Astrojildo Pereira e os centenários da Semana de Arte Moderna e do PCB

Obras de Astrojildo Pereira serão lançadas pela Editora Boitempo, com apoio da Fundação Astrojildo Pereira (FAP)
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Foto: Reprodução
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Martin Cezar Feijó / Revista Política Democrática online 

Finalmente, as obras do Astrojildo Pereira serão lançadas neste ano de 2022 pela Editora Boitempo, com apoio da Fundação Astrojildo Pereira. A iniciativa tem tudo a ver principalmente com dois centenários: o da Semana de Arte Moderna e o da fundação do PCB, na ordem cronológica.

Mas o que um evento tem a ver com o outro? Foram contemporâneos, mas quem participou de um nada soube do desenrolar do outro, embora ambos se revelariam históricos. 

Um, na cidade de São Paulo; o outro, em Niterói, Rio de Janeiro.  O único ponto em comum no momento dos acontecimentos, além da proximidade cronológica – fevereiro e março de 1922 -, é que foram obras de grupos pequenos e ousados: 

– o de São Paulo, nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro, nas dependências do Teatro Municipal, com o apoio de setores dominantes na sociedade paulista, com pequena publicidade através de anúncios e repercussão mesmo que discreta na imprensa local;  

– o de Niterói, no dia 25 de março, foi praticamente secreto, clandestino, entre participantes operários e intelectuais de várias partes do país: Os nove de 22, como tão belamente descritos no livro de Ivan Alves Filho (Brasília, Fundação Astrojildo Pereira, 2021), que teve em Astrojildo Pereira (1890-1965) figura relevante. 

Meu envolvimento com o tema, mais exatamente com Astrojildo Pereira, objeto de pesquisa por vários anos, gerando até um doutorado em Ciências da Comunicação (ECA-USP) e um livro, O Revolucionário Cordial, começou com um texto que li em uma revista quando ainda cursava minha graduação no Departamento de  História na FFLCH-USP: “Temas de Ciências Humanas (São Paulo, Livraria Editora Ciências Humanas, 1978, v.4, p. 41-67), intitulado “Tarefas da inteligência brasileira”, de autoria de Astrojildo Pereira.  

Astrojildo Pereira (1890-1965). Embora nascido em uma pequena cidade serrana do Estado do Rio de Janeiro, Rio Bonito, passou praticamente sua vida adulta na cidade do Rio de Janeiro, onde atuou como militante anarquista nos anos 1910, como um dos principais fundadores do PCB em 1922, e intelectual participante a partir dos anos 1930. Autor de obras fundamentais do período de 1935 a 1965, foi preso quando do golpe militar de 1964, “sob acusação” de ter fundado um partido comunista em 1922. Quando saiu da prisão, afirmou: “Agora prendem fontes históricas!”.  

Morreu aos 74 anos, depois de um movimento intelectual e político por sua libertação, que envolveu até a Academia Brasileira de Letras (ABL), que lhe tinha apreço por sua dedicação durante a vida toda à obra de Machado de Assis, desde a adolescência, quando o visitou na noite que antecedeu sua morte, o que deu origem a uma crônica célebre de Euclides da Cunha: “A Última Visita”, mas cuja identidade do “anônimo juvenil” só seria revelada em 1936, em biografia original de Machado de Assis, escrita por Lúcia Miguel Pereira.  

Quanto à relação entre a Semana de Arte Moderna e a Fundação do PCB, opto por me utilizar de extrato de texto do próprio Astrojildo Pereira, publicado em seu ensaio citado, “Tarefas da Inteligência Brasileira”, e incluído no livro Interpretações (1944), agora finalmente disponível em nova edição em 2022 pela Boitempo, onde finalmente acontecimentos ocorridos há cem anos parecem se encontrar. 

Não sem antes registrar um episódio pouco conhecido, sobre sua relação com poetas modernistas, em particular o poeta Manuel Bandeira, que lhe homenageou em um pequeno livro em sua primeira edição de 1948: Mafuá do Malungo, edição artesanal feita com tiragem de apenas 110 exemplares, numerados na gráfica pessoal de João Cabral de Mello Neto, em Barcelona: 

Bananeiras – Astojildo esbofa-se – 

Plantaia-a às centenas, às mil: 

Musa paradisíaca, a única 

Que dá dinheiro neste Brasil 

Só que essa raridade não consta da edição comercial do livro, publicado em primeira edição pela Livraria São José (1954). É que, entre a publicação da edição artesanal e a publicação do livro, ocorreu um evento fruto da Guerra-Fria que dividiu intelectuais liberais e comunistas em torno das eleições da ABDE (Associação Brasileira de Escritores), na qual Astrojildo se viu envolvido por causa do sectarismo reinante. Mas, mesmo assim, Astrojildo já havia reconhecido algo em comum entre os revolucionários da fundação do PCB e os modernistas a partir de São Paulo, como registraram no texto citado sobre as tarefas mais importantes da inteligência brasileira em torno do ano  1922, agora celebrado em seus centenários: 

“Evoco esses acontecimentos para situar no tempo a Semana de Arte Moderna, que também aconteceu no ano de 1922. Repare-se na importância desta data, que pode muito bem servir para assinalar um divisor de águas em nossa história: foi o ano do primeiro centenário da independência nacional, em cuja comemoração se precedeu um verdadeiro balanço na vida econômica do país; foi o ano em que se deu organização definitiva ao primeiro partido nacional do proletariado brasileiro; foi o ano do primeiro 5 de julho; foi enfim o ano da Semana de Arte Moderna. De toda a evidência, essas coisas não aconteceram simultaneamente por mero acaso: há entre eles um nexo qualquer, determinado por uma série de condições e fatores comuns. E é encarando as coisas assim que podemos ver a Semana de Arte Moderna  como algo de muito semelhante a um 5 de julho artístico e literário, ou seja, como a expressão inicial  – informe e contraditória, mas já com um alcance decisivo – da revolução intelectual  que ia imprimir novo impulso e traçar novos rumos ao desenvolvimento ulterior da inteligência brasileira, acompanhando, passo a passo, em seus movimentos de ação e reação, todo o processo de reajustamento do país às novas condições históricas legadas pela primeira guerra mundial. Seria de todo em todo absurdo enquadrar dentro de qualquer esquema fechado e rígido as manifestações flutuantes da inteligência; mas, feita esta ressalva e vistas as coisas com um senso menos superficial e menos imediato, não será difícil verificar que o melhor de nossa atividade mental (…)  leva a marca de 1922.” 

E, por que não complementar: não só dos últimos 100 anos, mas também nos próximos? 

*Martin Cezar Feijó é doutor em comunicação pela USP e professor de comunicação comparada na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). É autor, entre outros, de O que é política cultural (1983), Formação política de Astrojildo Pereira (1985) e 1932: a guerra civil paulista (1998, este em parceria com Noé Gertel).Historiador e professor titular-doutor na Facom da Faap (Fundação Armando Álvares Penteado).

** Artigo produzido para publicação na Revista Política Democrática Online de fevereiro/2022 (40ª edição), produzida e editada pela Fundação Astrojildo Pereira (FAP), sediada em Brasília e vinculada ao Cidadania.

*** As ideias e opiniões expressas nos artigos publicados na Revista Política Democrática Online são de exclusiva responsabilidade dos autores, não refletindo, necessariamente, as opiniões da Revista.


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