Paulo Fábio Dantas Neto: Oposição sem rumo numa conjuntura nova 

Disseminar otimismo faz parte de qualquer plano, inclusive de tentativas de deslegitimar as eleições
Share on email
Share on whatsapp
Share on facebook
Share on twitter
Foto: Reprodução/Crusoé
Foto: Reprodução/Crusoé

Paulo Fábio Dantas Neto / Revista Política Democrática online

Neste março, sobressaltos voltam a bater à porta da oposição diante de sinais, trazidos por pesquisas mais recentes, de recuperação de expectativas favoráveis à reeleição do Presidente da República. Isso tem feito analistas suporem que estrategistas de Bolsonaro já decidiram que é o caminho das urnas o mais seguro para lograr a continuidade do atual governo e não os caminhos do golpismo e da arruaça. Estou entre aqueles que guardam distância de prognósticos desse tipo. Falta muito acontecer para que se possa dizer que as urnas passaram a ser o horizonte do continuísmo para o bolsonarismo e seu mito.  

Disseminar otimismo faz parte de qualquer plano, inclusive de tentativas de deslegitimar as eleições. Mas até onde a vista alcança, mesmo com ajuda de bondades e maldades legislativas, uso eleitoral abusivo de agências de governo, golpes abaixo da cintura em adversários e um arsenal de transgressões e crimes – de fake news à violência política – que vençam a vigilância do Judiciário, não se vê cenário de reversão bastante da rejeição a Bolsonaro, cevada em três anos e meio e turbinada por agruras sociais do momento. Mas não só opositores lidam com essas evidências. Os russos também. O que farão?  

O campo ideológico governista não deve ser subestimado no atributo de raciocinar. No palácio nem só o centrão raciocina, ainda que, com sua razão pragmática, governe mais que todos. Mas não cabem ilusões de que no duro núcleo do capitão se pratique uma razão do tipo razoável, que aceite a derrota sem apelar à subversão das regras do jogo ou, no limite, tentar acabar com ele. Sua razão calculista é cheia de razão. Sendo tosca, tem apetite destrutivo. A hipótese de ela ver as urnas como via principal tem feitio de plano B. O golpismo é a língua falada por uma força social que já tem vida fora do palácio.

A eleição poderá virar seu plano A se houver milagre na economia ou suicídio da oposição. Sem isso, setores resilientes do palácio, sem perderem a noção da aritmética, calcularão a iminência da derrota, agirão de acordo com sua razão tosca e nenhum centrão os deterá. Chances de êxito da insensatez são bem duvidosas, mas supor que por saber disso o bolsonarismo recuará é ver ali uma razão razoável que lhe é estranha.  Se seu êxito não é provável, os estragos que pode causar à democracia o são. 

Nova conjuntura se forma com as mais recentes pesquisas. Pescar em águas turvas, propensão magna do bolsonarismo, é probabilidade muito grande, porém, agora mais perigosa, em face da situação desenhada de que poderá ter apoio bastante para chegar virtualmente competitivo ao segundo turno. Outra coisa seria sua derrota no primeiro turno, ou chegada ao segundo em posição de fragilidade explícita. O teor máximo de perigo para instituições será a combinação incandescente da percepção pública de que Bolsonaro pode se reeleger com a convicção palaciana de que isso não ocorrerá. Será intuitivo fazer a percepção pública polarizada acirrar os ânimos para que o segundo turno seja o palco ideal de encenação de um script golpista. Se essa suposição faz sentido é hora de a oposição democrática tirar atitudes protetoras da democracia do armário onde dormem desde setembro do ano passado. Seis meses após o fracasso daquele golpe, as instituições podem estar vigilantes para a possibilidade de a fera ferida tentar, no desespero, virar a mesa no período pré-eleitoral, antes de um fracasso no primeiro turno. Mas a conversa começa a ser outra. A fera já não sangra tanto e pode atacar na hora da decisão. A situação pede mais que a presença de guardiães institucionais regulares e neutros. Pede compromisso unitário prático de atores políticos (partidos e candidatos) envolvidos diretamente na eleição. 

Ainda não se enxergam respostas das oposições a essa nova conjuntura imediata, nem sinais de ação conjunta. O quadro pré-eleitoral parece reafirmar o nome de Lula como o que tem mais chance de evitar a reeleição do presidente, mas também o fato dele não atrair forças de centro e centro-direita para antecipar a decisão no primeiro turno. Evidência disso é a persistência de monótonas articulações entre partidos daquele campo prometendo ter candidatura única. Se for para valer, pode atenuar sobressaltos em relação ao crescimento de Bolsonaro. Se não for, o enterro definitivo da ideia de uma terceira via agregadora porá a nu a grande distância a que Lula está de ser o herdeiro indisputado desse espólio.  

O PT não tem ajudado na suposta “ida ao centro”. Se depender do que tem dito e feito, Alckmin será azeitona conservadora numa empada esquerdista e populista. É potencialmente corrosiva a política partidária pequena que impera em arranjos estaduais na hora em que Bolsonaro toma fôlego. Na Bahia, onde não se precisaria ir ao centro pois nele o PT já estava, parece não haver mais jeito, tudo está desfeito e a aposta é no umbigo, em ritmo de luta interna. Em Pernambuco, outro bastião a princípio forte, a divisão parece iminente. No Paraná, o recado da filiação de Requião é frente de esquerda nacionalista. Torniquetes abundam, limitando a tripulação do que seria uma arca de Noé.  

Lula parece ter perdido a antiga condição de alinhar o partido às suas preferências. Está engessado na gramática autorreferente que se tornou língua franca em sua cozinha após o trauma de sua prisão. Dois anos depois de solto, ainda não se soltou. Numa só semana chamou Moro a uma briga de rua, espantou liberais com discursos populistas e nacionalistas e, pior, atacou o Congresso, onde está boa parte dos atores que podem facilitar, ou evitar, que a eleição descambe para o golpismo, e está também boa parte dos políticos que o lendário pragmatismo do Lula lá promete capturar. A resposta de Rodrigo Pacheco não foi só pertinente e contundente. Sugere uma pergunta crucial: o iceberg é invisível ou a cegueira é soberana? 

Saiba mais sobre o autor

*Paulo Fábio Dantas Neto é cientista político e professor da UFBa.

** Artigo produzido para publicação na Revista Política Democrática Online de março/2022 (41ª edição), produzida e editada pela Fundação Astrojildo Pereira (FAP), sediada em Brasília e vinculada ao Cidadania.

*** As ideias e opiniões expressas nos artigos publicados na Revista Política Democrática Online são de exclusiva responsabilidade dos autores, não refletindo, necessariamente, as opiniões da Revista.

Pedro Fernando Nery: PND no século 21 

Lilia Lustosa: Geraldo e Jabor 

Henrique Brandão: Mais atual que nunca 

Juros e inflação no Brasil – o que explica o comportamento do Banco Central?

‘Um tempo para não esquecer’ retrata a luta da saúde pública contra a Covid-19

Hesitação vacinal é negacionismo que pode matar, acredita Margareth Dalcolmo

Acesse todas as edições (Flip) da Revista Política Democrática online

Acesse todas as edições (PDF) da Revista Política Democrática online

Privacy Preference Center