Demétrio Magnoli: As Oprahs e o marketing de Deus

João Teixeira de Faria, o João que usa o nome de Deus em vão, ganhou fama mundial em 2012, graças a uma reportagem da apresentadora americana Oprah Winfrey. Antes e, sobretudo, depois dela, inúmeras celebridades periféricas conferiram a credibilidade indispensável à expansão dos negócios do charlatão.
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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

João Teixeira de Faria, o João que usa o nome de Deus em vão, ganhou fama mundial em 2012, graças a uma reportagem da apresentadora americana Oprah Winfrey. Antes e, sobretudo, depois dela, inúmeras celebridades periféricas conferiram a credibilidade indispensável à expansão dos negócios do charlatão. A história subterrânea do médium, tal como exposta por centenas de acusações de ataques sexuais, ainda precisa de comprovação judicial. Mas todos sabiam sobre sua história pública de prática ilegal da medicina. A Oprah mais badalada e o resto do séquito de celebridades não se envergonham do papel que desempenharam na ascensão do João charlatão?

Todas pediram desculpas — mas, invariavelmente, pelo motivo errado. Oprah, a original, divulgou sua “empatia pelas mulheres que estão se apresentando agora”. Bruna Lombardi imagina que “todos perdemos um pouco”, e Camila Pitanga declarou sua “solidariedade” às mulheres agredidas. Xuxa Meneghel declarou-se “até um pouco envergonhada”, Maria Cândida disse ter ficado “horrorizada” e Ana Furtado, “decepcionada”. Elas, porém, não tinham como saber sobre a história oculta de assédios sexuais. Por outro lado, sabiam perfeitamente que a “figura muito especial com dom divino e abençoado” (Ana Furtado) praticava cortes e perfurações sem cuidado algum de esterilização. Sobre isso, os crimes indiscutíveis, nenhuma abriu o bico.

Celebridades têm o costume de declarar apoio a candidatos. Imaginam, erroneamente, que suas opiniões políticas exercem influência sobre seus fãs, uma ilusão de óbvios efeitos balsâmicos. Já o hábito de compartilhar fotos com feiticeiros, bruxos e assemelhados nada tem de inofensivo. As pessoas comuns não ligam a mínima para o “pensamento político” dos famosos, mas tendem a acreditar que dinheiro farto e vastas relações sociais informam apropriadamente as escolhas na vida pessoal. Quando Oprah, Xuxa, Pitanga, Furtado, Lombardi e Cândida curvam-se diante de um curandeiro, estão produzindo massas de clientes para práticas de disseminação de infecções. Sobre isso, nenhuma delas está “um pouco envergonhada”?

E se, por milagre (milagre é com ele!), o tal João jamais tiver atacado alguma mulher? Nessa hipótese improvável, o “divino e abençoado” curandeiro ainda terá provocado incontáveis transmissões dos vírus de hepatite, HIV e outras doenças nas suas sessões ilegais de cortes superficiais com instrumentos inadequados. As Oprahs podem alegar, com razão, que a fiscalização de tais práticas compete à Anvisa, cuja conivência com os crimes do curandeiro mereceria maior atenção policial. Não têm, porém, o direito moral de invocar a santa ignorância ou a cegueira da fé. Como tudo mais, a fama, a exposição pública são via de dupla mão. Numa, vem a ascensão profissional, a grana, a boa vida. Na outra, deveria vir um mínimo de responsabilidade social.

João (que não é de Deus, mas sabe o que faz) tratou-se de câncer com o cirurgião Raul Cutait e sua equipe, no Hospital SírioLibanês, em São Paulo. Nas dez horas da operação de extração do tumor, em agosto de 2015, todos os instrumentos sofreram esterilização.

“Assepsia para mim; infecções para os outros” — eis o seu dístico implícito. A dupla moral do curandeiro não precisava da prova das agressões sexuais. Mas suas conexões sobrenaturais, propagandeadas pelos famosos, protegeram-no do escrutínio público. A Oprah e as outras Oprahs funcionaram como engrenagens do negócio do charlatanismo.

A fé explica bem menos que o cálculo. Desde que apareceu no show da Oprah, João de Faria foi elevado ao estatuto de celebridade mundial. Uma implicação disso é que, no marketing dos famosos, o fluxo de valor sofreu parcial reversão. A foto com o curandeiro, um intercâmbio comercial simbólico, agrega à celebridade periférica valor até maior que ao próprio médium. João que se quer de Deus ganha carne para cortar quando tira fotos com celebridades. Na ponta oposta, as celebridades ganham publicidade qualificada quando se fotografam ao lado de um mensageiro de Deus.

E tome faca, sangue, hepatite e HIV.

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