Sérgio C. Buarque: Não se pode subestimar a insensatez humana

Movimentação de tropas russas na fronteira com a Ucrânia pode ser um instrumento de barganha, para limitar a presença da OTAN nos países vizinhos
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Foto: DR/Agência Lusa
Foto: DR/Agência Lusa

Sérgio C. Buarque / Revista Será

Uma guerra na Ucrânia, envolvendo a Rússia e a OTAN, seria um desastre mundial, um risco elevado de desestabilização do jogo de poder global e de rompimento dos limites da interdição de uso das armas nucleares, de consequências dramáticas. Algo parecido ocorreu na crise dos foguetes balísticos em Cuba, em 1962, em plena guerra fria, quando, na iminência de detonar a guerra atômica, o líder soviético Nikita Khrushchov e o presidente John Kennedy chegaram a um entendimento: a União Soviética retirou os foguetes de Cuba e os Estados Unidos concordaram em retirar uma rede de mísseis Júpiter de longo alcance localizada na Turquia, que ameaçava os soviéticos.

A movimentação de tropas russas na fronteira com a Ucrânia pode ser um instrumento de barganha, para limitar a presença da OTAN nos países vizinhos. A principal exigência de Vladimir Putin, o compromisso da OTAN de não receber a Ucrânia como membro ativo da aliança militar, parecia até modesto, já que não significava alteração do status quo geopolítico. Mas, no seu último pronunciamento, Putin exigiu a retirada da OTAN de treze países do Leste Europeu próximos da Rússia, voltando ao padrão anterior a 1997, entre os quais se incluem Hungria, Polônia, Estônia, Letônia e Lituânia.  

Mesmo sem entrar no mérito da reinvindicação geopolítica de Putin em relação à Ucrânia, existem motivos para desconfiar que os objetivos de Putin são bem mais ambiciosos, se forem considerados: 1º  a invasão e anexação da Criméia, em 2014, que até então era parte da Ucrânia, com a intenção de “proteger os cidadãos russos da península”; 2º  o apoio político e material da Rússia, incluindo suporte militar direito, às guerrilhas separatistas na parte oriental da Ucrânia, onde vive um grande contingente de russos e russófilos. Onde pode terminar a barganha de Putin? Para recorrer a um outro exemplo histórico, em 1938, Grã-Bretanha e França assinaram um acordo com Adolf Hitler, que o autorizava a invadir e anexar os Sudetos da Tchecoslováquia onde vivia um grande número de cidadãos de etnia alemã.

Com a cessão dos Sudetos, os líderes europeus esperavam acalmar a fera, mas, como sabemos, a ocupação desta parte da Tchecoslováquia foi apenas o início da corrida desenfreada dos nazistas pelo Lebensraum (o espaço vital alemão). Que logo desencadeou a Segunda Guerra Mundial. Não se pode comparar Putin com o alucinado führer alemão, mas são evidentes as suas ambições na Ucrânia, talvez o seu principal objetivo neste conflito. O presidente Joe Biden se mostra inflexível, mas os países europeus da OTAN, com grande interdependência econômica com a Rússia, não parecem dispostos a medidas drásticas de ruptura. O mais provável é que os dois lados do conflito avancem em entendimentos diplomáticos, para evitar uma escalada de grandes proporções. Considerando o assustador potencial destrutivo dos adversários, uma guerra na Europa não terá vencedores. De qualquer modo, nunca se deve subestimar a insensatez humana.

Fonte: Revista Será
https://revistasera.info/2022/02/nao-se-pode-subestimar-a-insensatez-humana/

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