Facebook não esclareceu como vai lidar com a campanha eleitoral no Brasil

Katie Harbath, ex-diretora de eleições, alerta que a plataforma não está preparada para a hipótese de um cenário violento no Brasil
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Foto: REUTERS/Dado Ruvic/Ilustração/Foto de arquivo
Foto: REUTERS/Dado Ruvic/Ilustração/Foto de arquivo

André Miranda / O Globo

AUSTIN, TEXAS — Durante uma década, a americana Katie Harbath foi a voz do Facebook em eleições mundo afora, com o papel de se relacionar com políticos, tribunais eleitorais e organizações da sociedade civil preocupadas com o papel das redes sociais no debate público. Ela exerceu o cargo de diretora de Políticas Públicas entre 2011 e 2021, justamente um período de polarização e ameaças à democracia, em que a própria empresa foi diversas vezes acusada de ajudar nesse racha ideológico global.

Entre outros momentos marcantes, Katie era a responsável por acompanhar, pelo Facebook, as eleições quando o ex-presidente americano Donald Trump não reconheceu o resultado das urnas e inflou seus apoiadores a fazerem o mesmo.  O ápice da tensão veio em 6 de janeiro de 2021, com a invasão ao prédio do Capitólio, em Washington, deixando cinco pessoas mortas.

Agora, ela alerta que a plataforma não está preparada para a hipótese de um cenário violento no Brasil, já que a capacidade de restringir mensagens que turbinam esse discurso ainda é muito inferior à velocidade com que elas circulam.

A americana viajou a São Paulo, Rio e Brasília há um mês, como diretora de Tecnologia e Democracia do Instituto Republicano Internacional — uma organização fundada em 1983, que já atuou em mais de 100 países e que se apresenta como apartidária, mas que tem fortes laços com integrantes do Partido Republicano. Ela veio no que chama de “missão de avaliação pré-eleitoral”, a fim de compreender os desafios brasileiros para a disputa presidencial de 2022.

De volta aos EUA, ela esteve no South by Southwest, tradicional festival americano realizado em Austin, Texas, famoso por debater inovação em variados campos do conhecimento, das artes à política. Num café da cidade, um dia após apresentar o painel “Futuro da democracia”, em que abordou como as plataformas de tecnologia vão influenciar as próximas eleições no mundo, Harbath conversou com O GLOBO.

Como foi a viagem ao Brasil?

Eu fiz minha estreia no Brasil  em 2014, foi minha primeira eleição no país. Depois, voltei em outras dez ocasiões, sempre pelo Facebook. Desta vez, fui porque o Instituto Republicano Internacional ainda não tinha feito trabalhos no Brasil e me enviou numa missão de avaliação pré-eleitoral. Então nos reunimos com o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e com organizações do setor privado, para tentar entender o que se espera da eleição, principalmente em relação à falta de informação e às informações falsas, e para saber se há algo que podemos fazer para ajudar.

O que você acha que podemos esperar para outubro?

Fiquei impressionada como a situação lembra a dos Estados Unidos, inclusive com a preocupação de violência eleitoral. Não me parece que algo vai acontecer exatamente como foi no Capitólio, porque a confiança do Brasil no sistema de votação, nas urnas eletrônicas, me pareceu muito maior. Mas há muita preocupação sobre como ações violentas podem ser realizadas por milícias. É como se as pessoas estivessem se preparando para todos os cenários, como se qualquer coisa pudesse acontecer. Ainda há muito tempo até outubro, mas é um ponto de atenção.

Katie Harbath

As redes sociais têm responsabilidade pelo que ocorreu no Capitólio?

Elas são uma parte do problema, já que são capazes de organizar e mobilizar as pessoas, para o bem ou para o mal. Essas plataformas também facilitam que uma retórica se espalhe. Eu sei que o Facebook está tentando marcar postagens no Brasil em casos de informações falsas, como eles fizeram nos Estados Unidos. Mas uma pesquisa da FGV (Fundação Getulio Vargas) mostrou que a empresa não está fazendo um trabalho muito bom em encontrar esse conteúdo falso e rotulá-lo. As mensagens falsas continuam sendo publicadas no Brasil.  

Mas o Facebook e outras redes sociais poderiam ter evitado a tragédia do Capitólio ou o ambiente criado pelas próprias plataformas já é irreversível?

Não sei se elas poderiam evitar completamente neste momento em que vivemos. O mundo se tornou um lugar em que as pessoas reagem às redes sociais de uma forma com que aquilo se encaixe com o que elas vivem em suas vidas reais. Já é assim há algum tempo, e não acredito que as companhias podem simplesmente apertar um botão e fazer isso parar. Então, em vez de discutirmos se algum conteúdo deve ser ou não tirado do ar, o que é uma decisão muito difícil de se tomar tendo em vista a liberdade de expressão, nós devemos pensar sobre o desenho dessas plataformas, em como elas podem ser mais seguras no compartilhamento de conteúdo. O Brasil mesmo deveria ser uma prioridade. A grande pergunta é o que o Facebook está fazendo para compreender o contexto brasileiro, o idioma e o processo eleitoral. São detalhes que a empresa ainda não esclareceu.

Um dos desafios para as autoridades brasileiras é como lidar com o Telegram. Essa preocupação se repete em outros países?

O Telegram tem começado a ser mais falado nos Estados Unidos agora depois da guerra na Ucrânia. Há alguns meses, ninguém falava no Telegram aqui, mas sei que é um grande problema para o Brasil. E também um grande desafio. A dificuldade começa no fato de o Telegram ser uma empresa muito pequena e que não responde aos pedidos de esclarecimento das autoridades. Em segundo lugar, acontece com o Telegram o que ocorre com outros serviços de mensagem: é difícil rastrear e entender o que é enviado. As mensagens também podem ser criptografadas, o que torna praticamente impossível acompanhar o conteúdo que é compartilhado.

Como foi seu contato com o Brasil no período em que trabalhou no Facebook?

Eu tinha reuniões com o TSE e conversas com muitos políticos, para ensinar como usar a plataforma e discutir as melhores práticas. Já em 2018, o Facebook se preocupou em mostrar as ações que estávamos implementando para garantir a integridade da votação, já que era a primeira eleição brasileira que permitia a propaganda eleitoral paga nas redes sociais.

O que fazia exatamente uma diretora de Políticas Públicas do Facebook?

Eu montava as equipes que trabalhavam com políticos e governos para ensinar as melhores práticas. A gente ensinava desde que fotos funcionam melhor até como usar bem a ferramenta de vídeos ao vivo. E coordenei o trabalho da empresa focado em eleições. Tínhamos produtos como lembretes para o dia das eleições. Fazíamos parcerias com organizações para ensinar o uso das ferramentas. Eu coordenava as áreas da empresa para que tivéssemos certeza que teríamos uma resposta a qualquer problema que surgisse em questões jurídicas. Minha equipe era responsável por agir em diversas situações relativas às eleições.

Na sua descrição, o motivo parece nobre.

Sim, era uma missão nobre.

Mas, olhando da perspectiva que você tem hoje, você acha que o Facebook faz algo de errado em relação a eleições?

A empresa faz muitas coisas corretamente. Mas eu gostaria que eles prestassem mais atenção ao resto do mundo. Houve tanta mobilização para a eleição americana de 2020, e é claro que era um momento muitíssimo importante. Só que o impacto da plataforma em outras nações, seja ela grande como Brasil ou pequena como as Maldivas ou Fiji, é enorme. A plataforma pode significar muito para a construção da democracia globalmente. Ela poderia direcionar o produto para identificar melhor o discurso de ódio e as informações falsas sobre eleições. Poderia ajudar mais as pessoas não apenas a saber como e quando votar, mas como funciona o processo eleitoral em seu país. E isso precisa ser feito em vários idiomas.

O Facebook deve ter o direito de banir políticos que espalhem informações falsas ou discurso de ódio?

A questão, para mim, é a liberdade de expressão. Em todo o mundo, o discurso político tende a ser mais protegido, em parte pelo risco de censura contra minorias e vozes de oposição. Então não me parece certo que uma empresa privada grande como o Facebook tenha o direito de escolher se um político pode ou não ter voz em sua plataforma. Mas talvez isso não seja mais um grande problema em breve. Nós estamos entrando numa fase de descentralização, com muito mais plataformas disponíveis e relevantes. Então, se uma plataforma considerar que um político está violando suas regras, o político vai poder buscar outra plataforma.

Fonte: O Globo
https://blogs.oglobo.globo.com/sonar-a-escuta-das-redes/post/facebook-nao-esclareceu-como-vai-lidar-com-campanha-eleitoral-no-brasil-diz-ex-diretora-de-eleicoes-da-plataforma.html

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