiros dias de governo ajuda a levar adiante reformas fundamentais (Alckmin), que o interesse comum por segurança e valores unirá bancadas hoje divididas ou inexistentes (Bolsonaro), que um projeto nacional desenvolvimentista abarcará vários espectros ideológicos (Ciro Gomes), que a candidatura dela é capaz de dotar o País do ideal de uma nação-comunidade que move montanhas (Marina Silva), que o reconhecimento de que mudanças são essenciais mobilizará deputados (Amoêdo).

Fiquei pouco convencido. Não consigo enxergar ainda qualquer desses candidatos como lideranças abrangentes ou personalidades políticas capazes de moldar decisivamente acontecimentos políticos (admito que isso ainda pode mudar, mas o tempo corre rápido). Vejo-os relativamente pequenos diante do peso do desarranjo das finanças e da barafunda institucional (com a insegurança começando no STF), do desânimo e frustração do eleitorado, do desafio de conciliar a política velha e falida com a enorme onda difusa e raivosa pedindo mudanças. Combinado ao corporativismo e ao sindicalismo de toga, que estão se fortalecendo diante da geleia do fim deste atual governo.

O aspecto positivo que ressalto no evento do qual participei com esses oito presidenciáveis é o fato de que espectros políticos e ideológicos razoavelmente claros começam a ganhar contornos mesmo considerando as sentenças inacabadas que os candidatos pronunciam, ou os “sound bites” destinados a viralizar na internet. E, interessante para o processo eleitoral imediato, cada um está firmando um “conceito” associado à sua imagem como candidato. Alckmin “confiabilidade”, Marina “ideal”, Bolsonaro “segurança”, Ciro “nacionalismo”, Amoêdo “novo” para citar algumas “marcas” que transpareceram de forma mais óbvia nos discursos e respostas.

Não sei se esses oito que encontrei são donos do tal segredo que mencionei lá no comecinho deste texto. Acredito que não.


William Waack: Desinteresse fatal

Desânimo com a política e pouco interesse pelo futebol se espelham, mas não se explicam

Ouvi a vida inteira uma frase sobre a política no Brasil, especialmente em época de Copa do Mundo: “Se as pessoas se interessassem menos por futebol, as coisas seriam diferentes”. Pois bem, pela primeira vez desde que existem pesquisas de opinião a maioria da população no Brasil diz que nem sequer se interessa pelo maior evento esportivo do planeta. Parece razoável supor que as coisas tenham mudado na política brasileira. Em qual direção?

Sou da geração que entrou na universidade em 1971 e que viveu uma situação quase esquizofrênica: como torcer para um time tão maravilhoso como o de 1970 se a paixão pelo futebol era vista por nós, estudantes engajados em política, como um alicerce do regime militar? Tínhamos a ideia, por sinal tão arraigada sobretudo nos países comunistas, que a paixão pelo esporte cria identificação com o regime político (a ponto de lhe conferir legitimidade). Portanto, vitórias ou derrotas influenciariam diretamente disputas políticas. Como eleições, por exemplo.

Demorou para os comunistas entenderem que medalhas olímpicas (só a Hungria comunista chegou perto de conquistar um mundial de futebol da Fifa – alguns dizem que foi a derrota na final de 1954 que impulsionou a revolução de 1956, mas não há provas...) não salvariam seus regimes. Assim como demorou para nós entendermos aqui no Brasil que o fato do nosso time levantar o caneco não garante ou não condena candidato algum. FHC e Lula que o digam. Então, como é que o futebol mexe com a política?

Os economistas mencionam frequentemente o “feel good factor”, segundo o qual a percepção por parte de consumidores da situação econômica ao seu redor, mais irracional do que qualquer outra coisa, condiciona de alguma maneira comportamentos políticos. Ganhar uma Copa faz esquecer desemprego, por exemplo? Ou inflação? Acredito que não. Acho que não é tanto a vitória ou derrota nos jogos em si que nos diz alguma coisa sobre o “clima” político mas, sim, a forma como nossa sociedade evoluiu na dedicação a esse jogo.

Neste sentido, é possível detectar grosso modo uma transformação que mantém paralelos com o que está acontecendo na política. Torcer pela seleção em época de Mundial era um acontecimento compartilhado. Havia uma espécie de solidariedade em pintar as calçadas, as caras, decorar as janelas – um “fervor” que correspondia (embora totalmente fútil, admito) a um tipo de “esperança”.

Onde vejo hoje uma correlação entre futebol e a situação política é na ausência de “heróis” (no caso do PT, o “herói” Lula tem mais a ver com a veneração com que seitas tratam seus guias). Depois de muitos anos na reportagem reluto em acolher teses de causa/efeito mecânicas, por isso não consigo afirmar que o desânimo com a política explica em parte o desinteresse pelo futebol (onde antes era tão vibrante) e vice versa. Mas não consigo ignorar que um é o espelho do outro.

Acho até mais fácil explicar o desinteresse pelo Mundial, que tem a ver com a própria forma como mudaram os hábitos de consumo de entretenimento, entre eles o esporte. Tecnologias digitais, disruptivas na sua essência, espalharam o espetáculo futebol, que continua presente, mas agora também on demand. No caso da política, é o próprio “espetáculo” que passou a ser visto como um jogo sujo no qual as pessoas nada tem a dizer, dominado por elementos (partidos e políticos) corruptos e distantes.

A diferença são as consequências. O desinteresse pelo mundial traz só nostalgia. Desinteresse pela política é fatal.


William Waack: Linha do tempo

Já sabemos muito sobre o que vem por aí. É de tirar o sono

Mesmo com tamanha imprevisibilidade sobre as eleições de outubro já sabemos algo sobre o que vem por aí, e não é pouco. Vamos do mais próximo ao mais distante na linha do tempo.

Uma candidatura única do centro é dúvida ainda para o clássico, mas a aproximação do deadline de julho apressa conversas sem que ainda se tenham nomes claros fora o do ex-governador Geraldo Alckmin, com dificuldades mesmo dentro do partido que preside. Perduram os vaticínios de que a candidatura de Jair Bolsonaro vai se derreter sozinha, mas a candidatura perdura. Falta pouco para o PT cometer um inédito suicídio político, se insistir em que só Lula é o candidato do partido, mas a beira do abismo costuma infundir medo nas pessoas.

Adoro e joguei futebol, mas nunca vi tanto desinteresse por uma Copa como o que registro agora, o que sugere que essa eleição seja inédita por mais um fator (além da curta duração, regras restritas de financiamento, curto tempo de televisão, forte presença de plataformas digitais, máquina do governo encurralada, grau de indignação popular, destruição do sistema político e falta de lideranças genuínas – tudo isso me parece sem comparação com outros pleitos).

Já sabemos também que as dificuldades das candidaturas de “novos” indicam uma predominância do “velho” sistema político eleitoral num choque de proporções enormes com o que parece ser o sentimento popular de rejeição “ao que está aí”, começando pelos figurões das classes políticas. Em outras palavras, já podemos antecipar uma renovação menor do que se deseja nas Casas do Congresso, e eleitos bastante distantes do eleitor.

Prosseguindo na linha do tempo, já parece garantido a esta altura que o próximo presidente, ou a próxima presidente, formará um governo de minoria num sistema político no qual o chefe do Executivo é paradoxalmente muito poderoso – e não governa sem o Congresso. Esse homem (mulher) com uma caneta que aponta diretamente mais de 30 mil cargos terá de costurar uma maioria precária diante de uma crise fiscal que já paralisou a máquina (incapaz de se custear) e reduziu a quase nada a capacidade de investimentos, tudo agravado pela voracidade de grupos corporativos e a necessidade de adotar medidas impopulares.

É difícil imaginar que uma parcela imensa da sociedade que nem sequer capta exatamente o significado de “dinheiro público” (boa parte das pessoas acha que o dinheiro é do governo) seja acometida de súbita consciência do que é cidadania (direitos e deveres). É igualmente difícil imaginar que a corrupção, enxergada hoje pela maioria dos brasileiros como o principal problema do País (bastaria limpar os corruptos que tudo “funcionaria”, um perigoso engano), deixe sua posição de destaque nas prioridades do eleitor. Talvez seja substituída pela questão da segurança pública – o medo continuará sendo uma característica importante a influenciar o comportamento das pessoas.

Por último na linha do tempo que traço daqui até os primeiros 100 dias do novo governo, já podemos antecipar a continuidade do regime de insegurança jurídica que parte do próprio STF. O exemplo mais recente é a postura de um dos ministros, que se julga apto a reverter anos de discussão sobre um item isolado da reforma trabalhista, a abolição do esdrúxulo imposto sindical, por ter outra opinião a respeito do que as duas Casas do Legislativo. Como o imponderável é sempre característica do terreno da política, especialmente numa crise, aposto às cegas que a politização da Justiça nos trará mais sobressaltos, além do vigoroso prosseguimento da Lava Jato.

Ficarei grato, dormirei melhor e feliz, se os fatos me desmentirem.


William Waack: Flerte com o abismo

Enorme quantidade de pessoas não entende que dinheiro público é o dinheiro delas

Como assim as pessoas apoiam um movimento, o dos caminhoneiros, mesmo sabendo que sofrerão severos transtornos e prejuízos diretos na vida pessoal e financeira? Em outras palavras, agindo contra os próprios interesses – e sabendo disso.

Supõe-se que alguma coisa mais esteja em jogo, além da irracionalidade em decisões (no comportamento de consumidores, por exemplo) há tanto tempo detectada por teorias econômicas de comportamento. Como eventual contribuição a uma explicação, avanço aqui duas possibilidades inteiramente subjetivas e derivadas da minha biografia pessoal como repórter.

Será que as pessoas percebem seus “interesses objetivos e racionais” como analistas percebem ou acham que deveriam perceber? No caso brasileiro dos últimos dias, é patente que não. Em primeiro lugar, salta aos olhos que uma enorme quantidade de pessoas não entenda que dinheiro público é o dinheiro delas, recolhido por meio de impostos e contribuições. Para elas, portanto, se tem alguém gastando mais do que arrecada, esse alguém é “o governo”, essa distante e incompreensível entidade que manda nas nossas vidas sem que a gente entenda muito bem como.

Em segundo lugar, o governo é ocupado por “eles”, políticos e seus nomeados, uma espécie de casta. “Eles” são interessados apenas nos próprios negócios, na própria corrupção e, agora que “nossa” paciência se esgotou e nossa indignação explodiu, precisam ser varridos como lixo. É evidente que “nós” não nos sentimos representados por “eles” – e quando confrontada com o fato de que “eles” estão lá pois foram votados para estarem lá, imensa quantidade de pessoas não gosta do que enxerga no espelho.

Muita gente acha que a revolta que acompanhou as manifestações de caminhoneiros (acompanhadas, em alguns casos, de comportamento criminoso) é uma espécie de mal necessário para que dessa situação crítica renasça um novo País, não importam os danos imediatos causados à economia. É óbvio, na minha percepção, que essa conduta reflete muito mais uma imensa frustração do que um claro sentido de ação, mesmo os caminhoneiros tendo arrancado o que pretendiam (baixar os próprios custos, empurrando a conta para outros).

Não são poucos os que enxergaram, por outro lado, que atender às reivindicações dos caminhoneiros só seria possível tornando ainda mais complicada a solução para contas públicas quebradas. Mas – e aqui deveríamos escrever MAS, em maiúsculas –, foi irresistível para parcela expressiva da população a identificação proporcionada pelo símbolo do trabalhador sacrificado (o caminhoneiro) que levanta o dedo médio em riste contra “eles”, enquanto entrega a Deus o comando na boleia.

Acho perda de tempo decifrar neste momento qual o “recado” que essa revolta está transmitindo para a política – na verdade, a mensagem principal é o ódio e o desprezo em relação à própria política, entendida como um jogo sujo no qual só “eles” ganham, com seu sistema de benefícios próprios, desperdícios, corrupção e a inexplicável administração de preços que leva o combustível que “nós” produzimos a custar bem menos na Bolívia.

Temo ter de dizer que esse flerte com o abismo, registrado nos últimos dias, seja a expressão da desintegração (que não me parece meramente passageira) da capacidade do Estado de impor diretrizes e autoridade. Mas também desse nebuloso estado de espírito segundo o qual a fúria e a frustração que existem na população criam a necessidade de mudança por meio do fracasso social.


William Waack: ‘Projeto nacional’

Há um apelo para que elites se juntem em torno de um projeto. Mas, que elites?

Sempre um hábil piadista, consta que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso encontrou-se recentemente com um arcebispo brasileiro em jantar. “Seu nome eu conheço bem”, teria dito o sociólogo ao prelado. “Mas não é curioso que a gente não se lembre do nome praticamente de mais nenhum bispo ou cardeal?” E acrescentou, enquanto a ironia ocupava o recinto: “Mas tem sido assim também com os generais, com os empresários – a gente não lembra de muitos deles”.

Fernando Henrique tem sido lembrado nos últimos dias como o autor do mais recente apelo para que grupos de liderança, especialmente políticos, se unam em torno de uma plataforma democrática e reformista – interpretada precipitadamente por alguns como “união do centro” quando, me parece, é muito mais abrangente. No fundo, é um apelo para que elites se juntem em torno de um projeto. Mas, que elites?

Na insuperável descrição de “elites brasileiras”, publicada aqui no Estado no último sábado por Bolívar Lamounier, o que temos não é nada remotamente parecido com o que os livros de sociologia designam como elites. “Temos, isso sim, corporações, grupos de interesse, setores aguerridamente engalfinhados, cada um querendo sua parte no erário”, escreveu Bolívar. Quando, em recentes tempos, houve algo parecido a uma união em torno de um projeto, boa parte dessas elites comprou o projeto do... PT.

Não estou falando das empreiteiras envolvidas na Lava Jato, nem dos tais “campeões nacionais” igualmente enrolados em propinodutos em troca de acesso a crédito barato e proteção de mercados. Refiro-me a vários exemplos de empresários que achavam que instalar um escritório de assessoramento de gestão no 3.º andar do Planalto ajudaria a dar um “choque administrativo” na coisa pública – sem perceber, ou fazendo de conta que não percebiam, que a máquina de aparelhamento montada pelo PT e seus associados (como o MDB) era, sobretudo, um formidável instrumento de assalto ao cofre público.

Para mencionar um item no centro do noticiário dos últimos dias, com a Venezuela não foi diferente: a entrada do embuste chavista no Mercosul por uma molecagem diplomática da qual o Brasil participou foi acolhida como positiva para os negócios. Talvez alguns que celebraram as “oportunidades” que Chávez sugeria em 2012 se lembrem desse entusiasmo agora que são vítimas de calotes. Por outro lado, entende-se que qualquer um que enfrente o cipoal tributário, regulatório, trabalhista e jurídico brasileiro acabe pensando se não é melhor empenhar-se em ser amigo do rei.

“Projeto nacional” é uma expressão associada ao último regime militar, que o entendia sobretudo como ocupação do espaço físico, crescimento econômico e projeção regional de poder. Se “leio” corretamente o que me parece que desponta em alguns grupos de liderança setoriais, sobretudo os mais jovens, “projeto nacional” hoje começa a ter uma acepção mais “cultural” e de grande amplitude, no sentido de se desenrolar uma narrativa política que se oponha ao exclusivismo (e vitimismo) de grupos apegados a políticas identitárias cegas a qualquer outro tema de maior abrangência.

No fundo, considerando o tamanho do desastre no qual nos enfiamos como consequência sobretudo da adesão a ideias profundamente equivocadas, compartilhadas também por “elites”, não posso excluir (é a minha esperança, na verdade) que da presente crise surja um “projeto” diferente e antagônico ao “modelo” do período do lulopetismo, mas não só dele. Para continuar na linha da piada do Fernando Henrique, seria um projeto em busca de elites.


William Waack: Dois heróis

Juiz Sérgio Moro e PM Katia – nessa dupla a população acredita

No dia em que Michel Temer organizou uma cerimônia para lembrar seus dois anos de governo as atenções estavam em Nova York, na entrega de um prêmio como personalidade do ano ao juiz Sérgio Moro. E na reprodução incessante de um vídeo no qual uma corajosa mãe PM mata um bandido assaltante na porta de uma escola na Grande São Paulo. Um símbolo perfeito para o estado atual da política brasileira. O que o governo diz que tem para mostrar importa pouco, muito menos nas eleições. Os heróis não são da política – ao contrário, são os que resolveram passar as coisas a limpo.

Existe alguma comparação entre o que está acontecendo agora e períodos que antecederam pleitos anteriores? As atuais são inéditas numa feição da qual nem suspeitávamos ainda em 2014. Quanto ao clima pré-eleitoral há, sim, alguma semelhança, como num espelho sujo, com 1989, quando a votação teve lugar ao final de outro governo impopular, o de José Sarney (que, como Temer, não tinha chegado lá pela disputa nas ruas), abominado por quase todos os candidatos e incapaz de colocar a máquina pública a serviço de qualquer deles.

Ao contrário de Sarney, que conduziu o País à hiperinflação e à moratória, Temer tem alguma coisa para dizer que fez, mas não há muita gente disposta a ouvi-lo. Ninguém liga a queda dos juros ou da inflação ao nome dele. Muitos acham que a Petrobrás se recuperou sozinha do desastre petista. O “legado” desse governo – mesmo uma equipe econômica na qual se confia na competência – não constitui um fator eleitoral de peso.

Pois o que pauta a disputa política no momento são dois grandes temas que fogem ao controle de um governo que, mais uma vez, veio a público simplesmente para dizer que é menos pior do que se pensa. Um dos temas é a questão muito mais abrangente da corrupção – em relação à qual a atual administração é largamente considerada o que se pretende erradicar, e não qualquer tipo de solução.

O outro é o da segurança pública, uma catástrofe nacional que nos faz ter a esperança de que existissem milhares de cabos Katia Sastre, a mãe PM que matou o bandido assaltante na porta da escola, defendendo outras mães e outras crianças. Para a cabo Katia existem dezenas de exemplos de Estados e polícias falidos, corrompidos e incapazes de enfrentar a expansão do crime organizado que há tempos já penetrou o aparelho de Estado. Os especialistas sabem que a resposta ensaiada pelo governo federal para situações pra lá de críticas, como a do Rio, jamais trará soluções duradouras.

Arrisco-me a dizer que aos olhos de grande parte da população o juiz Sérgio Moro, o paladino “solitário” na luta contra a corrupção, e a mãe PM Katia Sastre, enfrentando sozinha o bandidão armado, formam uma dupla de heróis que resolvem pelo empenho e coragem pessoais aquilo que hierarquias, burocracias, aparatos, instituições – governos, partidos e os políticos – não são capazes ou nem querem enfrentar.

Com o que chegamos ao que me parece realmente inédito nas eleições que se aproximam. O controle da esfera da política é exercido hoje por uma elite engajada de juízes, delegados, procuradores e figuras do STF. Elite educada em boas escolas, que segue boas carreiras de Estado, com um difuso propósito político-ideológico, além de saberem que eles sabem melhor do que ninguém (pois tem a sociedade a apoiá-los) como deve ser o jogo da política – fora a defesa mais ou menos exaltada de seus interesses corporativos, pois ninguém é de ferro.

Inédito nessas eleições é o fato de que os políticos, neste momento, são vistos como as figuras mais distantes daqueles valores que realmente importam nas emoções e sentimentos de quem os elege: honestidade e coragem.


William Waack: Sem ‘outsider’

Nós, brasileiros, criamos mais um paradoxo: queremos o ‘novo’ mantendo o ‘velho’

Tenho grande apreço pelo ex-ministro Joaquim Barbosa, que conheço pessoalmente, mas não o suficiente para dizer se ele é fã de Tom Jobim. É atribuída ao maestro a frase “o Brasil não é para principiantes”. Ao desistir da candidatura que nem sequer tinha sido oficializada, Joaquim Barbosa confirmou o cerne da mensagem de Tom Jobim: no sistema político-partidário brasileiro, prosperam apenas os profissionais.

A grosso modo, esse sistema vigora desde a redemocratização e favorece estruturas partidárias estabelecidas e seus respectivos caciques. Nunca foi atropelado por fora – Collor em 1989 já era um conhecido governador e Lula venceu em 2002 quando já era suficientemente parte desse mesmo sistema.

Ele perdura, e impede que o Brasil, nas próximas eleições, possa ser comparado a uma França (Macron fundou um partido um ano antes de se eleger). Frente à realidade das nossas estruturas políticas, Joaquim Barbosa e Luciano Huck preferiram (pelo bem deles e pelo bem geral) cuidar por enquanto das próprias vidas.

A complicação expressada nos “fracassos” de Barbosa e Huck frente ao sistema político é muito maior do que terem embaralhado por algum tempo a corriqueira dança das articulações políticas e as possíveis alianças eleitorais. Pois o que atropelou por fora nosso sistema político foi a Lava Jato, que em boa parte o destruiu, mas não o substituiu por qualquer outra coisa.

Além de ter trazido algo realmente inédito comparado às últimas eleições: a campanha anticorrupção encurralou também a máquina do governo e, ao lado da extraordinária impopularidade do atual presidente, impediu um candidato “governista” capaz de desfrutar da capilaridade e força da estrutura de distribuição de benesses comandada pelo Executivo.

Para os candidatos que ainda estão aí, e correndo para ocupar um lugar privilegiado no chamado “centro” do espectro (a categorização é complicada, reconheço, devido à maçaroca ideológica brasileira), o desafio é severo. Esses candidatos têm de se apresentar como algo “novo”, algo “longe do que está aí”, sabendo perfeitamente que terão de jogar pelas regras do sistema velho e terão de governar pelo já exaurido modo brasileiro de presidencialismo de coalizão.

Pior ainda: quem atropelou por fora o sistema político, os articuladores e condutores da Lava Jato, incluindo braços no STF, detêm hoje um poder extraordinário que é o de determinar o que pode ou não no sistema, por meio do controle que de fato exercem sobre os principais personagens políticos (se necessário for, alterando a Constituição).

No momento a política no Brasil ocupa-se sobretudo com corrupção, com destaque também para a segurança pública, e os árbitros que conduzem o tema estão fora do sistema – que julgam poder “sanear” pela lavagem de seus elementos corruptos. Já é, para todos os efeitos, um “Poder Moderador” exercido recentemente apenas pelos militares, que julgavam saber o que era melhor para a política (ironicamente, imbuídos de similar viés redentor – sim, os militares exerciam o poder para si, vamos ver como fica com os condutores da Lava Jato).

A forma como a política é praticada no País, porém, continua a mesma, agravada pela excepcional desconfiança das pessoas em relação à sua capacidade de resolver problemas. Com o que se desenha o grande cenário abrangente para as próximas eleições: um público indignado, clamando por algo “novo”, que terá de decidir por candidaturas que só prosperam dentro do arcabouço do “velho”, todos conduzidos por uma campanha anticorrupção de grande apelo popular – esta sim, a verdadeira “outsider” na campanha eleitoral. Nós, brasileiros, criamos mais um paradoxo: queremos o “novo” mantendo o “velho”.


William Waack: Aposta perdida

Imprevisibilidade das eleições ressuscita apreensão sobre economia

A equipe econômica que assumiu depois do desastre dos governos do PT é de primeira linha, mas a aposta feita pelo grupo não deu certo. O cálculo assumia poucas condições políticas para grandes lances, mas também que um pouco de cuidado com as contas públicas, um pouco de reforma trabalhista, um pouco de privatizações, um pouco de microgerenciamento de regras e tributos fariam boa diferença – principalmente com a esperada queda dos juros e da inflação.

Melhoraria um pouco o ambiente de negócios, o desemprego recuaria um pouco, o cenário internacional seria pouco ameaçador e a retomada de exportações ajudaria a impulsionar a economia. As pessoas se sentiriam menos angustiadas, especialmente na hora de tomar decisões de consumo e/ou investimento. A atmosfera política antes de uma eleição decisiva talvez ficasse menos carregada, haveria até espaço para campanhas discutirem como fazer o País crescer.

Notem que todas as premissas do ponto de partida da aposta da equipe econômica se cumpriram – menos, crucialmente, o fim da angústia e o início de um bom debate sobre rumos. E então vêm a subida do dólar, as taxas decepcionantes do nível de emprego, o anúncio de mais um estouro no caixa das contas públicas e confirma-se a percepção de que o atual governo (nem precisamos mais discutir as causas) tem escassas possibilidades de aprovar matérias que envolvam articulações e votações complexas.

É importante registrar aqui que nem a vulnerabilidade e fragilidades políticas do governo, nem a demora em aprovar reformas e muito menos as oscilações do dólar são fatores inesperados. Ao contrário, constam de relatórios periódicos elaborados por consultorias e agências de análise de risco nacionais e estrangeiras. Em outras palavras, eram pontos no radar de todo mundo que tenta prever para onde vai a economia. Mas eis que surge então a “surpresa”: o inegável recrudescimento, nos últimos dias, de um ambiente de apreensão e considerável ceticismo frente ao futuro da economia brasileira.

Esse mau humor é resultado direto da imprevisibilidade das eleições. Contudo, esse estado de espírito não expressa simplesmente a dúvida sobre quem será presidente depois do pleito. Os temores bem pouco subjetivos podem ser resumidos quase num trocadilho: candidatos reformistas com plataformas econômicas conhecidas não aparecem bem nas pesquisas e empolgam até agora pouca gente. Os candidatos que se destacam mais nas pesquisas neste momento até exibem porta-vozes e/ou frases de efeito sobre o fim do populismo fiscal e intervencionismo que ajudaram o Brasil a afundar em recessão, mas pode-se confiar neles?

Há sérias dúvidas se o empenho em dizer o que agrada a agentes de mercado prosseguiria além do que é dito em conversas e apresentações coreografadas. E qual é o cacife no Congresso para gente sem partido forte, na hora de governar? O que parece estar pesando “repentinamente” nesse conjunto de percepções do momento é mesmo o tradicional pano de fundo das mazelas da nossa economia – que precisaria ser modernizada, mais aberta, mais produtiva, mais competitiva, precisando de muito mais investimento.

Tudo agravado por uma desconfortável indagação: seja quem for, vai pegar um País governável? Virou consenso a constatação de que todas as questões importantes ficaram para 2019 – no momento, porém, não há qualquer certeza sobre qual força política terá de lidar com desafios cujo atraso em enfrentá-los só os torna mais pesados. Talvez essa apreensão que voltou a nos assombrar seja a coisa mais salutar dos últimos dias.


William Waack: Falta de pressa

Acreditamos que o tempo trabalha a nosso favor, e optamos por ignorar evidências

Um dos aspectos mais fascinantes da crise política brasileira e do comportamento de elites pensantes é a perda da noção de tempo. Não se detecta sentido de urgência no trato de qualquer questão essencial para arrancar o País do buraco ao qual teríamos chegado de qualquer jeito – à incompetência, irresponsabilidade e voracidade de governos do PT e seus associados devemos “agradecer” por terem apressado nosso encontro com a hora da verdade (a de que estamos ficando velhos sem termos ficado ricos).

Sociedades caem vítimas de seus próprios mitos com mais frequência do que se pensa. Para permanecer em tempos recentes, e como caricatura para ilustrar o argumento, pensem nos nazistas (que se achavam imbatíveis) ou nos soviéticos (que se achavam donos do futuro). No caso brasileiro, o título do clássico de 1941 de Stefan Zweig – Brasil, Um País do Futuro – às vezes parece uma maldição. É óbvio que o livro não tem a menor culpa disso, mas a postura de boa parte de elites aqui sugere terem se tornado adeptas da crença de que o futuro nos pertence e inevitavelmente será risonho. Como se sabe, em História não há o inevitável.

Em outras palavras, acreditamos que o tempo trabalha a nosso favor, sobretudo quando lidamos com prazos mais dilatados, e optamos por ignorar evidências. A principal chama-se janela demográfica, que está se fechando e foge ao nosso controle. Nos acostumamos a crescer nos últimos 30 anos incorporando ao mercado de trabalho um número grande e aparentemente inesgotável de jovens mal qualificados. Para crescer e enfrentar agora a competição lá fora teremos de melhorar índices de produtividade estagnados há décadas, e com menos jovens à disposição – algo que já se reflete no eleitorado: pela primeira vez a proporção de jovens entre 16 e 24 anos diminuirá em 2018 em relação à última eleição, enquanto cresce o peso relativo dos eleitores acima dos 60.

Para quem comemora o aumento da nossa renda per capita nos últimos, digamos, 15 anos, cumpro aqui o papel chato de lembrar que a diferença para a renda per capita dos países avançados permanece inalterada, ou até um pouco pior para nós. Embora briguem sobre quais fatores afetam diretamente o crescimento de países, economistas não duvidam da forte influência exercida por uma taxa mínima de investimento anual. A nossa é baixíssima e piorou, pois o setor público, do qual tanto dependemos, perdeu essa capacidade de investimento. Em outras palavras, estamos jogando contra o tempo.

Há outros sinais preocupantes, dos mais variados, indicando que nós gostamos de acreditar que as coisas se resolvem por decurso de prazo. Abominamos o sistema político-eleitoral, por exemplo, mas deixamos passar recente oportunidade para reescrever as regras das próximas eleições, que provavelmente asseguram a permanência de boa parte das figuras e dos métodos que detestamos. E, recentemente, ao considerar o habeas corpus para Lula, o Supremo Tribunal Federal forneceu um exemplo acabado da mentalidade dos estamentos burocráticos que mantém o País sob seu firme domínio: a mentalidade que prefere manipular prazos e evita abordar frontalmente problemas difíceis.

Filmes e exposições na Alemanha lembraram no ano passado os 75 anos do suicídio de Stefan Zweig (um dos escritores mais populares na Europa na metade do século 20) e sua mulher, ocorrido em Petrópolis. Ainda em vida seu livro sobre o Brasil como um país do futuro tinha sido criticado como ingênuo. Consigo entender o que Stefan Zweig, transformado em “Kulturpessimist” pela catástrofe europeia daquela era, enxergou como esperança no Brasil. O problema é a nossa falta de pressa.


William Waack: A pobreza do debate

A Lava Jato traçou a linha entre o que é política e o que é bandidagem

Assim como a prisão do ex-presidente Lula, Aécio Neves agora réu no Supremo Tribunal Federal é um acontecimento político de importância muito maior do que o destino reservado ao agente político, ao indivíduo. O episódio do senador tucano que passou de quase presidente para candidato a presidiário oferece uma boa leitura do momento político brasileiro.

Não estou falando aqui de quem está dentro da Lava Jato nem das consequências para as diversas agremiações políticas e como se movimentam visando às próximas eleições. O caso Aécio virou uma bem acabada expressão do que é a falência política brasileira.

Pois quatro dos cinco ministros que aceitaram a denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) tornaram o senador réu por obstrução da Justiça (além de corrupção passiva), isto é, por tentar atrapalhar a Operação Lava Jato. Aécio teria praticado esse crime, segundo a acusação, utilizando-se da sua atividade como parlamentar para discutir, entre outras coisas, projetos de lei como o que previa punição a agentes públicos por abuso de autoridade.

Não vou entrar no mérito da acusação nem nas alegações da defesa do senador. O que me interessa aqui é registrar um fato que me parece de vital importância para a política brasileira. Onde está a linha que divide a atividade do parlamentar (que inclui, claro, discutir projetos como abuso de autoridade) e a pura e simples bandidagem? Mais ainda: quem traça essa linha e decide se uma articulação política no parlamento passou a ser uma articulação para proteger políticos do alcance da Justiça?

No atual momento político brasileiro, não importa se a gente gosta ou não do que está acontecendo, as respostas a essas duas perguntas são evidentes. Procuradores, delegados, juízes e, agora, também ministros do Supremo leram História (ou saíram atrás de quem leu o que aconteceu na Itália) e estão convencidos de que políticos, deixados entregues a si próprios, vão se articular para defender apenas seus próprios interesses, sobretudo os interesses espúrios. E decidiram eles mesmos, os integrantes da Lava Jato, traçar a linha entre o que é política e o que é bandidagem. Traçado que interpretam como julgam necessário.

Reitero aqui a inutilidade, neste momento, de se estabelecer quem domina a objetividade dos fatos, se é a acusação que está com a “verdade” ou se é a defesa no caso do senador. Fato, em política, costuma em geral ser a percepção que se faz de um “fato”, e a percepção que tomou conta do momento brasileiro, e desfruta de extraordinária popularidade, é a que está contida na denúncia da Procuradoria-Geral da República: políticos não prestam, política é coisa suja e, mesmo quando parlamentares parecem estar discutindo projetos “sérios” (como o do abuso de autoridade), estão, no fundo, apenas se protegendo.

O fato dessa narrativa acima ter se tornado tão abrangente (talvez Gramsci a tratasse como “bloco histórico”) explica em parte a pobreza do atual debate político no Brasil, subordinado ao tema do combate à corrupção. Claro que combater a corrupção é essencial em qualquer parte e a qualquer momento. A falência da política brasileira está em não ter sido capaz, também por falta de lideranças, de desenvolver qualquer outro eixo relevante de debate.

Vamos aplaudir a prisão de Lula e outros, eventualmente de Aécio e outros, o que nos orgulha e enche de esperanças. E vamos continuar nos perguntando por que as coisas mudam tão pouco.