Política & coisa & tal

Votar para valer, não para ficar em paz com os próprios botões

Paulo Fábio Dantas Neto,* Esquerda Democrática

Voto nulo é um voto legítimo, em qualquer situação. Mesmo em momentos de alto perigo, como esse que atravessamos, ninguém pode ser censurado moralmente por não se sentir à vontade com o cardápio que lhe foi oferecido nesta eleição, primeiro pelos partidos, depois pela maioria de eleitores que decidiu quem disputará o segundo turno. O direito à dieta eleitoral faz parte da democracia.

Posto isso, quero conversar com quem quer fazer dieta nessa eleição por rejeitar igualmente Lula e Bolsonaro. E com quem está admitindo votar em Bolsonaro tapando o nariz. É conversa política, democrática, de igual pra igual, não conversa moralista ou professoral. Sou brasileiro tanto quanto quem quer votar nulo ou de nariz tapado e não sou mais sábio ou mais ético do que quem fazer dieta.

A democracia precisa do seu voto válido em Lula. Ela – não Lula – é o endereço de um voto político nessa hora difícil. Sei que através de votos válidos em Lula é ele e não outra a pessoa que governará. E que o seu partido, o PT, terá papel importante no governo. Papel maior ou menor, a depender do tamanho da frente que apoiar o candidato. Como ela ficou ampla, temos razões para pensar que o PT não poderá, mesmo que queira, governar sozinho. E seja como for, numa democracia nada obriga quem votou num candidato a apoiar seu governo depois. A oposição é livre e necessária na democracia. O voto que defendo não é ideológico, nem de facção. No dia 30 vamos votar também pelo direito a haver oposição.

Já o adversário de Lula, se reeleito, ameaçará esse nosso tesouro democrático comum. Quem já nasceu na democracia talvez não tenha ideia bastante do que significa perdê-la. O preço alto seria pago também por nós, que somos hoje idosos ou adultos, mas principalmente por quem está começando a vida agora.

Digo que a reeleição de Bolsonaro pode fazer desse perigo, que hoje já existe, uma realidade, talvez por décadas. Sim, pois o script que a extrema-direita encena no mundo todo é este: no primeiro mandato o populista é candidato a ditador; no segundo mandato ganha um salvo-conduto para ser, de fato, ditador. Quando, no horário eleitoral, Bolsonaro diz que o Congresso que acaba de ser eleito trabalhará em harmonia com ele, essa harmonia quer dizer o seguinte: o presidente dará aos parlamentares recursos do Estado para que, em troca, eles aprovem o controle do Judiciário e da imprensa, leis que persigam minorias, que retirem recursos da ciência, que permitam o desmonte de agências públicas como IBGE, Ibama e outras; que asfixiem o SUS e por aí vai. No fim dessa linha o plano é dar fim à atual Constituição (o controle do Judiciário facilita isso) e no seu lugar colocar outra, ao gosto da maioria bolsonarista. Vamos pensar juntos: essa maioria, se houver mesmo (para isso Bolsonaro anda precisa virar os números), será provisória, como toda maioria eleitoral. Em condições normais será testada de novo, daqui a quatro anos. Tem sentido uma maioria ocasional alterar a seu favor as regras de um jogo que é permanente? Só tem sentido para a extrema-direita, porque esse é o caminho para o ditador se perpetuar, fabricando sucessivos mandatos, como acontece com Orban, Edorgan e Putin, na Hungria, na Turquia e na Rússia e como aconteceu e acontece na Venezuela, antes com Chávez, hoje com Maduro.

Nada disso é profecia. É bem provável que a sociedade resista a esse plano. Mas convenhamos que se Bolsonaro se reeleger mais de meio caminho terá sido andado para que ele tenha sucesso. Reverter isso vai custar muito tempo, energias, dores e provavelmente vidas. Tudo isso pode ser evitado nesse dia 30.

Quem é ou se tornou bolsonarista certamente não concorda comigo. É do jogo. Se não usarem violência – de músculos, de armas ou de fakenews – está tudo certo. Disputaremos nas urnas e quem ganhar leva. Como disse no começo, quero conversar agora é com quem quer votar nulo e com quem admite até votar em Bolsonaro, mas sem tanta convicção, porque considera a opção de Lula tão nefasta ou até pior.

Tenho plena noção de que um novo governo Lula não será um mar de rosas. Estou distante daquelas pessoas que acreditam numa volta a um suposto paraíso, como tem sido prometido em sua campanha. Propaganda não faz minha cabeça. O êxito na economia e os inegáveis avanços sociais obtidos nos primeiros anos de governos petistas não apagam a crise econômica, social e ética a que levaram o país na sequência, da qual a recessão econômica e o desemprego em massa foram a maior herança. Do mesmo modo tenho noção de que nos governos anteriores de Lula houve muita corrupção. Não creio que tenha sido esse o maior problema, mas admito que é a razão maior da rejeição atual ao candidato. Se e até que ponto ele esteve envolvido pessoalmente naqueles fatos não me sinto em condições de afirmar, pois seus processos foram juridicamente anulados e não nos compete tomar o lugar dos juízes. Mas de todo modo não há como um presidente deixar de ter responsabilidade política pelo que ocorre em seu governo. Queira ou não, Lula está lidando com essa responsabilidade política na sua campanha. É principalmente por causa dela que Bolsonaro existe politicamente após tantos crimes. E ainda posa de satanás pregando quaresma num mar de rachadinhas e golpes bilionários contra os cofres públicos.

Com tudo isso, pergunto aos amigos (mesmo àqueles que, diferentemente de mim, acham que existe um DNA petista diferenciado que faz dele um partido pior que os outros) se há evidências concretas de que, num futuro governo, Lula repetirá os erros anteriores. De saída, ele vai enfrentar uma dura e aguerrida oposição que vigiará cada passo seu e de seu governo. Por causa disso será pressionado, em razão da ampla frente que acabou reunindo, a fazer um governo de coalizão e não só um governo de cooptação, como fez antes. Além disso não é razoável supor que ele queira encerrar sua carreira atraindo para si novos processos depois de ter se livrado de vários.

Lula é um democrata que cometeu muitos e graves erros, mas que tem seu futuro político amarrado à continuidade da democracia. Ao contrário do seu oponente, que é um autocrata que usa a democracia para destruí-la e assim continuar no poder indefinidamente. Lula não tentou fazer isso quando estava no auge de sua popularidade. Foi exatamente isso que Simone Tebet reconheceu ao lhe dar apoio no segundo turno sem retirar nenhuma das críticas que lhe fez antes. É esse o voto político em Lula que estou sugerindo. Um voto que não se deve ao seu passado (no qual se pode ver muitas coisas boas e muitas ruins), nem mesmo principalmente ao que de positivo ele esteja dizendo e fazendo hoje. É um voto político para que possamos ter um amanhã dentro da democracia.

Alguém poderá dizer que votando nulo não votará contra um amanhã. E é verdade, do ponto de vista da intenção desse eleitor. Mas sua boa intenção pode se misturar com todas as nossas num só inferno que pode acontecer se o número de votos válidos cair muito. A abstenção (não ir votar) é impossível de prever e ela já é, a princípio, aliada de Bolsonaro, porque ele tem bem menos votos entre os eleitores mais pobres, que são aqueles que têm mais dificuldade objetiva para se deslocar até as urnas, especialmente quando precisam viajar para isso. Se além da abstenção houver votos não válidos da parte de quem reconhece o perigo da reeleição de Bolsonaro, a situação pode ficar mais difícil para todos o que querem um amanhã. Votemos para valer e não só para ficarmos em paz com nossos botões!

Armadilhas mentais do outubro largo

Há pouco mais de uma semana parecia à grande maioria dos analistas (incluído este que vos escreve) que estava em curso uma onda pelo “voto útil” que poderia levar à vitória de Lula no primeiro turno. Muitos admitiam que a hipótese se tornara provável, alguns mais afoitos a consideravam quase certa. Secundei aqueles que apenas a consideravam mais possível do que antes e resumi o que via, no artigo do dia 01.10, numa disjuntiva: outubro breve ou outubro largo. Argumentei sobre vantagens e desvantagens das duas opções – inclinando-me a preferir a do outubro largo – e sobre a lucidez de uma atitude positiva diante de qualquer desfecho que o eleitor soberano determinasse para o turno do dia 2.

Pois bem, deu outubro largo e cá estamos, a meu ver, ainda em busca da atitude mais positiva possível diante dessa realidade que a democracia engendrou. Mais necessário ainda do que há uma semana retornar à questão de Luiz Sérgio Henriques, que mencionei no artigo passado: “Não se trata só de ganhar eleições, mas de reconstruir a esfera pública. Será possível ter uma normal dialética democrática com uma extrema-direita capaz de mobilizar, pelo que parece, 30 ou 40% dos eleitores em estado de insubmissão latente?”. Abertas as urnas do primeiro turno e embora ainda esteja em aberto a disputa principal, leio com cada vez mais frequência análises que dizem não à pergunta de Luiz Sérgio, partindo da premissa de que sim, a extrema-direita mostrou-se capaz de mobilizar tantos eleitores, que se formou uma gigantesca bancada bolsonarista na Câmara e teria mobilizado até a maioria do eleitorado, a ponto de eleger uma maioria bolsonarista no Senado. São descrições mais ou menos próximas de um apocalipse, absoluto ou relativo, conforme a ponderação do analista. Mas como apocalipse e relatividade não combinam, acaba que, nessas análises, em diferentes graus, qualquer nuance morre no veredicto de que o eleitor brasileiro autorizou uma mais que provável destruição da nossa democracia.

Os resultados das eleições para o Congresso e para a maioria dos governos estaduais – inclusive para os três estados mais importantes da federação – trazem-nos, sim, como fato insofismável, uma vitória da direita e da centro-direita. Usemos esses dois termos para que a discussão prossiga. Porém, sem nos dispensar de concretizá-los através de ideias mais precisas. Para tanto é preciso responder que dose de Bolsonaro há nessa vitória e até que ponto devemos chamar bolsonarismo àquilo que se formou aquém ou além do mito. Basta adicionar um adjetivo ao lado do substantivo abstrato ou será mais prudente evitar recorrer a esse termo fácil que, exatamente por ser fácil, pode ser errôneo?

A Câmara recebeu, é verdade, uma dose extra de bolsonarismo. Isso ajuda a explicar uma renovação de 44% naquele colegiado, o que, aliás, desmente previsões peremptórias de que o fundo partidário e as regras eleitorais novas garantiriam uma altíssima taxa de reeleições. A política “fluida” que o bolsonarismo representa não virou suco nas mãos do centrão.

Prefiro usar aqui um adjetivo menos radical do que o “líquido”, de Zigmut Bauman, que foi aventado, de modo instigante, por uma amiga jornalista, Ana Cecília Andrade, em conversa recente, da qual tiro proveito desde o artigo da semana passada. Vi hoje que Marcelo Tognozzi usou o mesmo insight num artigo no Poder 360, aplicando-o a um tema (as pesquisas de intenção de voto e seus supostos “erros”) que não é meu objeto aqui. Converso com o insight de Ana Cecília para tratar de efeitos atuais do modo pelo qual a extrema-direita mundial serviu-se de um populista do antigo “baixo clero” da política brasileira para atiçar valores reacionários que dormiam em nossa sociedade, sem acesso à esfera política, graças a uma consistente moderação centrista do nosso sistema político democrático. O descentramento desse sistema, após uma série de eventos tendencialmente disruptivos ocorridos no rescaldo da não resposta da elite política às manifestações de 2013, propiciou o encontro de um mito de vocação doméstica com valores de um movimento internacional. Irrompeu então o bolsonarismo, usando a alcunha genérica de “nova política”, usada também por movimentos de outras naturezas. A princípio bicho solto, primário, a política fluida do bolsonarismo vem sendo até aqui contida por uma reação sistêmica que se fez valer desde as eleições municipais de 2020. Mas está viva e prorroga a vigência de suas ameaças à democracia, feitas por dentro mesmo do sistema de representação política. Como movimento antissistêmico que é, terá pé também no parlamento, onde não ficará invisível.

O Congresso eleito não difere, essencialmente, do atual. Para tentar prever sua dinâmica, penso que boa chave é essa da relação da política “sólida” das instituições (poderes do estado, dos orçamentos, das políticas públicas, dos partidos, da representação política, da imprensa, interesses sociais e atitudes permanentes e conflitantes, dos valores e da tradição política) e a política fluida do puro movimento, das narrativas imediatas, emoções fortuitas, que nega o conhecimento social acumulado e experiências coletivas; política de valores desprovidos de passado ou que ao passado acenam como fetiche; política de factoides e fake news, de voluntarismo, individualismo narcisista e identitarismo sem peias.

Esse tema da política fluida é dos mais interessantes no contexto aqui comentado. Vejo que de fato há reação do sistema político e das instituições a essa lógica. Mas a fluidez não cessa, pois reside na sociedade. O voto numa segunda safra de bolsonaristas pops e “temáticos” foi, no último domingo, contrapartida ao voto produzido pelo orçamento secreto. São dois movimentos que se interpenetram. Os bolsonaristas de segunda safra juntam-se àqueles da primeira que se turbinaram eleitoralmente e estruturalmente no governo. E as tropas de Valdemar Costa Neto, Ciro Nogueira e Artur Lira incorporam algo da política fluida ao seu repertório retórico. Algo do movimento primário se institucionaliza e algo que era tradição institucional se desestabiliza.

Interessante é que os dois fenômenos ocorrem no interior do que se pode chamar de “grande direita”. São parceiros conflitivos e o desfecho do segundo turno definirá se prevalecerá, entre eles, parceria ou conflito. Com Lula, a banda sólida do centrão terá opções de animação na política doméstica; com Bolsonaro, pode virar suco e diluir-se no movimento ideológico poderoso da extrema-direita mundial.

Daí não ser possível concluir, automaticamente, que a extrema-direita terá hegemonia sobre o conjunto da direita (ainda menos sobre a centro-direita moderada). Isso foi o que se deu, na prática, de 2019 a 2022, mesmo que aparências, em alguns momentos do quatriênio, indicassem coisa diferente. O resultado do segundo turno pode aprofundar o processo de fluidificação política, como lhe dar nova direção, pela qual, no limite, surja, afinal, uma direita mais consistente, dentro dos marcos da democracia. Sem que para isso a extrema-direita desapareça ou se torne socialmente ou eleitoralmente irrelevante. A inclinação do eleitorado à direita foi tal que cabem, dentro dela, diferentes florações.

O desfecho do segundo turno presidencial é uma das variáveis decisivas para haver ou não fluidificação (ou liquefação) democrática da direita no Brasil. A ele está associado o movimento, de desfecho incerto, que pode associar ou opor o PL (hegemonizado pelo bolsonarismo, mas não totalmente identificado com ele) e o PP de Artur Lira e Ciro Nogueira. Se ocorrer, a fusão PP/União Brasil, proposta por Lira, ainda na véspera do primeiro turno das eleições e com o olho na sua reeleição para a presidência da Câmara, será ruim para o já combalido centro democrático, que assim perderá a chance de se articular com o União Brasil. Mas, por outro lado, quer dizer que esse possível novo partido pode disputar a hegemonia da direita com o PL. Essa tende a ser uma disputa interna a um segundo governo Bolsonaro, se houver a reeleição. Caso vença Lula (e nunca é demais lembrar ser esse o cenário mais provável) a fusão pode deixar de ser um caminho, porque União e PP poderão ter diferentes rotas de negociação com um governo que expressa a tradição democrática da política sólida, a qual nada tem a ver com política isenta de surpresas e impurezas. A vitória de Lula será sinal de que o sistema político reagiu. Trocando em miúdos, com Lula, a política fluida perderá espaço em relação ao que hoje já tem. Com Bolsonaro, manterá ou ampliará seu espaço, a depender do que prevaleça na luta interna da direita.

Os problemas para que se forme uma frente resistente da política sólida não se resumem à direita do espectro político. Contam também a estagnação intelectual e moral da esquerda, que parece sobreviver num mundo antigo. E a incipiência do centro democrático, que só agora deu, com a candidatura de Simone Tebet, sinais para o futuro, que são de uma possível reanimação, após a devastação de 2018.

É verdade que a direita derrotou o centro e que daí pode nascer um partido de direita explícita, embora distinta do bolsonarismo. Aqui também, mais uma vez, o desfecho da eleição presidencial será decisivo. É crucial saber se será Bolsonaro ou Lula quem negociará com Lira na Câmara e com alguém de peso no Senado, que certamente será Rodrigo Pacheco, se Lula vencer, mas que não se pode ainda dizer quem será, se houver reeleição de Bolsonaro. O futuro do centro democrático está também amarrado a isso, daí a acuidade e amplitude de visão demonstradas pelo movimento de Simone Tebet em direção a um apoio decidido a Lula no segundo turno. De fato, não se trata de adesão, mas de passo consciente de grande política, dado por uma liderança emergente de um campo cuja reanimação ela representou na campanha do primeiro turno com o efeito admirável de uma flor de lotus. O reconhecimento público de Lula desse fato e do papel positivo da campanha de Simone tem a força da assimilação realista e democrática do voto popular, pela qual o segundo turno deve ser acolhido.

Frisei, desde o artigo da semana passada, a relevância política do segundo turno da eleição presidencial como leito de celebração de um amplo pacto pela democracia, assim como assinalei, parágrafos atrás, o papel decisivo do desfecho dessa eleição para o equacionamento prático da relação entre os poderes da República, hoje mais complexa e delicada do que foi em qualquer momento, desde a vigência da Carta de 88. Quando a campanha de Bolsonaro alega o avanço da direita nas eleições legislativas como sinal de que sua reeleição traria a paz entre governo e congresso oculta o que essa paz pode representar de guerra que dois poderes respaldados numa mesma maioria eleitoral poderão mover contra o Judiciário e, consequentemente, contra a Constituição da qual ele é guardião. É fácil vislumbrar um script húngaro ameaçando converter perigo em realidade apesar da abissal distância que, felizmente, nos separa da Hungria, ou da Turquia, como experiência institucional e cultural de democracia. Mais uma razão para não ver o comportamento do Congresso eleito como variável independente da eleição ainda em aberto.

Mas por outro lado, para que meu próprio argumento não viaje na maionese, convém não cair no extremo oposto, que seria superestimar o resultado da eleição presidencial como se ele pudesse definir se teremos, ou não, democracia após o dia 30 de outubro. Para tanto convém considerar um raciocínio do jornalista William Waack, que é bem expressivo das possibilidades de vida política conservadora nos marcos da democracia política: “Não importa quem se saia vencedor, já dissemos isso aqui mais de uma vez, se for Lula ou Bolsonaro, serão presidentes que terão menos poder frente ao Congresso em relação ao que (tiveram quando) assumiram o cargo pela primeira vez”. Para o bem e para o mal (a meu ver mais para o bem do que para o mal), o protagonismo político do Congresso é algo que veio para ficar, assim como a reestruturação do sistema partidário num sentido contrário ao da política fluida.

Assim, interpreto a afirmação do jornalista em termos de que Bolsonaro não teria a vida fácil no Congresso, que sua campanha passou a enganosamente propagar e como, de certa forma – e de modo certamente involuntário – análises fatalistas confirmam “pela esquerda”. Vida fácil também não terá Lula, cuja eleição, se confirmada, colocará sobre seus ombros a missão de governar democraticamente um país que, como diz o cientista político Jairo Nicolau, consolidou, nessa eleição, sua guinada à direita. Se ler corretamente o que saiu das urnas, Lula presidente precisará de um talento de primeiro-ministro. Se vida fácil não haverá, também não existe fracasso antecipado, graças ao repertório da política.

Mas a vitória da direita na disputa pelo Legislativo e por governos estaduais – onde ela já foi definida até aqui – está nublando a percepção política de que o jogo eleitoral ainda não terminou. Determinismos sociológicos são acionados para decretar, pela enésima vez, a impotência e o fracasso da política representativa. Acontece, repito, que ao decidir se a direita fortalecida nas urnas operará com ou sem Bolsonaro no governo, o eleitor do segundo turno presidencial decidirá se a extrema-direita continuará representando toda a direita. Qualquer avaliação agora sobre a direita ou sobre o bolsonarismo (conjuntos distintos, o segundo embutido no primeiro) é provisória e pode se mostrar perecível com o resultado da eleição. Para decidir isso o eleitor indicou, como pista, um outubro largo. Essa sempre foi uma hipótese, a surpresa foi a votação concreta de Bolsonaro na reta final ir além das intenções de voto.

A prudência analítica provém de que, se a polaridade esquerda-direita não desapareceu, é transpassada por outras. Pela sociologia política, poderemos tentar entender a que ocorre entre movimentos e instituições. Pela análise da política propriamente dita, podemos tentar entender outra polaridade, cada vez mais evidente, entre conservadorismo e voluntarismo, ambos vigentes na esquerda e na direita. O desfecho da eleição presidencial afetará as premissas sociológicas, ou mesmo as da ciência política, mas por si só não desmontará, de modo tão fluido, a solidez sempre relativa de nossa democracia.

Outro problema, além da precipitação analítica, é o do fatalismo político que pode deixar perplexa uma campanha, mesmo a que lidere as pesquisas. É que se pode cair na tentação de crer na narrativa do adversário, que deslegitima, interessadamente, essas pesquisas. O problema não é, por exemplo, o que o general Mourão diz sobre seus planos. Isso é tão somente o ator atuando dentro do seu script. A questão é conhecer o resultado da inevitável interação entre ele e afins, com scripts de outros atores.

Certas análises perdem o foco no sentido político da eleição e fornecem menos elementos de persuasão eleitoral pela democracia e mais estímulos a conclusões sociológicas sobre o fenômeno do avanço da direita, bolsonarização do congresso, ou, seja lá que nome se dê ao resultado da distribuição de poder produzida pelo voto e ao comportamento político dos eleitos. O risco é morrermos de véspera.

Por fim temos o problema do abuso de poder, prática evidente da parte de Bolsonaro. Essa conduta voltou a ser comentada, agora com mais ênfase e como fonte de desequilíbrio da disputa eleitoral. Sem dúvida é, mas esse não é um problema que surge com o segundo turno. Atuou fortemente na eleição para o Congresso e no aumento da votação do presidente, fato que ampliou também as de alguns governadores já eleitos. Tudo isso no primeiro turno. No segundo, é preciso cuidado para que, ao mencionar esse aspecto do contexto, não se resvale para o terreno perigoso de sugeri-lo como indicador de um jogo viciado, com desfecho antecipado. Essa sempre foi a arenga antidemocrática de Bolsonaro. Quando a vitória de Lula parecia ainda mais provável do que é hoje, já havia, da parte não só da oposição, como da imprensa e da sociedade civil, críticas aos métodos abusivos de Bolsonaro de usar indevidamente sua atual posição institucional, inclusive para transgredir a legislação eleitoral. Mas sem tratar a eleição como jogo de cartas marcadas por causa disso. Arriscar esse argumento agora, quando a disputa de tornou mais incerta que antes, pode levar lenha à fogueira da deslegitimação das eleições.

O momento do questionamento prático desses abusos passou. Podia-se ter tentado uma articulação política para resistir ao arrastão que ocorreu no Congresso ou uma ação mais efetiva junto ao Judiciário. Não se fez nem uma coisa nem outra, apostando-se em resolver o nó da coisa no dia 2 de outubro. Ninguém pode ser criticado por isso. Era um raciocínio lógico e a quem o fez não cabe mea culpa.

Mas sua excelência, o eleitor, indicou outro caminho. É preciso aceitar o fato eleitoral e agir de acordo com ele. Incluir como argumento eleitoral um desequilíbrio desde sempre conhecido, pode parecer, ademais, um choro antecipado, que é ainda mais irrazoável pelo fato de Lula continuar sendo o líder nas pesquisas. O candidato demostrou, em falas recentes, que assimilou bem o resultado do primeiro turno. Essa é a atitude política positiva, em vez de se realizar, nessa hora, inventário de explicações e culpas.

Nenhuma democracia do mundo é vacina contra abusos de poder. Já o que vacina a sociedade contra tentações antidemocráticas é a confiança pública no processo, apesar de assimetrias. Nenhuma democracia resiste quando posições sobre a justeza de seus processos variam conforme o andamento de pesquisas eleitorais. Não basta sermos diferentes de Bolsonaro. É opor-se a ele também nas atitudes aparentes, como se exigia da mulher de César. Por isso é bom arquivar esse argumento do desequilíbrio e cuidar do que importa: convencer a maioria sobre a necessidade da mudança e assim vencer a eleição.

Outubro breve ou largo e um direção

A maior dúvida restante e que mais tem mobilizado antenas analíticas e vontades políticas sobre o turno eleitoral de amanhã é se ele será único ou se o desfecho da eleição presidencial ocorrerá no último domingo desse outubro candidato a inesquecível. Pesquisas mostram que a grande maioria dos eleitores (75% segundo o Ipespe, 90% conforme o Genial Quaest) quer que tudo acabe logo no dia 2, por variados motivos, que bem justificariam outro artigo, mas não vêm ao caso agora.

Apesar disso, não se sabe se esse desejo se realizará. Em caso de não, a razão não será que o desejo oposto prevalecerá arbitrariamente e sim que, em termos de preferências e intenções de voto, as duas principais partes em que essa ampla maioria se divide querem que a eleição acabe logo, mas só se for com a vitória do seu candidato. Nenhum eleitor de Bolsonaro e nem todos os das demais candidaturas votarão em Lula, o líder das pesquisas, para que o desejo da antecipação do desfecho se realize. Ele pode se diluir no nível de polarização real entre as preferências dos eleitores. Aí está ela, a democracia.

O momento importa. Aliás, ele é que decide, não interpretações e lições do passado, nem aspirações e projeções sobre o futuro. Luiz Sergio Henriques, em inspirado artigo (“Match point eleitoral”, publicado na página Esquerda Democrática no Facebook em 30.09) usa a fabulação de um filme de Woody Allen (“uma bola de tênis a oscilar na parte superior da rede, podendo cair de um lado ou de outro, decidindo o destino das pessoas”) para ilustrar como é incerto o presente de que falamos. Seu sentido só se deixará desvendar pelo correr do tempo. Até as próximas 24 horas, falar do futuro que sairá das urnas será diletante se não se levar em conta a incerteza soberana do presente. E como o presente do qual estamos falando está carregadíssimo de passado – inclusive porque passados foram evocados a todo instante pelas campanhas – também seria diletante colocar o passado entre parênteses. Nessas circunstâncias, imaginar o futuro é um desafio ao pessimismo da razão e ignorar o peso do passado é esgotar as energias da boa vontade. Melhor seria, talvez, apenas aguardar as 24 horas, mas isso também não é possível, pois amanhã é um dia de decisão. Como ficarmos neutros diante da urna?

O mesmo Luiz Sergio prossegue com uma reflexão crucial para os democratas que defendem acabar logo: “manda o realismo político pensar na possibilidade de que a bola de tênis caia do outro lado”, da qual decorre uma pergunta: “se, no domingo, os eleitores indicarem o caminho do segundo turno, como enfrentá-lo de modo positivo, sereno e aberto, sem desabar perante o novo contexto?”.

Por mais que enxerguemos riscos na continuidade do processo por mais quatro semanas, a decisão do eleitor por um segundo turno já poderá adiar, por outro lado, o momento de enfrentamento objetivo da mais que provável tentativa da extrema-direita de, ao fim e ao cabo, haja ou não segundo turno, tentar deslegitimar os resultados e bloquear o cumprimento da decisão popular. Quem tem mais a ganhar com o tempo alargado? Bolsonaro terá mais espaço entre amanhã e segunda-feira, ou daqui a quatro semanas? Contará com apoio, companhia e indulgência para promover arruaças durante a campanha do segundo turno em grau maior do que pode ter tido durante a etapa da campanha que se encerra hoje?

Ninguém tem acesso aos segredos do futuro, mas uma possibilidade de projeção pode se ancorar no que temos assistido acontecer na última semana da campanha para o primeiro turno. A de Bolsonaro perde substância, retrocede aos métodos da sua bolha e assim expõe-se a crescente isolamento político e social. Campanhas da terceira via sustentam-se, dentro da margem de erro – a de Simone Tebet com esperança de alguma alta, a de Ciro Gomes com a de pouca baixa – enquanto a de Lula amplia-se significativamente já em clima de segundo turno, mas alimenta a expectativa de vencer no primeiro.

Cresce, nessa semana, uma onda de frente democrática, envolvendo a principal candidatura, dando-lhe uma amplitude potencial – política, social e institucional – que durante um ano e meio não havia conseguido ter, como mostra a estabilidade de seus índices de intenção de voto desde então até aqui, apesar do positivo e ousado passo político que foi a composição precoce de uma chapa plural. Se houvesse como Lula, seu partido e aliados próximos vencerem sozinhos a eleição em primeiro turno, anexando apenas uma personalidade política respeitável do centro democrático, tal condição já se teria mostrado nas intenções de voto ao longo de tantos meses. Ocasiões não faltaram em que Bolsonaro emparedou a sociedade e o país com um ânimo de chantagem digno de um sequestrador. A noção de perigo nunca deixou de estar presente e ser difusa, mas, ainda assim, o eleitorado brasileiro não se inclinava, majoritariamente, a chamar Lula já, para salvar a República. Essa hipótese sempre foi a mais provável para um futuro que, no entanto, até poucos dias não havia chegado e ainda na véspera da eleição não se sabe se chegou, tanto que a hipótese de irmos ao segundo turno também está de pé.

Mesmo que a hora já tenha chegado, com as adesões recentes nos mundos da política, dos juristas, da cultura, da imprensa, a impressão confortante é de que a onda só começa e ainda tem muito a crescer. Volta-me à mente o texto de Luiz Sergio Henriques: “Não se trata só de ganhar eleições, mas de reconstruir a esfera pública. Será possível ter uma normal dialética democrática com uma extrema-direita capaz de mobilizar, pelo que parece, 30 ou 40% dos eleitores em estado de insubmissão latente?” A sugestão inequívoca do autor, à qual me associo inteiramente, é a de que esse consenso resiliente – que ainda abarca mais de um terço do eleitorado a flertar com um perigo trágico, chancelando um fascistoide – precisa ser corroído, para que não se estabeleça, como verdade histórica e como realidade política, que tamanha parcela dos brasileiros não tolera conviver com outra parte do País real, que é a nossa pátria comum. A se firmar tal narrativa, estaria o Brasil inviabilizado como nação.

É imperativo recusar essa tragédia como suposto legado desses anos nefastos em troca de uma vitória eleitoral. Se ela vier neste próximo domingo, o alívio que representará já não será nada desprezível, mas não dispensará os vitoriosos de formalizarem um entendimento interpartidário amplo entre democratas, para além de sua coalizão eleitoral, conforme sinalizam os apoios plurais que acabam de lhe chegar. Nesse caso, o terreno do entendimento terá que ser mesmo a composição e orientação programática do governo, para tornar mais largo e preciso o parco e vago diálogo da campanha até aqui.

O mesmo imperativo poderá ser melhor cumprido se ganharmos (uso aqui esse verbo não por acaso) essas quatro semanas que a instituição da eleição em dois turnos propicia. Se assim ocorrer, essa frente democrática tende a crescer e se tornar realmente histórica e divisora de águas, como foi a das Diretas Já. Antes e mais que uma mesa de negociação do perfil de um governo – assunto entregue ao tempo político posterior ao da fala do eleitor – estará um entendimento para realizar uma campanha de frente realmente ampla. No horizonte de uma repaginação da campanha de Lula e da sua própria persona pública, de modo a ambas irem bem além do PT e da esquerda, está a desativação das minas antipetistas que impedem hoje o acesso de candidaturas democráticas ao mundo das intenções de voto em Bolsonaro. O número de eleitores atuais dessa direita extrema é quase o dobro daquilo que pesquisas especializadas da ciência política brasileira estimam ser o eleitorado ideológico do mito.

É a esse quinto do eleitorado que Bolsonaro pode estar reduzido daqui a um mês, caso haja segundo turno. Ponto principal: uma acachapante derrota eleitoral tirará Bolsonaro não apenas do governo, mas da cena política e mesmo do sistema político que ele tentou destruir. Com isso, a extrema-direita não desaparecerá, uma vez que é movimento mundial e parece ter chegado aqui para ficar. Mas, privada do mito que a catapultou ao palco central da política brasileira, terá que buscar outro mito encarnado ou outro caminho para pregar seus valores, com menos chance de resultados concretos até 2026. Isso dará às diversas correntes substanciais da política democrática, além de alívio, mais tempo para, nesse caso, não apenas montarem um governo democrático como articularem uma oposição democrática.

O País precisa de uma oposição democrática, um lugar que não pode ser cedido à extrema-direita. A ideia de governo de união nacional é de difícil compatibilização com essa demanda. Formar governo compete a quem o povo elegeu e se Lula ganhar a eleição no primeiro turno, sem depender de apoio político das instituições partidárias e candidaturas do centro democrático (embora sem dispensar apoios avulsos e votos de seus potenciais eleitores), a missão daquele “centrinho”, ao contrário da do centrão, é construir a oposição necessária. Havendo segundo turno, essa é pauta em aberto, mas ainda assim a saúde democrática do país pedirá, em algum momento, uma oposição comprometida com ela.

Haverá casos e casos. Veja-se, por exemplo, o da candidata Simone Tebet e do seu partido, o MDB. Por toda a postura moderada e ao mesmo tempo assertiva que Simone adotou na campanha, sua atitude imediata só poderá ser de expectativa generosa e disposição a diálogo. Mas para que essa atitude não se confunda com oportunismo ou “entrismo”, precisará valorizar os votos que tiver no primeiro turno. Independência política em relação ao futuro governo é esperado de uma candidata que não condenou – em vez disso, renovou – o programa mais recente do seu partido, a chamada “ponte para o futuro”. Supõe-se que um diálogo republicano de Lula com ela e com o MDB tenha de começar por aí.

Já a frente eleitoral ampla para livrar o Brasil de Bolsonaro já tem seu script consagrado na sociedade. É exatamente o que já se busca articular, segundo matéria assinada pelos jornalistas Pedro Venceslau e Beatriz Bulla (“Grupos já buscam articular ato por frente ampla contra Bolsonaro em eventual segundo turno”), publicada pelo Estadão em 27.09.22. Nada de devaneio, uma iniciativa de grupos, entidades e personalidades com nomes, sobrenomes e inserções sociais respeitáveis, suprapartidárias e eficazes. É o roteiro de um movimento político e cívico que pode fazer do Brasil um caso exemplar de como um país liberta-se, pela política (e com sustentação política maior do que a rejeição dos EUA a Trump), de um sequestro extremista que tem a mesma natureza dos que hoje ameaçam algumas das mais consistentes democracias do planeta. Certamente já não faltam indícios da dimensão internacional do que está em jogo em nosso país, nessas eleições.

Outubro breve e outubro largo são duas pistas alternativas pelas quais o sistema político da república democrática, a sociedade civil e o eleitorado do Brasil poderão despachar o mito que até aqui vinha fazendo os três de reféns. A decisão sobre por qual das duas pistas a elite política trafegará é do eleitor, que é o ator do presente imediato, um presente dado pela fotografa de suas necessidades prementes e de seus valores, arraigados ou fluidos. Já a escolha da direção objetiva das coisas é missão da liderança política, que precisa operar num presente contínuo, onde precisarão estar seus cérebros e seus pés. Nesse presente saturado por experiências do passado e portador de ambições de futuro, umas e outras mobilizam legítimas emoções que serão solidamente políticas se forem sempre contidas por um respeito racional, primordial, do político à importância do momento e de suas circunstâncias.

Votemos em paz e que a política nos acompanhe!

* Cientista político e professor da UFBa

Texto publicado originalmente no Facebook do Esquerda Democrática.

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