Um revolucionário esquecido em uma revolução sempre lembrada

Livro de Cláudio Oliveira reúne todas as condições para abrir um rico debate no Campo Democrático, entre os progressistas
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Foto: Reprodução/Google
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Ivan Alves Filho

Eis um livro que reúne todas as condições para abrir um rico debate no Campo Democrático, entre os progressistas, enfim. Podem anotar: “Lenin, Martov, a Revolução Russa e o Brasil”. Seu autor, o jornalista potiguar Cláudio de Oliveira, é um profundo conhecedor da experiência socialista ao redor do mundo, tendo, inclusive, vivido na antiga Tchecoslováquia durante o desmoronamento do chamado socialismo real no Leste Europeu. Ele teve o privilégio de participar de um comício de Alexander Dubtchek, o homem da Primavera de Praga.

Aqui, o nosso jornalista se reveste de historiador. E nem tanto historiador do momento presente, da conjuntura atual, uma vez que mergulha na recepção das ideias da Revolução Russa de 1917 entre nós, examinando o papel dos comunistas Astrojildo Pereira e Cristiano Cordeiro em sua propagação.

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E Cláudio de Oliveira saiu-se muito bem nessa empreitada, pesquisando em fontes sólidas. Mais: ele demonstra que o líder dos mencheviques internacionalistas, Julius Martov, teve atuação de destaque no desenrolar do processo revolucionário russo e que algumas de suas ideias merecem ser devidamente contextualizadas e apreciadas, influenciando o ideário democrático em vários pontos do planeta.

Este é o mérito principal de seu livro, que ainda abre espaço para o exame da atuação de mulheres revolucionárias como Alexandra Kollontai e Nadezhda Krupskaia na Rússia Soviética. Vamos então a Julius Martov. Companheiro de Vladimir Lenin desde os primórdios, praticamente, do movimento marxista entre os trabalhadores da velha Rússia, ou seja, ainda na última década do século XIX, Martov foi não apenas um organizador político de primeira linha como também um formulador à altura dos grandes nomes de 1917, incluindo aí o próprio Lenin. Não separava pensamento e ação. Preso à mesma época de Lenin e deportado para a Sibéria juntamente com o futuro líder da ala bolchevique do Partido Social-Democrata Russo, Martov curtiria um longo exílio na Europa, retornando à sua terra no bojo dos episódios revolucionários de fevereiro.

Suas desavenças com Lenin explodiram em 1903, durante o Congresso dos Sociais-Democratas, realizado em Londres. Lenin defendia um partido de quadros; Martov, por seu turno, vislumbrava um agrupamento mais aberto, se podemos considerar assim, um partido que hoje denominamos de massa. Surgiam as tendências menchevique, ou minoritária, liderada por Martov, e bolchevique, ou majoritária, conduzida por Lenin. Volta e meia as duas tendências dialogavam, para em seguida se estranhar de novo. E foi nesse ritmo até 1917.

Contrariamente a muitos mencheviques, Martov deu um apoio crítico aos bolcheviques de Lenin. Defendia um governo composto por diversas forças progressistas. Já durante a Guerra Mundial de 1914-1918, ele se colocou resolutamente contra a capitulação nacionalista da maioria esmagadora dos sociais-democratas na Europa, assumindo uma posição próxima daquela de Lenin e Rosa Luxemburg, então isolados no movimento socialista. Durante a Revolução de Outubro, chegou a reivindicar um lugar no Governo para os seus partidários, o que Lenin recusaria.

Certamente, a história da Revolução Russa seria menos fratricida, se isso tivesse ocorrido. E, sobretudo, se Lenin não tivesse fechado a Duma ou a Assembleia Constituinte, em 1918 (o resultado das urnas dera a vitória aos socialistas revolucionários, com 40 % dos votos, isto é, cerca de 70% a mais da votação obtida pelos bolcheviques, já no poder àquela altura como sabemos). Os bolcheviques – e isso é fato – desdenharam quase que sistematicamente, a partir daí, a questão da democracia na construção da nova sociedade. Ao que tudo indica, Lenin percebeu isso no final de sua vida.

Esse o contexto político da época, que envolveria ainda o papel de Martov na elaboração de toda uma série de sugestões que levariam – e esse é outro mérito do livro de Cláudio de Oliveira – à realização da NEP, a Nova Política Econômica, do Governo Bolchevique, mais aberta às iniciativas individuais. É preciso ver que o embate entre economia estatizada e economia privada sacudia então o movimento operário. Os bolcheviques justificavam a estatização desenfreada em nome do esforço de guerra. Os choques ocorridos entre mencheviques e bolcheviques naquela quadra tinham por ponto de partida ao reconhecimento do parco nível de desenvolvimento das forças produtivas na Rússia Soviética.

Hoje, talvez fosse o caso de considerar também que este não era apenas um problema de ordem quantitativa, de mais ou menos desenvolvimento, já que sua compreensão implicava ainda questões de corte qualitativo. Vale dizer, as bases materiais para a edificação da sociedade sem classes teriam que repousar em unidades produtivas próprias – na automação, por exemplo, e não apenas na alteração do estatuto formal da propriedade fabril, herdada da sociedade capitalista, com seu corolário de relações na esfera da produção. Talvez seja o caso de cravarmos uma cunha entre a dimensão estatal e a dimensão privada, e essa cunha se chama dimensão pública da propriedade. A contradição não se dá entre o capital e o mercado e, sim, entre o capital e o interesse social. Mas essa é uma outra discussão. De toda forma, fica aqui uma pergunta: até que ponto as posições econômicas da China atual não correspondem às proposições da NEP?

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E nunca é demais lembrar que o líder dos mencheviques internacionalistas apoiaria ainda a luta do Exército Vermelho contra as forças da Monarquia. O esforço de Cláudio de Oliveira em resgatar o legado de Julius Martov se encontra assim plenamente justificado, a meu juízo. E, de quebra, ainda podemos aprender muitas lições sobre o próprio processo político brasileiro.

*Ivan Alves Filho é historiador, autor de “Os nove de 22”, sobre o centenário do PCB

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