El País: Na luta contra o coronavírus, Bolsonaro se perde em guerra política e resiste a pacto nacional com governadores

Presidente mantém disputa com governadores João Doria e Wilson Witzel, enquanto continua a fazer declarações descoladas do sentimento popular. Panelaço se repete por quinto dia.
Foto: MIGUEL SCHINCARIOL / AFP
Foto: MIGUEL SCHINCARIOL / AFP

Presidente mantém disputa com governadores João Doria e Wilson Witzel, enquanto continua a fazer declarações descoladas do sentimento popular. Panelaço se repete por quinto dia

O Brasil acordou para a gravidade da pandemia do coronavírus que já havia deixado um rastro trágico de mortes na Ásia quando o primeiro infectado brasileiro foi identificado em 26 de fevereiro, em São Paulo. Menos de um mês depois, a Covid-19 já infectou 1.546 brasileiros, e matou 25. Se os cálculos de especialistas estiverem corretos, há mais de 23.000 infectados no Brasil, levando em conta que para cada infectado confirmado há 15 assintomáticos ou sofrem da doença com sintomas leves, confundindo com outra natureza de gripe. Mesmo com esse quadro, até o momento o país de 209 milhões de pessoas ainda não declarou quarentena nacional, como outras nações fizeram, embora o Governo e praticamente todos os Estados insistam na recomendação de que a população circule menos. A diferença entre uma recomendação e a decretação da quarentena pode parecer mínima, porém, revela a postura hesitante do presidente Jair Bolsonaro diante da doença que se alastra por todos os Estados do país.

Ao contrário de outros chefes de Estado que foram à TV fazer apelos dramáticos, Bolsonaro investe em aparições frágeis em seu papel de líder, chegando a rebater diretrizes mundiais, ao se colocar contra, por exemplo, a proibição de cultos em igrejas, foco de aglomeração de pessoas e um terreno fértil para proliferação do vírus. Nos últimos dias, chamou a Covid-19 de “gripezinha”, a preocupação com a epidemia de “histeria”, e disse que o objetivo de quem alarma a população é paralisar a economia para acabar com o Governo dele. “Se a economia afundar, afunda o Brasil. Qual o interesse? Se afundar, acaba o meu governo. É uma luta de poder”, afirmou em entrevista na segunda (16).

As falas do presidente sempre foram corrosivas, mas agora causam muito mais impacto em meio a tempos de calamidade pública. Bolsonaro tem exposto inabilidade com a situação inédita que os brasileiros vivem de se verem obrigados a ficar em confinamento, temendo serem abatidos pelo coronavírus ou que a morte chegue a pessoas próximas. Em entrevista ao programa do Ratinho, na TV, na sexta à noite, Bolsonaro preferiu entoar o pragmatismo ao analisar o momento. “Vai morrer alguns de vírus? Sim, vão morrer. Alguns porque já tinham alguma deficiência [doença pré-existente], outros porque serão pegos no contrapé. Lamento. Minha mãe de 92 anos, se pegar algo, acho que nos deixa. Mas não podemos criar esse clima todo que está aí, prejudica a economia”, afirmou.

Bolsonaro virou notícia mundial ao cumprimentar um aglomerado de apoiadores na porta do Palácio do Planalto em plena epidemia no dia 15. Desde então, ficou claro que sua postura errática é um elemento extra para o Brasil na luta contra o coronavírus, quando o país já tem clara a sua sentença, segundo o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Em breve haverá um pico da doença e se o país não tomar as medidas radicais para evitar o trânsito de pessoas, a rede de saúde, pública e privada, entra em colapso em abril. Alguns Estados, como o Rio de Janeiro, no entanto, já falam em um sistema colapsado dentro de duas semanas. Mandetta tem comandado a situação, em aparições diárias mais serenas para explicar o quadro do Brasil, o que o fez ganhar relevância entre os brasileiros. Neste sábado, a equipe do Ministério da Saúde prometeu multiplicar os testes para detectar o coronavírus nos hospitais, uma medida recomendada pelos países que controlaram a epidemia.

Irritados com a postura do presidente, os brasileiros começaram uma sequência de panelaços diários desde a última terça-feira, 17, em vários pontos do país. Uma pesquisa recente da consultoria Atlas Político mostrou que 65% dos entrevistados estão insatisfeitos com a gestão de Bolsonaro sobre a crise do Covid-19. Três pedidos de impeachment já foram apresentados no Congresso contra Bolsonaro, e há um quarto a caminho.

Bolsonaro, por sua vez, tem colocado energia na disputa política com eventuais adversários políticos que cobram uma postura mais arrojada do Governo do que em dar ênfase à gravidade que o Covid-19 significa ao país. Em vez de convocar um pacto nacional convidando todos os governadores para trabalharem juntos as soluções para a epidemia, repete publicamente queixas sobre governadores, especialmente os de São Paulo e do Rio de Janeiro, João Doria (PSDB) e Wilson Witzel (PSC). Os dois Estados acumulam mais óbitos e casos de infectados. Ambos cobram medidas drásticas para evitar a circulação do vírus, ao contrário de Bolsonaro. Neste sábado, o governador João Doria, que já conta 15 mortes e quase 400 infectados, decretou a quarentena em São Paulo, o que Bolsonaro considerou um gesto calculado. “Ele está se aproveitando desse momento para se promover”, afirmou ele à CNN.

Doria tem feito queixas reiteradas sobre o presidente neste momento por tratar a epidemia que toma o país com mais cuidado. “Gostaria de ter um presidente que liderasse o país em uma crise como essa, e não minimizasse uma questão tão grave”, afirmou ele, em uma das coletivas diárias das quais participa. Bolsonaro devolveu a alfinetada do governador tucano: “Os que me criticam dizem que não tenho liderança. Digo a eles: a eleição de 2022 ainda está muito longe”.

“É inaceitável a falta de dialogo e bom senso. Nunca imaginei viver isso na democracia”, reclama o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel. No Rio, já há 119 casos confirmados, e três mortes. Um dos infectados foi descoberto na comunidade da Cidade de Deus, um alerta preocupante para a população das favelas, onde a infraestrutura é precária, num ambiente favorável à proliferação da doença. Ao menos os governadores do Norte e Nordeste conseguiram arrancar do presidente o compromisso de uma videoconferência nesta segunda.

Como se não bastasse o clima belicoso nacional, o filho do presidente, deputado Eduardo Bolsonaro, gerou um incidente diplomático com a China no dia 18 com uma série de tuítes em que busca demonizar a China por causa da doença, emulando a tática do presidente americano Donald Trump. “Mais uma vez, uma ditadura preferiu esconder algo grave a expor tendo desgaste, mas que salvaria inúmeras vidas. A culpa é da China e liberdade seria a solução”, escreveu o deputado, que gerou uma resposta inédita do embaixador da China no Brasil, Yang Wanming. Ele cobrou um pedido de desculpas ao seu povo e disse ao deputado que ele “precisa assumir todas as consequências”. O assunto continua pendente. O jornal Valor noticiou que o presidente Bolsonaro tentou falar com Xi Jinping, sem sucesso. O resumo da ópera foi dado pelo governador Flavio Dino, do Maranhão: “Não é hora de brigar com a China nem é hora de brigar com os governadores. É hora de brigar contra o vírus, a pandemia”.

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