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Ricardo Rangel: Que autocrítica é essa?

A presunção do PT e de suas linhas auxiliares (como o PSOL, onde está Chico) é a principal responsável pela eleição de Bolsonaro

Anteontem, Chico Alencar, ex-deputado federal pelo PT e pelo PSOL, publicou neste espaço o artigo “Desafios do PT aos 40 anos”, sobre as perspectivas do Partido dos Trabalhadores.

Chico afirma que, antes de 1980, os partidos eram “ajuntamentos de interesses aristocráticos”, mas que o PT “veio das praças para os palácios” e “chegou criticando experiências autoritário-burocráticas do ‘socialismo real’”. O PT de fato nasceu com a promessa de ser um partido democrático, mas até que ponto a cumpriu?

Em 1985, as forças progressistas apoiavam Tancredo Neves, um democrata, mas o PT, amuado com a derrota das Diretas Já, recusou-se a votar, preferindo o risco da vitória de Paulo Maluf, candidato da ditadura. E, “democraticamente”, expulsou os três petistas que votaram em Tancredo.

O PT votou contra a Constituição “cidadã” que ajudou a escrever — e quase não a assinou. Em 1989, contra Collor, o PT “democraticamente” cindiu os brasileiros entre “nós” (os virtuosos) e “eles” (a direita, os canalhas, a elite branca de olho azul, os coxinhas, os fascistas), periodicamente reeditando a polarização.

O PT combateu o Plano Real, recusou uma aliança natural com o PSDB, colou no partido a etiqueta “direita”, fez uma oposição sistemática ao governo FHC. Lutou pelo impeachment de todos os presidentes não petistas, e não criou liderança relevante além daquele que, até da cadeia, é o chefe supremo. O partido “dos trabalhadores” vota contra a reforma do Estado e a favor dos privilégios das corporações (a nova aristocracia), enquanto defende o “socialismo real” de Cuba e Venezuela e advoga o “controle social” da mídia, dita “golpista”.

Segundo Chico, ao chegar ao poder, o PT “fez alianças desconsiderando fronteiras éticas, mais pragmáticas que programáticas”, e falhou na “construção de uma ‘nova gramática’ do poder, inclusive na formulação de uma política econômica alternativa”.

Os defeitos do PT vêm de antes da chegada ao poder (resultante, em parte, do apoio do PTB, comprado com dinheiro vivo), mas Chico é um tanto injusto em sua “crítica”. Corrupção costuma ser coisa desorganizada, cada um roubando como pode; já corrupção planejada, operada de forma centralizada pelo Palácio do Planalto, com mesada para parlamentar e objetivo estratégico, é uma “‘gramática’ do poder” que “nunca antes neste país” se viu. Já a “nova matriz econômica” — que atirou o país na maior recessão de todos os tempos e criou desemprego recorde — é, sem dúvida, uma “política econômica alternativa”.

O ex-deputado afirma que “a direita viralizou a falsa ideia de que a corrupção sistêmica, estrutural e antiga de 500 anos tinha sido inaugurada pelo petismo”, e que, com isso, “parte da população passou a perceber o PT como um partido igual aos demais”. Pelo jeito, é errado achar que quem rouba como os demais é igual aos demais. Mas isso de pôr o Legislativo na folha de pagamento do Executivo, num atentado à separação de Poderes e à democracia, não tem 500 anos: foi inaugurado pelo petismo, mesmo. Chico é um homem íntegro, mas não teria saído do partido por uma banalidade.

Chico alerta que “a boa tradição [da autocrítica] da esquerda precisa ser revitalizada”, e isso é “tão importante quanto constituir uma frente democrática, progressista e antifascista”. O problema é que a esquerda brasileira, quando faz autocrítica, sempre chega à conclusão de que não fez nada muito errado e segue, altaneira, no mesmo caminho. Ora, se, como diz Chico, a corrupção petista é “antiga de 500 anos” e a política econômica não foi “alternativa”, que erros é preciso reconhecer? De comunicação?!

Enquanto a esquerda não desapegar de Lula e reconhecer que o mensalão e o petrolão foram monstruosidades e que a política econômica petista foi catastrófica, não haverá “frente democrática, progressista e antifascista”.

A presunção do PT e de suas linhas auxiliares — como o PSOL, onde está Chico — é a principal responsável pela eleição de Bolsonaro. Que, com esse tipo de “autocrítica”, será reeleito. O capitão agradece.

*Ricardo Rangel, hoje sem partido, foi candidato a deputado federal pelo Partido Novo em 2018


Chico Alencar: Desafios do PT aos 40 anos

A direita viralizou a falsa ideia de que a corrupção de 500 anos tinha sido inaugurada pelo petismo

Há 40 anos, o Partido dos Trabalhadores foi importante novidade no cenário político do país. Partidos de caráter nacional, com doutrina e base militante, só surgiram entre nós depois do Estado Novo, com a democratização de 1945 — à exceção do Comunista, fundado em 1922. E de movimentos como a Ação Integralista Brasileira e a Aliança Nacional Libertadora, nos anos 30.

Antes, o que tínhamos eram ajuntamentos de interesses aristocráticos: os de “portugueses” e “brasileiros” na época da Independência quase bicentenária, “liberais” e “conservadores” no Império, partidos republicanos à feição das oligarquias provinciais na República Velha.

O PT nasceu na contramão do padrão costumeiro: veio das praças para os palácios. Novidade também na esquerda, chegou criticando ortodoxias e experiências autoritário- burocráticas do “socialismo real”. Não queria ser mera legenda para disputas eleitorais. Não aceitava substituir a cidadania, e sim representá-la e estimulá-la.

Seus documentos inaugurais afirmavam que o socialismo do programa do PT, radicalmente democrático, só o seria se fosse obra de milhões, combatendo todas as desigualdades. Um partido ético, crítico e criativo. Com essas virtudes, cresceu e ganhou influência. Graças a essa nitidez tornou-se, ainda hoje, a despeito da maré montante da antipolítica, a sigla mais reconhecida no cipoal (recém-“renovado”) de legendas de fantasia.

Como é notório, a ampliação da inserção do PT na institucionalidade trouxe contradições. Alcançando evidência parlamentar e conquistando governos, setores de suas direções deixaram de considerá-lo ator entre atores, com diferentes papéis e uma elaboração compartilhada a ser permanentemente revista e encenada na cena pública: a da construção de uma “nova gramática” do poder, inclusive na formulação de uma política econômica alternativa. Ao hegemonismo somou-se uma espécie de “adaptacionismo” — como reconhecem muitos de seus militantes e alguns dirigentes.

Tempus fugit! A base operária que deu “nervo e vida” ao PT não é mais a mesma: novas tecnologias alteraram profundamente o perfil da classe trabalhadora no Brasil, hoje muito segmentada. Diversas funções estão em extinção. A automação e o universo digital geram a chamada “desmaterialização” da produção e o desemprego estrutural. Não se interfere em novas realidades com compreensões obsoletas.

A interação do PT com os movimentos populares se refletiu nas políticas sociais que desenvolveu quando no poder central. Faltaram reformas estruturantes, democratizantes, profundas: a política, a tributária, a agroecoambiental, a do Estado — para este ficar poroso às demandas da sociedade. Justamente quando enfrentou o maior desafio de sua história, sendo governo da República, o PT implementou medidas que não proclamara em campanha e fez alianças — um imperativo na política — desconsiderando fronteiras éticas, mais pragmáticas que programáticas. Em meio a dissensos e desencantos, parte da população passou a percebê-lo como um partido igual aos demais. A direita hoje vitoriosa viralizou a falsa ideia de que a corrupção sistêmica, estrutural e antiga de 500 anos tinha sido inaugurada pelo petismo.

A tendência é que o PT siga sendo uma sigla expressiva eleitoralmente, apesar dos desgastes. O grande desafio, dele e de todas as forças progressistas, inclusive não partidárias, é reconhecer a derrota e os erros, renovar-se (nas pautas e também na linguagem) e vivificar, no imaginário popular, a mística do encantamento político pelos projetos coletivos.

Não se faz autocrítica dos outros. Mas essa boa tradição da esquerda precisa ser revitalizada, com humildade, em todas as suas organizações. Isso é tão importante quanto constituir uma frente democrática, progressista e antifascista, que reencontre os endereços perdidos do nosso povo.

*Chico Alencar é professor e escritor e foi deputado federal pelo PT e pelo PSOL


Chico Alencar: Milícia, malícia e maldição

O capitalismo de compadrio do Brasil não se livrou do mandonismo escravocrata. A propalada “tradição pacífica” dos brasileiros é um mito, discurso enganoso em uma das sociedades mais desiguais do planeta. Nosso processo social é conflituoso, com relações violentas entre as classes, ao longo da história.

Em pleno século XX, a permanência de traços da dominação sangrenta e despótica é uma negação da República. As milícias, particularmente fortes no Rio de Janeiro, são expressão dessa barbárie: reproduzem controle e exploração manu militare. São a contrafação do tráfico armado de drogas, igualmente autoritário e cruel. Ambos com o êmulo do lucro, do deus Dinheiro.

Todas essas formas de imposição têm por base o controle territorial a poder de fogo. O Brasil colônia era uma unidade política apenas nominal: a força local (e “legal”!) era hegemônica e aterrorizante, a cargo dos capitães-do-mato, capatazes dos “donos de gado e gente”. Os seus chefes, depois coronéis da República Velha, eram valorizados na ordem vigente: “o ser senhor de engenho traz consigo o ser servido, obedecido e respeitado por muitos”, relatou Antonil, em seu livro sobre as riquezas do Brasil, publicado em 1711.

As milícias diferem dos bandos de traficantes por seus elos com o poder institucional - e isso lhes dá muito mais poder. O crime do varejo de drogas ilícitas é desorganizado. O das milícias, não. Daí sua maior capacidade corrosiva.

O atual presidente Jair Bolsonaro defendeu esses grupos mafiosos: “em região onde tem milícia paga, não tem violência”, avalizou, ano passado, louvando os grupos paramilitares. Em dezembro de 2008, quando destaquei, na Câmara, o relatório final da CPI das Milícias (que Flávio Bolsonaro nunca apoiou), levado pelo deputado estadual Marcelo Freixo, seu grande artífice, Jair reagiu: “não é assim, elencar todos os milicianos como bandidos! (...) Como o PM ou o bombeiro ganha R$ 850 por mês, e tem a sua própria arma, ele organiza a segurança na sua comunidade. Nada a ver com exploração de ‘gatonet’, venda de gás ou transporte alternativo. Esse relatório está cheio de policiais e bombeiros que não têm nada a ver. É um relatório covarde, feito em cima do disque-denúncia”.

É notória a admiração que o clã Bolsonaro tem por aquilo que já foi chamado de “polícia mineira”, e vários classificam como “autodefesa comunitária”. São os saudosistas do Brasil oligárquico, do poder coronelista e dos capangas que protegem suas atividades econômicas.

Essas relações perigosas bordejam a conivência ou cumplicidade com ações criminosas. Há vínculos suspeitos de Flávio Bolsonaro com as milícias, prestando homenagens oficiais na Alerj a figuras hoje presas ou foragidas e empregando mãe e mulher do “patrãozão”, ex-capitão do Bope. A promotora Simone Sibilio caracteriza Adriano Nóbrega (cuja “dedicação, brilhantismo e galhardia” o Bolsonaro 01 destacou) como “muito violento e temido até pelos seus comparsas, que exerce seu poder impondo o terror, e que precisa ser retirado rapidamente de circulação”. Jair o defendeu, quando acusado de homicídio, na tribuna da Câmara, além de comparecer ao seu julgamento.

Está sendo investigada também a ligação dos milicianos presos na recente operação conjunta do MP e da Polícia Civil com o chamado “Escritório do Crime”, quadrilha de assassinos suspeita da bárbara execução de Marielle e Anderson, que completará um ano em março.

A propósito, jamais ouvi de qualquer dos Bolsonaro uma palavra de repúdio ao crime hediondo, ao contrário da unânime condenação à estúpida facada que atingiu o atual presidente, em setembro. Desprezando qualquer sentimento humanitário elementar, seguidores de Bolsonaro quebraram placa de homenagem a Marielle, com aplausos de quem veio a ser eleito governador do Rio de Janeiro. Parcerias tenebrosas, tempos atrozes!

*Chico Alencar é professor da UFRJ e escritor.