Luiz Werneck Vianna: Oportunidade para a questão social e a democracia

As cartas estão na mesa, e de nada servem as especulações sobre uma eventual irrupção de uma terceira via
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Foto: TSE
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Estamos prestes a recuperar o fio da meada que num momento desastrado deixamos escapar das nossas mãos a partir das tratativas que ora se realizam por iniciativa de importantes lideranças políticas no sentido de forjar uma aliança com vistas à próxima sucessão presidencial em torno das candidaturas de Lula e de Alkmin. Foi da convergência das forças sociais e políticas que ambos representam que se pavimentou o terreno para a derrota do regime militar de 1964 e a democratização cujo melhor fruto foi a promulgação da Carta de 88, a mais efetiva defesa com que contamos a fim de conter a sanha destrutiva do governo Bolsonaro que objetiva instaurar mais um ciclo de autoritarismo político no país.

Naquelas infortunadas circunstâncias, por ensaio e erro, descobriu-se o caminho que poderia levar a interrupção do regime autoritário de então pela ação combinada dos vetores sociais animados pelos temas da democracia política, com ênfase nos processos eleitorais, tal como na eleição de 1974 com a vitória da candidatura de Orestes Quércia ao Senado, com aqueles originários da questão social vigorosamente expressos pelo sindicalismo operário, especialmente do ABC em São Paulo e que se espraiou em todo o país.

A fórmula vitoriosa tinha como consigna a democracia política aliada à questão social e se fez presente ao longo do tempo em que se elaborou o texto constitucional de 88. O fio da meada começa a escapar do nosso controle quando o PT se recusa a subscrever a Carta, e, mais gravemente ainda, na sucessão presidencial de 1989, quando em um processo autofágico as forças que conduziram a democratização competem entre si e favorecem a vitória de um cavaleiro da fortuna que viria a sofrer um impeachment logo depois.

Apartado da questão democrática o tema do social adquire por assim dizer tintas de autonomia, num processo que se extrema no governo Dilma Roussef, franqueando a via para que elites contrariadas em seus interesses impusessem a ela um processo de impeachment em meio a uma política de caça às bruxas que se difundiu no país a pretexto de combate à corrupção. No curso desse errático movimento desde a sucessão de 1989 se desfizeram, pouco a pouco, os laços   sociais, os sentimentos comuns e a própria memória do que foram as lutas pela democratização do país. No seu lugar, acabaram se impondo vocalizações negadores da política e de suas instituições. Ninguém me representa foi o refrão presente nas manifestações desse que trouxe consigo um processo de desertificação da política.

Mais uma vez, abriu-se uma ampla janela de oportunidade para que setores reacionários das elites empalmassem as rédeas do Estado vindo a recorrer ao que havia de mais obscuro na cena parlamentar, assumindo a candidatura de Jair Messias Bolsonaro, personagem nostálgico do regime do AI-5, que assumirá a presidência com o declarado propósito de sepultar a obra e as lembranças dos idos das lutas pela democratização do país, especialmente a Constituição.

Para esse fim, com os cuidados de um plano de Estado-maior, cogitou-se desferir um golpe letal na resistência democrática que freava suas iniciativas autoritárias com a conspiração do 7 de setembro, que se frustrou por motivos ainda não de todo explicados. A sorte do regime Bolsonaro seria jogada no cenário imprevisto da sucessão de 2022 e não num golpe de mão. Decorre daí o que não deixa de significar uma vitória das forças democráticas, que o novo terreno em que se travam as lutas contra a reprodução do autoritarismo seria o das instituições e do voto.

Nesse novo teatro de operações, tornou-se imperativo para a democracia ser capaz de apresentar uma candidatura competitiva, evitando experiências negativas, como as de 1989, quando ela se deixou fragmentar. A candidatura Lula, a confiar nas pesquisas eleitorais, logo se destacou em que pesem as críticas sobre os longos anos de hegemonia petista por parte da esquerda democrática e de outros setores de igual profissão de fé nas instituições da democracia. Nesse sentido, a opção de Lula por uma aliança com Alkmin, personalidade política com larga experiência de governo e com histórico de vida comprometido com as instituições da democracia, ambos tarimbados na política e fartamente advertidos pelos perigos que rondam o momento presente, significa, na prática, uma atitude autocrítica em relação às suas antigas rejeições às forças que se identificam com as concepções da social-democracia.

As cartas estão na mesa, e de nada servem as especulações sobre uma eventual irrupção de uma terceira via, salvo para impedir a conformação de uma robusta frente política em torno de Lula e Alkmin que se credencie a dar um basta no flagelo a que estamos expostos. No horizonte já se divisa a possibilidade de uma coalizão tão ampla quanto a que soubemos construir nas lutas pelas diretas e que nos promete um caminho de vitória.

É lição antiga a de quem não aprende com seus próprios erros esteja condenado a repeti-los. A esquerda democrática é herdeira de uma longa história de alianças, a começar por Marx que em 1848 se empenhou em construir uma frente política entre a social-democracia e os liberais em suas lutas pela democratização da Alemanha, e que segue como recurso de sua afirmação em momentos decisivos da sua trajetória, como nos tempos sombrios das lutas contra o nazi-fascismo. Em nosso país temos a experiência vivida, tanto na resistência ao Estado Novo dos anos 1930, como há pouco contra o regime do AI-5, da fertilidade das vias das alianças políticas em favor da democracia, como também conhecemos os desastres a que fomos levados por ignora-las.

A aliança Lula-Alkmin recupera as melhores inspirações que estiveram presentes nas lutas contra o regime do AI-5, mas por si só, sem se encorpar com as demais forças democráticas e sem conquistar a imaginação social de todos os descontentes com o que aí está, nada lhe afiança o seu sucesso e sua intenção de nos devolver a feliz combinação da questão social com a da democracia política.

É imperativo reconhecer o caminho de pedras que a democracia tem pela frente que se defronta com inimigos que conhecem o terreno e estão dotados de amplos recursos e dispostos a uma luta encarniçada e sem quartel em defesa dos privilégios sobre os quais assentam seus domínios. Nesse combate não podemos dispensar a experiência e o tirocínio de quadros já provados e que se alinham em posições de liderança na luta comum de todos os democratas.

*Luiz Werneck Vianna, Sociólogo, PUC-Rio  

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