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Candidato de centro ainda tem um papel a cumprir | Imagem: reprodução

Nas entrelinhas: Candidato de centro ainda tem um papel a cumprir

Luiz Carlos Azedo / Nas Entrelinhas / Correio Braziliense

O presidente do MDB, deputado Baleia Rossi (SP), pretende cobrar uma definição dos demais partidos da chamada terceira via — PSDB-Cidadania e União Brasil — na próxima reunião de cúpula do grupo, marcada para 18 de maio, com objetivo de escolher um candidato único. “Não dá para adiar, ninguém aguenta mais essa indefinição”, desabafou, ontem, em conversa no cafezinho da Câmara. Segundo ele, há três candidaturas na mesa de negociação: Simone Tebet (MDB), João Doria (PSDB) e Luciano Bivar (União Brasil). “Uma delas deve ser escolhida”, afirmou.

Rossi descartou o ex-governador gaúcho Eduardo Leite, que trabalha para ser candidato de união: “O candidato indicado pelo PSDB é o Doria”. Faz sentido, para além da formalidade, porque o propósito do MDB é consolidar o nome de Tebet. A senadora por Mato Grosso do Sul se destacou na CPI da Covid e é respeitada pelos pares por sua atuação à frente da Comissão de Constituição e Justiça da Casa. Ela é formada em direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestre em direito do Estado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Simone Tebet, natural de Três Lagoas (MS), não é uma cristã nova na política. Aprendeu o jogo do poder com o pai, Ramez Tebet, que foi governador do Mato Grosso do Sul, prefeito de Três Lagoas e senador da República. Atuou por 12 anos como professora universitária e foi consultora e diretora legislativa da Assembleia Legislativa do estado. Foi deputada estadual, prefeita de Três Lagoas por dois mandatos e vice-governadora no governo Puccinelli, cargo no qual permaneceu até 2015, quando assumir o mandato de senadora. Aos 52 anos, tem cancha de político profissional.

Essa experiência está fazendo a diferença no jogo de bastidores da terceira via, pela forma firme e suave com que lida com as disputas políticas, como aconteceu no episódio do jantar dos setores do MDB do Nordeste com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Tratada como a noiva desejada pelos outros candidatos, já disse que não pretende ser vice de ninguém; caso não seja candidata à Presidência, pretende disputar a renovação de seu mandato de senadora. Pela conversa de Baleia Rossi, a maioria dos diretórios do MDB deseja a candidatura de Tebet.

Bombeiros no ninho

O tucano Eduardo Leite, que se movimenta pelo país em busca de apoio para ser candidato, mesmo após perder as prévias do PSDB, farejou o perigo em razão do famoso áudio da conversa privada do presidente do PSDB, Bruno Araújo (PSDB), no qual o então coordenado da campanha de João Doria admitiu as articulações para unificar a terceira via em torno de Tebet e não, como se esperava, do ex-governador gaúcho. Araújo acabou afastado do comando da campanha por Doria e viajou para os Estados Unidos, onde a filha vai estudar, para deixar a poeira baixar. Leite resolveu procurar Doria para apagar o fogaréu no ninho tucano. A conversa entre os dois foi ontem, em São Paulo.

Nos bastidores do PSDB, a avaliação é de que a movimentação de Leite contra Doria e as inconfidências de Araújo criaram uma situação implosiva para a legenda. O ex-governador paulista mandou recado de que não vai retirar a candidatura nem aceita que as prévias da sigla, que venceu, sejam desrespeitadas. Caso seja removido a fórceps pela cúpula da federação PSDB-Cidadania, Doria recorrerá à Justiça. Judicialização da campanha é tudo o que os defensores da terceira via, que apostam na racionalidade de Doria, não querem. A desistência do ex-gestor paulista seria uma construção política, que o próprio candidato protagonizaria, e não uma humilhante derrota por antecipação.

O tempo é curto para a unificação da terceira via, porque as pesquisas estão mostrando que o espaço para uma candidatura nem Lula nem Bolsonaro está se reduzindo. Essa candidatura, mesmo não rompendo a polarização, cumpriria o papel de atrair uma parcela de eleitores que poderá decidir o pleito no segundo turno. Além disso, também garantiria a eleição de uma parcela expressiva de cadeiras na Câmara e no Senado. O problema é que essa avaliação, tipo o importante é competir, favorece a manutenção das candidaturas de Doria e Tebet.

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El País: A segunda metamorfose do MBL para seguir influente no Brasil de Bolsonaro

Grupo lança seu braço estudantil em universidades e escolas para competir com a UNE. Também estuda fórmulas de se transformar numa legenda, diz Pedro D'Eyrot ao EL PAÍS

Jovens de todas as idades poderão encontrar no website do grupo cartilhas, vídeos e outros materiais que serão produzidos especialmente para eles, "a fim de formar um exército de estudantes com pensamento liberal-conservador para que possam disseminar esse conteúdo em sala e fazer oposição a qualquer discurso da esquerda no ambiente estudantil", afirma D'Eyrot. Também poderão encontrar e formar núcleos dentro de suas instituições de ensino. Contudo, a formação de núcleos estará restrita para alunos a partir do quinto ano do ensino fundamental 2 até universitários.

A decisão de lançar a nova vertente do grupo vem num momento de avanço do projeto do Escola sem Partido na Câmara dos Deputados. O projeto, apoiado pelo MBL, é defendido como uma forma de frear a doutrinação dentro da sala de aula, mas críticos o enxergam como uma tentativa de censurar e perseguir a professores. Como o MBL Estudantil vai se posicionar com relação ao projeto e dialogar com os professores? "Um não anula o outro", argumenta D'Eyrot, para quem o projeto que tramita na Câmara "mostrará aos estudantes que eles têm o direito de receber um educação livre de vieses, que seus professores não podem utilizar os espaços acadêmicos para disseminar suas ideologias". Nesse sentido, explica, o MBL Estudantil pretende "promover uma conscientização" dos alunos. Se "os professores insistirem em levar suas ideologias para as salas, terão de debater com os alunos, que estarão capacitados para refutar suas ideias e prontos para impedir que os demais sejam doutrinados em sala de aula", argumenta.

O braço estudantil foi lançado durante o 4º Congresso Nacional do MBL, realizado em São Paulo nos dias 23 e 24 de novembro. Ainda não está claro se vai participar de eleições na União Nacional dos Estudantes (UNE) ou na União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES), conforme chegou a admitir Renan Santos ao Buzzfeed: "Vamos concorrer para encerrar a UNE, abrir as contas da UNE, mostrar tudo e fechar a entidade. E, se estudantes quiserem organizar uma coisa nova, que criem após assembleia realmente democrática. E nós nem disputaremos. Eles começam algo do zero e nós saímos". D'Eyrot desconversa. Diz que não é a prioridade, mas que "pode acontecer". Em outro momento, diz que a questão ainda está em discussão e que o MBL não acredita "em uma representatividade universal dos estudantes como a UNE se propõe". E acrescenta: "Em especial, não acreditamos que este tipo de entidade deva ser financiada com rios de dinheiro público e que, ao invés de representar os estudantes, se preste exclusivamente a fazer militância de esquerda. Se pudermos acabar com a UNE, ótimo".

Por enquanto, a ideia é que seja um modelo "o mais abrangente possível". A decisão de lançá-lo veio a partir da constatação de que "os estudantes não se sentem representados por ninguém". A referência é a UNE, principal e mais antiga entidade estudantil brasileira, lançada em 1938 para representar os alunos do ensino superior. Vinculada historicamente a partidos de esquerda, foi responsável por lançar alguns de seus principais quadros na política, como o deputado federal Orlando Silva (PCdoB) e os senadores Lindbergh Farias (PT-RJ) e José Serra (PSDB-SP) —este último presidia a organização em 1964, na ocasião do golpe militar, e acabou exilado junto com outros estudantes.

"Alguém sabe dizer alguma conquista [da UNE]? Nenhum estado atingir as metas do IDEB? Queda atrás de queda do Brasil em rankings internacionais?", questiona D'Eyrot, que cita índices relativos ao ensino básico. "Nas redes sociais, milhares de estudantes pedem todos os dias a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar as contas UNE, não foi necessário muito esforço para ver o desejo dos estudantes de um movimento que faça a voz deles serem verdadeiramente ecoadas".

Na manhã do último dia 23, a fila para participar do primeiro dia do 4º Congresso Nacional do MBL, numa casa noturna da avenida Francisco Matarazzo, estava repleta de jovens aos quais o grupo pretende atrair para suas fileiras. Com ingressos esgotados, o evento proporcionou o chamado MBL Experience. O EL PAÍS não foi autorizado a estar no evento sob a justificativa de que as credenciais de imprensa haviam se esgotado, mas o Buzzfeed descreveu a novidade como uma espécie de curso de formação misturado com entretenimento em que se passou táticas e comunicação e de organização de manifestações, além de diretrizes sobre como esses jovens deveriam se portar para ganhar voz no mundo político. Em determinado momento, conta o Buzzfeed, D'Eyrot reivindicou diante de uma plateia de quase 1.000 pessoas o legado da contracultura e da rebeldia de décadas atrás. "Nós somos os punk rockers, nós somos os subversivos de hoje. Quando falamos da biologia, que existe homem e mulher, e não 50 gêneros, estamos sendo subversivos", defendeu.

"O MBL Experience faz parte de todo o universo MBL, não somente ao MBL Estudantil", explica D'Eyrot ao EL PAÍS. "Porém, como percebemos que o público mais jovem curtiu o estilo, a partir do próximo ano, nossos congressos estaduais levarão o MBL Experience por todo o Brasil (assim como diversos outros eventos que estamos organizando) com atividades para os estudantes", acrescenta.

O MBL também pretende se transformar em um partido, ainda que as fórmulas para se chegar a isso ainda não estejam definidas. Uma opção é fundar um partido do zero, o que exigiria um longo caminho a percorrer para cumprir as exigências da Justiça Eleitoral. O mais viável, segundo adiantou algumas de suas lideranças para a Folha de S. Paulo, seria adotar alguma legenda que não tenha passado na cláusula de desempenho. "Estamos amadurecendo e analisando as propostas e alternativas", explica D'Eyrot. A ideia é antiga, mas parece ter ganhado novo impulso após uma viagem do núcleo duro do grupo a um sítio em Jundiaí, onde, conforme relatou a Folha, ficaram offline para repensar as estratégias e rumos pós-eleições. D'Eyrot disse que o encontro foi produtivo, mas prefere não dar mais detalhes por agora. "Há vantagens e desvantagens em se ter um partido. Estamos amadurecendo e analisando as propostas e alternativas".

Publicamente o MBL promete manter sua independência do governo Bolsonaro, a cuja candidatura só aderiu completamente a partir do segundo turno. Antes disso, o movimento tentou alavancar o então prefeito João Doria, que queria a presidência mas acabou se elegendo para o governo do Estado. Depois, defendeu abertamente a pré-candidatura de Flavio Rocha (PRB), dono da Riachuelo. Não vingou. Com o bolsonarismo vitorioso, diz apoiar a agenda de reformas de futuro ministro da Economia Paulo Guedes, um dos convidados do 4º Congresso Nacional, ao mesmo tempo que alguns de seus membros dizem não concordar integralmente com o presidente eleito.