Guerra na Ucrânia confunde direita e esquerda no Brasil em embates ideológicos

Bases de Bolsonaro e Lula divergem internamente sobre alinhamento automático aos lados do conflito, que embaralhou certezas e interesses na política local
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Foto: Emilio Morenatti/AP
Foto: Emilio Morenatti/AP

Joelmir Tavares / Folha de S. Paulo

guerra na Ucrânia e suas complexidades embaralharam direita e esquerda no Brasil e evidenciaram diferentes visões dentro dos grupos mais amplos que se organizam em torno dos dois principais pré-candidatos à Presidência, Jair Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Como a invasão da Rússia ao país vizinho no leste europeu é um conflito que combina em alta voltagem elementos ideológicos, geopolíticos e econômicos, as expectativas de alinhamento imediato ou repúdio claro a um ou outro lado do embate acabaram sendo turvadas por questões locais.

No pano de fundo está, genericamente, o embate entre o líder russo Vladimir Putin e o governo dos Estados Unidos, via Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Com isso, vieram à tona discussões sobre assuntos como União Soviética, Guerra Fria, imperialismo e globalismo.

Os próprios Bolsonaro e Lula receberam pressões em diferentes sentidos, já que interesses variados estão em jogo. Na cacofonia das redes sociais, rótulos usados para carimbar instantaneamente um “bolsonarista” ou “comunista” não resistiram às primeiras horas do confronto, iniciado no dia 24.

O atual presidente, tratado inicialmente como favorável à Rússia por causa de sua controversa visita a Putin uma semana antes da eclosão do confronto, sofreu críticas pela suposta aliança com um mandatário que teria perfil esquerdista, algo de que vozes inclusive na esquerda discordam.

E o ex-presidente, que lidera as pesquisas de intenção de voto para o pleito de outubro, viu setores aliados estimularem uma legitimação da ação de Putin e tomarem partido contra os Estados Unidos, pelo histórico de busca de hegemonia global do país governado pelo democrata Joe Biden.

“É um conflito geopolítico e territorial, e não ideológico”, sintetiza a deputada federal Jandira Feghali (PC do B-RJ). “Putin não é um homem de esquerda. Não está em jogo uma disputa entre capitalismo e comunismo”, segue a correligionária de Lula.

Para a parlamentar, que considera a atuação do governo Bolsonaro no caso desastrosa (“sem autoridade para dar uma contribuição”), não cabe debate sobre um princípio que ela julga elementar: o respeito à soberania nacional e à autodeterminação dos povos.

“A nossa posição [dos comunistas] é a de lutar pela paz e buscar uma solução diplomática. O que entendo como mais urgente é o cessar-fogo e a redução das hostilidades. Sanções [contra a Rússia] não funcionam nem militarmente nem economicamente”, segue.

Jandira afirma, no entanto, que “essa guerra não tem um dono só” e que “a responsabilidade da Otan tem que ser considerada”. “A Otan não deveria nem existir mais, deveria ter acabado quando acabou a Guerra Fria. O único ponto de consenso é que, se há um país imperialista hoje, são os Estados Unidos.”

O tom da deputada lembra o de uma nota da bancada do PT no Senado que antecedeu a posição oficial do partido, de teor mais brando, e acabou excluída e desautorizada. O comunicado, cuja divulgação foi atribuída a erro, criticava a “política de longo prazo dos EUA de agressão à Rússia”.

A postura está longe, porém, de ser unanimidade na esquerda, que ao longo dos últimos dias também divergiu sobre uma condenação explícita à ofensiva russa. Líderes do PSB destoaram de nomes do PT, PSOL e PC do B ao repudiarem a invasão sem meias palavras, como mostrou o Painel.

“Não tenho simpatia pela Otan, é um entulho da Guerra Fria, mas é um assunto dos ucranianos”, disse o governador Flávio Dino (PSB-MA).

“De um modo geral, a esquerda fica em muita dúvida [sobre condenar a Rússia e ficar indiretamente do lado dos EUA], por causa da nossa formação anti-imperialista, mas é em razão dessa formação que devemos sustentar a autodeterminação dos povos”, completou.

O dilema sobre o posicionamento também foi visível na base de Bolsonaro, normalmente ágil na disseminação de “narrativas” (versões dos fatos) uníssonas em defesa do presidente.

O vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho e estrategista digital do mandatário, contestou no Twitter o ex-ministro do governo de seu pai e presidenciável do Podemos, Sergio Moro, por comparar a retórica de Bolsonaro no caso com o discurso do polo oposto.

O ex-juiz escreveu que “a posição do presidente no conflito converge com a da oposição na extrema esquerda, que age como se não houvesse um agressor e uma vítima”. Perfis bolsonaristas rebateram, lembrando que o Brasil votou na ONU a favor da resolução contra a Rússia pela invasão.

Além de Moro, outros pré-candidatos ao Planalto que compõem a chamada terceira via enxergaram em atitudes dúbias um flanco para atacar ao mesmo tempo os dois favoritos da corrida eleitoral.

Sobre Lula pesam acusações dos presidenciáveis a respeito de afinidade com países favoráveis à Rússia, como Venezuela, Nicarágua e Cuba. O ex-presidente reforçou sua posição contrária à guerra e em defesa da soberania ucraniana, sem, no entanto, deixar de aludir indiretamente aos EUA.

“As grandes potências precisam entender que não queremos ser inimigos de ninguém. […] É inadmissível que um país se julgue no direito de instalar bases militares em torno de outros países”, disse o petista na quinta-feira (3), durante viagem ao México.

“Trilhões de dólares foram gastos em guerras recentes, no Oriente Médio e na Europa, quantia suficiente para eliminar a fome no mundo, […] no entanto essa quantia foi usada para causar a morte de milhões de pessoas no Iraque, no Afeganistão, na Síria, no Iêmen, no Paquistão.”

O empresário Otavio Fakhoury, que é apoiador de Bolsonaro, discípulo do escritor Olavo de Carvalho e presidente estadual do PTB em São Paulo, diz que o embate na Europa contribuiu “para embananar tudo”.

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Ele próprio tem lado: diz que prega a soberania da Ucrânia acima de tudo, não isenta a União Europeia com “suas agendas globalistas” e discorda da defesa de parte da direita nacional a Putin sob a justificativa de que ele apoiaria a autoridade do Brasil sobre a Amazônia.

“Tem gente [no campo conservador] achando que é bom defender o Putin. Eu digo que esse suposto respeito dele pela nossa soberania é conversa pra boi dormir. As pessoas não entendem, precisam estudar mais. A Rússia já tem ramificações na região amazônica há pelo menos 50 anos”, afirma.

Fakhoury, curiosamente, fica ao lado das alas da esquerda que culpam os EUA pela guerra, mas em uma chave diferente. O bolsonarista ataca especificamente Biden, que “é um fraco”, e diz que o conflito “não teria começado” se o líder ainda fosse Donald Trump, que “com aquele jeito duro garantia a paz”.

O empresário minimiza as análises iniciais que apontaram como uma das causas das cisões na direita o flerte de grupos locais mais radicalizados com o ideário das direitas ucraniana e russa.

mote de “ucranizar o Brasil”, visto entre militantes pró-Bolsonaro nos últimos anos, busca inspiração em movimentos de desobediência civil ocorridos no país europeu, que incluíram em alguns casos ações violentas na intenção de afrontar as instituições e provocar mudanças no poder.

Ao mesmo tempo, há adesão a ações de Putin como a cruzada contra direitos LGBTQIA+ e as políticas hostis a movimentos feministas e identitários, vinculados a uma agenda ocidental e progressista. A defesa dessas pautas coaduna bandeiras que ascenderam sob Trump e Bolsonaro.

“Há duas definições para ‘ucranizar’: uma é aquela ideia de jogar o político na lata de lixo [referência à imagem de um deputado do país sendo empurrado em uma caçamba durante manifestação em 2014 contra o sistema político] e outra é a de o povo resistir a um Estado opressor”, diz Fakhoury.

O dirigente do PTB diz que é favorável a levantes, “mas sem armas. Quando o povo não consegue através da democracia representativa ser ouvido, faz protesto, vai pra rua, busca outros meios”.

A deputada federal Carla Zambelli (União Brasil-SP), da tropa de choque de Bolsonaro no Congresso, afirma que “não há constrangimento nenhum” por ver setores da direita com posições díspares da sua, que é a de preservação da soberania da Ucrânia e da solução por vias diplomáticas.

E ressalva: “Quem defende a erosão das soberanias nacionais não é de maneira nenhuma defensor da liberdade e da autonomia dos povos, portanto não pode ser considerado conservador”.

“Se algum direitista eventualmente advogar em favor da morte de democracias ou [em favor] de uma ordem global, tenho certeza de que haverá resistência do campo conservador. Nós somos defensores da autodeterminação dos povos, das soberanias nacionais, da democracia, da liberdade.”

Zambelli afirma ainda que “os projetos representados pelos blocos [envolvidos na guerra] estão todos eles expostos” e cita em tom de apreensão o avanço de uma “agenda global” avessa à soberania de países. “As pessoas começam a observar que estamos diante de uma nova ordem mundial, até então vista com ares de teoria da conspiração, assim como foi o Foro de São Paulo [integrado pelo PT] lá atrás.”

Em outra estocada no presidenciável rival, ela diz que Lula “a todo momento muda de discurso” sobre a ação russa e “é desqualificado do ponto de vista moral e histórico para opinar sobre qualquer questão diplomática”, por suas relações com “regimes ditatoriais sanguinários”.

Já Bolsonaro, na ótica da aliada do presidente, tem adotado comportamento “que combina muito com a história diplomática do Brasil” e “pensa no interesse nacional, diante das diversas dimensões econômicas e sociais desse conflito”.

Fonte: Folha de S. Paulo
https://www1.folha.uol.com.br/poder/2022/03/guerra-na-ucrania-confunde-direita-e-esquerda-no-brasil-em-embates-ideologicos.shtml

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