Meneleu e a história do PCB/RN – O gráfico do jornal A Liberdade

Francisco Meneleu dos Santos é o terceiro entrevistado da série História do PCB/RN, da Pós TV DHnet Direitos Humanos. É entrevistado pelo jornalista Luiz Gonzaga Cortez
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O povo não tinha mágoa

Eu não sou de muita fala, mas tentarei dizer algumas coisas, relembrar fatos e vivências durante a Revolução de 1935. Quero começar dizendo que fiz parte dessa revolução.

Eu não era político, também não era comunista, eu era apenas um operário, que trabalhava para sobreviver.

No dia 23 de novembro de 1935, eu estava trabalhando no jornal A Ordem, era um jornal católico, que tratava só de assuntos religiosos, mas de manhã cedo veio uma patrulha do 21BC, e levou todos os companheiros gráficos para compor, para fazer parte da revolução.

Me entregaram um fuzil, mas eu não sabia nem mexer num fuzil, e disse a eles que não podia ir combater ao lado dos outros, então eles perguntaram o que era que eu fazia, eu disse que eu era gráfico, tipógrafo, então eles me mandaram para a oficina de A República, para compor e imprimir A Liberdade, o jornal do partido.

Fui com outros companheiros e comecei a trabalhar. Quando o jornal saiu, fui pra casa e notei que o povo estava muito satisfeito com a revolta, o povo estava alegre, sem fome, naquele dia houve fartura para todos, a passagem do bonde diminuiu para cem réis, e assim continuou. Eu imaginei que estivesse tudo muito bem.

O Partido Comunista naquele tempo era muito bem organizado, não ofendeu a ninguém, todos os adversários não sentiram nenhuma pressão. No entanto, no dia 27 de novembro, eu fui preso lá na Tavares de Lira e conduzido para o quartel da polícia, onde fiquei por quatro horas.

De lá, me mandaram para a detenção, eu e vários companheiros, então peguei o “tintureiro”, carro que conduzia os presos, saí em fila com os companheiros e fomos para a detenção.

Na detenção nos jogaram numa cela sem porta. Vi companheiros sendo torturados. Lembro quando entrou um rapaz, não sei se era o Lauro Lago, eu não me lembro bem, deram uma coronhada na testa dele, ele caiu e jogaram dentro da cela, ele ficou lá sofrendo.

Passados uns cinco ou seis dias, me tiraram da detenção e me mandaram para a Escola de Artífice, localizada na Avenida Barão do Rio Branco, no centro de Natal, onde fiquei um mês.

Lá o tratamento era melhor, pelo menos a gente tinha comida todo dia. Na detenção tinha uma vantagem, a amizade com os colegas de infortúnio, isso já em outra época.

Tínhamos vários amigos, fiz muitas amizades, com presos políticos inclusive com José Macêdo, Lauro Lago, Quintino, Miguel Moreira e vários outros.

Fiquei em Mossoró por três anos, o julgamento correu à revelia. Soube depois de alguns anos que eu tinha sido condenado pelo Tribunal de Segurança Nacional.

Esse era um tribunal de exceção do Governo Vargas.

Fui preso novamente e retornei a Natal, onde sofri em vários momentos.

Na verdade, não eram torturas físicas, mas torturas psicológicas. Minha companheira sofreu muito em Mossoró, ela estava doente e eu não podia ajudá-la.

Naquela época, Aldo Fernandes era secretário de polícia, aquele homem não tinha coração, eu pedia para dar assistência a minha companheira e ele não deixava.

Lembro bem de todos os meus amigos, na detenção eram bons colegas, brincalhões, e assim a gente passava o dia, alimentados com a nossa amizade.

Tinha um pobre de nome Coutinho. Coutinho era um senhor idoso, dos seus setenta anos, porque falava demais (no bom sentido) foi preso. Pobre do velho!

Ele ficou lá vários meses. Tinha outro preso de nome Zé Paulo, que tinha dificuldade de visão, era míope, também evangélico, pregava a religião dele, ao modo dele.

Era bem engraçado. Quando contávamos anedotas, ele tapava os ouvidos para não ouvir aquelas palavras obscenas.

Na verdade, fazia que tapava os ouvidos para pensarmos que era puritano. Assim a vida passou e a gente foi atravessando todas essas coisas, mas o sofrimento foi grande. Me prenderam quando eu tinha dezoito anos e fui condenado a seis anos e seis meses.

Agora, voltando ao princípio, a revolução foi calma, não houve morte, não houve espancamento, houve respeito, todo mundo era respeitado, o povo alegre.

A gente notava que o povo não tinha mágoa e nem tinha ressentimento com os revolucionários.

Como não tenho vocação para falar, digo o que sinto, é isto que estou fazendo agora.

Francisco Meneleu dos Santos

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