Silvio Pons: Fidel, um jogador no tabuleiro da Guerra Fria

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“A aura mitológica que circunda a figura de Castro deve ser dimensionada segundo seu perfil histórico mais autêntico, no qual se cruza a realidade de um papel global efetivamente desempenhado entre os anos 1960 e 1970 com a incapacidade de compreender as mudanças que se realizaram na América Latina e na comunidade internacional a partir dos anos 1980”.

Com Silvio Pons, presidente da Fundação Instituto Gramsci e um dos principais estudiosos italianos de história global do século XX, discutimos uma figura central da história e do imaginário do século XX. A entrevista foi dada a Andrea Romano e publicada originalmente em “L’Unità”, 27 nov. 2016.

AR – O que queremos dizer, de fato, quando falamos de “castrismo”?

SP – O castrismo nasce do cruzamento de três diretrizes inteiramente diversas. Por uma parte, o contexto de longa duração do nacionalismo latino-americano de matriz antiestadunidense, que precede amplamente a tomada do poder de 1959 e que é privado de conotações marxistas ou comunistas. Por outra parte, a grande vaga política e cultural do terceiro-mundismo, ou seja, a ideia de que a mudança principal que se seguiu ao final da Segunda Guerra Mundial estivesse representada pelo fim do colonialismo declinado em chave de ideologia anti-imperialista. O terceiro contexto é o da Guerra Fria, dentro do qual a revolução cubana se vê a oscilar entre os dois polos do nascente movimento dos não alinhados e da atração no sentido do polo soviético.

O cruzamento entre estas três diretrizes produz uma evolução radical da revolução cubana, promovida por um grupo dirigente no qual, originalmente, o marxismo era um elemento marginal (representado, por exemplo, por Guevara) que transforma em movimento comunista o que inicialmente era só um movimento nacionalista.

AR – Entre as principais etapas das vicissitudes históricas da Cuba de Castro a chamada “crise dos mísseis” de 1962 tem um lugar de primeiríssimo plano.

SP – Certamente, porque aquela crise parece ainda hoje um momento fundamental na história da Guerra Fria. Recordemos que Castro se aproxima de Moscou com base em considerações de Realpolitik: depois da tentativa de invasão estadunidense de 1961 na Baía dos Porcos, Fidel buscou imediatamente a proteção militar soviética. E, ao mesmo tempo, utilizou a disponibilidade da URSS para deslocar baterias de mísseis nucleares e enfatizar o papel de Cuba como eixo de uma revolução anticolonial global e vanguarda da luta anti-imperialista contra os Estados Unidos. Moscou, por outra parte, viu nisso a possibilidade de uma vantagem estratégica sobre Washington em anos nos quais a União Soviética se encontrava numa condição de grande inferioridade militar e industrial.

Naquelas semanas Nikita Khruschev fez uma dupla aposta, que posteriormente se revelou fracassada: iniciou uma queda de braço com os Estados Unidos que poderia ter implicado um conflito nuclear que o próprio Khruschev não queria (romperia com Mao Zedong porque convencido de que o socialismo não tinha necessidade de uma terceira guerra mundial para triunfar, como, ao contrário, sustentava o líder comunista chinês) e em seguida foi obrigado a recuar, retirando mísseis que Castro queria com muita força, apesar da dura resposta estadunidense. Naqueles meses Moscou e Havana estiveram à beira da ruptura, enquanto Castro se sentiu utilizado como uma peça no grande tabuleiro da Guerra Fria assim como, antes dele, ocorrera à Iugoslávia de Tito logo depois da Segunda Guerra Mundial. No fim, Castrou se adequou à cautela de Moscou, sem renunciar a perseguir seu projeto internacionalista primeiro na América Latina, depois na África.

AR – Portanto, podemos sustentar que a Cuba castrista tentou desempenhar um papel global em primeira pessoa no contexto do confronto maior da Guerra Fria?

SP – Certamente, sim. A primeira tentativa se realizou na América Latina, com a exportação do modelo guevarista de grupos armados empenhados em sublevar as massas camponesas. Uma tentativa inicialmente hostilizada pelos partidos comunistas locais, fiéis a Moscou, e posteriormente concluída num fracasso geral porque os camponeses não queriam mesmo saber de seguir os grupos armados.

A aposta bem sucedida, ao contrário, foi a africana, em particular em Angola, logo depois da ditadura portuguesa em 1974 e o colapso do último império colonial europeu. Castro decidiu enviar dezenas de milhares de soldados em apoio ao movimento guerrilheiro marxista MPLA (hoje sabemos que os soviéticos não foram informados disso) e contribuiu de modo determinante para a derrota das tropas sul-africanas que invadiram Angola. O resultado foi diverso no chifre da África em 1976-1977, onde, de acordo com os soviéticos, os cubanos intervieram para sustentar a sanguinária ditadura de Menghistu. Nos anos setenta, Castro consegue para Cuba um papel global muito maior do que a dimensão real de seu regime, assinalando muitas vezes uma autonomia em relação a Moscou através do uso político do internacionalismo anti-imperialista.

AR – No entanto, a relação com Moscou se deteriora exatamente quando a União Soviética tenta se reformar.

SP – A perestroika marca uma fratura profunda entre Moscou e Cuba, porque Castro não consegue ler as mudanças em curso no mundo e na própria União Soviética. Para ele, Gorbachev é só um revisionista que abandona a fundamental batalha internacionalista (o encontro entre os dois líderes em Havana, em abril de 1989, foi dominado pela frieza), enquanto a grande mudança democrática em curso na América Latina o pega totalmente despreparado. Não é um acaso que justamente naqueles meses a repressão da dissidência interna alcance um novo ápice (recorde-se o processo farsa contra o coronel Ochoa), exatamente como acontecia nos países da Europa Centro-Oriental mais conservadores, como a DDR e a Tcheco-Eslováquia. Castro se torna definitivamente, já então, a testemunha de uma época definitivamente terminada.

AR – Como explica a tenacidade do mito castrista em alguns partidos da esquerda europeia?

SP – A força do mito está ligada à época do terceiro-mundismo internacionalista e, portanto, à ilusão de um comunismo mais movimentista. No entanto, sua resistência, que chega até a justificar o autoritarismo de Chávez, não leva em conta as grandes mudanças havidas a partir de 1989 por toda a América Latina.


* Silvio Pons – Professor da Universidade de Roma II

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