Rogério Baptistini: Desafio do governo é construir “consensos mínimos” para tirar o País do atoleiro

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O sociólogo Rogério Baptistini, professor do Centro de Ciências Sociais da Universidade Presbiteriana Mackenzie e integrante do Conselho Curador da FAP (Fundação Astrojildo Pereira), disse ao Portal do PPS que o governo de transição do presidente Michel Temer e as lideranças políticas e partidárias que o apoiam precisam saber ouvir a sociedade e melhorar a comunicação do Estado com os cidadãos.

Ele considera que “por não ter formulado um projeto mínimo, a sociedade demonstra perplexidade diante das propostas” apresentadas até o momento pelo presidente para a superação da grave crise que assola o País.

Baptistini é membro do Conselho da FAP
Baptistini é membro do Conselho da FAP

“Isso acontece muito em função da ausência de lideranças capazes de coordenar e canalizar o descontentamento emanado das ruas”, diz, ao analisar que o desafio de Temer “é a construção de consensos mínimos, ainda que precários, que permitam ao País sair do atoleiro” que o governo do PT e seus aliados colocaram o País.

Baptistini avalia também que “governo petista foi incompetente para compreender os sinais das ruas e arrogante em sua resposta”, e que por isso foi afastado do poder no processo de impeachment da presidente Dilma Roussseff porque os brasileiros não se deixaram “cair no canto da sereia populista”.

Veja abaixo os principais trechos da entrevista.

Portal do PPS – O embate entre o governo de transição do presidente Temer com “as ruas” vai continuar depois da aprovação da PEC dos Gastos, da MP (Medida Provisória) do Ensino Médio, da proposta trabalhista e do início da tramitação da reforma da Previdência no Congresso?

Rogério Baptistini – A sociedade brasileira conheceu um amplo processo de mobilizações, cujo início, salvo engano, foi em 2013, à véspera da Copa do Mundo. Desde então, as ruas estiveram ocupadas e, o que é importante ressaltar, não apenas por militantes dos partidos e dos movimentos organizados, mas também por gente comum, cansada de suportar o mau governo.

Esse movimento, graças às redes sociais e, sobretudo, em função da intolerância dos adeptos do governo decaído, resultou em um tipo de divisão que mais contribuiu para a radicalização estéril do que para a elaboração de uma plataforma mínima de mudanças. Num certo sentido, a sociedade sinalizava já em 2013 a necessidade de reorientação dos gastos públicos, de revisão das políticas e de mudança de rumo. O governo petista foi incompetente para compreender os sinais das ruas e arrogante em sua resposta, portando-se como se tivesse o controle absoluto da situação. Acontece que os canais tradicionais da cooptação já estavam comprometidos e a parte da população que paga os impostos estava insatisfeita e sobrecarregada, não se deixando cair no canto da sereia populista.

E o governo está conseguindo entender os sinais das ruas?

Hoje, por não ter formulado um projeto mínimo, de consenso, desde baixo, a sociedade demonstra perplexidade diante das propostas do governo Temer. Isso acontece muito em função da ausência de lideranças capazes de coordenar e canalizar o descontentamento emanado das ruas e, também, por conta da contrapropaganda dos decaídos, mais preocupados em utilizar as máquinas partidárias, sindicais e os movimentos sociais para sabotar o governo, ignorando a urgência do momento e os desafios que se impõem ao Brasil.

As manifestações contra o governo e as reformas propostas podem aumentar?

É provável que se intensifiquem, mas temos de compreender que esse é o ambiente em que se desenrola a democracia contemporânea. O importante é que o governo e as lideranças políticas e partidárias comprometidas com o país saibam ouvir e, também, comunicar-se com o povo do Estado.

Agora, o desafio é a construção de consensos mínimos, ainda que precários, que permitam ao país sair do atoleiro em que o mau governo do PT e de seus aliados o meteu.

Na sua opinião, quais são as perspectivas do Brasil no próximo ano com a crise que promete atravessar 2016?

É muito difícil elaborar um cenário diante de conjuntura tão complexa, com acontecimentos políticos, jurídicos e policiais se superpondo aos econômicos e sociais. O historiador Eric Hobsbawn dizia que devemos olhar para a história, pois ela aponta tendências. Assim, me arrisco a vislumbrar, em meio às dificuldades, um avanço no sentido do estabelecimento de uma cultura pública efetivamente republicana, a ampliação do debate político e o aperfeiçoamento de nossa democracia. O caminho está aberto. A crise será superada com engenho e perseverança, essenciais à grande política. E o Brasil encontrará o seu destino com liberdade e justiça social.

Fonte: http://www.pps.org.br/2016/12/28/sociologo-diz-que-desafio-do-governo-e-construir-consensos-minimos-para-tirar-o-pais-do-atoleiro/

 

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