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RPD || Lilia Lustosa: Tenet - O que passou, passou?

Lilia Lustosa nos brinda com a crítica de Tenet, de Christopher Nolan, filme que marca a reabertura das salas de cinema em quase todo o mundo e leva o espectador em uma jornada que mescla espionagem e ficção científica

O momento tão esperado pelos cinéfilos já é realidade: a reabertura das salas de cinema! E, como anunciado, o filme-símbolo deste retorno é o blockbuster de Christopher Nolan, Tenet (2020). Uma mistura de filme de espionagem com ficção científica, que é um verdadeiro quebra-cabeça cinematográfico!

Com lançamento marcado para 17 de julho, o filme só chegou às telonas do Brasil no fim de outubro e já ultrapassou os US$ 330 milhões de bilheteria mundial, pouco mais da metade do que estimava sua produtora, a Warner. As razões me parecem óbvias: salas funcionando abaixo da capacidade, horários reduzidos e alto custo para manter os protocolos de segurança em dia, para atrair espectadores ainda bastante temerosos.

Confesso que os números altos da Covid me intimidaram a encarar a sala escura pelas duas horas e meia que dura Tenet. Ao mesmo tempo, as tantas cadeiras vazias jogaram-me na cara, semicoberta pela máscara, a quantidade de empregos perdidos durante a pandemia. Entendi a real necessidade de campanhas como a #juntospelocinema e tantas outras organizadas mundo afora. Quando as luzes se apagaram, porém, esqueci-me da ficção-científica nossa de cada dia para mergulhar na de Nolan. Tenet me embalou, apesar de não me ter encantado, nem convencido. Não acho que seja seu melhor filme. Origem e Interestelar são superiores!

O diretor britânico parece ter errado a mão desta vez, exagerando na (aparente) complexidade da trama, através de uma fragmentação excessiva do tempo e da inserção da física quântica como elemento-chave para entender o desenrolar da história. Passei o filme inteiro tentando assimilar a tal de inversão do fluxo da entropia e nada… senti-me ignorante do começo ao fim. E olhe que gosto de filmes que exigem do meu intelecto! Mas acho que Tenet peca ao falar para um grupo muito seleto de espectadores, fazendo os demais se sentirem incapazes de adentrar à mente labiríntica do diretor.

A história, contextualizada em plena guerra fria, se passa em vários países (Inglaterra, Ucrânia, Índia, Noruega, Itália, Vietnã) e em tempos indeterminados, à exceção de um tal dia 14… O protagonista, interpretado por John David Washington (filho de Denzel Washington), é americano, não tem nome e não sabe muito bem qual é sua missão, cuja única referência é o palíndromo “Tenet”. Seu companheiro de aventura, Neil (Robert Pattinson), é igualmente misterioso e tudo que sabemos é que ele vai e volta no tempo na tentativa de encontrar a última peça de um algoritmo para salvar a humanidade de uma provável terceira guerra mundial.

A ameaça principal não é mais uma bomba atômica, mas sim uma tecnologia do futuro capaz de produzir armas de curso invertido e que permite ir e vir no tempo, possibilitando assim alterar o rumo da história. O vilão, Andrei Sator (Kenneth Branagh), um ucraniano violento, viu sua cidade ser destruída por um desastre nuclear e transformou essa energia em sua fonte de riqueza e loucura. Tornou-se um traficante de armas megalomaníaco, controlador compulsivo, mantendo relação perversa e destruidora com sua esposa Kat (Elizabeth Debicki), com quem tem um filho. Uma “viagem” até interessante, se Nolan não tivesse complicado tanto!

O grande senão de Tenet é não se aprofundar em nada, nem nas relações humanas, nem nas relações internacionais, nem nas questões ambientais que são, em teoria, uma das grandes motivações da trama. Os personagens são rasos, assim como os jogos políticos ali apresentados, deixando tudo muito na superfície. Uma combinação explosiva para distanciar o espectador da reflexão, mergulhando-o de vez na ação e nos efeitos especiais, que pedem de fato a tela grande, como Nolan tanto dizia. Nisso, ele acertou em cheio, já que a força de Tenet está justamente em seus efeitos inusitados e na estética de games empregada. O ritmo do filme também merece destaque, já que prende do começo ao fim, como costuma acontecer com bons filmes de ação. Porque Tenet é isso, um ótimo filme de ação! Certo faz quem escuta o conselho da cientista (ou de Nolan?) já nas primeiras cenas, ao explicar a inversão do fluxo da entropia para o filho de Denzel: “Não tente compreender, sinta!”

Ainda assim, pinçando algumas falas perdidas em meio a tantas balas invertidas, Tenet nos deixa a pergunta: o que poderíamos ter feito diferente no passado para evitar chegar onde estamos? Reflexão mais do que apropriada para 2020. Ora, o que passou, passou, o que está feito, está feito, mas isso não significa que não podemos tentar reparar erros cometidos. Em nossa real-ficção-científica, o ontem (ainda) não pode ser mudado, mas o hoje e o amanhã, sim!

*Lilia Lustosa é crítica de cinema.


Henrique Brandão faz homenagem aos 90 anos do poeta Ferreira Gullar

Em artigo na revista Política Democrática Online de outubro, jornalista destaca perfil do que chama de ‘homem de hábito simples’

Cleomar Almeida, assessor de comunicação da FAP

No mês de setembro deste ano, o poeta Ferreira Gullar completaria 90 anos. Não conseguiu receber as devidas homenagens. Faleceu em dezembro de 2016, dois meses depois de completar 86 anos, como lembra o jornalista Henrique Brandão. Em artigo na revista Política Democrática Online de outubro, ele lembra que o poeta, cujo nome de batismo era José Ribamar Ferreira, “era um homem de hábito simples”.

Clique aqui e acesse a revista Política Democrática Online de outubro!

A publicação é produzida e editada pela FAP (Fundação Astrojildo Pereira), sediada em Brasília e que disponibiliza todos os conteúdos, gratuitamente, em seu site. “Magro, com a cabeleira escorrida ao longo do rosto, o nariz adunco e as mãos expressivas – que gesticulavam sem parar enquanto falava – não passava despercebido onde quer que estivesse”, escreve Brandão sobre Gullar.

Além de poeta, Gullar foi jornalista, crítico de arte, ensaísta, artista plástico, cronista e dramaturgo. Participou ativamente do Concretismo e do Neoconcretismo, movimentos importantes no cenário da cultura brasileira, nos anos 1950. “Gullar entrou tarde na política. Já rompido com o Neoconcretismo, participava do Centro Popular de Cultura (CPC), ligado à União Nacional dos Estudantes (UNE), quando ocorreu o golpe de 1964”, lembra Brandão.

“Eu me filiei ao PCB [Partido Comunista Brasileiro] no dia do golpe de 64. Eu queria participar da resistência a um regime que se impunha ao país pela força”. Após o fechamento da UNE (União Nacional dos Estudantes), Gullar e seus companheiros fundaram o grupo Opinião, que, segundo Brandão, teve grande repercussão com suas peças e shows musicais.

Após o AI-5, em 1968, o regime militar apertou o cerco. “Sobrou para todo mundo que se opunha à ditadura, até mesmo para os comunistas ligados ao PCB, que não defendiam a luta armada. A essa altura, Gullar fazia parte do Comitê Cultural do PCB”, escreve o autor do artigo na Política Democrática Online.

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