Bernardo Mello Franco: O poeta e o golpe – Drummond em 1964

Em 1º de abril de 1964, Carlos Drummond de Andrade saiu de casa para conferir a agitação no Forte de Copacabana. Ele caminhou até a praia com o amigo Carlos Heitor Cony. Os dois queriam ver com os próprios olhos se o golpe estava mesmo na rua. “Há poucas dúvidas sobre a derrota de Jango”, constatou o poeta, que havia passado a madrugada colado a um rádio transistor.
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Foto: Arquivo/O Globo
Foto: Arquivo/O Globo

Em 1º de abril de 1964, Carlos Drummond de Andrade saiu de casa para conferir a agitação no Forte de Copacabana. Ele caminhou até a praia com o amigo Carlos Heitor Cony. Os dois queriam ver com os próprios olhos se o golpe estava mesmo na rua. “Há poucas dúvidas sobre a derrota de Jango”, constatou o poeta, que havia passado a madrugada colado a um rádio transistor.

Em seu diário, Drummond registrou a festa da classe média com a derrubada do presidente que prometia reforma agrária. Ele não comemorou o golpe, mas também não parecia contrariado:

“Eu voltava para casa quando se ouviram estampidos, houve um corre-corre, e eis que da janela dos edifícios gente sacode lenços, panos de prato, até lençóis, enquanto outra chuva, esta de papel picado, cai sobre o asfalto. O rádio espalhara a notícia, transmitida por Lacerda: Jango deu o fora. Volto à praia. Gente cantando o hino nacional, xingando Brizola em slogan improvisado. Sensação geral de alívio”.

Doze dias depois, o poeta começava a entender que o país estava mergulhando em uma nova ditadura. “Baixado o Ato Institucional, que atenta rudemente contra o sistema democrático. O Congresso, já tão inexpressivo, passa a ser uma pobre coisa tutelada. Vamos ver o que será das liberdades públicas”, escreveu.

Em junho, Drummond seria convocado a depor em inquérito administrativo da rádio MEC, ocupada pelos golpistas que se diziam “revolucionários”. Queriam que testemunhasse contra a ex-diretora, acusada de “atividades subversivas”. “Os inquéritos desse tipo traduzem mais o espírito de vingança do que o de justiça”, anotou.

Um mês antes, o poeta assistiu à prisão arbitrária de um livreiro na Rua do Ouvidor. Ele relatou o episódio com indignação: “Incrível. Prisão de Carlos Ribeiro, o ‘bom mercador de livros’, amigo de todos, sob suspeita de quê? De tramar a derrubada do marechal Castelo Branco?”.

Nos primeiros anos da ditadura, Drummond reduziu as notas sobre política. Em dezembro de 1968, no dia seguinte ao AI-5, ele escreveu que se sentia de volta à infância, quando viu o marechal Hermes da Fonseca suspender as liberdades civis.

“Quase sessenta anos depois, o governo de outro marechal (e na minha velhice) golpeia a Constituição que ele mesmo mandou fazer e suprime, por um ‘ato institucional’, todos os direitos e garantias individuais e sociais. Recomeçam as prisões, a suspensão de jornais, a censura à imprensa. Assisto com tristeza à repetição do fenômeno político crônico da vida pública brasileira”, anotou, antes de fazer um desabafo: “Renuncio à esperança de ver o meu país funcionando sob um regime de legalidade e tolerância. Feliz Natal…”.

Três dias depois, ele registrou a perseguição ao jovem compositor Chico Buarque, detido pela polícia política e “submetido a interrogatório grosseiro”. “Não há clima para festa”, resumiu.

“O observador no escritório” é um testemunho histórico, mas alguns de seus trechos ainda soam bem atuais. “Que país! Que tristeza!”, escreveu o poeta, em setembro de 1969.

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Hora de sair de férias. Feliz Ano Novo e até a volta.

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