Globo

Cacá Diegues: Cinema mais televisão

Não foram poucos os lançamentos da Globo Filmes que se tornaram sucessos artísticos e de bilheteria

A Globo Filmes é o braço cinematográfico do Grupo Globo. É ali que se ajuda a produzir e lançar filmes brasileiros com o apoio de nossa maior e mais competente empresa de televisão. Uma empresa que, há décadas, vem consolidando um formato de audiovisual que ela mesma inventou. Um formato que se tornou tendência popular majoritária de uma possível cultura brasileira contemporânea.

Quando a Globo Filmes nasceu, em meados dos anos 1990, criada por Daniel Filho, realizador bem-sucedido de filmes e novelas, era difícil determinar com exatidão seu papel, num cinema brasileiro que retomava a produção interrompida por Collor e o fim da Embrafilme. Havia, da parte dos cineastas, a desconfiança de uma estratégia para o monopólio de imagem e som no Brasil. E, da dos criadores da televisão, a dúvida sobre em qual braço se apoiariam no deslocamento para a nova aventura. Se no de uma fórmula de dramaturgia, estrelas populares e modo de produção, vitorioso no baita sucesso das novelas; ou se no sonho da experiência, fundado no mito da liberdade do cinema.

A primeira produção da Globo Filmes foi “Orfeu”, filme produzido por Renata Magalhães e Paula Lavigne, com dedicação absoluta de Daniel Filho, lançado pela Warner, em 1998. O filme inaugural reacendia o eterno debate sobre a prioridade do cinema brasileiro — se a de público ou de estima, do número de ingressos vendidos ou de prêmios recebidos. Uma discussão que a prática plural da Globo Filmes tornaria desnecessária.

Em setembro de 2013, no comando da produtora, Edson Pimentel me surpreendeu com o convite para que eu fizesse parte de seu comitê artístico. Eu participaria da discussão sobre os filmes a serem produzidos e trabalharia mais intensamente em alguns deles, como produtor associado. Edson, hoje um amigo querido e um profissional por quem tenho enorme admiração, era um veterano funcionário da casa, com autoridade para dizer o que devia ser feito. E o horizonte que ele projetava para o cinema brasileiro, através do que pretendia fazer da Globo Filmes, não estava distante do que sempre sonhamos.

A Globo Filmes se tornou uma das maiores e mais regulares produtoras do Brasil, com cerca de 25 longas-metragens anuais, além de 8 documentários. Ela tem hoje uns 150 filmes em diferentes estágios de produção, do desenvolvimento de roteiro ao lançamento comercial. Filmes que devem reproduzir, com qualidade e capacidade de provocar interesse, a diversidade da cultura brasileira, sua multiplicidade regional e étnica, geracional e ética, política e ideológica, estética e de comunicação etc. Não importa se como obra de arte indiscutível ou indispensável entretenimento.

Apesar da ganância de alguns agentes do comércio cinematográfico e das dificuldades institucionais de um governo que não se interessa pela atividade, não foram poucos os filmes da empresa que se tornaram, simultaneamente, sucessos artísticos e de bilheteria. Como “Bacurau” e “Minha mãe é uma peça 3”, os dois em cartaz.

O primeiro, um filme de vários gêneros, que interpreta, com brilho reconhecido, o estado de espírito da cultura e da política brasileiras de hoje. Um filme que não recebeu uma só crítica desfavorável na imprensa e nas redes, com quase um milhão de espectadores, que não serão certamente o seu limite. O outro, uma franquia capaz de fazer 10 milhões de espectadores, superando blockbusters e sendo, ao mesmo tempo, uma fábula moderna sobre a formação da família. Uma comédia de costumes que nos ensina a amar sem impedimentos, com o amor que os que nos amam merecem de nós.

Aliás, sinto-me recompensado pelo belo novo filme de Júlio Bressane, um de nossos mestres nem sempre reconhecido. Vi essa semana “Capitu e o Capítulo”, a última produção que acompanhei na Globo Filmes. Uma despedida feliz que me deixa partir em paz.

A Globo Filmes é hoje mais que um player na economia do cinema brasileiro. Ela é uma parceria estratégica para o crescimento e a consolidação dele. Me orgulho de ter estado nessa construção, ao lado de criadores como Daniel Filho, Guel Arraes, Fernando Meirelles, Daniel Burman, José Alvarenga, Jorge Furtado, Rosane Svartman, Simone Oliveira, tantos outros. Graças a eles, aproximaram-se cinema e televisão realizando, pela primeira vez no Brasil, uma integração orgânica para que cresçamos como uma coisa só.

Deixo a Globo Filmes para cuidar da minha vida. Tenho certeza de que contribuímos decisivamente para o audiovisual do país, com o apoio do Grupo Globo e sua disposição de avançar nas relações entre cinema e televisão. Sem tal solidariedade, não teríamos conseguido o que conseguimos, num capítulo tão importante de minha vida de cidadão e cineasta brasileiro.


Demétrio Magnoli: A sorte dos presidentes

Morales dissolveu a independência do Judiciário e do tribunal eleitoral

Evo Morales caiu — e fugiu. Nicolás Maduro resiste, contrariando tantos prognósticos. Sebastián Piñera, ainda em palácio, enfrenta a tempestade. A sorte dos presidentes depende menos da têmpera de cada um e mais da natureza dos sistemas políticos nacionais.

Na Bolívia, o golpe foi um contragolpe. Seguindo o roteiro do populismo caudilhista, Morales violou as regras do jogo democrático para se eternizar no poder. Em busca de um quarto mandato, rasgou a Constituição e, com o auxílio de uma corte suprema curvada à vontade do caudilho, ignorou o resultado do plebiscito popular que lhe negara a terceira reeleição. O golpe em câmera lenta conduzido por Morales concluiu-se com as irregularidades constatadas no primeiro turno, que provocaram a onda de manifestações oposicionistas.

Um ciclo de protestos populares, a chamada “guerra do gás”, forçou a queda do presidente Carlos Mesa, em 2005. Morales dirigiu aquele movimento, que abriu caminho para seu triunfo eleitoral original. Mesa preferiu renunciar a chamar os militares para reprimir o povo, como fizera o antecessor, Sánchez de Lozada. Agora, Morales caiu vítima de eventos similares, com a diferença de que investiu no recurso à repressão. Mas, e aí está a distinção fundamental, um pronunciamento militar funcionou como gota d’água para a renúncia. Contragolpe, portanto, o que não deixa de ser um golpe.

Na sua marcha autoritária, Morales dissolveu a independência do Judiciário e do tribunal eleitoral. Contudo, apesar de ensaios nessa direção, não chegou a consolidar seu controle sobre as Forças Armadas. O chavismo venezuelano, pelo contrário, montou um “regime cívico-militar”, convertendo a cúpula das Forças Armadas em sócia integral do poder ditatorial. A fidelidade dos chefes militares, testada em circunstâncias extremas, salvou o governo de Maduro — e lançou o país num transe caótico.

A democracia cumpre, entre outras, a função crucial de promover transições pacíficas de governo. Nela, em geral, presidentes só têm seus mandatos abreviados por meio de impeachment, um instrumento legal de última instância. A queda de Mesa, em 2005, refletiu a fraqueza estrutural da democracia boliviana. A democracia chilena é mais forte, o que explica a resiliência de Piñera.

A principal exceção à regra da transição democrática registra-se nos casos em que, desafiados por manifestações populares, os governantes desatam uma repressão violenta. Aí, presidentes correm o risco de cair, como ocorreu com Sánchez de Lozada, em 2003 —ou, antes, na Argentina, com Fernado de la Rúa, em 2001.

No início, Piñera enveredou por esse caminho, não distinguindo a massa de manifestantes pacíficos das franjas de grupos extremistas que se engajam em incontáveis atos de vandalismo. O presidente, além disso, convocou os militares para conter os protestos, rompendo um tabu derivado dos traumas da ditadura de Pinochet. Depois, acuado, desculpou-se perante a nação e iniciou um diálogo político destinado a refazer o contrato social. Talvez, graças à solidez das instituições democráticas chilenas, escape do destino que ceifou De la Rúa e Sánchez de Lozada.

Um dia, Maduro cairá — e, provavelmente, seus entusiastas na esquerda latino-americano descreverão o processo como um golpe. Se Piñera vier a renunciar, Jair Bolsonaro gritará “golpe!”. Facções opostas do espectro ideológico disputam a caracterização da renúncia forçada de Morales. Tudo isso é normal no campo das narrativas políticas. Mas, apesar de tudo, das histórias divergentes dos três presidentes, extrai-se uma lição de validade universal.

A lição é que o termo “golpe” só se aplica a sistemas democráticos. O golpe é a interrupção da regra do jogo sucessório. Fora da democracia, em ditaduras abertas ou em regimes semiautoritários, o jogo sucessório não obedece a regras claras de aceitação geral. Aí, surgem o “golpe dentro do golpe”, o “contragolpe”, a “revolução popular”. Morales não tem do que reclamar. Já os bolivianos merecem a reconstrução da democracia, não um regime autoritário apoiado no pretexto da retribuição.


O Globo: Por que o país não cresce? Entenda como a engrenagem do PIB parou  

Economia voltou a ficar no vermelho no 1º trimestre deste ano, com queda de 0,2%

Luciana Rodrigues, Daiane Costa e Gabriel Martins

RIO - Depois de dois anos seguidos em expansão, a economia brasileira voltou a ficar no terreno negativo no primeiro trimestre. O IBGEinformou nesta quinta-feira que oProduto Interno Bruto ( PIB , conjunto de bens e serviços produzidos no país) recuou 0,2% entre janeiro e março .

A queda do PIB, depois de um período de fraco crescimento — a economia cresceu só 1,1% em 2017 e repetiu essa baixa expansão em 2018 — já leva alguns economistas a avaliarem que o país vive um quadro contínuo de estagnação e outros a não descartarem sequer o risco de o Brasil cair numa depressão .

Indicador síntese da atividade econômica, o PIB reflete a falta de ânimo de consumidores e empresários e a crise fiscal do governo. Entenda, abaixo, como a engrenagem da economia brasileira parou.

CONSUMIDOR
Sérgia Monteiro, de 49 anos, perdeu o emprego como secretária em 2015 e desde então mantém a casa com o dinheiro das encomendas de doces que faz e o salário do filho mais velho, que trabalha com inspeção veicular.

Do ano passado para cá, porém, viu a clientela cair por conta da crise. E precisou cortar despesas e adaptar as compras de mercado para não fechar o mês no vermelho:

— Cheguei a pedir dinheiro emprestado para conseguir pagar as contas. Tive que cancelar o telefone residencial e mudar o pacote da TV a cabo para um mais básico. No mercado, só compro as marcas mais baratas ou que estão em promoção — explica a moradora de Bonsucesso, na Zona Norte do Rio.

No Brasil, a economia é muito dependente do consumo das famílias. Os gastos de 210 milhões brasileiros respondem por mais de dois terços do PIB, com um peso de 64% na geração de renda do país. Ou seja, quando as famílias têm que cortar suas despesas, é muito difícil o país crescer.

Com mais de 13 milhões de brasileiros desempregados e 62,3 milhões de consumidores com contas em atraso, as famílias estão sem fôlego para consumir. Mesmo quem está empregado e sem dívidas é afetado pelo clima econômico ruim e se mantém cauteloso nos gastos.

O índice de confiança dos consumidores brasileiros, que chegou a subir entre outubro de 2018, logo após as eleições, e janeiro deste ano, em meio a uma expectativa de melhora na economia, voltou a cair em fevereiro e há três meses está em queda.

COMÉRCIO
Com os consumidores apertando os cintos, as lojas vendem menos. O comércio viu suas vendas cresceram só 1,3% nos últimos 12 meses.

Na loja de bijuterias Biju Prime, no Centro do Rio, o movimento está bem fraco, segundo Claudio Vaz, gerente do local.

— Desde de 2016, é só ladeira a baixo. Todos os anos as despesas aumentam, por conta dos reajustes, mas as vendas caíram 50%.

Vaz conta que precisou demitir funcionários e tentar reduzir a conta de luz, economizando no ar-condicionado da loja, que fica no centro de comércio popular Saara.

— Não sei onde está o crescimento, até agora estou esperando a melhora no comércio — diz Vaz.

No ano passado, o varejo teve um alívio e chegou a abrir 11 mil lojas pelo país — número pequeno se comparado a um total de 220 mil pontos de venda fechados entre 2014 e 2017.

Mas, este ano, segundo levantamento da confederação do setor, os empresários do comércio voltaram a sofrer com a crise e, de janeiro a março, 39 lojas encerraram suas atividades.

O setor de serviços, que além do comércio engloba atividades como educação, saúde e transportes, tem peso de 73% no PIB e só consegue crescer quando aumenta o consumo dos brasileiros.

INDÚSTRIA
Se o consumidor não gasta e o comércio não vende, a indústria não produz. O setor industrial foi o mais afetado pela crise e cresceu só 0,6% no ano passado.

À frente da fábrica Plastlab, que construiu há 28 anos em Madureira, na Zona Norte do Rio, o empresário Marcelo Oazen já chegou a fabricar 130 toneladas por mês de  plásticos variados. Hoje, sua produção é de 40 toneladas mensais. Os plásticos e derivados são vendidos para hospitais, companhias aéreas e comércio em geral.

No auge, ele chegou a empregar 82 trabalhadores, mas demitiu 22 funcionários.

— Há oito anos, no pico de produção, produzíamos muito para multinacionais que acabaram saindo do país.

A indústria muitas vezes avança puxada pelas exportações, porque não depende só da demanda dos brasileiros para produzir mais. Porém, com a crise na Argentina (principal mercado para as exportações industriais do Brasil) e a guerra comercial, o cenário externo também não está favorável.

A Plastlab, de Madureira, fornecia para multinacionais instaladas no Brasil e que deixaram o país na crise. Este ano, o empresário Marcelo Oazen acredita em alguma recuperação do setor, porque conseguiu novos clientes e, por isso, contratou dois funcionários.

Marcelo Oazen, dono da fábrica de plásticos Plastlab, no Rio, mostra um de seus produtos: empresa teve de cortar funcionários Foto: Marcos Ramos / Agência O GloboMarcelo Oazen, dono da fábrica de plásticos Plastlab, no Rio, mostra um de seus produtos: empresa teve de cortar funcionários Foto: Marcos Ramos / Agência O Globo

Além da indústria de transformação, tem grande peso no Brasil o setor extrativo, principalmente petróleo e minério de ferro.

Mas a produção de petróleo tem crescido a passos lentos. E a extração de minério de ferro deve ser menor do que o previsto este ano com a suspensão das atividades em várias minas da Vale, após a tragédia de Brumadinho.

Com peso cada vez menor no PIB brasileiro, a indústria hoje responde por 21% da geração de riquezas no país, mas é considerada uma atividade chave para a geração de empregos de melhor qualidade e para impulsionar outras atividades, como os serviços.

A falta de perspectiva de que a economia vá reagir impede que os empresários elevem sua produção ou façam novos investimentos para ampliar sua capacidade produtiva. Depois de atingir 99 pontos em fevereiro, a confiança da indústria voltou a cair em maio para o patamar de 97 pontos. Índices abaixo de 100 são considerados pessimismo.

Muitos executivos afirmam que apenas após a aprovação de uma agenda de reformas, como a da Previdência e tributária, a confiança da indústria será restaurada.

GOVERNO
Com os brasileiros gastando menos, o comércio reduzindo as vendas e a indústria pisando no freio, a arrecadação de impostos pelo governo não avança. Em abril, descontando os royalties de petróleo, a arrecadação de tributos federais recuou 0,34%.

E este é apenas um dos problemas fiscais do país, que deve caminhar para ter o sexto déficit consecutivo nas contas públicas este ano.

A previsão é que o rombo em 2019 fique em R$ 132 bilhões e o resultado permaneça no vermelho pelo menos até 2022. Especialistas afirmam que, sem a reforma da Previdência, o quadro levará a um colapso da máquina pública, com o governo ficando sem dinheiro para as despesas mais básicas.

O governo já reduziu drasticamente os investimentos públicos nos últimos anos. Em 2018, foram investidos apenas R$ 27,88 bilhões, ou 0,4% do PIB, o menor patamar em dez anos.

CONSTRUÇÃO CIVIL
O corte nos gastos do governo e a redução nas despesas das famílias afetam em cheio a construção civil. O setor, importante empregador de mão de obra, é um termômetro importante dos investimentos do PIB.

A construção civil reflete tanto os investimentos do governo em obras públicas, como os feitos por indústrias na instalação de novas fábricas ou ampliação de unidades existentes. E também o que é gasto pelas famílias na compra de novas moradias, cifra que é considerada investimento, e não consumo, nas estatísticas do PIB.

Para contornar a crise no setor, a construtora paulistana de alto padrão Vitacon precisou requalificar seus empreendimentos para evitar ter que adiar obras ou cancelar projetos.

— Optamos por produtos com valores unitários mais baratos. Para isso, investimos em metragens menores ou em metros quadrados mais em conta, para atrair o maior número possível de pessoas — explica o CEO da companhia, Alexandre Lafer Frankel.

Em 2018, o setor de construção teve o pior desempenho do PIB, com queda de 2,5%. A taxa de investimento do Brasil está em 15,8%, perto de suas mínimas históricas.

AGROPECUÁRIA
Setor que vem mantendo um bom desempenho, a agropecuária reage muito mais a fatores externos, como maior demanda de alimentos da China, e a condições naturais, como a competitividade elevada do Brasil no segmento e o clima particularmente favorável em alguns dos últimos anos.

Em 2019, a agropecuária tende a apresentar bons resultados novamente. Segundo a mais recente previsão de safra agrícola do IBGE, o Brasil deve produzir 230 milhões de toneladas de grãos este ano, o segundo melhor resultado da série histórica.

Com peso muito pequeno no PIB, de apenas 5%, a agropecuária, quando vai bem não consegue puxar outros setores da economia.  (Colaboraram: Bárbara Nóbrega e David Barbosa, estagiário, sob supervisão de Luciana Rodrigues)

Fonte: IBGE, SPC/CNDL, FGV, CNC


Míriam Leitão: Erros e improvisos do novo governo

Governo fala dos seus planos antes de formulá-los e já colheu a primeira derrota no Senado, que concedeu reajuste ao Judiciário

O novo governo parece estar sempre improvisando em cena aberta. Ontem o presidente eleito Jair Bolsonaro falou em acabar com o Ministério do Trabalho, depois em dividi-lo em três partes. Na véspera, o futuro ministro da Economia falou em dar uma “prensa” no Congresso e assim a administração nem começou e já colheu a derrota da aprovação do reajuste do Judiciário. Toda transição pode ter idas e vindas, mas não se pode anunciar um plano de governo antes de formulá-lo.

Na campanha eleitoral houve pouco esclarecimento sobre o programa do candidato que venceu as eleições. O que foi divulgado cumpria a formalidade da legislação eleitoral, mas continha algumas ideias que têm sido de fato desenvolvidas. O ataque à faca sofrido pelo candidato interrompeu e silenciou a campanha. Depois, o pouco falar foi parte da estratégia para não perder eleitores. Isso fez com que o país escolhesse sem um adequado conhecimento das ideias da candidatura. Bolsonaro se elegeu em parte pelo antipetismo, em parte pela ilusão de solução simples para problemas complexos, como a liberação de armas para superar a crise na segurança.

Nesses dias pós-eleitorais tem havido uma sucessão de ideias lançadas, e das quais se recua logo depois. Ontem, o próprio Bolsonaro afirmou que acabaria com o Ministério do Trabalho, depois que o dividiria em três. O problema é que o Brasil está enfrentando neste momento a pior crise do seu mercado de trabalho, com 12,5 milhões de desempregados e 4,8 milhões de pessoas que integram o grupo do desemprego por desalento. Neste ponto de fragilidade, um dos riscos de uma mudança atabalhoada é enfraquecer a fiscalização contra o trabalho análogo à escravidão e o trabalho infantil. A ideia de que essa fiscalização fique dentro de um Ministério da Família pode simplesmente não dar certo. É arriscado também desorganizar programas sociais como o seguro-desemprego.

O governo se elegeu avisando que reduziria o número de ministérios e está fazendo isso, mas talvez fosse mais sensato fazer a reforma primeiro e anunciá-la de forma concatenada. O superministério econômico, como já disse aqui, pode dar certo se o ministro Paulo Guedes conseguir bons quadros para administrar as áreas-chave como Orçamento e Gestão e souber gerir os muitos assuntos que ficarão sob seu comando. O setor empresarial está pressionando para se criar o Ministério da Produção para sair da área de influência de Guedes, mas se acontecer isso estará sendo quebrada a ideia original do Ministério da Economia.

O movimento que levou o juiz Sérgio Moro para dentro do governo foi bem-sucedido e há grande expectativa em torno do trabalho que o futuro ministro fará, e que ele explicou em entrevista concedida na terça-feira, de forma organizada e cortês. A ideia de manter o presidente da Petrobras, Ivan Monteiro, se for confirmada, será outro acerto da administração Bolsonaro. O governo Temer tem recebido os representantes da nova equipe com informações, dados, transparência num esforço que vinha sendo preparado desde a campanha e que será muito útil para quem chega.

Contudo tem havido ruídos demais. No começo da semana, Bolsonaro chamou de “farsa” o índice de desemprego, ofendendo o IBGE e mostrando desconhecimento de como o índice é calculado. O Instituto tem 82 anos de bons serviços prestados ao país e reconhecimento internacional. Depois, Bolsonaro repetiu uma afirmação que fez várias vezes na campanha e que poucos prestavam atenção. Falou em renegociar a dívida interna. O futuro ministro Paulo Guedes teve que negar que tenha qualquer intenção de fazer isso. Ontem, uma fala de Guedes é que precisou ser explicada, a que ele sugere que se dê uma “prensa” no Congresso.

Antes de pressionar quem quer que seja, o governo primeiro precisa decidir que reforma quer aprovar. Bolsonaro tem falado em reduzir a idade mínima da reforma da Previdência que tramita no Congresso para 62 anos, e afirmou que não se pode “quebrar contrato” com quem trabalhou e contribuiu. O projeto que passou pela Câmara, sob ataque de alguns dos aliados de Bolsonaro, inclusive o futuro chefe da Casa Civil, tem regra de transição lenta, e não está quebrando contrato. A forma mais certa de perder uma votação é o governo estar dividido sobre o que realmente quer de um projeto.


Merval Pereira: De volta ao começo

Exemplo básico da falência de nosso sistema partidário é a posição atual de PT e PSDB, as duas legendas que predominavam na política brasileira nos últimos 25 anos e hoje correm o risco de não estarem nem no segundo turno. Curiosamente, tanto um partido quanto o outro estão revendo posições que os colocaram na liderança política do país.

O PSDB, embora envergonhado, volta a cobiçar como parceiro o velho MDB, com todos os seus vícios históricos. E o PT une-se ao PSOL, que nasceu da sua costela em 2005 por divergências programáticas e devido às acusações de corrupção.

O partido que havia procurado ampliar seu eleitorado indo da esquerda para o centro, e com isso elegendo Lula presidente em 2002, hoje volta às suas raízes radicais ao ter como uma possibilidade de aliança política o candidato do PSOL à Presidência da República, Guilherme Boulos, líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

De quebra, a aliança demonstra também que o PSOL, que se manteve em posição de independência durante os governos Lula e Dilma, não resiste à possibilidade de chegar ao poder central com Lula na cadeia, fora do páreo.

As denúncias de corrupção envolvendo o PT, que levaram vários de seus fundadores a sair do partido, são muito mais graves hoje, com o escândalo da Petrobras sendo desvendado pela Operação Lava-Jato, do que na época do mensalão, que provocaram lágrimas de dissidentes petistas que saíram para entrar no PSOL.

O governo de Michel Temer em substituição ao da petista Dilma, impedida pelo Congresso, foi o detonador das alianças políticas que hoje marcam os dois antigos protagonistas da luta partidária no país.

O PSDB nasceu do PMDB por divergências políticas graves de grupos dissidentes, que não concordavam com a direção fisiológica do partido, liderado então pelo governador de São Paulo Orestes Quércia. Criado em 1988, chegaria ao poder em 1994 a bordo do Plano Real, com Fernando Henrique à frente do Ministério da Fazenda do governo Itamar Franco.

Já o PT, fundado em 1980, começou a ganhar corpo em prefeituras pelo país, chegou ao segundo turno da eleição de 1989 com Lula e ao poder em 2002, substituindo o PSDB.

O impeachment da então presidente Dilma fez com que os tucanos assegurassem a estabilidade política de Michel Temer, que assumiu o governo legitimamente. Mas a vida no poder, de onde estava afastado há 13 anos pelas vitórias sucessivas do PT, não deixou que os tucanos reagissem com firmeza à divulgação do áudio nada republicano da conversa do presidente Temer com o empresário Joesley Batista.

Até hoje está no governo, representado pelo senador Aloysio Nunes Ferreira no Ministério das Relações Exteriores, e o senador Aécio Neves, ex-presidente do partido, acusado de corrupção e obstrução de Justiça no Supremo Tribunal Federal, é interlocutor direto do presidente.

O candidato do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, busca a todo custo o apoio do MDB à sua candidatura, que não decola. Um apoio envergonhado, é verdade, que não quer se expor à luz do sol, mas é considerado imprescindível.

Já o PT, atordoado pela prisão de Lula e sua inviabilização como candidato à Presidência da República pela Lei da Ficha Limpa — devido à condenação em segunda instância —, busca apoios na esquerda extremista, que sempre foi sua caudatária. Em vez de impor o equilíbrio centrista que o levou ao poder, volta a ser o partido radical que nunca chegou ao poder, embora tivesse o apoio de cerca de 30% do eleitorado, o mesmo índice que hoje tem Lula nas pesquisas.

O PSOL é uma dissidência do PT. Nasceu quando grupos internos se opuseram à Reforma da Previdência proposta pelo governo Lula em 2003. Fundado em julho de 2004, obteve registro no dia 15 de setembro de 2005, mesmo ano em que foi reforçado por outra leva de dissidentes petistas, que saíram do partido, em meio a choros e ranger de dentes, devido às denuncias de corrupção contra o governo Lula, que se transformaram no processo do mensalão.

O impeachment de Dilma aproximou os dois partidos por uma razão contrária à que aproximou novamente PSDB e MDB. Guilherme Boulos é um dos que tenta abocanhar parte da votação de Lula, mostrando-se um de seus mais fervorosos defensores. E Geraldo Alckmin, também à busca de votos do MDB, quer ser o representante do centro político.


Cristovam Buarque: O golpe do golpe

Nas últimas semanas, o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, suspendeu 15,2 mil professores e funcionários do Ministério da Educação, revogou licenças de mais de 20 mil professores de escolas particulares, demitiu 2,7 mil juízes e promotores, fechou cerca de mil instituições de ensino, suspendeu 8,7 mil oficiais, obrigou 7,9 mil policiais a entregar suas identidades e prendeu 10,9 mil oficiais e soldados. Tudo isto feito em nome de se opor a uma tentativa de golpe que parece uma narrativa operística.

Por falta de um general para apresentar como o comandante golpista, Erdogan responsabilizou um filósofo religioso, de 75 anos de idade, doente, morador dos EUA desde 1999, de nome Fethullah Gülen, que teria insuflado contra o governo os voluntários do Hizmet, movimento social inspirado por ele, décadas atrás. Gülen defende um Islã democrático, aberto ao diálogo com outras religiões; aliado ao presidente Erdogan, afastou-se ao perceber o grau de corrupção que rodeava o governo, passando então a ser perseguido.

O movimento Hizmet, iniciado pelo jovem Gülen, define a prestação de serviço à comunidade como o eixo central do Islã: “Servir às pessoas para servir a Deus”, é a frase que ele usa. O Hizmet não tem organização formal, hierarquia ou organograma e se materializa sob a forma de movimento de pessoas independentes, que se unem pela mística da prestação de serviços à comunidade. Até semanas atrás, em Istambul, havia uma “sala de situação” mantida por simpatizantes do Hizmet para acompanhar catástrofes no mundo inteiro, maremotos, terremotos, epidemias, contando, no subsolo, com equipamentos necessários e apropriados para atender às vítimas, onde ocorre a tragédia.

Graças ao “sentimento Hizmet”, a Turquia dispõe de dezenas de universidades criadas com doações feitas por empresários; centenas de escolas espalhadas por diversos países. Na fronteira entre Turquia e Síria, a poucos quilômetros de Aleppo, visitei um acampamento que recebe milhares de fugitivos da guerra, atendidos por voluntários do Hizmet, oferecendo-lhes comida, habitação e proteção. Hoje, todos estes serviços estão fechados.

O presidente Erdogan vinha reprimindo em pequenas doses estas ações, desde quando o líder intelectual e religioso Gülen se afastou de seu governo, e os jornais, cujos donos são simpatizantes da filosofia Hizmet, denunciaram corrupção por parte de pessoas do governo e de familiares do presidente. Foi preciso usar a narrativa de tentativa de golpe, para dar o golpe em grande escala contra seus opositores, especialmente aqueles que têm relações com o sentimento – movimento Hizmet e seu inspirador espiritual e intelectual.

Prática usada por Hitler ao se aproveitar do incêndio do Parlamento alemão em 1933. Esperemos que a ideia de criar uma narrativa de tentativa de golpe se limite à Turquia, tanto no que se refere à repressão política, quanto à intolerância contra dissidentes de opiniões oficiais. (O Globo – 06/08/2016)


Cristovam Buarque é senador (PPS-DF)


Cristovam Buarque: Assassinato do futuro

Na mesma semana do plebiscito que tirou o Reino Unido da União Europeia, conhecido como Brexit, uma pesquisa feita pelo professor Júlio Jacobo Waiselfisz, coordenador do Programa de Estudos sobre Violência da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), mostrou que no Brasil são assassinadas 29 crianças por dia, mais de dez mil por ano. Estes dois fatos representam o desprezo pelo futuro.

O Brexit é uma preferência pelo passado; a morte de crianças é nossa Braxit, um assassinato de portadores do nosso futuro. Há décadas, o Brasil faz sua Braxit, sem plebiscito, discretamente, por decisões ou missões silenciosas de seus políticos.

Raras decisões de um povo geraram tantos debates quanto o chamado Brexit. Talvez sejam necessárias décadas para termos pleno conhecimento das consequências desta decisão: ética, o fechamento daquele país aos imigrantes que buscam abrigo contra a pobreza e as guerras em seus países; econômica, perda de investimento e vantagens comerciais; política, isolamento de uma população de 65 milhões de habitantes diante de uma comunidade de 510 milhões; cultural, pela perda da oxigenação promovida pela convivência entre povos; histórica, isolamento em um tempo de inevitável marcha a integração e globalização.

Mas já é possível dizer que foi uma opção da maioria dos britânicos pelo passado. O perfil etário dos eleitores demonstra: 63% com mais de 60 anos votaram pela saída; 73% com menos de 30 anos votaram pela permanência. O futuro queria permanecer; o passado, sair.

A surpresa do voto dos britânicos não surpreende o Brasil. Há décadas, optamos por sair do futuro, preferindo ficar presos ao passado. Nossos investimentos, nossas estruturas não têm preferência pelo futuro, são usados sobretudo para pagar erros e dívidas do passado. Gastamos R$ 500 bilhões por ano com a Previdência e R$ 300 bilhões com a Educação. A maioria dos aposentados ainda recebe menos do que o necessário para atender todas as suas necessidades, mesmo assim, considerando o valor per capita, o passado recebe quase duas vezes mais do que recebe o futuro.

Em 2013, o setor público brasileiro fez um sacrifício fiscal de R$ 2 bilhões somente para promover a venda de automóveis; e de R$ 1,6 bilhões com incentivos fiscais para inovação tecnológica nas empresas. Em 2015, pagamos R$ 502 bilhões de juros por dívidas financeiras contraídas no passado e investimos apenas R$ 68,5 bilhões na construção de infraestrutura econômica no âmbito do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Gastamos mais com o passado do que com o futuro.

No dia seguinte ao Brexit, os eleitores do Reino Unido iniciaram o movimento por um Brain, uma reunificação com a União Europeia, mas o Brasil continua sem ao menos perceber nossa clara opção por fugir do futuro, nem se propondo a incorporar-se ao futuro: nosso Brain. Para tanto, são necessárias diversas reformas, mas sobretudo cuidar da educação das crianças. Nosso Brain quer dizer cuidar do cérebro de cada criança. (O Globo – 09/07/2016)


Fonte: www.pps.org.br


Cristovam Buarque: Esqueceram do Brasil

Nesta semana, ouvi um professor chileno dizer: “Tenho pena do Brasil”. Esta frase me incomodou mais do que as matérias sobre as tragédias brasileiras destes tempos sombrios. Ainda mais quando imaginei a pergunta que ele não fez: “Como vocês deixaram o Brasil chegar a esta situação?” Como senador, senti constrangimento por esta pergunta não feita, e pela resposta que daria: “Há décadas, os políticos não colocam o Brasil como o personagem central de suas decisões”. O Brasil tem sido preocupação de sociólogos, literatos, jornalistas, economistas, mas não dos políticos. A Lava-Jato está mostrando que alguns usam a política para o enriquecimento pessoal; outros, para financiar campanhas e continuarem com seus mandatos; os melhores fazem política servindo a desejos imediatos de grupos específicos dos eleitores que os apoiam; as leis são feitas para beneficiar trabalhadores, empresários, aposentados, servidores públicos, consumidores, mas raramente ao Brasil como um todo, no longo prazo.

Há parlamentares dos professores, não da educação; dos aposentados, não da aposentadoria; dos universitários, não da ciência e tecnologia; da assistência social, não da emancipação do povo; do apoio à indústria, não ao desenvolvimento industrial; dos médicos, não da saúde. Ao longo da história, querendo atender cada grupo no imediato, sem considerar o Brasil no longo prazo, relegamos a opção por prioridades: o resultado tem sido o aumento nos gastos públicos acima da disponibilidade de recursos e, em consequência, o endividamento e a inflação. A ausência do Brasil nas decisões políticas provoca um esquecimento da perspectiva de nação ao longo das décadas e séculos no futuro. Para beneficiar cada grupo, sacrificamos todos e o país. O debate sobre o impeachment é um exemplo de que “esqueceram o Brasil”. Com opção já tomada, defende- se a cassação ou a continuidade do mandato da presidente, sem aprofundar o debate sobre o que será melhor para o Brasil.

A disputa se dá entre os que desejam a continuidade do governo do PT, depois de 13 anos, mesmo sabendo dos riscos de a volta da irresponsabilidade fiscal desestruturar ainda mais as finanças públicas e de o corporativismo vir a desarticular ainda mais o tecido social e o futuro do Brasil; os outros não querem a continuidade do governo de Dilma, sem refletir sobre as consequências da interrupção do mandato do segundo presidente entre os quatro eleitos. Não há consideração sobre qual destas duas alternativas será capaz de consolidar nossa democracia, assegurar estabilidade fiscal e monetária, induzir o país na direção de uma economia produtiva, uma sociedade justa, um setor cientifico e tecnológico sólido, cidades eficientes, educação de qualidade igual para todos; não há consideração sobre qual será capaz de conduzir as reformas de que o Brasil necessita. Esqueceram do Brasil, esta é a causa de o Brasil dar pena em quem observa sua tragédia atual. (O Globo – 25/06/2016)


Cristovam Buarque é senador (PPS-DF)