Roberto Freire: Intervenção já apresenta resultados

Engana-se quem diz que a intervenção federal no Rio de Janeiro se deu às pressas, resultado de algum ímpeto presidencial para buscar reconhecimento junto à população, quando dos festejos de Momo.
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Engana-se quem diz que a intervenção federal no Rio de Janeiro se deu às pressas, resultado de algum ímpeto presidencial para buscar reconhecimento junto à população, quando dos festejos de Momo.

Quero lembrar a vocês as declarações do Ministro Torquato Jardim, no final de outubro do ano passado, ao jornalista Josias de Souza.

Ele disse que as autoridades federais diagnosticavam que o governador Pezão não mais controlava a PM, cuja cúpula já estava associada ao crime organizado.

Falou também que as milícias cresciam celeremente sua participação no narcotráfico, em detrimento do crime organizado tradicional.

O Ministro da Justiça avaliou que a situação fluminense só começaria a mudar quando houvesse troca no comando político no Estado.

Foi uma comoção, com veementes protestos de autoridades locais e até federais, algumas das quais hoje se encontram nas malhas da Justiça.

Alguns críticos e opositores da intervenção argumentam que não houve um plano detalhado.

Como poderia haver, se toda a cadeia de comando dos órgãos e corporações responsáveis pela Segurança Pública no Rio de Janeiro estava em mãos comprometidas e detinham e manipulavam as informações necessárias a qualquer planejamento?

Diz-se, no Nordeste, que um saco fica de pé pela cabeça.

Foi necessário um ato presidencial que decretasse a intervenção na segurança pública fluminense, para que tivesse início a reversão desse quadro.

O general Braga Netto, nomeado interventor diretamente ligado à Presidência da República, iniciou a troca de comandos na Secretaria de Segurança Pública, nas cúpulas da PM e da Polícia Civil e na administração penitenciária. Houve, a partir daí acesso a informações realistas, despidas do róseo que antes era pintado, em flagrante contraste com a percepção que as sociedades fluminense e brasileira tinham do que se passava no Rio de Janeiro.

Decorrem cerca de dois meses, desde que o general Braga Netto assumiu a intervenção.
Os resultados já são sentidos, tais como as prisões inéditas na cúpula anterior da segurança pública no Estado, a nomeação de novos dirigentes e a reorganização mínima dos efetivos.

Tão somente no próprio curso dos acontecimentos poderia ter sido obtido um diagnóstico verdadeiro e ser feito um planejamento com os pés colados no chão, dotado de credibilidade.

E, não menos importante, deu-se início à reorganização das polícias e da administração penitenciária, bem como da Secretaria Estadual de Segurança Pública, com base nos servidores públicos insuspeitos de comprometimento com o crime organizado.

Ressalto algo inédito, no período, a prisão de uma centena e meia de milicianos, no começo deste mês, na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro.

Nesse meio tempo e em grande parte em reação à intervenção federal, aconteceu a covarde e brutal execução da vereadora Marielle Franco e do seu motorista, Anderson Silva.

Decorrem pouco mais de 5 semanas do crime hediondo. As investigações correm em segredo e prosperam.

As provas materiais obtidas pelo trabalho de inteligência da Polícia Civil fluminense, com forte apoio federal, apontam na direção das milícias, informam as autoridades da intervenção.

Vale destacar o comportamento das pessoas mais próximas a Marielle Franco, como sua companheira de vida, a arquiteta Mônica Thereza Benício, a família da ex-vereadora e alguns de seus correligionários do PSOL fluminense.

Ainda bem que eles têm adotado uma postura correta em relação às apurações do atentado. Denunciam o crime como um atentado político à democracia e exigem rápida e profunda apuração, ao mesmo tempo em que colaboram com as investigações.

Tal comportamento vai na contramão da estultice de setores da esquerda, incluída a direção nacional do próprio partido da ex-vereadora, que se posiciona contra a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro e até pede sua anulação no Supremo Tribunal Federal.

O objetivo da intervenção federal é o de reorganizar e reaparelhar o aparato estatal repressivo fluminense para o combate efetivo ao crime organizado, tanto aquele oriundo do tráfico tradicional, quanto a nova praga, que se espalha, as milícias. Tendo em mente tal finalidade, há avanços inequívocos.

Um dos mais importantes efeitos da intervenção federal no Rio de Janeiro é a construção das condições políticas, materiais, metodológicas e de inteligência, para que o Ministério Extraordinário da Segurança Pública possa atuar em unidade com governos estaduais na repressão eficaz ao crime organizado, sem que necessariamente se replique a intervenção federal em outras unidades da Federação.

O caminho do enfrentamento do crime organizado, no Rio de Janeiro e no conjunto do país, é longo e passível de sérias turbulências.

Torço para que não aconteçam no Rio de Janeiro e no Brasil novos atentados, expressão tresloucada de um crime organizado que começa a ser posto em xeque.

Com honestidade intelectual, não há outra conclusão possível, senão a de que avança em eficácia a intervenção federal no Rio de Janeiro, sobre um terreno minado e muito complexo.

Privacy Preference Center